Discos pedidos (171)



It's not enough.
I need more.
Nothing seems to satisfy.
I said
I don't want it.
I just need it.

Tool


Donde vem a inquietação? Donde o deslumbramento com as coisas simples? E quando dizemos que delas gostamos, das coisas simples, há quem não acredite, porque, talvez, não nos reconheçam nelas, de complicados que somos. A verdade é que o somos: complicados. Mas poderíamos nós ser de outra maneira? Demasiadas perguntas, talvez. Mas se não forem as perguntas, o que nos resta? O Amor? A Morte? A Poesia? A Liberdade? Os Amigos? A Solidão? Valerá a pena tanta pergunta? Valerá a pena? E, ainda assim, subsistimos na procura das respostas.

(...)


O gato acorda com o som dos trovões. Sobressaltado, vem até mim. Mia, passa o seu corpo pelas minhas pernas. Faço-lhe festas na cabeça. Mia um pouco mais. Prepara o salto. Colo. E tudo por momentos parece não ser assim tão mau. E tudo por momentos é este ronronar junto ao meu peito.

Versões: Félix Francisco Casanova


Ímanes

Os sonhos são
circunferências perfeitas:
estás dentro
ou fora.
Como o sexo da mulher:
impossível nele vaguear
sem nos afundarmos.

Félix Francisco Casanova, «Imanes», Antología poética – Cuarenta contra el agua, Madrid: Demipage, 2010, p. 53

(...)


A certeza de um dia enlouquecer, antes de envelhecer. Uma loucura pobre, sem qualquer rasgo de originalidade: baba e ranho. Nada mais.

50 livros + 46



Por onde começar? Apenas dizer o óbvio: é um livro muito bom. Deixou-me completamente banzado. William Gaddis foi uma surpresa para mim. Não posso deixar de ficar surpreendido ao ler um livro como Ágape, Agonia. Parece que a descoberta e a leitura de Thomas Bernhard o ajudou a resolver a escrita do livro. A influência está lá. Só que em Bernhard os longos períodos são mais harmoniosos, tonais, como numa partitura barroca. Em Gaddis eles aproximam-se mais da torrente que é o discurso oral (parece que era a sua especialidade), existe uma espécie de atonalidade, que aproximam Gaddis mais de Schönberg do que de Bach. E isso não é defeito nenhum, para quem, como eu, gosta da música destes dois compositores.

Fernando Assis Pacheco



Estremoz

Da janela via-se a praça.
As árvores, as pombas.
Os táxis torrando ao sol.

Cisma, sede, paixão
faltavas tu.


em A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 217.

Uma imagem para o dia



(...)


Tenho 38 anos. Sou professor contratado por escolas tuteladas pelo Ministério da Educação desde o ano lectivo 2001/2002. Ontem fiquei a saber da minha não colocação. Já percorri o país de Norte a Sul. Nunca recusei uma colocação, isto é, vou sempre para onde me mandam (pois é também para onde concorri), seja por um, dois, três meses, ou seja pelo ano inteiro. Pampilhosa da Serra, Tábua, Silves, Miranda do Corvo, Caxias, Figueira da Foz, Benedita, Alapraia, São Teotónio, Coruche, Cacém, Arcozelo, Pardilhó, Lisboa, são algumas das terras onde já "vivi" (o mínimo foi um mês e o máximo um ano lectivo). O mais perto que estive de casa foram 82km (Pardilhó) e o mais longe foram 525km (Silves). Resta-me agora esperar, enviar currículos, não obter respostas. Resta-me tudo o resto.

Estados Filosóficos (89)


Adão e Eva foram os primeiros a saber que Deus, afinal, não perdoa o mal que faz pelo bem que sabe.

Ontem



(Miguel Martins | manuel a. domingos)


Foto: Carla Ribeiro

Diálogos (13)


WELSH: In this world... a man himself is nothing. And there ain't no world but this one.

WITT: You're wrong there, Top. I seen another world. Sometimes I think it was just... my imagination.

