(...)


Um dia de sol é sempre um dia de sol. É bom. É positivo e carrega energias, dirão alguns versados nas artes do optimismo pestilento. A mim, um dia de sol, provoca-me uma vontade enorme de não trabalhar, de faltar às responsabilidades e zarpar. Resumindo: um dia de sol, para mim, é uma opressão, pois estou formatado para cumprir as minhas obrigações laborais. E não me consigo delas libertar. Uma porra, é o que é.

Um poema de J. H. Borges Martins


o dia era uma borboleta que os caiadores encontraram próximo dos chapéus como uma lamparina de álcool acesa no movimento das aves      hoje      — sexta-feira —
a ilha deixou o telefone do tempo impedido aos operários que são os manipuladores exactos dos relógios
o sol é uma manivela automática que se diverte sobre o mapa da sociedade e depois vai lavar os membros na geometria das sanitas      é um calendário de fígados amarelos com um sintoma de raiva morrendo a cada instante junto dos jornais que os mendigos embrulham a comida com fome de cadáveres nos dentes      e fora dos muros da cidade os sinos cavam salmos nas oficinas de merceeiros e sapateiros      os rostos quase plásticos escapavam ao peso da insulina e dos êmbolos que fazem funcionar em qualquer sentido o destino do corpo porque a morte repousa na fadiga dos habitantes e na mesma mesa do pobre com bolor no pão a saber a gás carbónico
por cima de todas as viagens o sol embriagado de anis corria aos metros as gargantas até largar a loucura dos cabelos na lama das ruas e nos trabalhos humildes das nossas mãos



de galope em 4 esporas (1976) inserido em Sempre disse tais coisas esperançado na vulcanologia – 12 poetas dos Açores, Organização e notas de Emanuel Jorge Botelho, posfácio de Luís de Miranda Rocha, s/l: Gota de Água/Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, p.111.

Uma imagem para o dia



Um poema de Paulo Jorge Fidalgo


Não suporto


Não suporto essas pessoas reais
com as distâncias do costume.
Felizes ou desesperados,
inteligentes ou poltrões,
todos desamo com demais verdade
para que comovam a lágrima.
Distraio da canalha e do talento
com o bocejo fácil de quem não tem tempo.
O sumário dos anos nada trouxe
à minha colecção íntima de vícios e paixões.
A Deus ou ao Diabo me darei
se eu o não for.


em Síntese Poética da Conjuntura, Lisboa: Hiena Editora, 1993, p. 57.

(...)


Há algum tempo atrás, António Guerreiro, numa das suas habituais crónicas, chamava a atenção para o facto de António Franco Alexandre e Joaquim Manuel Magalhães terem dado poucas entrevistas. Isto tudo por oposição à algazarra que é a admiração de existirem poucas entrevistas a Herberto Helder e muitos gritarem como é que isso é possível? E mencionou, ainda, o nome de Carlos de Oliveira, outro poeta cuja descrição mediática pouco ou nada foi/é comentada. Neste país os poetas são de trazer na lapela. Fica bem conhecer um poeta, ser amigo de um poeta. Comprar-lhes os livros, lê-los e essas outras coisas: é conversa diferente. É claro que não me refiro a Herberto. Esse esgota. Mas, na realidade, quem o lê? Quem leu Carlos de Oliveira? António Franco Alexandre? Joaquim Manuel Magalhães? Neste país ainda é preciso aparecer para sabermos que se existe. Somos um país muito baseado em São Tomé: ver para crer.

António Franco Alexandre


26

Não quero ser quem sou, é evidente;
antes monstro qualquer com ar de gente
do que este tronco de árvore daninha
onde repousam ninhos de fantasmas
e brilham finos dentes de duendes.
Antes ser, no ar frio, nuvem que voa
branca de não ser nada, para leste,
do que esta sombra humana que me deste
sem dimensão nem cor, nem sábia hipnose,
nem o fulgor vulgar dos ectoplasmas.
Na pele esburacada já deitaram
semente microscópicos venenos;
vou-me deixar levar, por mão de verme,
antes que à luz do dia possas ver-me.


em Duende, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 34.

Discos pedidos (145)




Well, I stand up next to a mountain

And I chop it down with the edge of my hand

Jimi Hendrix


Um leitor de cassetes, a Serra toda e nós a dançar, a gritar —You tell me it's alright, you don't mind a little pain You say you just want me to take you for a drive — enquanto algumas cervejas refrescavam na corrente do rio. Às vezes uivávamos. Ainda hoje, quando conto isso, rio como ria naquela altura. A verdade é que, apesar de tudo, éramos felizes e tínhamos o mundo aos nossos pés. Pelo menos, do alto da Serra, era isso que parecia.

