Touriga Nacional, Merlot e Syrah
Discos pedidos (184)
some escape some door to open
Red House Painters
Posso dizer-te, com quase certeza, que este foi, talvez, o álbum que
mais ouvi naqueles dias. Eram, agora que recordo, dias muito parecidos a estes:
o sol brilhava pouco e a chuva caía com a violência que ainda ontem caiu (pelo
menos aqui). A única coisa diferente é a maneira como eu, agora, sinto o frio.
Há muito que me desabituei do frio seco da Serra, e este, que agora sinto, traz
a humidade do mar e entranha-se na roupa e, mais importante, nos ossos. Este
frio lembra-me versos de Assis Pacheco, aqueles em que ele fala da Guerra,
dizendo (e cito de memória) que alguns dizem que a guerra passa e que a dele
passou, mas foi para os ossos. Este frio é um pouco assim: passa, mas é para os
ossos. E naqueles dias, esses que agora recordo, o frio era, ou parecia ser, mais
tolerável, apesar de cortante. E às vezes volto a eles, aos dias. E há neles uma qualquer música deste álbum. Seja ela qual for.
(...)
Ontem à noite e devido a uma falha na rede telemóvel, que durou algumas horas, acordei às quatro da manhã com o sinal sonoro de mensagem recebida. A mensagem tinha sido enviada quatro horas e meia antes. O problema em acordar ao meio da noite (pelo menos é o meu problema), é que a muito custo volto a pregar-olho, o que me deixa numa situação bastante desconfortável à hora de levantar. Assim, nem dois ou três cafés (antes das dez da manhã) me ajudam.
(...)
Ontem fiz parte da viagem ao som de In Principio de Arvo Pärt. E parte da viagem foi feita com chuva intermitente, mais os faróis dos automóveis que comigo se cruzaram. Gosto bastante das composições do estoniano. Há algo na sua música. Esse "algo" é por mim inexplicável. No entanto, esse inexplicável encontra-se na música de Pärt. Muitas vezes me questionei: será, na verdade, Deus? Porque Deus continua a ser, para mim, o inexplicável por excelência.
Reverso (10)
Este é, quanto a mim, um daqueles casos em que a versão suplanta o original. Quando os Red House Painters (no seu álbum Songs for a Blue Guitar, já no rescaldo da dissolução imposta por Mark Kozelek) gravaram Silly Love Songs, é todo o pathos da banda de São Francisco que ali se encontra, longe daquela espécie de festividade dos Wings. Há o lento e progressivo dizer de uma perda, ou, então, o lento e progressivo dizer da impossibilidade de dizer a perda. Já com I Am a Rock (original de Paul Simon) os Red House Painters tinham demonstrado a sua capacidade para produzir e executar grandes versões. Silly Love Songs é o culminar desse exercício.
Glosa a um poema de Fernando Pessoa
(com a
devida vénia)
1.
Aníbal
Cavaco Silva
três nomes
que gostava
inconsequentes
e
irregulares
Aníbal é
Aníbal
Cavaco pode
vir de uma árvore
e Silva é um
arbusto
daninho
Até aí
está tudo
bem
O que não
faz sentido
é o sentido
que tudo
isto
para nosso
mal
tem
2.
Este senhor
Cavaco
é feito de
bafio
e bolor
Se um dia
chove
a água
dissolve
o bolor
mas o bafio
será sempre
bafio
3.
Oh, cum
caraças:
já choveu!
4.
Parece que
esteve
em
Moçambique
mas não foi
por castigo
nem para
fugir
ao Limoeiro
É que na
ficha da PIDE
(não podemos
esquecer)
disse estar
integrado
no regime
político
5.
Coitadinho
do
presidentezinho
Até reacções
vagais tem
quando está
sozinho
6.
E pela sua
boca
um dia
ficámos a saber
que é
preciso duas vezes
nascer para
mais honesto
do que ele
ser
E isso é
mesmo verdade
tendo em
conta a gente
que à sua
volta cresceu
E me
parece a mim
não ter
nascido
as
necessárias vezes
7.
Coitadinho
do
presidentezinho
Não vai ter
reforma
suficiente
Pois todos
sabemos
que 10.042
euros mensais
não dá para
nada
nem mesmo
para comprar
sais
8.
Mas enfim
um dia
deixará
de viver em
Belém
E isso nos
dá força
e nos convém
(...)
E eis que é chegada aquela hora do dia em que dás uma valente gargalhada, sem razão aparente, na sala dos professores, e todos ficam a olhar para ti, como que à espera de uma justificação. E a justificação são eles, mais os elevados decibéis das suas conversas.