WELSH: WeII, then you've seen things I never wiII.


em A Barreira Invisível (The Thin Red Line) de Terrence Malick (1998).

(...)


Acordas. Lá fora: luz. Levantas-te. O gato já espera. Mia suavemente. Quer comer. Abres uma lata de comida, serves, passas-lhe a mão pelo dorso. Agora, é a tua vez. Bebes a dose de coragem líquida. Acompanhas com um pouco de pão, pois hoje o apetite é pouco. Durante a noite foste acordado por gatos a miar à desgarrada. Tiveste dificuldade em voltar a adormecer. Foi pára-arranca até de manhã.

Discos pedidos (170)




O fim do mês a chegar. O contrato a terminar. E tudo volta ao mesmo: a incerteza ataca: as malas estão preparadas, o carro tem a revisão feita e um dia destes, se tiveres sorte, arrancas para mais um ponto deste país. Voltarás ao asfalto contínuo. Nada a que não estejas habituado. Mas é da tua natureza natureza o queixume, o descontentamento. Vá lá: ainda tens a poesia e, cada vez mais, o jazz. Vá lá. Nem tudo está perdido.

Manuel Fernando Gonçalves


Máxima

Hoje é dia de dar lugar aos dias
o seu lugar. Está tudo muito difícil,
não há roupa nova mas pareces
seguro e fresco no teu ar concentrado,
a passear na rua que tu queres:
como nas festas antigas, tudo muito fácil,
a luz é justamente a que quiseres
para ler um livro da Fátima Maldonado.
O cão mordeu-me no focinho,
vou a correr para o hospital, ai
Jesus, está sempre a acontecer
uma coisa qualquer, darei aos dias
lugar nenhum: não me quero, sequer,
lembrar, do dia em que nasci
quanto mais comprar petróleo
para ler, à luz da lamparina, seja
lá que livro for. Quero é velocidade,
pressão, vontade, frequência,
interferência, invenção, atenção,
expressão, potência, inconveniência,
informação, alteração, inteligência,
razão, impertinência, emoção,
internacionalização.
Où mort.

em A Matiz e o Canto Oposto, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 1ª edição, 2013, p. 41

Poesia às SEXTAS – com Miguel Martins – 149ª sessão – Bar a Barraca – 28 de Agosto – 22.30h – entrada grátis



EM AGOSTO, AS SESSÕES SÃO ÀS SEXTAS. EM AGOSTO, AS SESSÕES SÃO ÀS SEXTAS. EM AGOSTO, AS SESSÕES SÃO ÀS SEXTAS. EM AGOSTO, AS SESSÕES SÃO ÀS SEXTAS.

manuel a. domingos (assim mesmo, à cummings), poeta e responsável pela editora Medula, junta-se a MM para uma leitura de autores representados no catálogo desta.


A talhe de foice, fique o leitor a saber, fontes serranas informam-nos de que, no que aos costumes concerne, o comportamento de domingos granjeou-lhe, há muito, a alcunha de “O Calígula de Manteigas”.

Quem não aparecer é porque nunca perdeu um episódio da Floribela.


Uma imagem para o dia



(...)


Ontem vi o filme Labirinto de Mentiras. E aconselho a quem ainda não viu.

Pensamento do dia



Chvrches
Night Sky
The Bones Of What You Belive
2013

(...)


Hoje Raoul Vaneigem relembrou-me que também eu, tal como Breton, andei um dia a oferecer flores (rosas) às raparigas com quem me cruzava. Nunca faltavam rosas ali no quintal. E eu sempre considerei que seria um desperdício elas secarem sem terem cumprido uma função mais alta. Assim, todas as noites colhia umas quantas e dava delas a quem encontrava. Fi-lo durante uma semana. Quase todas as raparigas tinham namorado. Algumas eram já casadas. Ofereci a todas. Sem excepção. Fui olhado com desconfiança por todos. Sem excepção. Foi uma semana boa.

