(...)


Ontem: ao meu lado, no comboio, alguém opina sobre tudo e mais alguma coisa. Lugar comum atrás de lugar comum. E, de repente, revejo-me no discurso. Assusto-me. Hoje: peço iscas de fígado à espanhola, uma Sagres. Ao meu lado um taxista comenta — este aqui quando trabalhava ali na praça tinha um ar mais macho… agora é pólos cor-de-rosa e o catano…. tem um piquinho a azedo — e eu, na mesa ao lado, também de pólo cor-de-rosa.

Pensamento do dia



Dave Holland Quartet
Conference of  the birds
Conference Of The Birds
1973

(...)


No outro dia, enquanto esperava pelo IC, lia Dostoiévski e os seus Karamázov. Cheguei àquele ponto em que o leitor enfrenta dois capítulos terríveis: Revolta e O Grande Inquisidor. Li-os em sobressalto e, no final, atrevi-me a concluir que parte de toda a literatura do século XX está ali resumida. 

Um poema de Manuel Filipe


Roca


Soube de um homem
muito distante com seu cancro terminal
que para si próprio destinou
― serei cremado
e o que de mim restar
por meus amigos dispersado
lá onde a Europa acaba
abruptamente ―.

Mas quis o destino
(o levíssimo cacimbo
e o vento adverso)
que fossem as cinzas reacambiadas a Yokohama
coladas a impermeáveis japoneses.


em Piolho [Revista de Poesia], Porto: Edições Mortas/Black Son Editores, nº 3, Dezembro 2010, p. 18.

(...)


Saí de manhã para beber a bica no lugar de sempre. Ao abrir a porta do prédio um bafo quente atingiu-me a cara. As árvores na alameda agitam-se ao sabor do vento, mas não há brisa fresca que se sinta. A noite até que nem foi má. Acordei várias vezes. Logo adormeci. Não me lembro de noites seguidas sem acordar. Nos últimos tempos têm sido, praticamente, inexistentes. E é nessas alturas que penso em cursos de escrita criativa. Em primeiro lugar: o termo curso é abusivo: concluo. Em segundo lugar: escrita criativa é um termo levado da breca: concluo. Depois penso no dinheiro que os promotores dos cursos levam às pessoas, com a promessa de serem, um dia, escritores, quando eles próprios (os promotores) têm dificuldade em ser escritores e frequentam cursos de escrita criativa promovidos por outros escritores. Escritores? Não: profissionais da escrita. Aí é que está a diferença. Só que depois dá-me o sono e adormeço.

Uma imagem para o dia



50 livros + 43



Recordo-me que estava com febre quando o comecei a ler. E que a febre ainda não tinha passado quando o terminei. Não sei se as duas coisas estão relacionadas. Ora o terrível dinamarquês, como lhe chamo, acompanhou-me durante algum tempo. Depois tive que deixar de o ler. Não me andava a fazer bem. 

(...)


Esta coisa da existência. Ou: está coisa de persistirmos nela. Em existir. Sei que o sol, hoje, brilhou com força. Senti-o no meu pescoço quando lhe virei costas. Queimou. E temos de aproveitar estes dias, não é?, pois parece ser das poucas coisas que levamos desta vida. Os dias bons, as boas recordações, os bons momentos. Mas quem é que quer levar alguma coisa desta vida? Eu, sinceramente, quero cá deixar tudo. Não quero ir carregado. Leve de preferência. É por isso que as vivo todas agora, para cá ficarem. Levá-las comigo? Não, porra. Foram vividas cá e é cá que ficam.

Ensino Recorrente



António José Forte




Não sei se o poeta ouvia Charles Mingus. Talvez as suas preferências fossem outras. Mas sei que o poeta viveu em Lisboa. E eu ia escrever "na mesma Lisboa que hoje me acolhe", mas interrompi a tempo os dedos no teclado, pois nem Lisboa é a mesma, nem me acolhe. O poeta é muito cá de casa. Lembro-me de pela primeira vez lhe ler os versos numa antologia, cujo nome esqueci. Foi numa Biblioteca Fixa. Logo ele: que sempre gostou mais das Itinerantes. Nunca vi uma daquelas famosas carrinhas carregadas de livros. Sempre fui à biblioteca lá de Manteigas. Era fixa, apesar de ter mudado de lugar algumas vezes. Não sei se o poeta alguma vez foi a Manteigas. Sei, apenas, que eu, em Manteigas, fui, muitas vezes, até ele.

