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Tudo o que agora vais ler, leitor, já o leste aqui também. Nada de novo, portanto. Como vem sendo hábito. Mas há pouco, enquanto sobre a cama deste quarto com marquise contemplava o tecto, pensei no facto de os prédios serem quase todos iguais nas suas rotinas. A esta hora, leitor, aqui ouvem-se portas a fechar. Nada de crianças a rir, que aqui é tudo muito sério. E, verdade seja dita, não há crianças para nos alegrarem com as suas gargalhadas. Embora, às vezes, não exista lá muita vontade de as ouvir. Mas, ouvir uma criança rir é sempre bom. Não é, leitor? Mas, dizia eu, os prédios têm todos as mesmas rotinas: depois da correria da manhã existe a calma do meio da manhã. Aqui, neste prédio, isso também acontece. Ou, então, a construção é muito boa, pois nada se ouve. Penso que nunca ouvi um único vizinho. Nunca ouvi, disso tenho a certeza, passos no andar de cima, mesmo sabendo que está habitado. Nunca ouvi a televisão dos vizinhos do lado. Nem o rádio do vizinho de baixo. Cães, se os há, não ladram. E gatos: bem, leitor, já sabemos como são os gatos. Tudo isto, leitor, para te dizer o mesmo de sempre: nada de novo: nem as três ambulâncias que, ainda há pouco, passaram ali na alameda.

2 comentários:

Isis Araújo disse...

Boa noite, Manuel. Chamo-me Isis, tenho 29 anos e te leio do Brasil. Habito o Sul do Sul, quase na fronteira com o Uruguai. Nossos costumes, a bem da verdade, são mais próximos aos dos hermanos castelhanos do que aos das demais regiões brasileiras. Habitamos a estética do frio de Vitor Ramil (poeta e músico "sul-brasileiro") entre pradarias frias, ruas úmidas e milongas cinzentas. Ano passado descobri a poesia de Herberto Helder, e, como uma coisa leva a outra, aqui estou. Gostaria de registrar que tua escrita revela rigor, profundidade e clareza, exatamente como nossas milongas e como o ritmo da vida que aqui fazemos existir. Agrada-me.
Mando um presente da minha terra. Assim retribuo as boas coisas que aqui encontrei: https://www.youtube.com/watch?v=cnTBNE7xlOE

manuel a. domingos disse...

Cara Isis:

grato pelas suas palavras e pelo magnífico presente, que desconhecia por completo.

Bem-haja