O Desejado - Robot Bimby



O Desejado
Robot Bimby
organização de Jorge Corvo Branco
Companhia das Ilhas
2015

(...)


O contrabaixo de João Hasselberg, a trompete de Diogo Duque, o saxofone de Ricardo Toscano, o piano de Luís Figueiredo, a bateria de Pedro Pedroso, a guitarra de João Firmino e a voz de Joana Espadinha. Depois, uma janela aberta. Uma leve corrente de ar. A luz a entrar tímida por uma das janelas. O prédio em silêncio. Tudo isto. E nada disto.

Montes Claros



Antão Vaz, Arinto, Roupeiro e Alvarinho

Diálogos (15)


(Bill Sullivan visits Ed at home to let him know that they're forming the CIA as a peacetime OSS)

Bill Sullivan: I have to tell you, I have some real problems with this whole thing despite how much we need it. I'm concerned that too much power will end up in the hands of too few. It's always in somebody's best interest to promote enemies real or imagined. I see this as America's eyes and ears; I don't want it to become its heart and soul. So I told the president for this to work there is going to have to be some kind of civilian oversight.

Edward Wilson: Oversight? How can you have a covert organization if you have people looking over your shoulder?

Bill Sullivan: You know who gave Hitler his power? The clerks and the bookkeepers, the civil servants. I have this one weakness: I believe in a just God. I always seem to err on the side of democracy.

(Bill Sullivan is getting into his car to leave)

Bill Sullivan: No matter what anyone tells you there'll be no one you can really trust.

(pause, looks away)

Bill Sullivan: I'm afraid when all is said and done we're all just clerks too.



em O Bom Pastor (The Good Shepherd) de Robert De Niro (2006)

(...)


A semana lá passou. De volta à escola. Desta vez fico a ver Lisboa ao longe. Prometo não entrar num reality show, pois basta-me a vida, que é real, verdadeira e isso chega. Chega-me. E enquanto a manhã passa, vou ouvindo, em concerto, Michel Portal (clarinetes, saxofone e bandoneon), Daniel Humair (bateria) e Bruno Chevillon (contra-baixo). O concerto é de 2012 e pode ser visto (ou ouvido, como preferirem) aqui. Vale a pena.

(...)


Morreu Vítor Silva Tavares. Não tenho nenhuma estória com ele. Mas um dia vi-o na Letra Livre e agachei-me, pois fiquei nervoso ao vê-lo e quis evitar a tentação de lhe falar. Depois, passados uns anos, cruzei-me com ele na estação de metro Baixa-Chiado. Apeteceu-me gritar és grande Vítor! mas tive vergonha. E, um dia, o encontro lá se deu. Foram duas horas de conversa e gargalhadas. Gargalhadas. É a recordação que dele guardo.

Pensamento do dia



Peixe:Avião
Avesso
2013

Discos pedidos (177)



Os dias, é certo, começam a ficar mais frios. As noites: mais longas. Mas isso pouco te importa, agora. Que te interessam a ti essas miudezas? O dia, apesar de cansativo, foi relativamente bom. Visitaste um amigo e riste com ele. A verdade é que riste com ele. Também é verdade que mais vezes o fizeste. Só que hoje teve um gosto especial, diferente. Agora, à meia-luz do candeeiro, pensas. Pensas que Domingo irás ocupar uma nova casa (o que é isso, afinal?), irás conhecer outra parte do país por ti desconhecida, irás sentir-te útil. E, talvez, tudo isso faça a diferença. Agora.

Diálogos (14)


TONY: Why didn't you jump?
(Will shakes his head as if he doesn't know.)
WILL: The sun came up.
TONY: The sun came up?
WILL: The sun came up. And it didn’t make sense to die anymore.


em O Mensageiro (The Messenger) de Oren Moverman (2009)

Terra D'Alter


Alfrocheiro

(...)


