(...)


Está muito calor. Lisboa cheia de sol e quente é outra cidade. Com a greve do metro é o caos. Mas outra cidade. Apanhei um autocarro até ao Marquês (por aqui ninguém diz Marquês do Pombal) e fiz o resto do percurso, até à Baixa, a pé. Bebi uma cerveja pelo caminho e uma ginja no número sete das Portas de Santo Antão (cumprir o cliché faz sempre bem). E ainda tive tempo para um branco da região do Tejo. Fresco e frutado. Muito bom. Uma agradável surpresa: Badula. Cá dentro (uma daquelas garrafeiras que agora estão na moda, pois é necessário fazer o culto do vinho; como se nós, portugueses, precisássemos de tal coisa) está mais fresco do que lá fora e, a bem da verdade, o vinho também ajuda. O copo saiu a dois euros, o que não é nada barato. Mas penso que mereço. Peço outro. E passados alguns minutos o vinho começa a fazer efeito. Pudesse sempre andar nesta espécie de letargia. Só que a questão, a verdadeira questão, aquela que me é colocada todos os dias: posso? A resposta é simples: sim. Devo? Aí é que a porca torce o rabo. É nesse momento que penso naqueles que passam o dia a litrosas e a vinho de pacote. Tudo à temperatura ambiente, que no supermercado não há nada fresco. Penso na vida que levam entre os intervalos a arrumar carros e as baguetes de atum com óleo e tudo. E olho para eles e as barrigas dilatadas, a pele estragada, o olhar turvo, a boca destravada — é uma puta sim senhor! e não há mais puta do que ela! a cabra deve-me cinco paus desde Janeiro — enquanto o braço arruma o BM topo de gama que lhe estende a moeda necessária. Penso-os e penso-me. Uma porra, é o que é.

Pensamento do dia



Roberto Goyeneche & Astor Piazzolla
Garúa
Teatro Regina de Buenos Aires
1982

(...)

Podes sempre fingir que não vês
nem ouves o céu sulcado de enjoo,
os gritos mortais das crianças

Manuel de Freitas


Enquanto estendo a roupa que a máquina acabou de lavar, ouço gritos de rapazes e de raparigas, que passam a toda a velocidade de bicicleta numa das faixas da alameda. Gritam, riem, falam alto e neles toda a juventude. A verdade é que não me lembro de andar de bicicleta pela rua a desoras. Sempre fui muito cumpridor. Um dia até escrevi para o mensário da terra sobre as “crianças” que à noite andavam de bicicleta, sem qualquer elemento reflector que os identificasse, nem uma luz de presença. Tive pais que se insurgiram contra mim, pois queriam que eu mencionasse o nome das “crianças” — pois a minha nunca faria uma coisa dessas — e o discurso do costume. Mas lá estendi a roupa. Cumpri com as tarefas domésticas, essa arte tão menosprezada por tantos. É noite. Recolho-me. 

Reverso (7)




Quando os Nouvelle Vague apareceram com a sua versão de In a manner of speaking, poucos eram aqueles que conheciam o original dos Tuxedomoon e, muito menos, a versão de Martin L. Gore. Enquanto que a primeira (dos Vague) remete o ouvinte para o calçadão, a versão de Gore remete o ouvinte para a urgência de se dizer o que tem de ser dito, sem grandes rodeios. O ambiente criado pela versão de Gore é muito mais próximo da soturnidade do original dos Tuxedomoon. É claro que uma versão, de preferência, deverá remeter para um outro lugar. Mas nunca poderão ser esquecidas as raízes.

50 livros + 40



A poesia de Manuel Fernando Gonçalves chegou-me pela mão de Paulo da Costa Domingos quando, um Sábado pela manhã, andava eu na Anchieta à procura de poesia para ler. Houve um braço que se esticou e me fez chegar o Caos. Depois, nunca mais parei de procurar os livros do autor. A poesia de Manuel Fernando Gonçalves existe no confronto com a realidade e com as palavras que essa realidade devolve. É uma poesia densa, da penumbra. Existem poucos textos críticos sobre ela. Manuel Fernando Gonçalves não se dá à troca de galhardetes e depois os "críticos" encartados esquecem os seus livros. Leitores, provavelmente, não lhe faltam.

Uma imagem para o dia



(...)


