António Franco Alexandre


não consegues ouvir o que aqui ouves
é uma coisa sem princípio ou fim
são meios de metades intervalos
desisto, desisti, já não começo

essa maneira de troçar os dedos.
estás torcido na terra, tens um ombro
desigual, ou uma face entorpecida
pelo certeiro avanço do inverno

na fenda das palavras soletradas.
estás no vento veneno soterrado,
não sabes que respiras. esqueceste

uma razão qualquer, a assinatura
que fica nos recados, nos retratos.
não consegues ouvir ouves somente


em Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 180.

Uma imagem para o dia



(...)


Relatórios de conteúdos leccionados, relatórios de apoio individualizado, relatórios de apoio geral, grelhas de avaliação, mais o papel para isto e mais o papel para aquilo. Justificação atrás de justificação. Às vezes apetece-me ser Astérix nos seus Trabalhos. Algo como: "então para o relatório tal não é preciso preencher o anexo y e o requerimento x?". Caos, depois a anarquia (relido ontem).

Bartleby



17 | 18 | 19
Dezembro
Teatro Municipal da Guarda
21h30m
Encenação de Américo Rodrigues
Adaptação de Pedro Dias de Almeida


Livros (108)




Foi o meu primeiro livro. Fizeram-se 500 exemplares. Foi em 2002. Só publiquei o segundo em 2008. Não me arrependo de o ter publicado. Tem lá um poema do qual gosto muito e que sei de memória: «E o vento que vem/será teu.».

(...)


Ontem, ao encontrar um amigo numa pastelaria, este diz-me que acaba de comprar o meu primeiro livro. Adquiriu o mesmo online. Fiquei também a saber que o livro foi vendido por alguém que eu conheço e que me conhece, possivelmente um colega da ESE, ou de "profissão". A sensação não foi boa.  

Discos pedidos (191)




Leads you here despite your destination
Under the Milky Way tonight

The Curch


A noite estava à tua frente. Faróis atrás de faróis. E lembras de sintonizar a rádio e ouves aquilo que já não ouvias há muito tempo. Não sabes onde, nem quando. Mas houve, de certeza, uma primeira vez para essa música, que de repente ocupou a faixa mais à direita na auto-estrada. Todos os outros carros são indiferentes ao teu bater de mãos sobre o volante, indiferentes à tua tentativa de cantar. 

Ensino Recorrente



Reverso (14)



Graças a um perfume (se não me falha a memória: Noa), a música em questão, na versão dos This Mortal Coil, ficou a ser conhecida por toda uma geração. Poucos sabiam (e eu neles me incluía) que a versão original pertencia a Tim Buckley, músico que estava um pouco fora do seu tempo. A versão dos This Mortal Coil faz bom uso da voz de Fraser, que se notabilizou como vocalista dos Cocteau Twins, naquele seu tom tão característico. Aposto que Buckley aprovaria a versão em questão. 

(...)


Ontem, enquanto passeava pela rua, ouvi alguém que falava ao telefone — ele não te merece, Rita… tu és uma rapariga gira, linda… não sei se tens personalidade... não te conheço bem... mas sei que és uma rapariga gira, linda... e ele não te merece — e neste preciso momento parei, como que à espera de uma repetição, para ter a certeza que não tinha ouvido mal.

Incipit - Manuel de Freitas



Manuel de Freitas
Incipit
Averno
2015

Livros (107)



Tendo em conta que foi o primeiro livro que comprei do autor, é natural que aqui fale dele. Cheguei à poesia de Manuel de Freitas através da polémica originada pelo livro Poetas Sem Qualidades. Aqueles que procuraram satanizar a referida antologia, saiu-lhes o tiro pela culatra. A crítica que mais ouço à poesia de Manuel de Freitas é aquela que envolve, na mesma frase, as palavras "charros", "cerveja" e "tascas". Ora, quanto a mim, ler a poesia de Freitas e pensar que ela só fala de tascas, cerveja e charros, é optar por um atalho fácil e que só revela, quanto a mim, a superficialidade da leitura feita. As tascas, vendo bem, são apenas lugares de morte. Arriscaria dizer que são não-lugares (Marc Augé). E isso faz toda a diferença.

Pensamento do dia



The XX
Together
The Great Gatsby Soundtrack
2013

Uma imagem para o dia



Discos pedidos (190)



Bring on the night

The XX

Noite. A um canto a roupa. A janela aberta. Os sons da cidade. Lá fora ninguém atravessa a rua: silêncio. Olhas o tecto. Mais branco agora, nesta penumbra. Tens a mão sobre o peito. Tentas não pensar. Às vezes desejas que também te pare de repente o pensamento. Ou então prolongar este momento em que alguma paz te invade. A noite, por momentos, suspensa.