Enquanto escrevo estas linhas ouço Beirute, de Ibrahim Maalouf. É uma música terrivelmente melancólica. Arriscaria, até, a dizer que é uma música terrivelmente triste. A Beirute de Ibrahim Maalouf é a Beirute que eu imagino: uma cidade dividida entre duas culturas, entre dois mundos. Uma cidade com uma luz incrível (é assim que a imagino, pois nunca a Beirute fui). Uma cidade à beira de uma Mar que, deste lado do mundo, nos atrevemos, durante séculos, a chamar de Nostrum. E esse tem sido o grande problema: tudo, deste lado do mundo, é nostrum. Mas Beirute continuará sempre a ser Beirute: seja nos mapas, seja na trompete de Ibrahim Maalouf.

50 livros + 48



Grande parte dos personagens de José Riço Direitinho não procuram alterar o destino que lhes está traçado, pois sabem que nada podem fazer contra ele. Neste primeiro romance de Direitinho (o seu primeiro livro é de contos) o protagonista José de Risso aceita o seu destino sem qualquer questionamento, pois nasceu com um  marca vermelha em forma de folha de carvalho, e, segundo a superstição, é um sinal de desgraça, sendo Risso portador de desgraças e outros males, tanto para si como para todos aqueles que o rodeiam. José de Risso vive entre o Bem e o Mal, entre a Virtude e a Violência. Ele é herói e anti-herói.

(...)


Devido a estar "entre-projectos", tenho as tardes todas para mim. Aproveito para ler e ouvir música. Agora, por exemplo (e enquanto escrevo este texto), ouço o ronronar de Malick: o gato. Decidiu vir para o meu colo e observa os dedos a percorrerem as teclas do computador. De vez em quando olha para mim. Pede-me festas. 

Discos pedidos (176)




Tarde parada, esta chuva. O gato já procura o conforto das mantas. Mia, olha para mim e esconde o nariz. Passo-lhe a mão pelo dorso. Lá fora continua a tarde parada, esta chuva.

Um poema de João Candeias


istmo

falemos do mar e das orações balbuciadas
aos ícones sombrios. falemos do mar
e das alcateias de ondas
que devoram em constante assédio
as rochas usadas para a reprodução
dos peixes-voadores.
à hora de ponta o Rossio é o lugar
dos evasivos instantâneos. falamos do mar.
passam olhares com pressa em redor
e estendem-se corpos de verão. a água cerca-te.
a água invade-te em forma de península.
agarras-te com afinco ao istmo que te liga ainda
à entrada da terra prometida


em Voz Descontínua - Antologia Mínima, Lisboa: Black Son Editores, 2002, p. 7.

Medina Vineyards



Cabernet Sauvignon

Os Mutilados - Hermann Ungar



Hermann Ungar
Os Mutilados
Tradução de Vanda Gomes
E-Primatur
2015

BREVEMENTE
mais informações E-Primatur


Hermann Ungar (1893-1929), foi um escritor judeu da Morávia de expressão alemã. Particularmente activo no meio literário intelectual de Berlim, Viena e Praga na terceira década do século XX, Ungar foi influenciado pelo Expressionismo e pela psicanálise. As suas obras testam até aos limites mais negros o tecido social e abordam temáticas de choque como a sexualidade e a doença psicológica. Admirado por todos os grandes nomes da cultura germanófila, foi comparado a Kafka aquando da sua publicação em França onde a sua obra foi traduzida perto do final da sua vida. Autor de dois romances, vários contos, peças de teatro e ensaios, Ungar foi esquecido durante a Segunda Guerra Mundial tendo as suas obras sido especialmente destacadas entre a lista de livros da destruir pelo regime nazi. Nos anos 80, após uma nova tradução francesa da sua obra, o escritor foi ressuscitado tendo sido traduzido em mais de duas dezenas de línguas e vendo novamente o seu nome  figurar no cânone da literatura europeia.