Ontem o comboio da Beira Alta teve um atraso de 39 minutos. Devido a isso, o meu comboio saiu com um atraso de 10 minutos e veio todo o caminho atrás do primeiro, o que se saldou num atraso, à chegada, de 20 minutos. Isto, porque, em Vila Franca de Xira, entraram no comboio três rapazes sem bilhete e que andaram a correr de carruagem em carruagem a fugir do revisor e a rir alto — és um palhaço! és um cabrão! — passando duas vezes pelo meu lugar e à terceira estiquei a perna e rastejei o primeiro que se estatelou no chão com os outros dois a passarem por cima. Ficou incrédulo a olhar para mim mas logo se levantou e desatou a correr. Foram cinco minutos nisto. Não voltaram a passar pelo meu lugar.

Pensamento do dia



Low
Lullaby
I could live in hope
1994

(...)


Com a greve do metro tive de andar de autocarro, experiência que não tinha desde os idos de 98, quando depois de uma noite de copos no Bairro Alto tinha que fazer o percurso a pé até Entre Campos, para aí apanhar o último autocarro para Odivelas. Como seria de esperar os autocarros andaram, todo o dia, cheios. No regresso, e depois de apanhar o 736 no Rossio, tive de sair no Campo Grande, pois não aguentei tanto nervosismo num lugar tão exíguo, e fazer o resto do percurso a pé. Mas ainda tive tempo para uma paragem de reabastecimento: prego e cerveja. Só que escolhi, talvez, o local mais deprimente de toda a cidade. Um lugar (não digo tasca, pois seria ofensa para as tascas) onde passavam versões reggae dos últimos êxitos pop (já tinha ouvido versões bossa nova, mas nunca reggae). Ao meu lado, alguém, como eu, bebia uma cerveja e comia couratos, ou algo parecido, enquanto olhava absorto para a televisão, lambendo, de quando em vez, os dedos besuntados. Comi o prego (sofrível), bebi a cerveja (fresca) e fiz-me ao caminho.

50 livros + 39




No Verão passado li este livro e fiquei banzado. Isabel da Nóbrega escreveu um livro fantástico e que, analisando bem as coisas, continua actual, pois a sociedade portuguesa não mudou assim tanto em 40 ou 50 anos. O livro é todo em discurso directo. Ficamos a conhecer as personagens através das outras personagens e não pela voz de um narrador em voz off . O livro ainda por aí circula e pode ser encomendado na sua mais recente edição. Eu tenho a segunda: — E deixem-me que lhes diga que isto de amar por “mandamento”, ser necessário um mandamento para amar... o próximo, o nosso vizinho, os nossos irmãos... sempre me pareceu suspeito.... (p. 73).

(...)


Levanto-me com a cara inchada, os dedos das mãos inchados. A cidade lá fora acordou há muito. Será que dorme? Talvez seja exagerado dizer que não, que não dorme. Afinal, não estamos em Nova Iorque. Há uma leve brisa a agitar as árvores na alameda. Quando não há vento forte, há sempre uma leve brisa. Os cortinados do quarto agitam-se ao seu sabor. Refrescam o quarto quente, abafado da noite. A dose de coragem líquida já percorre as veias e começa a surgir uma outra disposição. Falta o imperativo duche. Mas, antes, a máquina-de-lavar deve cumprir a sua função. Nos prédios em frente não se vê movimento. Nunca lhes vi movimento. Nem uma luz acesa à noite. E, também, nunca pensei muito nisso. Não é agora que o vou fazer.

Pensamento do dia



Joy Division
Digital
Substance
1991

Discos pedidos (155)



Those with habits of waste,
Their sense of style and good taste,
Of making sure you were right,
Hey don't you know you were right?

Joy Division



Para quê falar das ruas e das suas luzes? Para quê repetir o preto das nossas roupas? Tudo poderá ter começado num quarto como este. Só que havia uma montanha frente à sua janela, em vez de prédios, em vez do ruído da cidade que, naquela altura, desejavas habitar. Hoje, ao pensar nisso fechado neste quarto com marquise, esboças um sorriso, pois vês-te no meio da cidade onde as ruas escuras dão a conhecer casas que parecem ser sempre as mesmas, e onde os rostos também parecem ser sempre os mesmos. E por mais que te debatas com o silêncio que te começa a envolver em linhas de baixo, nada podes fazer.

Um poema de Susana Araújo


Caixa de velocidades

O carro arde, é
verão, falha-me
a embraiagem
(confesso que
tenho medo).

É por Monsanto que
sigo para recuperar
no opifício do comercial
centro a celeridade e
beijar as montras do 
auto-conhecimento.

Faço aquisições, toco
na pele do pêssego.