50 livros + 45




Li a segunda edição, que é de 2004. Li-o depois de ver o filme, que despertou em mim a vontade (às vezes isso acontece). Li-o depois de ver um documentário, que uma vez a RTP2 passou. Era um documentário sobre Marrocos e sobre “ocidentais” que viviam em Marrocos. Paul Bowles foi mencionado por um outro autor que vivia em Tânger. A leitura não foi fácil, principalmente porque tinha o filme na memória e estava sempre a encontrar John Malkovich e Debra Winger nas páginas. Mas foi um livro que me ficou.

Georges Darien


Zangado, eu? Vamos lá ver! Contra quem? Contra ti, vil instrumento, torcionário inconsciente? Contra ti? Não te quero mal, estás a ouvir? Apesar das tuas brutalidades idiotas e dos teus sarcasmos cobardes. E se alguma vez soar a hora da justiça, podes ter a certeza de que não será a ti, nem aos outros como tu que eu vou dar cabo do canastro. Ao sistema abjecto, que pôs às tuas costas uma farda de carrasco e me enfiou uma farda de forçado, é que eu vou atirar-me como uma fera; vou filar o sistema pela garganta, e larga-lo apenas quando estiver estrangulado. Se eu não conseguir esganar o monstro, e ele der cabo de mim antes de o transformar em cadáver, pelo menos terei dado a outros a receita para derrotar o inimigo e atirá-lo como uma reles carcaça, estripado e sangrento, a uma sarjeta de esgotos.


em Biribi, tradução e apresentação de Aníbal Fernandes: Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p. 164.

Uma imagem para o dia



(...)


Na passada semana jantei com um primo que trabalha na Polónia. Hoje foi a bica com outro, que está na Escócia. O primo que está em Moçambique (irmão daquele que está na Escócia) vi-o no Verão passado. No último funeral: falei com duas primas que estão na Holanda. Diáspora, para mim, é um nome familiar.

Discos pedidos (169)





I have no idea what I am talking about
I am trapped in this body and can't get out
Radiohead

No Inverno de 2007 passeava todos os dias o corpo pelas ruas de uma vila, ou cidade (nunca entendi), do Oeste português. Era, e penso que continua a ser, uma vila, ou cidade, feia pois descaracterizada, sem nada que a tornasse única, a não ser, talvez, o novo-riquismo que proliferava nas mesas dos cafés, nos carros estacionados “à-patron”*. Foi um Inverno rigoroso, em todos os sentidos: o coração começou a dar sinal dos abusos cometidos e soube que, em 2008, iria publicar o meu segundo livro de poesia. Mas as ruas, essas, nunca me faltaram.




*uma vez numa grande superfície comercial vi um carro que ocupava, literalmente, três lugares de estacionamento.

Pensamento do dia



Radiohead
Jigsaw Falling Into Place
In Rainbows
2007

Vin d'Alsace



Gewurztraminer

Raoul Vaneigem


O aperto de mão ata e desata o laço dos encontros. Gesto ao mesmo tempo curioso e trivial a respeito do qual se diz, com justeza, que se troca; com efeito, não é ele a forma mais simplificada do contrato social? Que garantias se esforçam por selar essas mãos apertadas à direita, à esquerda, ao acaso, com uma liberalidade que parece preencher uma clara ausência de convicção? Que o acordo reina, que o entendimento social existe, que a vida em sociedade é perfeita? Essa necessidade de nos convencermos disso, de acreditar por hábito, de afirmá-lo a pulso não deixa de ser perturbante.


em Arte de Viver para a Geração Nova, tradução de José Carlos Marques, Lisboa: Letra Livre, 2014, p. 30.

(...)


Fim-de-semana. Manteigas. Festa do Divino Senhor do Calvário. Demasiadas sombras do passado a circular por entre as gentes: uma ex-namorada, uma paixão de Verão, amigos de outrora cuja amizade foi desvanecendo, o constrangimento de um encontro e um aperto de mão seco.

Estados Filosóficos (88)


Também eu sou capaz de ler um livro por dia. Só preciso é de não fazer mais nada durante esse dia.

(...)


