Reverso (13)



Este é um daqueles casos em que a ouvi primeiro a versão e só muito depois cheguei à original. Para além de estarmos na presença de uma grande, grande música, estamos perante uma grande, grande versão. Se em Simone há melancolia e tristeza, em Bowie há tudo isso combinado com uma espécie de desespero, um grito mudo que se ouve no tão característico falsete de Bowie.


Adenda (01-12-2015): fui informado que estou enganado. Afinal a versão de Nina Simone é mesmo uma versão. Fica aqui o reparo e o agradecimento ao Fernando Machado Silva.

Um poema de Guilherme de Almeida


Infância

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se «Agora».


em Poesia Brasileira do Século XX - Dos Modernistas à Actualidade, selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 2002,  p. 31.

Livros (105)



Não sendo eu um leitor muito permeável à actual poesia brasileira, considerando até que esta é demasiado sobrevalorizada deste lado do oceano, não posso deixar de aqui registar esta antologia, que muitos e bons nomes me deu a conhecer. Se por outros caminhos eu conhecia já a poesia de Drummond, Cabral, Bandeira, Barros, Leminski e Piva, esta antologia foi o atalho para a poesia de Max Martins, Ivan Junqueira, Augusto Massi, Raul Bopp e Cassiano Ricardo. Não sei se será representativa da poesia brasileira do século XX (o nome de Piva, por exemplo, está ausente). Mas penso que é uma boa iniciação. 

Pensamento do dia



Sophia de Mello Breyner Andresen
de João César Monteiro
1969

Sophia de Mello Breyner Andresen


O Homem Muito Rico não tinha mulher, nem filhos, nem amigos. Só tinha criados.

em A Fada Oriana, ilustrações de Teresa Calem, Porto: Porto Editora, 38ª edição, 2014, p. 21.

Uma imagem para o dia



(...)


Ontem foi dia de terminar a leitura orientada de A Fada Oriana. Ler Sophia é sempre sucesso garantido. Ela tem essa capacidade. E nos últimos vinte minutos da aula (depois da leitura e de breves questões de interpretação oral) arrisquei o documentário Sophia de Mello Breyner Andresen, de João César Monteiro. Os alunos (estou-vos a falar de uma turma do 5º ano) permaneceu em silêncio, os olhos fixos na tela. No final perguntei — quem é a Fada Oriana — e sem hesitarem todos responderam — é Sophia.

Discos pedidos (188)



But can you still walk back to happiness
When you've nowhere left to run?

The The


Várias foram as vezes que cheguei a casa e cumpri aquilo que era pedido: Turn down the lights. Turn the volume up. E na penumbra do quarto repousava o corpo, depois de mais um dia de camelices, de mundo. Nunca tentei regressar à felicidade, porque nunca acreditei em regressos a coisa nenhuma. Como regressar àquilo que foi? Não existem regressos, tal como não existem recomeços. Disso me dei conta cedo. Ainda hoje penso na penumbra daquele quarto, no meu corpo sobre a cama. Ainda hoje recordo. É o que me resta.

Livros (104)




Livro que li com bastante agrado. Byung-Chul Han escreve de maneira a que o comum dos mortais o entenda. Alguns dos seus pontos, das suas teorias/propostas, fazem lembrar, em certa medida, aquelas preconizadas por Gilles Lipovetsky no seu livro A Era do Vazio. Retive, com agrado, que o chamado multitasking não representa nenhum progresso civilizacional. Muito pelo contrário: ele aproxima-nos mais dos animais selvagens. 

(...)


Pensas em tudo aquilo que aqui te trouxe, a este momento na tua história. Pensas nos dias e nos anos que para trás ficaram. Os rostos, as conversas. Pensas que foi há muito e que esse há muito tempo te obriga hoje a pensares-te. E rapidamente concluis que, talvez, não valha a pena. O passado já lá vai e lá está. No passado. Porque nele remexer? Mas não tens outra alternativa. Chegaste aqui. E o aqui e o agora obrigam-te a pensar o passado, pois não há quem consiga viver sem ele. E rapidamente concluis que podes pensar no passado mas que não deves viver no passado. Desta vez não há um talvez a interromper o pensamento. E todo este discurso é muito Paulo Coelho. E desistes.