Posso porque conheço
tão bem o curso que
me transporta para o 
nível menos um
como a família
de feudatários
da qual descendo.
Respiro o condicionado
ar e a consolação de
um austero estacionamento.

Está escuro
está fresco
reina o silêncio.

Regresso ao vermelho
lugar e espera-me
aí ar gasoso e suspenso

o garagista com olhos de Cristo
e é com mãos nos bolsos
que me aponta
o dedo.

De mão dada com
o meu saco plástico,
não me mexo.

De olhos fechados
conto até três
(como Ele pode)
mas é ponto
assente:
Pulverizados podem
seguir outros corpos
em nuvens isentas
financeiros túneis ou
vias rápidas mas
face ao ultimato
não concedo

Penso em nós 
súbditos amantes
no fundo do
saco de polietileno 
e simplesmente

não desapareço.


em Caderno 3: Poesia (AAVV.), Lisboa: Enfermaria 6, 2015, pp. 68-69.

Uma imagem para o dia



Vergílio Ferreira


Porque não abrimos uma falência brusca e comerciamos ainda com a vida num comércio de papéis. E é só a um instante lúcido e fugidio, que o papel se nos revela na sua inutilidade de papel. Findou em nós o trabalho das gerações e os nossos filhos não têm pais. Calaram-se em nós as últimas palavras de amor e os nossos filhos só conhecem a saturação do prazer. Acabou em nós todas as religiões e todas as anti-religiões, que eram religiões do avesso, e a nossa herança a transmitir é apenas o desespero ou o silêncio. Turbou-se em nós a certeza da justiça e a instituição que legámos é apenas a do cárcere, com o preso e o carcereiro em papéis alternados e permutáveis. Perdeu-se em nós a segurança do saber, e a tranquilidade dos sistemas oscilou em inquietação. Quebrou-se a firmeza do afirmar, e dela regressámos para antes de ser firme. Corroeu-se em nós a ideia de beleza e o que amealhámos para herança foi só quanto muito a beleza do horrível.
E no entanto, na humildade do desastre, uma flor nova irrompe — nova. Como a primeira flor ao vento sobre a face da Terra. Porque nós estamos vivos e toda a grandeza assim se nos mantém. Estamos vivos, sabemo-lo. O facho de luz que de nós se projecta, a nós regressa e ilumina — ilumina o que não desejamos destruir. Falo no centro da noite, é a hora que me coube, a minha hora.


em Invocação ao meu corpo, Venda Nova: Bertrand Editora, 3ª edição, 1994, pp. 17-18.

Um poema de Ivone Chinita


Poema tremendo


do tremendo poema que já fiz
ou antes do tremendo poema ficaram
gestos pouco diluídos
no ar pesado para respirar
como cinzenta era a ilha
e tremenda a solidão dos passos
deslocados sob os pés de
marinhante

a tristeza da criança
sentada ao meu lado
ocultando as nódoas da blusa

a roupa inevitável pendurada
nas cordas
a dor nas costas da mãe
lavando uma vida toda
lavando uma vida toda

mas tremenda, tremenda mesmo
é esta tarde parada
em que não temos coragem
de soprar no vento


de Outra versão da casa (1981) inserido em Sempre disse tais coisas esperançado na vulcanologia – 12 poetas dos Açores, Organização e notas de Emanuel Jorge Botelho, posfácio de Luís de Miranda Rocha, s/l: Gota de Água/Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, p. 94

(...)


Está aqui tanto vento como Buarcos em pleno Agosto. Falamos do facto de isto agora ser Alta de Lisboa, quando antes era Musgueira. Um colega diz — antes os problemas estavam na horizontal, agora estão na vertical — e eu olho para os prédios à minha volta e sou obrigado a concordar, mesmo sem ter conhecido os problemas horizontais. Às vezes a escola parece saída de um filme que retrata a vida do Sul de Los Angeles. E pouco falta: os garotos usam camisolas e bonés alusivos a equipas de basquetebol da NBA e as garotas lenços na cabeça, que imitam o mexican-style que vêem em filmes pouco aconselháveis. No café onde almoço entram dois garotos que insistem e insistem que o funcionário lhes dê pastilhas. . Tem moedas nos bolsos, já as mostraram. Mas querem que as . Eu acabo a minha refeição. E saio.