Ensino Recorrente



(...)


Há muito que o blogue se arrasta. E quando digo arrasta: é arrasta. E eu com ele. No final deste mês faz dez anos e desde Dezembro de 2005 que é mantido. São 10 anos e alguns anónimos pelo meio, seres que começaram a deixar de comentar a partir do momento em que a "moderação de comentários" foi activada. Não gostam de ser moderados, os anónimos. Mas, como dizia, o blogue há muito que se arrasta. Nunca por aqui existiram "polémicas", embora tenha participado em algumas, noutros lados. Ganhei alguma coisa com isso? Sim: uma espera numa rua de Lisboa. A pessoa estava ofendida com as palavras por mim escritas num comentárioE, passados 2 (dois) anos, queria satisfações. Conversámos. Não sei se ficou satisfeito.

Pensamento do dia



Fields of the Nephilim
Wail of Sumer / And there will your heart be also
Elizium
1990

Uma imagem para o dia



(...)


O teu sobretudo já viu melhores dias. Tem sido um fiel companheiro. Acompanha-te há anos através do nevoeiro. Durante algum tempo esteve remetido ao guarda-fatos. Mas nunca te abandonou, resistindo às traças, ao esquecimento. E quando por fim o resgataste, ele abraçou-te como sempre o fez, agasalhando-te contra a ramela dos dias e as camelices. 

Pensamento do dia



Grant Lee Buffalo
Demon Called Deception
Mighty Joe Moon
1994

Ensino Recorrente



Livros (106)



Conclusão: precisamos de cinismo. À grega. Isto é: kinismo. Resumindo: mais Diógenes e menos Foucault. Sinceramente, a leitura deste livro foi-me penosa, quer pelo esforço que foi necessário para o terminar (são mais de quinhentas páginas), quer pela crítica que faz à modernidade e ao cinismo moderno (durante muito tempo julguei-me seu devedor, quando afinal era seu escravo). O livro provocou em mim uma mudança (e não é isso bom? a ver vamos): passei a ser praticante do kinismo. Nem sempre é fácil. E as pessoas talvez não reajam muito bem, pois começam a olhar para nós de lado. A saber: «O núcleo do kinismo é uma filosofia crítica e irónica das pretensas necessidades, uma radiografia da sua desmesurada e do seu absurdo de princípio.» (p. 255). E é isto.

Discos pedidos (189)




The good life is out there somewhere

The Smiths

Foi a primeira cassete de The Smiths que gravei e foi também o primeiro cd de Smiths que comprei. Lembro-me que era Inverno e a chuva molhava os parvos. E eu caminhava pela rua com o cd debaixo do braço e dentro do casaco para não se molhar. Tinha ouvido falar do grupo num dos corredores do Liceu e descobri que o Marcos, o irmão do Bernardo, tinha vários álbuns deles. Trouxe o cd, pois os outros eram em vinil. Ao chegar a casa fui buscar uma toalha para enxugar a cabeça e a farta cabeleira que então tinha. E quando ouço a guitarra de Marr e a voz de Morrissey, algo em mim mudou. Ainda hoje não sei aquilo que mudou. Mas algo mudou.

(...)


Ontem o Vasco fez anos. Ele nunca se esqueceu, até hoje, do meu aniversário. Eu nunca me lembro do seu. Sou assim com os meus amigos. São poucos aqueles que recebem ou mensagem ou telefonema meu nesse dia. São poucos. A verdade é que alguns deles se habituaram já a este meu esquecimento, a esta minha distância, afastamento. Alguns ainda hoje me censuram a falta de memória e me dizem — nunca telefonas, pá, nunca dás notícias, pá, és sempre a mesma coisa, pá — e eu sorrio envergonhado e baixo os olhos. A verdade é a verdade. E por mais simples que possa ser, não deixa de ser terrível. No entanto, ainda não perdi nenhum amigo devido a estas minhas falhas. Dizem que aos amigos tudo se perdoa. Dizem que os verdadeiros amigos não ligam a essas coisas. Tenho sorte em ter desses amigos.

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DIÓGENES 2014




O Prémio Nacional de Poesia Diógenes, 
atribuído pela revista Cão Celeste 
e com o valor pecuniário de €1500, 
distinguiu, de entre os livros publicados em 2014, 
Talvez Seja Essa Certeza, de António Amaral Tavares 
(Coimbra, Medula).

      A decisão do júri - constituído por 
Ana Isabel Soares, Emanuel Jorge Botelho 
e Rui Caeiro - foi tomada por unanimidade.