Discos pedidos (183)
I'm in tight with a demon called Deception
It's alright he's a treating me quite well
I'm in tight with a demon called Deception
He's right beside me when I fail
Grant Lee Buffalo
Em mil novecentos e noventa e quatro eu era mais um na Escola Secundária
Afonso de Albuquerque, ou Liceu (como nós dizíamos [e ainda dizemos, das poucas
vezes que nos encontramos e recordamos esses dias, esses anos]). Começava
então a usar o preto e, finalmente, tinha juntado dinheiro suficiente para
comprar umas Doc Martens. Num dos guarda-fatos lá de casa tinha desencantado um
casaco dos anos setenta, que tinha sido do meu pai e que o meu avô materno tinha
forrado a lã, o que o tornava muito quente. Era de napa, em vez do estiloso
cabedal. Estava a desfazer-se por completo e continuou a desfazer-se por
completo nos três anos seguintes, até que não tive outro remédio: deitá-lo
fora. Mas antes mandei fazer um em bombazine ao Senhor Zé Alfaiate, com as
indicações de respeitar o modelo, coisa que ele fez sem qualquer dificuldade.
Mas esse casaco de napa fez um sucesso incrível nos corredores e no pátio do
Liceu. Todos olhavam para mim, o que me deixava bastante desconfortável. Mas
outra coisa não seria de esperar: eu todo vestido de preto, Doc Martens,
camisola de gola-alta e um casaco a desfazer-se. E lá ia eu pelos corredores
enquanto ouvia, na minha cabeça, a voz de Grant Lee-Philips a cantar You know I love it more and more than before
I ran away. É claro que tudo isto foi antes de ouvir I'm in tight with a demon called Deception. O que é uma estória
completamente diferente.
Reverso (9)
Dizem que não se deve mexer nos clássicos. Os 10.000 Maniacs arriscaram e na voz de Natalie Merchant a música Because the night ganhou uma outra dimensão. Parece-me que os 10.000 Maniacs conseguiram criar uma música completamente nova. É claro que o facto de ser em modo acústico também ajuda bastante. Mas é a voz de Merchant que, quanto a mim, faz toda a diferença.
50 livros + 49
Em boa hora o Henrique lembrou Omar Khayyam. Lembro que a primeira vez que ouvi o seu nome foi em Silves, no ano de 2004. Estava eu num almoço com os meus amigos Manuel Ramos e António Baeta, quando, por entre uns copos de vinho (desculpem o lugar comum), o Manuel me fala das Odes. Ele falava emocionado da edição especial que tinha em casa, edição que lhe tinha sido oferecida por um grupo de amigos. A edição era caseira, feita com o esforço e a dedicação de todos. Depois foi a descoberta dos poemas de Khayyam. E, de seguida, a descoberta de outros poetas do mesmo tempo, traduzidos e antologiados por Adalberto Alves. Leiam estas odes. Sem moderação.
Estados Filosóficos (92)
Entre Deus e o Homem, o Diabo escolhe, de certeza, Deus.
Discos pedidos (182)
I think last night
you were driving circles around me.
Kristin Hersh
Em 1995 muita coisa mudou na minha vida. Entrei para o ensino superior
e fiquei na mesma cidade de sempre. Tu entraste para o ensino superior e
mudaste de cidade. Passei a andar sozinho pelas ruas e pelo nevoeiro. O meu
sobretudo suportou tudo, menos a tua ausência. Mas a verdade é que aprendi a
viver com ela, digo, aprendi a viver com ela mas nunca a ela me habituei. Como
pode alguém habituar-se à ausência de quem se ama? Era o que eu pensava: que te
amava: no pesado exagero de todas as coisas. Talvez fosse verdade. Não me lembro se alguma vez te disse isso. Agora
sei, passados todos estes anos, que pouco importa.
Discos pedidos (181)
Fosse tudo tão simples como uma música pop e talvez não existissem livros a tentar explicar a vida, ou a dar uma visão dela. Ou poemas. E os dias talvez fossem mais fáceis e as horas menos penosas. Talvez tudo fosse mais simples, mais pop, como alguns sonhos: aqueles que mais depressa esquecemos, de tão simples. Mas, por vezes, tudo se assemelha a uma qualquer verklärte nacht, E, de repente, a cidade e as suas avenidas ganham outra dimensão. E, de repente, a cidade é o silêncio do quarto onde, de olhos abertos, contemplas o tecto e respiras fundo. E, de repente, as sombras avançam. E faltam-te as forças. E é tarde.
Lí por aí
Oportunidade única: aqui.
Contradizer #12 - 24 de Outubro
(...)
Fiz a custo a viagem de ontem à noite. Veio o sono e eu com as mãos sobre o volante e pára lá o carro e lava a cara ali na estação de serviço. Depois foi a chuva, que caiu como que saída de uma passagem da Bíblia, e nem Noé viu tanta de uma só vez. Mas a viagem lá se fez. Não houve outro remédio.
Cal - Paulo da Costa Domingos
(...)
Escrevo este pequeno texto antes de ir para uma reunião informal onde iremos "construir" um teste/ficha de avaliação sumativa/ficha de avaliação de conhecimentos. Gosto sempre de reunir para decidir estas coisas. Construir: é comigo.
Os Meus Pais: Romeu e Julieta - Pablo Fidalgo Lareo
Um poema de Renato Filipe Cardoso
Dom Sebastião
fumei tanto esta noite
que o espesso nevoeiro por dentro
me atacou os genitais
esquece lá isso da precariedade
os recibos verdes, a crise
— as bolhas fazem arder os olhos
passa mas é o gel de banho
meu bom heráclito
e faz favor esfolia-me as costas
demora-te
não te preocupem as horas
ou a conta dos serviços municipalizados
após a batalha importa o olvido
porque o regresso é
sal impossível
em O Desejado — Robot Bimby, organização de Jorge Corvo Branco, prólogo e fotografias de Jorge Aguiar Oliveira, 1ª edição, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2015, p. 52
Discos pedidos (180)
how many years have I been away?