Uma imagem para o dia



António Reis




Há muito que ando para escrever um texto sobre António Reis. Conheci os seus poemas através de António Cabrita. Até esse dia António Reis era apenas mais um cineasta português cuja obra eu ignorava e, a bem da verdade, continuo a ignorar, apesar de ter visto Jaime. Mas os seus poemas são algo diferente. Por onde começar? Agrada-me, principalmente, a "verticalidade", isto é, o "desenho" que criam na página. Depois: os temas: o mais quotidiano possível. E António Reis tem essa rara capacidade de captar em palavras aquilo que só as imagens conseguem transmitir. Os seus poemas são muito cinematográficos. Pequenas cenas do dia-a-dia, da vida comum. Uma reedição seria, talvez, necessária.



(...)


Parece que é  Dia da Espiga. Em algumas terras é feriado municipal. Aqui a vida decorre com normalidade. Tudo continua na mesma: carros passam, pessoas atravessam-se a frente deles, há gritos e palavrões, os arrumadores fazem o que fazem e a moeda lá cai para a necessidade. Mas eis que numa esquina alguém vende "espigas": um ramo com espiga de algo, mal-me-quer, papoila e ramo de oliveira. Ouço uma explicação para a escolha. Não fixo. Aposto que tudo aquilo me causa alergia. Por isso dispenso. 

Discos (154)




Why's everybody actin funny?
Why's everybody look so strange?
Why's everybody look so nasty?
What do I want with all these things?

Galaxie 500



No outro dia tropecei, por acaso, numa música dos Galaxie 500: Strange. E rapidamente fui transportado para esses anos iniciáticos. Na residência de estudantes, poucos eram aqueles que partilhavam os meus gostos musicais. Poucos tinham paciência para ouvir aquilo que eu ouvia — essa música é uma merda, pá, só sabes ouvir merda, pá — e lá tinha de desligar o leitor de cassetes. Mais tarde conheci um pequeno grupo de pessoas, dessas que percorrem os corredores dos Liceus nos lugares de penumbra. Fui introduzido no grupo e tudo mudou. Para melhor? Não sei. Ainda hoje tenho dificuldade em saber se algum dia fiz uma mudança para melhor. Quero acreditar que sim. 

(...)


Este género de meteorologia é o melhor que pode acontecer aos meus pulmões. Mal saio do prédio, dou dois ou três passos e parece que toda a vida fumei três maços de tabaco por dia. É um must. E agora vou tentar dar aulas com uma ninhada de gatos nos pulmões. Vai ser bonito, vai.

Discos pedidos (153)



I see the rifles coming over the hill

Black Rebel Motorcycle Club



Foram anos de procura. O tom. Faltava o tom. Nas guitarras ele existia, mas depois faltavam-te as palavras. Sem palavras apenas resta o espanto, tinhas aprendido um dia, ao ler um poema. Mais tarde leste o livro que deu origem a esse poema, que parecia contínuo. E de espanto andavas tu cheio. Mas, verdade seja dita, não te importavas com isso. Pensavas que o ideal seria andar cheio de espanto e colocar esse espanto em palavras. Escreveste vários poemas que, mais tarde (é sempre tudo “mais tarde” em ti), desapareceram de debaixo da cama, onde repousavam em cadernos de capa negra. E, pensas hoje, ainda bem. Mas, tudo isto foi antes de saberes que o tom, esse que tanto procuravas, podia estar escondido no corpo de alguém. E saíste à procura. 

Pensamento do dia



Galaxie 500
Strange
On Fire
1989

Um poema de Fernando Camilo Ferreira


a terra só atraiu a lua
no preciso instante em
que a maçã caiu
na cabeça de Newton

e no entanto
a maçã não caiu
na cabeça de Newton

caiu na terra

a cabeça de Newton estava lá por acidente


em Sentidos, Porto: Moura Editor, 2006, p.57.

Uma imagem para o dia



(...)


Um passeio matinal pelo parque aqui da alameda. Gente que corre, caminha, senta, lê. Pertenço aos últimos dois grupos: sento e leio. Após uma hora de leitura levanto os olhos do livro e observo a vida à minha volta. Gente que corre, caminha, senta, lê. Tudo na mesma, por sinal. Mas eis que alguém faz pose para a foto. Observo. Uma rapariga jovem é quem faz a pose. Um dado curioso: está de t-shirt (acaba de correr com ela vestida) mas tira-a para a foto: fica só com um top minúsculo, umbigo à mostra e faixa-de-gaja. Faz pose: perna assim, cabelo assado, mais aquele pormenor da perna ligeiramente flectida. Ah! e há ainda o i-pod agarrado ao braço, que antes estava por cima da t-shirt despida mas que tem de ficar na foto, pois claro. E mais pose e agora uma a fazer que caminhas e olha esta com os patos tão fofinhos e aquela ali com o cabelo ao vento que não sopra.