50 livros + 36



Falemos de livros que são como murros no estômago. Sei que é uma comparação recorrente, fácil. Mas a verdade é que Bardo é um murro no estômago. Publicado pela primeira vez em 1981, este conjunto de 22 sequências (há quem diga que é um romance) marcou a geração que o leu. Parece que até à altura tinham sido poucos a falar de Portugal da maneira que José Amaro Dionísio falou. Não há, aqui, cedências a lirismos bacocos, ou a rodriguinhos de qualquer espécie. Um livro puro e duro. A melhor descrição deste livro vem no próprio livro: Uma escrita à velocidade da luz reteria um destes sinais de embalo ou repelência. Estás no centro da lenta observação de um lugar desconhecido. (p. 60). Penso que está quase tudo dito.

Joaquim Manuel Magalhães


Laminagem



Um país agora imenso aterro
teve alguma vez colinas e montados
onde o olhar demorava, adormecia
e seguia uma alegria viandante?
Ou gente que chegasse a qualquer mar
de que não quisesse logo fugir?
Só o pastoril decrépito o suspirava.

Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,
até cobrir-se de desterro e de ilegais
e em pano de fundo esse lagar
de suicidas e débitos e primeiras segundas gerações.
A farpa de aceitação de quem consome
o sem destino da consciência.
Um país; tornou-se um assassino.

Viverei os poucos verões até morrer
com este  mundo de agressão em cerco.
Eu queria outro país, outro lugar
e tenho este infortúnio de leis amarrotadas
que não cumprem nem o violento nem o clandestino.
Um país de acasos,
um parque de campismo selvagem, um cimento apodrecido,
a música de sem abrigos nas estações de metro
enquanto não chegam comboios avariados
às plataformas de arte depredada,
um esboroamento sanguinário.
Até a linguagem que me ergueu
me sabe a sarro e a arrabalde.

Não fossem as obrigações que nos garrotam
nos fazem monstros com a lassidão de herbívoros
talvez pudesse ter o interior abandonado
e chegasse a faca do sol e me cortasse
noutra penúria mais serena.

Ainda que me digam que não olhe,
eu vejo. Ainda que me digam faz ginástica
e a depressão desaparece, nada me resolve.
Os ruídos sobem de qualquer lugar,
sintetizadores, martelos, desabamentos
uma percussão alheia a qualquer justiça.
Nenhuma janela que não fale
da construção administrativa dos piores instintos.
Todo o lixo do humano feito sebo
em qualquer lugar. Ainda que me digam
que vivemos em democracia eu digo
que não sei. Nem direitos nem deveres.
Um sem remédio ancestral.

Morreu a casa. Matou-a
o que lhe coube por contemporâneo
contra a placidez. Os autorizados
pelo conluio e pela votação.
Morreu a casa. E o pior
é não poder partir. Os laços
já se juntaram em anestesia. Preso
por outro amor, que não entende,
que não ouve como a casa já morreu.

A alguns vemo-los em qualquer pousio
depois de fecharem as lojas
e nem se sabe o que vemos.
Aos balcões de cafés de azulejo,
com telemóveis pendurados nos cintos
e os cartões de crédito em dente na carteira.
Riem-se e batem nas costas
uns dos outros, entreolham e vigiam
se alguém diverso se aproxima
para largarem uma troça arcaica, e comem
com essa fome dos que não sofrem ainda
inquietações laborais ou crêem que virá
depressa o primeiro emprego.

Ao olhá-los melhor, aos seus afectos
de pessoal especializado em escuras economias
adicionais, vejo-os depois no verão.
Ao deus dará em todos os lugares,
em tendas velhas, rulotes,
sabe-se lá onde vão cagar. E as mulheres
com os sinais exteriores da aspereza.
E as asas do inverno marítimo
auguram o aluimento.

Assim armado o país.
As gentes em catástrofe deslocam-se,
deixam por testemunho o abandono e a inépcia.
Uma a uma, uma paisagem é trucidada.
Inchou a autarquias o país.
Atravessam-no a miséria e algum dinheiro
insolentes.
Um assassino
espreita outro assassino.

Os que destroem agora
podem exigir os torcionários que virão,
pois quem destrói pressente um chefe
e vai servi-lo.
E muitos hão-se sempre ser as vítimas
da liberdade que consente a violência,
da violência que não consente a liberdade.
Um assassino o país. Com as suas leis
inúteis, a sua ordem por cumprir.

Só nos resta esperar então morrer?



em Alta Noite em Alta Fraga, Lisboa: Relógio D’Água, 2001, pp. 77-81.

Uma imagem para o dia



(...)