(...)


Tudo o que agora vais ler, leitor, já o leste aqui também. Nada de novo, portanto. Como vem sendo hábito. Mas há pouco, enquanto sobre a cama deste quarto com marquise contemplava o tecto, pensei no facto de os prédios serem quase todos iguais nas suas rotinas. A esta hora, leitor, aqui ouvem-se portas a fechar. Nada de crianças a rir, que aqui é tudo muito sério. E, verdade seja dita, não há crianças para nos alegrarem com as suas gargalhadas. Embora, às vezes, não exista lá muita vontade de as ouvir. Mas, ouvir uma criança rir é sempre bom. Não é, leitor? Mas, dizia eu, os prédios têm todos as mesmas rotinas: depois da correria da manhã existe a calma do meio da manhã. Aqui, neste prédio, isso também acontece. Ou, então, a construção é muito boa, pois nada se ouve. Penso que nunca ouvi um único vizinho. Nunca ouvi, disso tenho a certeza, passos no andar de cima, mesmo sabendo que está habitado. Nunca ouvi a televisão dos vizinhos do lado. Nem o rádio do vizinho de baixo. Cães, se os há, não ladram. E gatos: bem, leitor, já sabemos como são os gatos. Tudo isto, leitor, para te dizer o mesmo de sempre: nada de novo: nem as três ambulâncias que, ainda há pouco, passaram ali na alameda.

Discos pedidos (159)




para o Ricardo Ribeiro, 
que passou no teste.


Considero o seguinte: quem não se emocionar com os primeiros catorze segundos de No Private Income Blues: não merece o meu respeito. E só peço isso: os primeiros catorze segundos; mais nada. Não peço os doze minutos e cinquenta e quatro. Só peço os primeiros catorze segundos. E, verdade seja dita, poucos são aqueles que se emocionam e passam no teste. Mas muitos há que não se deixaram ficar pelo caminho e dançaram comigo ao som do contrabaixo de Mingus, ou bateram o pé ao ritmo do saxofone tenor de Booker Ervin. São esses que ainda hoje recordo. E ainda hoje danço com eles na memória. E enquanto escrevo estas linhas o meu pé bate no chão. Os vizinhos, esses, não devem estar lá muito contentes.

Ensino Recorrente



Discos pedidos (158)




Mystery lights keep the dark inside
This Mortal Coil


Atravessas os dias como quem atravessa uma espécie de deserto. Nada te devolve a um outro tempo, lugar. Poderás dizer: Era um corpo insinuando a morte*: mas a verdade é que todo ele era vida. E tu sentiste toda essa vida na ponta dos dedos e na ponta dos dedos ficaram restos de luz, ou sombra, ou algo. E esse algo nunca poderá ser nomeado, porque se lhe deres um nome: perde-se.



*António Quadros Ferro

Reverso (8)




É, provavelmente, a melhora versão que algum dia ouvi. Quando em 2001 Tori Amos lançou o álbum Strange Little Girls (todo ele de versões), poucos seriam aqueles que estavam prontos para ouvir Raining Blood na sua voz. Onde Araya é violência, Amos é sensualidade (o que não é novidade nela); onde Araya é trash, Amos é pura melodia. O desafio não podia ser maior. Ouçam e confiram.

António Quadros Ferro


Nunca escrevi um poema sobre o jogo do berlinde mas quase
que posso jurar que o último que joguei, entre pinhais, para
sempre interrompido pela chuva, ainda se joga às metades.

em Ou a Empatia, Lisboa: Artes e Letras Atelier, 2015, s/p.

50 livros + 42



Se faltam provas: leia-se. Neste caso leia-se Dostoiévski. Seja este livro, ou outro qualquer. O russo, como poucos, entendia-nos muito bem. E verteu esse entendimento para o papel e os livros ainda andam por aí. Nunca irão estar fora de moda. Este livro, principalmente, foi dos primeiros que lhe li. A par com Recordação da Casa dos Mortos e Noites Brancas. Depois, mais tarde, ataquei os grandes romances (ando ali às voltas com os dois volumes dos Irmãos). Penso que será uma boa introdução à escrita deste autor. Se faltam provas sobre a "bondade" humana: leia-se.

(...)