Levantei-me cedo. Fui deixar o carro à oficina, para a revisão dos 150 mil. Quando fiz a marcação disseram que entregavam o carro ao fim do dia de hoje. Mas, agora, é ao fim do dia de amanhã. O regresso a casa foi a pé. Sete quilómetros. Para saber se ainda sou capaz. Sou.

Guy Debord


O mundo racional produzido pela Revolução Industrial libertou racionalmente os indivíduos dos seus limites locais e nacionais, pondo-os em ligação à escala mundial; mas o seu contra-senso consiste em separá-los de novo, segundo uma lógica oculta que se exprime em ideias dementes, em valorizações absurdas. A estranheza cerca por todo o lado o homem que se tornou estranho ao seu mundo. O bárbaro já não se encontra nos confins da Terra, está aqui, feito bárbaro precisamente devido à sua participação obrigatória no mesmo consumo hierarquizado. O humanismo que envolve tudo isto é contrário do homem, a negação da sua actividade e do seu desejo; é o humanismo da mercadoria, a benevolência da mercadoria para com o homem que ela parasita. Para quem reduz os homens a objectos, os objectos parecem ter todas as qualidades humanas, transformando-se as manifestações humanas em inconsciência animal.


em O Planeta Doente, tradução de Júlio Henriques, Lisboa: Letra Livre, 2014, p. 31.

Uma Conspiração de Estúpidos - John Kennedy Toole



John Kennedy Toole
Uma Conspiração de Estúpidos
Relógio D'Água
2015

O mau gosto dos dois "autocolantes" é desculpado pelo facto de estarmos na presença de um grande livro. A edição da Terramar ainda circula por aí, e pode ser adquirida facilmente através de uma pesquisa num motor de busca qualquer.

Yves Bonnefoy


Pensamos irresistivelmente nas palavras de Rimbaud: Pais, fostes a minha desgraça e fostes a vossa também! A Sra. Rimbaud foi um ser de obstinação, de avareza, de orgulho, de ódio ocultado e de secura. Uma figura de pura energia, levada por uma fé com ares de beatice, e apaixonada pela anulação e pela morte, a acreditar nas suas extraordinárias cartas de 1900. (…) Digamos apenas que aos setenta e cinco anos pediu aos coveiros que a descessem dentro da cova, entre Vitalie e Arthur mortos, para um antegosto da noite.


em Rimbaud, tradução do texto e dos poemas de Filipe Jarro, Lisboa: Cotovia, 2004, p. 15.

(...)


Depois de um dia de reclusão e de afastamento das coisas mundanas, materiais, eis que saio de casa e decido entrar em duas livrarias, na esperança de aproveitar pontos acumulados (numa delas, afinal, tinham caducado): O Planeta Doente e «Esta má fama...» (Guy Debord, Letra Livre, 2014), Arte de Viver para a Geração Nova (Raoul Vaneigem, Letra Livre, 2014), Mistérios (Knut Hamsun, Cavalo de Ferro, [2ª edição], 2014), Rimbaud (Yves Bonnefoy, Cotovia, 2004). Este último ficou em cinco euros, principal razão para o trazer, a par com o meu fascínio pelo bardo francês.

Versões: Félix Francisco Casanova


Síndrome nº 5

A quem está ao meu lado
exijo, por exemplo,
que não me destrua,
pois não sou nenhuma fénix,
e por favor, se depois de morto
vier visitar-me,
que não me fale dos mistérios.

Félix Francisco Casanova, «Síndrome nº5», Antología poética – Cuarenta contra el agua, Madrid: Demipage, 2010, p. 37

(...)



A principal armadilha do livro é a capacidade de identificação do leitor com o narrador (seja o leitor homem ou mulher), pois na nossa vida há momentos idênticos àqueles que o narrador descreve, desde as angústias existenciais até às conversas pedantes com os amigos, onde nos revelamos ser uns intelectuais do caraças. Depois de ter lido o primeiro volume (A Minha Luta 1: A Morte do Pai), fiquei expectante em relação a este Um Homem Apaixonado, pois dependeria dele a compra do terceiro volume. O autor, neste volume, como que se liberta de todos os constrangimentos (ou assim parece): falar do pai parece ter sido mais difícil do que falar da mulher, dos filhos, e isso nota-se na tentativa de fazer literatura (no primeiro volume) e dessa tentativa (parece-me) ter sida colocada de lado neste segundo volume. Venha o terceiro.