Hábitos de Leitura


A convite da Dona Redonda (só hoje vi que era um bloguista da lista) aqui vão os meus Hábitos de Leitura:

1 – Tens um lugar específico na casa para ler?
Sofá. Lado direito. Sob o candeeiro.

2 – Marcador ou Pedaço de Papel?
Pedaço de papel.

3 – Consegues parar simplesmente de ler ou tem de ser sempre no final de um capítulo ou a um certo número de páginas?
Final de capítulo.

4 – Comes ou bebes enquanto lês?
Bebo chá preto com leite. Às vezes.

5 – Música ou TV enquanto lês?
Nem uma nem outra. Silêncio em casa. Ruído no prédio.

6 – Um livro de cada vez ou vários ao mesmo tempo?
Um de cada vez.

7 – Ler em casa ou em qualquer lugar?
Qualquer lugar.

8 – Ler em voz alta ou silenciosamente?
Silenciosamente o romance e a filosofia. Em voz alta, às vezes, a poesia.

9 – Lês para a frente e/ou pulas páginas?
Nem uma nem outra.

10 – Quebrar a lombada ou mantê-la como nova?
Depende, mas normalmente ficam quebradas.

11 – Escreves ou fazes anotações nos livros?
Anoto os de filosofia, os ensaios. Sublinho-os, também.

12 – Quem tagueias?
Ninguém. 

Livros (103)




São muitos aqueles que citam e plagiam George Orwell. Poucos aqueles que realmente o leram. Eu, por exemplo, ainda não li todos os seus livros; mas posso dizer que li alguns. Shooting an Elephant recolhe alguns textos dispersos e outros tantos ensaios, onde as opiniões fortes de Orwell ficam a ser conhecidas. Poucos são os autores que reúnem consenso. Orwell está longe de ser consensual, principalmente quando se refere a Gandhi: «Saints should always be judged guilty until they are proved innocent, but the tests that have to be applied to them are not, of course, the same in all cases. In Gandhi’s case the questions one feels inclined to ask are: to what extend was Gandhi moved by vanity – by the consciouness of himself as a humble, naked old man, sitting on a praying-mat and shaking empires by sheer spirutual power – and to what extend did he compromise his own principles by entering into politics, which of their nature are inseparable from coercion and fraud?» (p. 347).

Versões: Matt Johnson


A Geração à Rasca

Quando lanças os olhos sobre o horizonte
desta outrora orgulhosa nação
consegues sentir o medo e o ódio
a crescer no interior da população
E os jovens, oh os jovens, a serem seduzidos
por políticos gananciosos e meias-verdades

A geração à rasca, a geração à rasca
Alimentada a preconceito e desinformação
A geração à rasca, a geração à rasca
Abre os olhos, abre a tua imaginação

Somos adormecidos pelo fumo dos escapes
e hipnotizados por satélites
que nos dizem o que é bom e verdadeiro
E podes orar nos templos da cobiça
ou até estar preso à religião
Mas conseguirás regressar à felicidade
quando não houver lugar para onde fugir?

A geração à rasca, a geração à rasca
Alimentada a preconceito e desinformação
A geração à rasca, a geração à rasca
Abre os olhos, abre a tua imaginação

E se eles enviarem a polícia de choque
para nos livrar da paz e impedir a liberdade
Então nas suas línguas apodrecerão as palavras
quando disserem que está a ser feita justiça
e que a liberdade só é possível através das armas

A geração à rasca, a geração à rasca
Alimentada a preconceito e desinformação
A geração à rasca, a geração à rasca
Abre os olhos, abre a tua imaginação


Matt Jonhson, «The Beat(en) Generation», The The, Mind Bomb, Some Bizarre/Epic, 1989.
(versão muito livre)

Livros (102)



Durante muito tempo foi o poeta que mais li. Cheguei mesmo a escrever-lhe uma carta e com a carta alguns poemas. Respondeu-me, passado pouco tempo, agradecendo a carta. E nada disse sobre os versos. Nunca lhe levei a mal. Não fiquei ressentido. Foi melhor assim. Branco no Branco foi o primeiro livro que lhe li. Seguiram-se, depois, outros. Por vezes ainda a ele regresso. Apesar de me ter afastado da sua poética, alguma coisa dela me ficou: a penumbra, a economia nas palavras. Sei que não deveria dizer isto, mas é a verdade. 

