Baço



manuel a. domingos
Baço
Medula
2015

Discos pedidos (184)




some escape some door to open

Red House Painters


Posso dizer-te, com quase certeza, que este foi, talvez, o álbum que mais ouvi naqueles dias. Eram, agora que recordo, dias muito parecidos a estes: o sol brilhava pouco e a chuva caía com a violência que ainda ontem caiu (pelo menos aqui). A única coisa diferente é a maneira como eu, agora, sinto o frio. Há muito que me desabituei do frio seco da Serra, e este, que agora sinto, traz a humidade do mar e entranha-se na roupa e, mais importante, nos ossos. Este frio lembra-me versos de Assis Pacheco, aqueles em que ele fala da Guerra, dizendo (e cito de memória) que alguns dizem que a guerra passa e que a dele passou, mas foi para os ossos. Este frio é um pouco assim: passa, mas é para os ossos. E naqueles dias, esses que agora recordo, o frio era, ou parecia ser, mais tolerável, apesar de cortante. E às vezes volto a eles, aos dias. E há neles uma qualquer música deste álbum. Seja ela qual for.

(...)


Ontem à noite e devido a uma falha na rede telemóvel, que durou algumas horas, acordei às quatro da manhã com o sinal sonoro de mensagem recebida. A mensagem tinha sido enviada quatro horas e meia antes. O problema em acordar ao meio da noite (pelo menos é o meu problema), é que a muito custo volto a pregar-olho, o que me deixa numa situação bastante desconfortável à hora de levantar. Assim, nem dois ou três cafés (antes das dez da manhã) me ajudam.

Descrentes - John Mateer



John Mateer
Descrentes
Tradução de Andreia Sarabando
DSO
2015

(...)


Ontem fiz parte da viagem ao som de In Principio de Arvo Pärt. E parte da viagem foi feita com chuva intermitente, mais os faróis dos automóveis que comigo se cruzaram. Gosto bastante das composições do estoniano. Há algo na sua música. Esse "algo" é por mim inexplicável. No entanto, esse inexplicável encontra-se na música de Pärt. Muitas vezes me questionei: será, na verdade, Deus? Porque Deus continua a ser, para mim, o inexplicável por excelência.

Reverso (10)



Este é, quanto a mim, um daqueles casos em que a versão suplanta o original. Quando os Red House Painters (no seu álbum Songs for a Blue Guitar, já no rescaldo da dissolução imposta por Mark Kozelek) gravaram Silly Love Songs, é todo o pathos da banda de São Francisco que ali se encontra, longe daquela espécie de festividade dos Wings. Há o lento e progressivo dizer de uma perda, ou, então, o lento e progressivo dizer da impossibilidade de dizer a perda. Já com I Am a Rock (original de Paul Simon) os Red House Painters tinham demonstrado a sua capacidade para produzir e executar grandes versões. Silly Love Songs é o culminar desse exercício. 

Glosa a um poema de Fernando Pessoa

(com a devida vénia)


1.

Aníbal Cavaco Silva
três nomes que gostava
inconsequentes
e irregulares

Aníbal é Aníbal
Cavaco pode vir de uma árvore
e Silva é um arbusto

daninho

Até aí
está tudo bem

O que não faz sentido
é o sentido
que tudo isto
para nosso mal

tem


2.

Este senhor Cavaco
é feito de bafio
e bolor

Se um dia chove
a água dissolve
o bolor

mas o bafio
será sempre
bafio


3.

Oh, cum caraças:
já choveu!


4.

Parece que esteve
em Moçambique

mas não foi por castigo
nem para fugir
ao Limoeiro

É que na ficha da PIDE
(não podemos esquecer)
disse estar integrado
no regime político


5.

Coitadinho
do presidentezinho

Até reacções vagais tem
quando está sozinho


6.

E pela sua boca
um dia ficámos a saber
que é preciso duas vezes
nascer para mais honesto
do que ele ser

E isso é mesmo verdade
tendo em conta a gente
que à sua volta cresceu

E me parece a mim
não ter nascido
as necessárias vezes


7.