Low
O Outono percorria as ruas da cidade como se fossem de
Inverno os dias. Cedo aprendemos que não podemos confiar nos nossos olhos: o
céu, às vezes, engana. E nesse dia estava demasiado frio para um dia de Outubro
e tu aproximaste mais o teu corpo do meu. O meu braço esquerdo abraçou a tua
cintura e, sem dar conta, beijei-te a boca. O beijo demorou o tempo que demora
um beijo nestas ocasiões. Depois, ficaram muitas palavras por dizer. Melhor
assim.
(...)
Não recordo levantar-me tão cedo a um Sábado. Isto não quer dizer que tenho por hábito levantar-me tarde, mas não é costume levantar-me tão cedo. Dizem que faz bem. Levantar cedo. Eu experimento todos os dias levantar-me cedo para ir trabalhar e não é coisa que muito me agrade. E ainda estou para descobrir se me faz bem. Não estou a dizer, com isto, que não gosto de trabalhar. Não é isso. O trabalho, a mim, nunca me assustou. No entanto, preferia não ter que. Como, aliás, a maior parte de nós. Só que ainda não conseguimos viver do ar, não é? Corrijo: o ar até é muito essencial para a nossa sobrevivência. Mas penso que me fiz entender.
Hermann Ungar
Desde os seus
vinte anos que Franz Polzer era funcionário de um banco. Todas as manhãs, às
oito menos um quarto, dirigia-se ao seu escritório, nem um minuto mais cedo ou
mais tarde. Quando saía da travessa onde morava, o relógio da torre soava o
terceiro quarto de hora.
Nunca,
durante todo este tempo enquanto funcionário do banco, mudara de cargo ou de
casa. Ocupara-a quando abandonou os estudos e ingressou na profissão. A sua
senhoria era uma viúva, mais ou menos da sua idade. Instalou-se quando ela
estava a fazer o primeiro ano de luto pelo marido.
Nos muitos
anos que levava de funcionário bancário, jamais se vira Polzer na rua a meio da
manhã, excepto ao Domingo. Já não sabia o que eram as manhãs dos dias úteis, em
que as lojas se encontram abertas e as pessoas se amontoam nas ruas. Não houve
um único dia em que tivesse faltado no banco.
em Os Mutilados, tradução do
alemão (Checoslováquia) por Vanda Gomes, 1ª edição, Silveira: E-Primatur, 2015,
p. 7.
Discos pedidos (179)
I wouldn't shut your eyes just yet
I wouldn't turn the lights down yet
I wouldn't turn the lights down yet
Tindersticks
Cinco ou seis num quarto na cidade. Os estores estavam para baixo e nós em silêncio, na penumbra, ouvíamos. A cassete tinha sido eu a levá-la. Ainda ninguém tinha ouvido algo semelhante. Na altura começávamos a afirmar-nos num estilo. Que estilo era esse: ainda hoje tentamos descobrir. Mas no Liceu começavam a olhar para nós, a quererem fazer parte do nosso grupo. Só que nós não éramos um grupo. Antes cúmplices. Planeávamos tomar de assalto o mundo. Mudá-lo. E, para conseguirmos isso, líamos. Líamos muito. Não sei, ainda hoje, se seriam os livros certos. Penso que não há livros errados. Mas ainda não tenho a certeza, hoje, se seriam os livros certos. A música, essa, sei que era. A certa.
(...)
Para contrariar os tempos, hoje recebi uma boa notícia: estou colocado com horário completo até final do ano lectivo. Tinha ficado colocado no dia 17 de Setembro, com a informação: "temporário - um mês". Hoje, o Director da escola disse-me que irei cumprir contrato até ao final do ano lectivo. Depois de três anos a "tapar buracos" (Cacém: 6 meses [2012-2013]; Arcozelo - Ponte de Lima: 1 mês [2013-2014]; Pardilhó: 1 mês/Lisboa: 6 meses [2014-2015]), eis que volto "à carga". And damn! It feels good!
Discos pedidos (178)
Era a viagem. Era sempre a viagem. A chuva. A paisagem era um fotograma de uma qualquer filme perdido no meu tempo. Havia a melancolia da estrada. As vilas e aldeias cujo nome desconhecia. Mas elas ali estavam, como que esquecidas. Era a viagem e as paragens para esticar as pernas, as costas. A chuva.
José Vilhena (1927-2015)
Com José Vilhena aprendi mais sobre o PREC e a pós-revolução do que a ler manuais de História e afins.
Estados Filosóficos (91)
Se nos prestarmos bem atenção, poderemos concluir, sem grande dificuldade, que no fundo, afinal, somos todos refugiados. Somos mais refugiados do que "Charlie". Mas "Charlie" fica melhor numa t-shirt. E isso faz toda a diferença.
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