A verdade é que tudo isto é um desacreditar diário. Poucas coisas há nas quais acredito. E não vou estar para aqui a enumerá-las, de tão óbvias que são. Mas como acreditar? O que leva alguém a acreditar, por exemplo, na bondade humana, na sua possibilidade? Sei que é um lugar comum toda esta conversa, apesar de todos os dias compreendermos melhor os lugares comuns, a sua razão de existir: de tão comuns que são. O problema é que um lugar comum corre sempre o risco de se banalizar. Tal como uma mentira mil vezes repetidas: tem fortes probabilidades de se converter em verdade. Resumindo e concluindo: não é fácil acreditar. E com isto não quero dizer que desacreditar é fácil. Nunca é fácil perder seja o que for.

Uma imagem para o dia



(...)


Cada vez leio menos blogues. Cada vez leio e releio mais o meu blogue. Leio e releio. Penso que nada do que digo é novo, interessante e dou razão a todos os anónimos que por aí andam à procura de atenção, de mimo, de uma palavra amiga. Leio e releio. E concluo que ando a perder tempo com nada. Pois, essa é a verdade, tudo isto é nada. Nada. 

Discos pedidos (157)




Ligas o computador e a morte aparece no ecrã. Sabes que há milhares, milhões de mortes que te passam ao lado, mas basta uma que não te passe, permaneça, para pensares em tudo novamente, mesmo sabendo que será um exagero fazê-lo à conta de uma notícia. A tarde, afinal, ficou um pouco mais triste. E também nisso todo o exagero que é costume e teu. Vais até à janela. Ouves um pouco mais tudo o que se passa à tua volta. E pensas no saxofone de plástico. E como nele aprendeste a ouvir melhor os dias.

Ornette Coleman (1930-2015)



Ornette Coleman
1930-2015

Joaquim Manuel Magalhães


O que aconteceu às editoras portuguesas? O menos que se pode dizer é que estão moribundas. Não me refiro àquelas que continuam a exercer o seu ofício de meretrizes promocionais, difusoras de uma soldadesca da escrita a baloiçar entre o livro escolar mal amanhado e o pechisbeque de droga e de sexo e de ocultismo com mãos cheias de sensacionalismo. Não  me refiro sequer a essas outras que se preocupam apenas com o assegurado, com as Obras Completas de autores com amplas bases partidárias de apoio; ou com livrinhos em fragmentos de rodapé que já são feitos expressamente para prenda, para caberem no sapato, estreitinhos e metediços, como convém.
     Refiro-me à tentativa de lançar morte a essas outras editoras que resistem, que buscam a infiltração do novo, do diferente, do que não tem êxito assegurado à partida. O cerco financeiro, as pressões bancárias, as sacanices das distribuidoras são outras tantas tentativas de neutralizar esses espaços que não obedecem aos empórios editoriais, às regras de dominação de mercados, à banalização de leituras.


em Os Dois Crepúsculos - Sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas, Lisboa: A Regra do Jogo, 1981, p. 362.

(...)


E lá fui à feira do livro de Lisboa. E lá confirmei aquilo que temia: que é, de facto, uma feira. Mas o que mais me assustou foi ver aquela terrível foto de Herberto Helder aumentada exponencialmente (e digo terrível porque, na minha opinião, é muito má) ao lado da fotografia de Saramago e, mais à frente, a de José Luís Peixoto e de José Eduardo Agualusa. Concluí: estão todos no mesmo saco (porque estão todos no mesmo grupo editorial). Ou, pelo menos, é isso que nos querem dar a entender. Já não basta ir a uma livraria generalista e ver Céline ao lado das Sombras; ou ver Camus ao lado de Isabel Allende e Paulo Coelho. Agora podemos ir a uma feira do livro e confirmar que, para um grande grupo editorial, Herberto e Saramago estão no mesmo patamar de José Luís Peixoto e José Eduardo Agualusa. Mas, como é óbvio, isso não é novidade nenhuma. Eu é que ando muito distraído.

Herberto Helder


     Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência.


em Servidões, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013, p. 13.

(...)


Acordo tarde. Abro o estore e as janelas da marquise. Do outro lado da rua há escuteiros a vender calendários e canetas (é o que me parece daqui). Há, também, uma breve e leve brisa a sacudir os ramos mais altos das árvores da alameda. Nos prédios em frente não se vê ninguém. Nunca lá vi ninguém, nem luz à noite. Olho para tudo isto com o espanto dos dias comuns, iguais a este. Digo de mim para mim: bom dia da (desg)raça.