Mula Velha




Arinto, Chardonnay e Fernão Pires

Um poema de Lope de Vega


Que cegueira me trouxe a tantos danos?
Por onde me levaram desvarios,
que os anos como meus não dirigi-os,
e tratei como próprios meus enganos?
Oh porto de meus brancos desenganos,
por onde já os meus juvenis brios
passaram como o curso destes rios,
que não os faz recuar o que é dos anos!
Fizeram fim meus loucos pensamentos,
a minha idade ao tempo se confia,
porventura em alheios escarmentos.
Que não temer o fim não é valentia,
onde acabam os gozos em tormentos,
e o curso de anos e anos num só dia.



em Antologia da Poesia Espanhola do Siglo de Oro, segundo volume – Barroco, selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Lisboa: Assírio & Alvim,1996, pp. 163-165.

Uma imagem para o dia



Diálogos (12)


WILLIAM: Of woman, Thomas Aquinas knew precious little. But the scriptures are very clear. Proverbs warns us, "Woman takes possession of a man's precious soul." While Ecclesiastics tells us, "More bitter than death is woman."

ADSO: Yes, but what do you think, master?

WILLIAM: Well... Of course, I don't have the benefit of your experience. But I find it difficult to convince myself... that God would have introduced such a foul being into creation... without endowing her with some virtues. Hm? How peaceful life would be without love, Adso. How safe. How tranquil. .. and how dull.


em The Name of the Rose (O Nome da Rosa) de Jean-Jacques Annaud (1986)

Um poema de Iuri Jivago


Embriaguez

Sob o salgueiro onde se enleia a hera,
procuramos refúgio da intempérie.
A envolver-nos os ombros um capote.
Em torno de ti cercam-te os meus braços.

Mas não. No abraço as plantas
não se entontecem de hera, mas de embriaguez.
Estendamos então este capote
sob nós em toda a amplidão.


em Doutor Jivago, de Boris Pasternak, tradução de Augusto Abelaira (romance) e de Moura Pimenta (poemas), Porto: Público, colecção Mil Folhas, 2002, p. 569.

(...)


Escrevo ainda com o cheiro do borrego assado nas mãos. A partir de certo momento o borrego tem de ser comido à mão. De outra maneira perdem-se os pedaços mais saborosos, aqueles que estão agarrados ao osso. Qualquer apreciador de borrego sabe isso. E na boca o sabor ao vinho do porto caseiro que bebi. Como digestivo. Comprei-o em 2003 a um colega. Ainda hoje está bom. O almoço foi regado com vinho branco. Pelo menos o meu: Mil Caminhos. Já bebi melhor. Mas por dois euros e meio, a garrafa, não se pode pedir muito. Tudo isto para celebrar setenta anos de vida. Um vida preenchida. Parte dela passada numa fábrica, no deve-e-haver de um escritório. Mil novecentos e quarenta e cinco: ano das duas bombas atómicas. Cresci a saber isso. Setenta anos. É uma vida.

50 livros + 44



Regresso por uns dias a Manteigas. Bashô foi, durante muito tempo, o meu poeta de cabeceira. Ele e os outros mestres japoneses. A contenção, a surpresa, a limpidez: tudo características que aprecio na poesia de Bashô (ou noutro qualquer autor). Os primeiros poemas que lhe li foram na colecção Gato Maltês. Depois, mais tarde, comprei este O Gosto do Orvalho seguido de O Caminho Estreito, com versões e introdução de Jorge Sousa Braga. O Caminho Estreito é um livro fantástico, de uma simplicidade zen assutadora, onde o pouco se converte em muito. Bashô tem essa capacidade: dizer tudo em três versos; dizer tudo em duas ou três linhas.