Discos pedidos (152)




Want to want to want to
Birds are singing loud ... all around us

Julia Holter


Como nunca ensinei o coração a bater um pouco mais devagar, ele às vezes desacelera e pára por completo, espantado que fica com a realidade das coisas. Poderia aqui dar alguns exemplos, mas de nada serviria. Devido a isso, por vezes, sou obrigado a correr, quando sinto que ele procura, a todo o custo, parar. Nessas alturas corro pelas ruas e as pessoas olham para mim como se eu não fosse deste mundo. O meu coração insiste, pois fica também espantado com a reacção das pessoas à minha corrida. E eu corro ainda mais. Até que sou obrigado a parar devido ao esforço. Sento-me e dou tempo ao coração. Ele lá cumpre o seu espanto e, enquanto isso acontece, perco noção do tempo, do espaço e penso que não é assim uma sensação tão má. Mas, passados alguns segundos, ele retoma o bater. E a vida continua. Sem espanto algum.

(...)


Desta janela aberta ouço o telefone que toca ali em frente, na praça de táxis. A alameda, a esta hora, é uma estrada fantasma, apesar da noite agradável que a cidade proporciona. Aqui, deste lado, há uma banda sonora para tudo isto. Uma música começa a ser recorrente. Não sei quando é que a ouvi pela primeira vez, e em noites quentes, ou como a de hoje, ouço-a muitas vezes: Infinite Horizons, dos God Is An Astronaut.

Lander



Tenho um problema com odores corporais. Não gosto de os sentir nos outros e muito menos em mim (que sou outro na maior parte do tempo). Tenho, também, algumas questões com anti-transpirantes e desodorizantes com alumínio nos seus componentes. Feitos nas Caldas da Rainha, os desodorizantes Lander há muito que me acompanham, ora no aroma Wood Scent ora no aroma Musk. 

Raul Brandão


Era sempre com secreta irritação que eu fazia o bem. O bem contraria. Fugi sempre a este problema… Era sempre num impulso de paixão — e com todo o meu ser, que eu fazia o mal. O sacrifício, a piedade, a bondade só têm lugar no mundo como culturas artificiais.

Repete isto: a bondade é um sentimento falso e o mais artificial de todos os sentimentos.

O mal é uma prova de saúde. Até o povo diz que os bons são quem Deus leva primeiro.

Ah sim, a ironia… Há-de te servir agora de muito a ironia!


em Húmus, conforme a 1ª edição (1917), Lisboa: Frenesi, 2000, p. 163.

Discos pedidos (151)



From time to time I ponder
but this so called reason for pondering
ponders no end

Benjamin Clementine


Ontem, Benjamin, andei contigo no bolso pela cidade. Ao contrário da tua Londres, esta cidade não chama por mim. Apenas me diz — não tens outro remédio, por isso "auguenta" que é coisa muito da tua terra — e depois o sol a apertar como aquela imagem gasta do garrote no pescoço. E tudo à minha volta, Benjamin, é aborrecido: basicamente. Mas lá vamos indo os dois: eu e a cidade de ruas cheia de turistas, prestáveis empregados de mesa que nos perguntam — american? español? français? english? — e ficam desapontados quando digo que não, apenas português, mas que, na realidade, me sinto muitas vezes estrangeiro, porque nunca fui nem serei daqui. E, como é óbvio, exagero. 

(...)


Passam por mim lavadinhos, cheirosos e bem engomados. Sapato a fazer toc-toc-toc. Do outro lado da rua estão aqueles que, a esta hora, já vão na sua segunda ou terceira litrosa. Arrumam o carro aos primeiros e esperam a generosa moeda que alimentará a sede, a necessidade.

Discos pedidos (150)



You're my Doctor Frankenstein
Oh, yeah

Make Up


Falarmos em criaturas da noite seria uma aproximação demasiado óbvia ao Dracula de Coppolla, filme que, nesses anos, vimos e vimos vezes sem conta. Apreciávamos o gótico e todas as suas cores. Mas havia o rock, essa coisa que nos corria nas veias e nos alegrava os dias, digo, as noites. A verdade é que só muito mais tarde passamos a saber os nomes de muitos dos grupos que ouvíamos naquele bar do costume. O importante era a música e os venenos que bebíamos até à última gota. 

(...)