Coitadinho
do presidentezinho

Não vai ter
reforma suficiente

Pois todos sabemos
que 10.042 euros mensais
não dá para nada

nem mesmo
para comprar
sais


8.

Mas enfim
um dia deixará
de viver em Belém

E isso nos dá força
e nos convém

Uma imagem para o dia



(...)


E eis que é chegada aquela hora do dia em que dás uma valente gargalhada, sem razão aparente, na sala dos professores, e todos ficam a olhar para ti, como que à espera de uma justificação. E a justificação são eles, mais os elevados decibéis das suas conversas.

Discos pedidos (183)



I'm in tight with a demon called Deception
It's alright he's a treating me quite well
I'm in tight with a demon called Deception
He's right beside me when I fail

Grant Lee Buffalo

Em mil novecentos e noventa e quatro eu era mais um na Escola Secundária Afonso de Albuquerque, ou Liceu (como nós dizíamos [e ainda dizemos, das poucas vezes que nos encontramos e recordamos esses dias, esses anos]). Começava então a usar o preto e, finalmente, tinha juntado dinheiro suficiente para comprar umas Doc Martens. Num dos guarda-fatos lá de casa tinha desencantado um casaco dos anos setenta, que tinha sido do meu pai e que o meu avô materno tinha forrado a lã, o que o tornava muito quente. Era de napa, em vez do estiloso cabedal. Estava a desfazer-se por completo e continuou a desfazer-se por completo nos três anos seguintes, até que não tive outro remédio: deitá-lo fora. Mas antes mandei fazer um em bombazine ao Senhor Zé Alfaiate, com as indicações de respeitar o modelo, coisa que ele fez sem qualquer dificuldade. Mas esse casaco de napa fez um sucesso incrível nos corredores e no pátio do Liceu. Todos olhavam para mim, o que me deixava bastante desconfortável. Mas outra coisa não seria de esperar: eu todo vestido de preto, Doc Martens, camisola de gola-alta e um casaco a desfazer-se. E lá ia eu pelos corredores enquanto ouvia, na minha cabeça, a voz de Grant Lee-Philips a cantar You know I love it more and more than before I ran away. É claro que tudo isto foi antes de ouvir I'm in tight with a demon called Deception. O que é uma estória completamente diferente.

Reverso (9)



Dizem que não se deve mexer nos clássicos. Os 10.000 Maniacs arriscaram e na voz de Natalie Merchant a música Because the night ganhou uma outra dimensão. Parece-me que os 10.000 Maniacs conseguiram criar uma música completamente nova. É claro que o facto de ser em modo acústico também ajuda bastante. Mas é a voz de Merchant que, quanto a mim, faz toda a diferença.

50 livros + 49




Em boa hora o Henrique lembrou Omar Khayyam. Lembro que a primeira vez que ouvi o seu nome foi em Silves, no ano de 2004. Estava eu num almoço com os meus amigos Manuel Ramos e António Baeta, quando, por entre uns copos de vinho (desculpem o lugar comum), o Manuel me fala das Odes. Ele falava emocionado da edição especial que tinha em casa, edição que lhe tinha sido oferecida por um grupo de amigos. A edição era caseira, feita com o esforço e a dedicação de todos. Depois foi a descoberta dos poemas de Khayyam. E, de seguida, a descoberta de outros poetas do mesmo tempo, traduzidos e antologiados por Adalberto Alves. Leiam estas odes. Sem moderação.

Estados Filosóficos (92)


Entre Deus e o Homem, o Diabo escolhe, de certeza, Deus.

Sala de Chuto - Rui Caeiro



Rui Caeiro
Sala de Chuto
Edição do Autor
2015

Discos pedidos (182)



I think last night
you were driving circles around me.