Um poema de J. H. Santos Barros


Para o duplo que se segue

A vida do fantasma é asseada.
Fosse ela de-vida à morte que circula,
metáfora célere, oblação interrompida
e aqui estaria o êxtase aceitável, a razão
assoprada pelo rumor do coração. O orgasmo
bem ocrídico, da terra cobrindo as zonas
assombradas. Ao invés: falta-lhe a iniciação
das coisas mais simples, sob lençóis e águas
subindo e descendo, ritos que não trazem
verdades limpas da contaminação das palavras.
Mas a vida do fantasma ― paradoxo intolerável 
É cópia ilegível. Flash disparado no vazio
quando se revela cheio de pontos negros.
Técnicas avançadas de exposição dão-lhe um ar
bem limpo, sem contudo eliminarem
os suores de ascese, da passagem do papel
pela estreita via da dupla guilhotina.
«É então a morte?» exclamas, sem considerares
a impossibilidade de salvá-la da podridão.
E o fantasma come e bebe deus, sem cerimónias.
Castra-se, eventualmente, é certo. É peregrino
de regiões estéreis, esvoaça à procura de anjos,
tem comércio íntimo com a materialidade das crianças.,
à magia negra opõe o Bem branco.
Mas nada, nada, lhe sobra desse tanto trabalho.
Comove-se na angústia de ateus e crentes,
pedreiros-livres, adventistas, poetas,
sábios de toda a espécie. Mas quem o fará
descer à previsão meteorológica,
ao alcance do radar, à visão periscópica?

de S. Mateus, outros lugares e nomes (1981) inserido em Sempre disse tais coisas esperançado na vulcanologia – 12 poetas dos Açores, organização e notas de Emanuel Jorge Botelho, posfácio de Luís de Miranda Rocha, s/l: Gota de Água/Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, p.126.

Discos pedidos (175)




Pensaste um dia fazer uma viagem. Seria uma viagem como aquelas que vêm nos livros. O objectivo seria ultrapassar o Hindu Kush, partindo de Beirute. Síria, Iraque, Irão, Afeganistão. Depois Paquistão e, talvez, entrar na Índia. Imaginaste, várias vezes, como seriam os aromas, as cores. E depois o sol a queimar a pele do teu rosto. Entretanto, tudo mudou. Agora restam-te apenas as viagens como aquelas que vêm nos livros. E a banda sonora que as acompanha.

(...)


A propósito do "artigo" de Laurinda Alves e da sua "ideia" de «entre-projectos» (e para que não existam quaisquer dúvidas sobre o que penso do referido “texto”), relembro:

Que a mistificação se tornou absolutamente instrumental para os detentores do poder, é algo que se pode aquilatar pelo progresso do eufemismo nos meios de comunicação social. Assim, e a título de exemplo, não é por acaso que hoje se pretende chamar «colaborador» ao trabalhador, que ao corte de salários e à apropriação privada de bens públicos se chama «reforma estrutural», que à resistência anti-colonialista se chama «terrorismo» e ao terrorismo de Estado «libertação», que se chama «democracia» à oligarquia e «lobbying» ao tráfico de influências.


José Miguel Silva, «Divagações sobre o futuro da literatura numa era da ignorância programada e pré-apocalíptica», em Cão Celeste, Abril de 2012, p. 46.

Lí por aí





Laurinda Alves

(...)


Na tua rua não há um único café, ou quiosque. Minimercado tão-pouco. Ou supermercado. Não há nada. E quase tudo está à distância de um a dois euros de gasolina. Mas hoje decidiste ir a pé, pois as pernas pediram estrada onde caminhar. Pelo caminho foste distraindo o pensar com a cor de certas casas e o aroma de certas flores. E cruzas o olhar com velhos que, à beira das portas de casa, vêem o dia passar e vêem-te a ti passar. Entras no supermercado. Percorres as prateleiras e as arcas. Compras o necessário para o jantar. Pagas. Sais. E, de novo, pelo caminho: os velhos. E ouves alguém que diz ― agora é preciso é ter cuidado com o gás! viste ontem aqueles dois que morreram? — e embora a pergunta não seja a ti dirigida, apetece-te responder. 

Discos pedidos (174)




Do dia não procures a claridade. Antes o assombro. Não te deixes levar pelas vozes de boca cheia. Procura antes o sossego dos bancos de jardim, o prazer de um livro. Eleva os olhos para lá das copas das árvores. Respira fundo. Sente o coração nos pulsos. Suspira se te apetecer. Sorri.

