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Por esta altura do ano lectivo, o programa de Português obriga a "dar" o Texto Poético, o que faço com muita dificuldade, pois nunca me sinto muito bem a "ensinar" poesia a ninguém, muito menos a crianças que vêem a poesia como uma coisa chata e aborrecida, de gente que não tem mais nada para fazer (e, talvez, não estejam assim tão errados). Os manuais são muito pobres no que diz respeito a poesia e a poemas que sejam atractivos. O único poema que lembro despertar algum interesse nos alunos é o batido Trem de Ferro, de Manuel Bandeira,  que tem sempre sucesso. O resto é um resumir de conceitos: verso, estrofe, rima, sílabas métricas e por aí em diante, passando pelos recursos expressivos como a metáfora, comparação e anáfora. A poesia é apenas escrita. Poucos são os manuais que exploram a vertente visual e, ainda menos, a vertente sonora. No entanto, todos os anos tento contrariar isto (gaba-te cesta) e procuro tornar as aulas um pouco mais atractivas. Entre as várias estratégias que utilizo (visualização de poesia visual e audição de poesia sonora [com a qual os alunos deliram]), construir cadáveres esquisitos simples, mas eficazes, é uma boa estratégia. Foi o que aconteceu hoje.


A tarefa é simples: peço aos alunos que sigam, apenas, a seguinte regra: sujeito + adjectivo + verbo (terceira pessoa do singular) + complemento directo. Os mesmos são escritos em papéis diferentes e cada função sintáctica/classe de palavras é agrupada. Por vezes o complemento directo não é respeitado: entra aí o jogo de cintura e o "verso" não deixa de ser escrito. Depois, peço a cada um dos alunos para retirar um papel, de cada um dos montes, e ler em voz alta. De seguida, escrevem o que leram no quadro, respeitando a ordem estabelecida. E ficamos a saber coisas verdadeiras como: O poeta pequeno comeu um osso ou O poeta coxo comeu um osso (parece que têm uma queda para comer ossos, os poetas, sejam eles pequenos ou coxos).


Ou então que O cão mau dorme um cão. Ou, ainda, que O Boby pequeno brinca um texto narrativo. O objectivo é o lúdico, entrar na poesia através dessa porta, colocando de lado qualquer tipo de constrangimento (como o poema lamechas ou demasiado infantil [como é hábito encontrar nos manuais]),


pois poucas coisas provocam o riso, mas O filho estupendo bebe bolos é uma delas. Ou então, depois destes escritos no quadro, um que saiu assim em voz alta: O bêbado gordo foge um traque.


3 comentários:

José A. disse...

Fixe!

bea disse...

Ou isto tem continuação ou os garotos ficam com uma ideia um bocado arriscada da poesia.

hmbf disse...

Gostei muito. É uma excelente forma de atrair os miúdos para o universo poético. E estão aí soluções de fazer inveja :-)

ah ah ah ah, agora saiu vinho no robô. acertei :-))))