O objectivo da aula de hoje era rever o recurso expressivo comparação. Tendo em conta que estou na unidade que contempla o Texto Poético, decidi rever o conteúdo também de uma forma lúdica (não confundir lúdico com brincadeira). Preparei, previamente, oito tiras de papel. No primeiro grupo estará o início do verso (a partir de agora as frases são "versos"). No segundo grupo estará o fim do verso (iniciado pela palavra "como"). Pedi a quatro alunos que retirassem uma tira de papel do primeiro grupo e a mais quatro que tirassem uma tira do segundo grupo. De seguida, em grupos de dois, cada um leu o que estava no seu pedaço de papel e os resultados foram anotados no quadro.


O passo seguinte poderá ser um pouco mais complicado, pois envolve a parte teórica. Recuperando os conhecimentos previamente adquiridos pelos alunos, tentou-se que eles chegassem a uma definição de comparação, o que não foi muito difícil. Salientou-se, ainda, que a comparação também pode ser feita com  como ou parece ou tal como (acrescentou no final um dos alunos). Tudo foi registado no quadro e nos cadernos diários. A seguir, a turma foi dividida: um grupo de alunos escreveu a parte inicial do verso; o outro grupo escreveu a segunda parte, começando-a com como. Mais uma vez foram feitos "montinhos" com as tiras de papel e foi pedido aos alunos que tirassem uma tira cada um (o aluno que fez a parte inicial retira uma tira da parte final e vice-versa). Leitura em voz alta e registo no quadro.


Novamente procurou-se apelar à criatividade dos alunos, à "veia poética" (pergunta um aluno: "está no braço esquerdo ou direito?"). No seguimento desta actividade surge uma outra: Resposta. Que pergunta? Nela um grupo de alunos é convidado a formular uma pergunta. Uma única regra: tem de ser incrivelmente estapafúrdia. O outro grupo tem de escrever uma resposta, seguindo a mesma regra, mas começando a resposta por como ou contendo a resposta uma comparação (nada pode ser perdido). Fazem-se os montinhos: o grupo que fez a pergunta, lê e anota a resposta; o grupo que fez a resposta, lê e anota a pergunta.


Por último, partimos para a construção de um poema que terá de ter uma ou várias comparações (é deixado ao critério de cada um). Para isso recorre-se ao cadáver esquisito: numa folha de papel é escrito um primeiro verso, sendo que a última palavra desse verso será o início do verso seguinte. O papel é dobrado, ocultando-se o verso inicial, deixando visível, apenas, a primeira palavra do seguinte verso e assim sucessivamente, até todos os alunos terem contribuído com um verso. O resultado é lido em voz alta pelo professor, que registará no quadro o resultado obtido, pedindo aos alunos o título do poema. No caso de hoje, o verso inicial é da minha responsabilidade (Rimbaud traduzido por António Ramos Rosa), sendo o resto dos alunos.


Este simples exercício introduz dois novos conteúdos: o verso (agora sim na sua forma mais convencional) e a estrofe.




Discos pedidos (149)




When he woke, there was no trace of the ship
Only the dawn was left behind by the storm

Slint

Organizas o tempo da melhor maneira possível. Procuras que o silêncio não se torne uma coisa demasiado grande a sufocar com o seu peso. Abres a janela. Sentes o ar fresco da manhã a entrar pelos pulmões. Tiveram já melhores dias — mas nada que um cigarro não cure — pensas enquanto ris pois sabes que não fumas. Lá fora a vida parece coisa nova. Só que continua tudo na mesma. A parte do dia que mais gostas é quando te serves a dose exacta de coragem líquida e as veias abrem-se ao assombro das coisas. 

50 livros + 38




Era eu menino e moço e comprava livros na Papelaria Progresso em Manteigas (o Senhor Zé tinha paciência de santo), quando vi este livro à venda por 300$00. Foi o meu primeiro Raul Brandão. Li-o durante uma pausa lectiva de Natal. Na altura os textos foram-me indiferentes, confesso. Só mais tarde, quando li pela primeira vez Húmus, o reli e nele encontrei parte da consciência humana: o seu desespero perante a inevitabilidade de quase tudo, o absurdo da existência. Penso que é um bom livro de introdução à obra de Raul Brandão.

Pensamento do dia



Clube do Poetas Mortos
Peter Weir
1989

(...)