Contradizer #11 - 29 de Setembro



Um poema de León Felipe


Saudação

Saúdo-te, Rocinante!!
Velho cavalo sem estirpe!...
não tens pedigree!
Oh meu Deus, Rocinante não tem pedigree!
Historiadores, eruditos, detectives,
farrapeiros,
pesquisadores de fraldas e barbeiros brasonados...
Rocinante não tem pedigree!
O cavalo mais «puro sangue» da grande mitologia espanhola,
o louco centauro do delírio,
o primeiro e o mais intrépido
dos quatro cavalos da Aurora,
o único cavalo do mundo
que conhece a palavra justiça,
o que em seu espinhaço magro e sofrido conduz
a humana e divina loucura de Espanha...
a possível loucura de todos os homens,
a Grande Esperança do Mundo...
não tem pedigree!


em O Sapateiro de Van Gogh, selecção, tradução e nota introdutória de Rui Caeiro, Lisboa: & etc, 1993, p. 67.

(...)


Primeiro: piquei a cebola. Não chorei. Depois um pouco de tomate (não muito). Um dente de alho. Não havia salsa. Abri a lata do atum e do grão. Juntei tudo e um fio de azeite. Acabei com o vinho branco que ali estava. Não era muito. O suficiente. 

Kjell Askildsen


O mundo já não é o que era. Por exemplo, agora vive-se mais tempo. Eu tenho uns bons oitenta e muitos anos e ainda não basta. Estou demasiado saudável. Mas a vida não me larga. Aquele que não tem por que viver, nada tem por que morrer. Talvez seja isso.


em Um Repentino Pensamento Libertador, tradução de Mário Semião, Porto: Ahab, 2010, p. 185.

50 livros + 47



Quando entramos na literatura nórdica, há uma porta que se nos abre, e não me refiro à porta dos nomes quase impossíveis de pronunciar. É outra a porta. Ao entrar deparamos com um mundo que, apesar de diferente do nosso, não é assim tão diferente do nosso. As paisagens são, talvez, mais frias. Os personagens serão, talvez, mais cerebrais e frios também. No entanto, é a vida de todos os dias que podemos encontrar neste livro de contos. As ansiedades são universais, bem como os medos e as certezas. Kjell Askildsen escreve de maneira limpa, sem grandes artefactos. Muitos críticos apelidam-no de "Raymond Carver da Europa". Não gosto deste tipo de atalhos para explicar a escrita de um autor, ou a música de alguém.

Discos pedidos (173)




Nesta manhã sem chuva, acordaste para o mundo com os olhos vermelhos e o corpo a pedir um pouco mais de cama. Não te lembras da noite, e supões que passou sem grandes sobressaltos, sem a insónia dos dias comuns. Olhaste para as estantes e escolheste o mais pequeno livro de poesia que encontraste. Leste alguns versos. Depois foi a vez da música: a escolha não foi difícil. E poucas, aliás, são em ti as coisas fáceis.

Um poema de João Miguel Henriques


experimentei o espanto das aves
a estrebuchar na armadilha

não é bonito


em Fonte Breve, s/l: Tea For One, 2014, p. 7.

(...)


Ornette Coleman, no saxofone alto, tenta com toda a sua força dizer-me que nem tudo é mau.

Raoul Vaneigem


A sob(re)vida é a vida reduzida ao essencial, à forma abstracta, ao fermento necessário para que o homem participe na produção e no consumo. Para o escravo romano, o repouso e a alimentação.

em Arte de Viver para a Geração Nova, tradução de José Carlos Marques, Lisboa: Letra Livre, 2014, p. 193.

Discos pedidos (172)



This ain't livin', This ain't livin'
No, no baby, this ain't livin'

Marvin Gaye



Cada vez mais penso na sob(re)vida de Vaneigem. A verdade é que pouco mudou, e o teórico situacionista continua actual. Não sei se Marvin Gaye leu a Arte de Viver para a Geração Nova, ocupado que andava com outras linhas. E, realmente, pouco importa. Basta abrir a janela e respirar fundo para sentir que alguma coisa cheira mal. Não digo isto pelo facto de me encontrar desempregado e sem grandes perspectivas de futuro. Houve alturas em que estava empregado e o cheiro era, sem dúvida, o mesmo. Perspectivas de futuro. Mas quem é que as tem neste país? Sejamos sinceros: quem? Talvez os “quadros” que se reuniram em Ofir tenham algumas certezas e perspectivas de futuro. Bem vistas as coisas: também fazem parte do cheiro.