Pensamento do dia



Morphine
The Night
The Night
2000

(...)


Passeio pelas ruas vazias. Nunca pensei escrever isto sobre uma cidade. Nas janelas a luz branca das cozinhas, palavras fechadas em alumínio. De repente, surge uma ambulância toda aflição e sobressalto. Atravesso o largo que atravesso todos os dias a caminho do trabalho. E faltam-lhe os bancos em cimento. Só as três meias luas, marcadas no chão, são prova de que algo estava naquele lugar. Neles sentavam-se arrumadores e amigos. Litrosas e amigas. Logo pela manhã. Não consigo deixar de pensar: alguém terá deles feito queixa? Continuo a caminhada. A alameda deserta de gente. Um ou outro carro passam por mim. Nada de novo. Dou mais uma volta ao quarteirão. Tudo na mesma. Nada de novo. Agora entendo melhor o spleen

Tonino Guerra



Regresso a ti, Tonino. Com a mesma melancolia que aprendi nos teus poemas. Regresso. E em cada linha há o ar que se renova e cheira a terra molhada. Ou, então, a um campo cheio das mais diversas flores. Há, também, uma sombra ali mesmo, ao virar daquela esquina. Na sua frescura há um homem sentado a contar histórias. Umas de amor, outras de morte: que é, resumidamente, a mesma coisa. 

Discos pedidos (156)




O sol bate na parede e o branco fica mais branco. O gato dorme iluminado pela luz. Ao fundo os carros passam e o seu som mal se ouve. Parece que nada foi deixado ao acaso, como num quadro de Hopper. A salada de tomate espera-te à mesa do almoço. Coração de boi, dizem-te. Procuras ler um ou dois poemas do último livro que compraste, mas o gato iluminado pela luz prende o teu olhar. De momento, não há poesia que te interesse.

Eugénio de Andrade


XXXVIII

Para a brancura das aves já é tarde,
só a morte não morre deste lado do muro,
só a morte
não põe fogo às suas naves.

Por um rasgão do céu uma luz baça
escapa-se da ferida,
mal iluminada a mão vacilante,
pelo chão entorna o mel.

É na orla da noite
que as veredas desatam os nós,
e uma voz de criança
suplica um fio para atar o silêncio.

Ou a palavra — lugar de esquecimento.


em Branco no Branco/Contra a Obscuridade, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 5ª edição, 1993, p. 50.

50 livros + 41




Foi, talvez, o primeiro livro que li de Joaquim Manuel Magalhães. Em 2003 estava em Silves e a Biblioteca Municipal serviu o seu propósito. Li o livro e, mais tarde, consegui comprá-lo (já depois da obra definitiva ter sido estabelecida pelo autor e do choque ter passado). Gosto muito deste livro, principalmente dos seus Escritos Militares, que não são muito abonatórios do 25 de Abril de 1974, principalmente no que diz respeito aos "escritores": «E, ao fim, um outro disse que maior/era um outro que tinha tido mais prisão./Já mediam o estilo à grade.» (p. 100). Ou então: «À tarde, com o Carmo em tumulto,/fui cumprir o artigo semanal/ao Diário de Lisboa. «Agora já pode/deixar em paz os poetas ingleses./Fale do Aquilino e do Redol.»/Era a segunda confusão, mas de outro/mercado. Os antigos perseguidos/preparavam-se para entrar no avesso/das ordens. Já gaguejavam poder./Não lhe deixei o artigo. Os ingleses/não eram a metáfora política de qualquer/disfarce. Ó camarada, como me chamava.» (p. 90). É claro que o livro não são só os poemas desta secção. Há ainda: «Os teus olhos vêm para os meus/com a água da paz de termos visto/o mesmo arco de vida atravessar/o lugar onde estávamos sozinhos» (p. 18); ou: «O lugar onde digo eu/faz de ti um estrangeiro./O espaço onde tu és livre/de eu poder sobre ti poder/faz de ti um estrangeiro.» (p. 71). E por aí em diante.

(...)


Sirvo-me de café e de Charles Mingus. O gato, lá fora, ocupa o lugar que é dele, pois todos os lugares são dele. Ter um gato é isto: sentir que a casa passou a ter novo senhorio, que o inquilino, agora, somos nós. Entretanto o sol dá um ar da sua graça, mas há uma brisa fresca que percorre o terraço. Vou até lá fora e bebo o café. O gato olha para mim. Mia.