Por esta altura do ano lectivo, o programa de Português obriga a "dar" o Texto Poético, o que faço com muita dificuldade, pois nunca me sinto muito bem a "ensinar" poesia a ninguém, muito menos a crianças que vêem a poesia como uma coisa chata e aborrecida, de gente que não tem mais nada para fazer (e, talvez, não estejam assim tão errados). Os manuais são muito pobres no que diz respeito a poesia e a poemas que sejam atractivos. O único poema que lembro despertar algum interesse nos alunos é o batido Trem de Ferro, de Manuel Bandeira,  que tem sempre sucesso. O resto é um resumir de conceitos: verso, estrofe, rima, sílabas métricas e por aí em diante, passando pelos recursos expressivos como a metáfora, comparação e anáfora. A poesia é apenas escrita. Poucos são os manuais que exploram a vertente visual e, ainda menos, a vertente sonora. No entanto, todos os anos tento contrariar isto (gaba-te cesta) e procuro tornar as aulas um pouco mais atractivas. Entre as várias estratégias que utilizo (visualização de poesia visual e audição de poesia sonora [com a qual os alunos deliram]), construir cadáveres esquisitos simples, mas eficazes, é uma boa estratégia. Foi o que aconteceu hoje.


A tarefa é simples: peço aos alunos que sigam, apenas, a seguinte regra: sujeito + adjectivo + verbo (terceira pessoa do singular) + complemento directo. Os mesmos são escritos em papéis diferentes e cada função sintáctica/classe de palavras é agrupada. Por vezes o complemento directo não é respeitado: entra aí o jogo de cintura e o "verso" não deixa de ser escrito. Depois, peço a cada um dos alunos para retirar um papel, de cada um dos montes, e ler em voz alta. De seguida, escrevem o que leram no quadro, respeitando a ordem estabelecida. E ficamos a saber coisas verdadeiras como: O poeta pequeno comeu um osso ou O poeta coxo comeu um osso (parece que têm uma queda para comer ossos, os poetas, sejam eles pequenos ou coxos).


Ou então que O cão mau dorme um cão. Ou, ainda, que O Boby pequeno brinca um texto narrativo. O objectivo é o lúdico, entrar na poesia através dessa porta, colocando de lado qualquer tipo de constrangimento (como o poema lamechas ou demasiado infantil [como é hábito encontrar nos manuais]),


pois poucas coisas provocam o riso, mas O filho estupendo bebe bolos é uma delas. Ou então, depois destes escritos no quadro, um que saiu assim em voz alta: O bêbado gordo foge um traque.


Discos pedidos (148)




And as I walk back
I feel the moon against my neck

Codeine

E há aquele momento na tua vida que tudo parece desabar. Procuras nos velhos tratados, nos livros de poemas que te ocupam as estantes, nas gramáticas e dicionários. Nada encontras. E se algo descobres, é mais do mesmo: ou um optimismo balofo ou um pessimismo que faz do teu uma brincadeira de crianças, apesar de tu saberes que as crianças não são a melhor coisa do mundo. Sabem ser violentas. Nelas a maldade é mais pura. Vem acompanhada da inocência que um dia será perdida. 

(...)


Para mim está aberta a época oficial das alergias (não confundir com alegrias). Basta vir um pouco de sol, o tempo secar e as plantas ficam todas malucas. E eu começo a sofrer de espirros, comichão nos olhos (uso lentes de contacto para um look mais retro, pois, a bem da verdade, a "moda" agora é usar óculos, e com as lentes é mais complicado coçar os olhos [eu sei que é só com os cotovelos], ou colocar umas gotas que me livrem da comichão) e corrimento* nasal. Agora é esperar pela hora do almoço e dar ali um salto à farmácia, comprar o comprimido útil correspondente e pronto.



*corrimento: ora aí está uma palavra bem bonita e bastante menosprezada pelos escritores, intelectuais e políticos portugueses. Existe a intertextualidade poética e a polifonia no romance, o não é líquido na voz de Pacheco Pereira, a asfixia democrática e económica, mas não há nada que envolva a palavra corrimento. Não compreendo.

Discos pedidos (147)




Deixa que a noite chegue. Escolhe um lugar. Não acendas as luzes. Fecha os olhos. Tudo o resto não interessa. 

50 livros + 37



Para alguns, esta coisa da vida, da existência, tem as suas manhas e os seus truques. E eles, à custa de malabarismos de rua, lá a vão levando (à vida) da melhor maneira possível. Depois, há os outros, aqueles que olham a vida olhos nos olhos e a vêem como ela é e tentam, à custa de muitas penas, levá-la da melhor maneira possível. K. Maurício tentou. E, por fim, sucumbiu.

Estados Filosóficos (87)


Escrevem preocupados com a posteridade. Porque os há com intenções de futuro, lápide branca e busto no jardim.