Uma imagem para o dia



(...)


A previsão é descida de temperatura para Portugal Continental, menos uma hora nos Açores. Mas ontem, durante o voo nocturno que me trouxe até aqui, foi o nevoeiro que reinou, sob um céu que, a espaços, se via estrelado. O nevoeiro sempre me foi familiar. Só que agora a sua humidade entra-me nos ossos. E eles rangem como se tivessem dentes.

Discos pedidos (187)




and I will love to see that day

Beirut


O pior que pode acontecer a alguém é a sua vida converter-se numa série de lugares-comuns, clichés. O meu lugar-comum preferido são as minhas pernas, à força de pedalar pelas estradas dessa Itália de Bertolluci na sua Beleza Roubada, exaustas à sombra das árvores enquanto bebo vinho tinto.

Livros (101)




A vida é sofrimento. Em Perturbação esse sofrimento está presente em todas as personagens. Em alguns casos, é físico; mas, em todos eles, também o é psicológico. Bernhard descreve homens e mulheres incapazes, débeis, derrotados, conformados com a sua existência. A derrota é uma constante. Por muito que o Homem faça, ele será sempre um ser sujeito à angústia, doença, estupidez, Morte. O Homem é – no seu âmago – um ser absurdo.

(...)


Cada vez vejo menos televisão. Apenas o telejornal (RTP2). No entanto, não passo a quarta-feira sem ver o documentário A Arte Eléctrica em Portugal, que tem passado na RTP1. É um documentário composto de seis episódios. Penso que ontem passou o quarto. Para mim tem sido uma satisfação ver e ouvir as histórias e as estórias que ali se contam. Já se ouviram os depoimentos de Victor Gomes (Gatos Negros), Pedro Castro (Petrus Castrus), Manuel Cardoso (Tantra), Rui Pregal da Cunha e Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar), António Manuel Ribeiro (UHF), Zé Pedro (Xutos & Pontapés), Rui Reininho (GNR), António Pinho (produtor), entre outros. Um regalo para os meus ouvidos.

Livros (100)



Ser professor contratado há mais de 14 anos tem várias desvantagens. Mas, também tem algumas vantagens. Entre as vantagens destaco os quilómetros que fiz pelo país, as terras onde tive oportunidade de trabalhar e viver. Os amigos que fiz. De todas essas terras, Silves foi aquela que mais saudades me deixou. E não foi pelo facto de nela ter vivido o rei-guerreiro-poeta, que nasceu um pouco mais a norte mas ainda a Sul: Beja. Os seus poemas chegaram-me pela mão amiga do António Baeta e do Manuel Ramos. A história não é nova. E nesse mesmo instante fiquei apaixonado pela poética de Al-Mu'tamid. O poema Evocação a Silves é uma declaração de amor àquela localidade. Não sou saudosista. Mas, ao lembrar os poemas do rei-guerreiro-poeta, apetece-me repousar nas margens do Arade e ouvir o rumor das águas.

Medula


Apesar de muitos não concordarem, ou expressarem a sua dúvida, a Medula assume-se, por inteiro, como um projecto editorial independente sem fins lucrativos. Assim, todo o dinheiro resultante da venda dos seus livros será usado para financiar futuras publicações. Continuaremos com as tiragens únicas de 100 exemplares, pois não há dinheiro para mais. Se o dinheiro existisse, não duvidem que faríamos tiragens superiores a 100 exemplares. Mas como não somos uma vanity press (não cobramos dinheiro aos nossos autores), tudo continuará na mesma.

Até ao momento os nossos livros encontram-se em livrarias e não em sucedâneos. A saber: Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho (Coimbra), Livraria Letra Livre (Lisboa), Livraria Poetria (Porto), Paralelo W (Lisboa), Snob (Guimarães), Sr. Teste (Lisboa). Nelas poderão adquirir os nossos livros; mas também através da morada de correio electrónico: medulalivros@gmail.com


Até agora publicámos 8 títulos, quatro dos quais se encontram esgotados no editor (com sorte ainda poderão encontrar alguns nas referidas livrarias). Podem consultar o catálogo no blogue da Medula (medulalivros.blogspot.pt).