Kristin Hersh
  

Em 1995 muita coisa mudou na minha vida. Entrei para o ensino superior e fiquei na mesma cidade de sempre. Tu entraste para o ensino superior e mudaste de cidade. Passei a andar sozinho pelas ruas e pelo nevoeiro. O meu sobretudo suportou tudo, menos a tua ausência. Mas a verdade é que aprendi a viver com ela, digo, aprendi a viver com ela mas nunca a ela me habituei. Como pode alguém habituar-se à ausência de quem se ama? Era o que eu pensava: que te amava: no pesado exagero de todas as coisas. Talvez fosse verdade. Não me lembro se alguma vez te disse isso. Agora sei, passados todos estes anos, que pouco importa.

Discos pedidos (181)




Fosse tudo tão simples como uma música pop e talvez não existissem livros a tentar explicar a vida, ou a dar uma visão dela. Ou poemas. E os dias talvez fossem mais fáceis e as horas menos penosas. Talvez tudo fosse mais simples, mais pop, como alguns sonhos: aqueles que mais depressa esquecemos, de tão simples. Mas, por vezes, tudo se assemelha a uma qualquer verklärte nacht, E, de repente, a cidade e as suas avenidas ganham outra dimensão. E, de repente, a cidade é o silêncio do quarto onde, de olhos abertos, contemplas o tecto e respiras fundo. E, de repente, as sombras avançam. E faltam-te as forças. E é tarde.

Lí por aí


Oportunidade única: aqui.

Contradizer #12 - 24 de Outubro




(...)


Fiz a custo a viagem de ontem à noite. Veio o sono e eu com as mãos sobre o volante e pára lá o carro e lava a cara ali na estação de serviço. Depois foi a chuva, que caiu como que saída de uma passagem da Bíblia, e nem Noé viu tanta de uma só vez. Mas a viagem lá se fez. Não houve outro remédio. 

Cal - Paulo da Costa Domingos



Paulo da Costa Domingos
Cal
prefácio de Vítor Silva Tavares
Averno
2015

Das fotos (34)



Tentativa de homenagem a Paulo Nozolino
© manuel a. domingos, 2015
(clicar na imagem para aumentar)

(...)


Escrevo este pequeno texto antes de ir para uma reunião informal onde iremos "construir" um teste/ficha de avaliação sumativa/ficha de avaliação de conhecimentos. Gosto sempre de reunir para decidir estas coisas. Construir: é comigo.

Os Meus Pais: Romeu e Julieta - Pablo Fidalgo Lareo



Pablo Fidalgo Lareo
Os Meus Pais: Romeu e Julieta
tradução de Manuel de Freitas
Averno
2015

Um poema de Renato Filipe Cardoso


Dom Sebastião

fumei tanto esta noite
que o espesso nevoeiro por dentro
me atacou os genitais

esquece lá isso da precariedade
os recibos verdes, a crise
— as bolhas fazem arder os olhos

passa mas é o gel de banho
meu bom heráclito
e faz favor esfolia-me as costas

demora-te
não te preocupem as horas
ou a conta dos serviços municipalizados

após a batalha importa o olvido
porque o regresso é
sal impossível


em O Desejado — Robot Bimby, organização de Jorge Corvo Branco, prólogo e fotografias de Jorge Aguiar Oliveira, 1ª edição, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2015, p. 52

Discos pedidos (180)




how many years have I been away?

Low

O Outono percorria as ruas da cidade como se fossem de Inverno os dias. Cedo aprendemos que não podemos confiar nos nossos olhos: o céu, às vezes, engana. E nesse dia estava demasiado frio para um dia de Outubro e tu aproximaste mais o teu corpo do meu. O meu braço esquerdo abraçou a tua cintura e, sem dar conta, beijei-te a boca. O beijo demorou o tempo que demora um beijo nestas ocasiões. Depois, ficaram muitas palavras por dizer. Melhor assim.

(...)