Estados Filosóficos (90)


Não admitir Deus implica não acreditar em Deus. No entanto, não admitir o Mal não implica não acreditar no Mal.

Hannah Arendt


A primeira perda que sofreram essas pessoas privadas de direitos não foi a da protecção legal, mas a perda dos seus lares, o que significa a perda de toda a textura social na qual haviam nascido e na qual haviam criado para si um lugar peculiar no mundo. Esta calamidade tem precedentes, pois na história são frequentes as migrações forçadas, por motivos políticos ou económicos, de indivíduos ou de povos inteiros. O que era sem precedentes não era a perda do lar, mas a impossibilidade de encontrar um novo lar. De súbito revelou-se não existir lugar nenhum na Terra aonde os emigrantes pudessem dirigir-se sem as mais severas restrições, nenhum país ao qual pudessem ser assimilados, nenhum território em que pudessem fundar uma nova comunidade própria. Além do mais, isto quase nada tinha a ver com qualquer problema material de superpopulação, pois não era um problema de espaço ou de demografia. Era um problema de organização política. Ninguém se apercebia de que a Humanidade, concebida durante tanto tempo à imagem de uma família de nações, havia alcançado o estágio em que a pessoa expulsa de uma dessas comunidade rigidamente organizadas e fechadas se via expulsa de toda a família das nações.


em As Origens do Totalitarismo, tradução de Roberto Raposo, Lisboa: Dom Quixote, 5ª edição, 2014, p. 389.

(...)


A Bolsa de Contratação de Escola (BCE) chegou às escolas TEIP e com Autonomia. Ao mesmo tempo continua a decorrer o concurso designado por Reserva de Recrutamento (RR e que procura colmatar as necessidades ditas "residuais" das escolas que não se enquadram nas anteriores: TEIP e Autonomia). O Ministério da Educação e Ciência (MEC) apostou, novamente, no erro, tendo em conta a experiência do ano lectivo passado. Concorri a quase todas as escolas TEIP e com Autonomia do país. Para algumas apenas concorri a horários completos (quer sejam anuais ou temporários). A outras concorri a horários incompletos (quer sejam anuais ou temporários). Até aqui tudo bem, a opção é minha. O grande problema que se coloca (ou que se me coloca) é o seguinte: caso seja colocado numa BCE (mesmo que seja apenas por um mês), sou retirado permanentemente da RR; caso não aceite a colocação na BCE: sou retirado permanentemente da BCE e da RR. A segunda hipótese parece-me de alguma maneira justa, pois visa combater abusos, que todos os anos acontecem. Mas a primeira hipótese levanta-me algumas dúvidas e receios, pois caso seja colocado por apenas um mês numa escola TEIP ou com Autonomia, sou retirado da RR, perdendo grandes hipóteses de voltar a ser colocado de uma maneira justa (isto é, tendo em conta a minha graduação profissional [média final de curso+tempo de serviço+idade]), ficando, apenas, na BCE, cuja ordenação é calculada através da nossa graduação e através de subcritérios duvidosos e injustos. O MEC aposta, assim, na injustiça e na desregulamentação dos concursos, sendo a BCE um bom exemplo disso, venham os decretos ou as notas informativas que vierem para "regulamentar" aquilo que se revelou, no ano lectivo passado, ser o caos e o mais perfeito retrato da incompetência.

Lí por aí


Começar a escrever. Escrever uma, duas, três linhas, uma página inteira. Chegar ao fim, reler. Apagar tudo, deitar para o lixo. A vida devia oferecer-nos esta possibilidade. Vivermos um dia, dois dias, três dias. Pararmos para pensar no que vivemos, apagarmos tudo, deitarmos o passado para o lixo. O maior drama da vida é não ser como um texto, não podermos rasurar o passado. O lixo há-de pesar-nos sempre, o lixo de cada dia, de cada hora, de cada momento, que suportaremos como Sísifo teve de suportar a sua condenação.

Um poema de Ana Tecedeiro


Para que as coisas resultem,
a nossa escuridão tem de ficar
bem clara.

Promete-me
que a tudo o que o amor possa ter de sujo
brindaremos com copos de cristal.


em Rebento-Ladrão, s/l: Tea For One, 2014, p. 9.