Um poema de Sebastião Alba


Estar comigo
é o meu nativo
modo de estar

Desertam as sombras
Entre os objectos
e o chão límpido
sua ausência é
a ficção do dia.


em A Noite Dividida, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 113.

Reverso (12)




Não sendo eu um fã incondicional dos norte-americanos Pavement, foi com agrado que ouvi a sua versão de The Killing Moon, dos Echo and the Bunnymen (destes sim: sou um fã incondicional). Os Pavement "desaceleraram" o original, povoando-o com guitarras sobre guitarras, fazendo esquecer a orquestração do original (que percorre todo o álbum Ocean Rain). A voz de Stephen Malkmus faz esquecer a de Ian McCulloch. Mas são as guitarras, as guitarras senhores e senhoras!, que fazem toda a diferença.

Discos pedidos (186)




O céu cinzento anuncia chuva, mas talvez mais tarde. Há um ano andava na estrada a caminho de Pardilhó. Cumpria dezasseis horas lectivas semanais. O tempo era idêntico ao de hoje. Talvez, apenas, um pouco mais frio. Dizem que vem aí o Verão de São Martinho. Dizem que é para a semana. Sol e ligeira subida da temperatura. Há um ano Malick: o gato chegava. Olhou desconfiado para tudo. Foram precisas duas semanas para se habituar aos ruídos, cheiros. Agora está ali deitado. Também já se habituou à música que por aqui se ouve. Demorou um pouco mais do que duas semanas. 

Um poema de Arseniy Tarkovskiy


Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.


em «8 Ícones», versão de Paulo da Costa Domingos sobre a tradução inglesa de Kitty Hunter-Blair, Lisboa: Assírio & Alvim, 1987, p. 19.

Ana Paula Inácio




É das poucas poetisas actuais que gosto de ler. Comecei com As Vinhas do Meu Pai. Os seus poemas deixam-me sempre um pouco desconfortável, mas no bom sentido. Há algo nos seus versos, uma espécie de ternura, melancolia. Mas sem cair nos exageros do melado. Às vezes releio e releio alguns dos seus poemas. Aconselho.

Lí por aí


Pela manhã, ouço a crónica de Rui Cardoso Martins na Antena 1. Refere-se ao Deus do ministro que andou pelo All Garve a estrear galochas. Ouço-o com atenção e pergunto-me que mundo é este onde tudo cabe como se fosse irreal? Salgado triplica pensão para 90 mil euros por mês, diz a notícia. Há dias, na mesma Antena 1, alguém falava dos banqueiros condenados na Islândia. Condenados a prisão. O que é verdade? Em que devemos acreditar? Serão ambas as notícias verdadeiras? Neste mundo onde tudo é gigantesco, hiperbólico, fantástico, mega, híper, super, um site oferece a maior colecção de partituras do mundo, a Escócia vai albergar o maior parque eólico marinho do mundo, ser mãe é a profissão mais exigente do mundo… Sinto falta de coisas pequenas e breves, quotidianas, efémeras, sinto falta de coisas do meu tamanho, coisas que as minhas mãos possam realizar. O Parlamento Europeu suspendeu dois eurodeputados, um polaco e outro italiano, por terem discursos neonazis. Por serem pequenos, muito pequenos, humanamente ínfimos. Alguém comenta: «este senhor devia ser enrabado por uma guilhotina». Apesar da surrealidade imagética (não estou a ver como pode uma guilhotina enrabar alguém), quem suspende o comentador pelos seus comentários violentos? Isto passa-se diariamente e é como se nada fosse, as pessoas mergulham neste mundo agónico de opiniões à distância, de acusações à distância, protegidas pela distância, arrogam-se no direito de proferir barbaridades contra barbaridades como se estivessem a exibir as partes em local público. Tanta estupidez enoja, tanta demagogia, tanto populismo, tanto desrespeito admitido e promovido e inimputável. Pela imprensa de hoje, este título dissemina-se  como uma praga imbatível: «refugiados terão médico de família e não vão pagar taxas moderadoras». Adivinham-se os comentários. Portugal é um país estranho num mundo estranho. Salgado, alegadamente um dos maiores criminosos que este país conheceu, triplica a pensão e muita gente continua a olhá-lo com inexplicável complacência. Os refugiados terão médico de família e é o fim de um país, não pagam taxas moderadoras e é o fim do mundo. Repare-se no contraste: estarei a ser moralista se denunciar o tom populista, interesseiro, demagógico, sensacionalista do título sobre os refugiados? Estarei a ser moralista se denunciar o mesmo tom na notícia sobre Salgado? Estarei a ser ingénuo se esperar um pouco mais dos jornalistas que pensam títulos do que espero de uma actriz pornográfica? Talvez a imprensa se limite a reproduzir a estranheza do mundo, do mesmo mundo que aceita a convivência de uma rapariga a ser lapidada e de uma família feliz no seu novo Touran. A imagem ao alto é de dois vídeos, um noticioso, outro publicitário, passíveis de serem observados ao mesmo tempo na mesma página on-line de um jornal português. Contraste chocante? Não sei. Sugiro que tentem descobrir qual deles é o publicitário, qual deles é o noticioso. Depois fechem os olhos e imaginem que são refugiados a atravessar o Mediterrâneo. Talvez consigam morrer afogados.