Não recordo levantar-me tão cedo a um Sábado. Isto não quer dizer que tenho por hábito levantar-me tarde, mas não é costume levantar-me tão cedo. Dizem que faz bem. Levantar cedo. Eu experimento todos os dias levantar-me cedo para ir trabalhar e não é coisa que muito me agrade. E ainda estou para descobrir se me faz bem. Não estou a dizer, com isto, que não gosto de trabalhar. Não é isso. O trabalho, a mim, nunca me assustou. No entanto, preferia não ter que. Como, aliás, a maior parte de nós. Só que ainda não conseguimos viver do ar, não é? Corrijo: o ar até é muito essencial para a nossa sobrevivência. Mas penso que me fiz entender.

Hermann Ungar



Desde os seus vinte anos que Franz Polzer era funcionário de um banco. Todas as manhãs, às oito menos um quarto, dirigia-se ao seu escritório, nem um minuto mais cedo ou mais tarde. Quando saía da travessa onde morava, o relógio da torre soava o terceiro quarto de hora.
Nunca, durante todo este tempo enquanto funcionário do banco, mudara de cargo ou de casa. Ocupara-a quando abandonou os estudos e ingressou na profissão. A sua senhoria era uma viúva, mais ou menos da sua idade. Instalou-se quando ela estava a fazer o primeiro ano de luto pelo marido.
Nos muitos anos que levava de funcionário bancário, jamais se vira Polzer na rua a meio da manhã, excepto ao Domingo. Já não sabia o que eram as manhãs dos dias úteis, em que as lojas se encontram abertas e as pessoas se amontoam nas ruas. Não houve um único dia em que tivesse faltado no banco.

em Os Mutilados, tradução do alemão (Checoslováquia) por Vanda Gomes, 1ª edição, Silveira: E-Primatur, 2015, p. 7.

Discos pedidos (179)



I wouldn't shut your eyes just yet
I wouldn't turn the lights down yet

Tindersticks

Cinco ou seis num quarto na cidade. Os estores estavam para baixo e nós em silêncio, na penumbra, ouvíamos. A cassete tinha sido eu a levá-la. Ainda ninguém tinha ouvido algo semelhante. Na altura começávamos a afirmar-nos num estilo. Que estilo era esse: ainda hoje tentamos descobrir. Mas no Liceu começavam a olhar para nós, a quererem fazer parte do nosso grupo. Só que nós não éramos um grupo. Antes cúmplices. Planeávamos tomar de assalto o mundo. Mudá-lo. E, para conseguirmos isso, líamos. Líamos muito. Não sei, ainda hoje, se seriam os livros certos. Penso que não há livros errados. Mas ainda não tenho a certeza, hoje, se seriam os livros certos. A música, essa, sei que era. A certa.

(...)


Para contrariar os tempos, hoje recebi uma boa notícia: estou colocado com horário completo até final do ano lectivo. Tinha ficado colocado no dia 17 de Setembro, com a informação: "temporário - um mês". Hoje, o Director da escola disse-me que irei cumprir contrato até ao final do ano lectivo. Depois de três anos a "tapar buracos" (Cacém: 6 meses [2012-2013]; Arcozelo - Ponte de Lima: 1 mês [2013-2014]; Pardilhó: 1 mês/Lisboa: 6 meses [2014-2015]), eis que volto "à carga". And damn! It feels good!

Discos pedidos (178)



Era a viagem. Era sempre a viagem. A chuva. A paisagem era um fotograma de uma qualquer filme perdido no meu tempo. Havia a melancolia da estrada. As vilas e aldeias cujo nome desconhecia. Mas elas ali estavam, como que esquecidas. Era a viagem e as paragens para esticar as pernas, as costas. A chuva.

José Vilhena (1927-2015)



Com José Vilhena aprendi mais sobre o PREC e a pós-revolução do que a ler manuais de História e afins.

Latitude




Trincadeira, Aragonez e Alicante Bouschet

Estados Filosóficos (91)


Se nos prestarmos bem atenção, poderemos concluir, sem grande dificuldade, que no fundo, afinal, somos todos refugiados. Somos mais refugiados do que "Charlie". Mas "Charlie" fica melhor numa t-shirt. E isso faz toda a diferença.