Discos pedidos (146)



the wind and the speed
can’t see the danger
look mother no hands

Mirel Wagner


Longe vai o tempo em que andava de bicicleta. Agora ando mais a pé. Atravesso a cidade e nada há nela que seja meu. Nenhum lugar, nenhum rosto. Nada. Existem apenas avenidas que seriam boas para a minha bicicleta: tivesse eu uma e iria por aí até cair de cansado. Mas, como é fácil de ver, o meu cansaço agora é outro. Às vezes consigo dele descansar. São noites boas e nelas há, por vezes, um silêncio que me envolve e me faz sentir bem. Nem tudo é mau, afinal, neste mundo. A verdade é que o bem é mais e maior do que o mal. Mas, devido a isso mesmo, é mais difícil de encontrar. Todos sabemos. Demasiada luz: cega. 

(...)


E eis que surge uma pergunta (ou será questão?): Húmus ou Livro do Desassossego? Raul Brandão escreveu, simplesmente, um livro absolutamente espantoso, que tem a capacidade de ser grande em qualquer língua. E publicou-o num Portugal de 1917. Mas tanto faz: 1917 ou 1947 ou 1977. Húmus é uma obra-prima da literatura portuguesa do século XX (e, talvez, de toda a literatura portuguesa). No século XX não temos assim tantas quanto isso. Para além do Livro do Desassossego (que é, sem qualquer dúvida, um grande livro), destaco as seguintes: Os Passos em Volta (Herberto Helder), Alegria Breve (Vergílio Ferreira), Finisterra (Carlos de Oliveira), A Noite e o Riso (Nuno Bragança), Caranguejo (Rúben A.). O que seria de Vergílio Ferreira, em Alegria Breve, sem a leitura do livro de Raul Brandão? Dizer que há uma influência é dizer pouco: há o tom, o ritmo, os temas. A bem da verdade, quase toda a obra vergiliana é atravessada pela voz de Raul Brandão. Vergílio Ferreira também nunca o escondeu. Húmus é, talvez (apesar de me apetecer dizer: sem dúvida), uma das obras literárias mais influentes de toda a literatura portuguesa do século XX e XXI. Está, quanto a mim, remetida ao silêncio. Esquecimento. Fernando Pessoa é o gigante deste pequeno país (e talvez por ser pequeno o país, Pessoa seja tão grande), que tudo abafa, que tudo consome. Volto a perguntar: Húmus ou Livro do Desassossego? Sou, sem dúvida, mais húmus do que desassossego. 

Raul Brandão


E o pior é que este sonho é afinal o meu sonho e o teu sonho. Ninguém o confessa senão a si próprio. O nosso sonho é não morrer. Quando a gente se esquece um bocado a vida já tem passado. E quando a vida tem já passado é que nos agarramos com mais saudades à vida. A resignação custa muitas horas doridas em que ficamos alheados e suspensos. A morte… A morte é inevitável? — pergunto baixinho. E como a morte é inevitável, como tenho por força me resignar, como não lhe posso fugir, para não perder tudo, criei outra vida. E afinal quem sabe se este sonho que a humanidade traz consigo desde que pôs o pé no mundo não é o maior de todos os sonhos e o único problema fundamental?
A verdade é que teima. Não nos larga a vida e levamo-lo escondido para a cova. A verdade é que foi sempre a nossa maior aspiração, e que, como todos os sonhos, há-de acabar por se converter em realidade. Temos construído o universo assim, podemos construí-lo de outro modo. Falta talvez um passo… A vida eterna admitimo-la quando não nos podemos manter nesta vida; mas, no fundo, o que nós queremos é este mesmo sol, esta pobreza, esta dor, estas ilusões moídas e remoídas. Deixem-nos a vida que aceitamos tudo. Aqui há, portanto, um erro primário. Protestas do fundo do teu ser: a morte é absurda. É preciso cortar um nó que não existe. O mais difícil é passar do império do possível para o império do impossível. É talvez uma questão de vontade. A vida é um acto de fé de todos os instantes. Arredemos de vez este suor frio. Não importa se é da uniformidade da vida ou do medo da morte que me vem esta ânsia. Sei que acordo e grito: – Eu não vivi! eu não vivi! E cada vez o meu protesto ascende mais alto. Quero tornar a viver a mesma vida aborrecida e inútil, quero recomeçar a desgraça.

em Húmus, conforme a 1ª edição (1917), Lisboa: Frenesi, 2000, pp. 35-36