Pensamento do dia



Interpol
Pioneer to the Falls
Our Love To Admire
2007

Das fotos (35)


Sem título
© manuel a. domingos, 2015
(clicar na imagem para aumentar)

Reverso (11)




Nunca fui de musicais. West Side Story é dos poucos que tolero. Isto é: gosto. A versão de Tom Waits, de Somewhere, foi a primeira música que ouvi dele, pois Blue Valentine foi o primeiro álbum. Reconheci, de imediato, o original de Bernstein. É claro que a voz de Waits é a voz de Waits. Mas a composição está lá, a letra está lá. Depois: o génio de Waits a fazer o resto. E é tudo.

(...)


"É uma porra, é o que é!", ouço alguém dizer. E concordo, quase de imediato, pois em vez de Sagres só há Super Bock. É claro que a pessoa a quem isto ouvi não se queixava da Super Bock. Talvez se queixasse de tudo o resto, menos da Super Bock. Talvez fosse o IMI, ou a conta da Luz, do Gás, da Água, mais aquela taxa abolida pelo Senhor Primeiro-Ministro Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva, mas que agora aparece na conta da Luz, ou o abate da frota pesqueira, ou o abate. Talvez fosse isso tudo, ou nada disto. Talvez. 

Discos pedidos (185)




For I am a Rain Dog, too

Tom Waits
  

Esta coisa da estrada, da casa às costas. Sempre que ouço a palavra casa, penso: afinal, o que é uma casa? Já passei por tantos quartos. Todos na casa de alguém. São mais os dias em quartos de outros do que no meu. E, é claro, coisas há que me passam pela cabeça: quantos amantes ali adormeceram nos braços um do outro? quantas lágrimas na almofada onde à noite encosto a minha cabeça? quantos segredos escondidos? Às vezes, e não exagero, acordo e não sei onde estou. Aconteceu no fim-de-semana passado. Acordei sem saber onde estava. Demorei alguns segundos até entender que estava no meu quarto em minha casa. Procuro trazer sempre pouca coisa para os lugares que ocupo. É uma maneira de me defender. Quanto menos trago, menos deixo. Tento todos os anos aprender um pouco mais: não fazer tantas amizades, não conhecer tão bem os lugares, passar ao largo. Passar ao largo. Não sei se será a melhor estratégia. Daqui a uns anos voltamos a falar.

Uma imagem para o dia



(...)


Agora que me livrei de mais um livro de poemas (não digo de poesia para não ferir os mais empedernidos defensores do sublime),  encontro-me numa espécie de terra de ninguém. E é sempre o mesmo sentimento, a par com aquele outro: ser a última vez; ser o último. É claro que isto não é uma atitude à-Lobo Antunes (que anda há anos a prometer o último livro e não cumpre a promessa, sendo um bem que nos fazia). É mesmo a certeza que pouco, ou muito pouco, tenho ainda para dizer. E o pouco que ainda possa ter para dizer, nada irá acrescentar àquilo que, até agora, disse.

Pedidos



manuel a. domingos
Baço
Medula
35 pp.
8 €

Os interessados deverão enviar a sua morada para:
medulalivros@gmail.com