Noite. Chego ao quarto. O riso das duas estudantes invade o apartamento. Falam à distância com alguém do outro lado do oceano. No outro quarto: silêncio. Desfaço a mala. Coloco no frigorífico o resto do almoço. Dispo a roupa molhada. À saída do metro uma chuva fina e persistente. Os risos, as gargalhadas continuam. Tudo isto contrasta com a alameda deserta, ou com as caras de Domingo à noite que encontrei no comboio. Não havia uma única pessoa com uma cara alegre. E mesmo aqueles que falavam ao telemóvel faziam-no com um tom irritado. À saída tive a companhia de mais três pessoas. Todas carregavam, como eu, malas. Pensei: "devem ser professores como eu. também devem ir para quartos tristes com marquise pois aqui tudo tem marquise". E talvez sejam outra coisa qualquer. Talvez estivessem a chegar de uma viagem a um lugar paradisíaco. Talvez estivessem a chegar de um fim-de-semana romântico com alguém e esse alguém seguiu para o outro lado da cidade. Mas a verdade é que tinham caras cansadas como todas as outras que vi no metro. Caras cansadas. Cada vez as vejo mais. Começando pela minha, todos os dias frente ao espelho de manhã. Às vezes penso: "como é possível fazermos todos os dias a mesma coisa". Sinceramente, não sei como é que o conseguimos. Não sei como é que aguentamos a morrinha diária de estarmos vivos, ou como é que aguentamos, tantas vezes, as caras uns dos outros. Não sei como é que conseguimos, tendo como certo que seremos um dia: pasto para vermes. É a única e verdadeira certeza. E persistimos. Sinceramente, não sei como aguentamos.

Discos pedidos (144)



Hey, fuck the people.

The Kills

A minha misantropia começa a revelar-se nas pequenas coisas como por exemplo a incapacidade de dizer bom dia ou boa tarde ou boa noite às pessoas que comigo se cruzam na rua ou no local de trabalho ou no elevador do prédio — isto começa a causar-me alguns problemas de ordem social ou de outro tipo de ordem qualquer e um destes dias ainda me acusam de ser uma pessoa um tanto ou quanto mal educada o que não será assim algo tão descabido pois na realidade se não respondo bem educado é que não sou — onde pago uma renda de trezentos euros por um quarto com marquise e serventia de cozinha e casa de banho a dividir com mais três pessoas — isto tudo numa cidade que vive sem dúvida alguma muito acima das suas possibilidades mas onde existe um rio que "desagua muito bem" e praias onde ainda não encontramos cadáveres a boiar ou a dar à costa o que no entanto é só uma questão de tempo.


(...)


Apanhado de surpresa pela chuva molha-parvos, tive de comprar um guarda-chuva. Quatro euros e meio numa loja de conveniência chinesa. O senhor balbuciou algo em chinês para o outro, que lhe fazia companhia. Só penso em algo como: "mais um parvo que não quer ficar molhado".

Rui Knopfli



Poetas há que estão esquecidos. Outros: são remetidos ao esquecimento. A diferença penso que é óbvia. Enquanto os primeiros estão esquecidos porque o tempo se encarregou de tudo, os segundos são remetidos ao esquecimento, porque, talvez, a sua voz não interesse, ou tenham sido inconvenientes e, o tempo, ainda não teve tempo de se encarregar de tudo; assim, gente há que se encarrega de fazer aquilo que o tempo ainda não fez (e desculpem a repetição). Penso que Rui Knopfli enquadra-se no segundo grupo. É, sem dúvida, um poeta remetido ao esquecimento e ao silêncio. E, sinceramente, desconheço a razão, ou razões. Encontrar a sua Obra Poética (INCM, 2003) é uma tarefa difícil, e penso que seria obrigação da Imprensa Nacional-Casa da Moeda reeditá-la. Embora eu não queira obrigar ninguém a nada. A bem da verdade, cruzei-me com a sua poesia demasiado tarde. Foi em 2007 e estava, esse ano, a trabalhar algures. Li, numa semana, toda a sua poesia (reunida na obra já citada). Tudo graças a uma Biblioteca Municipal. 

Pensamento do dia



Benjamin Clementine
Gone
At Least For Now
2015

(...)


Quase todos os dias almoço na serventia de cozinha, que é coisa que vem com o quarto e marquise. É quase sempre um prêt à mange que compro na superfície comercial aqui da zona. Subo ao quinto andar frente a uma alameda e aqueço tudo nessa maravilha da ciência moderna que é, sem qualquer dúvida, o micro-ondas. Almoço no silêncio de um garfo, uma faca. E é tudo.

Discos pedidos (143)




para o Américo Rodrigues


É noite e chego da cidade, da sua melancolia. Trago na roupa histórias para contar, o cheiro dos cafés, as marcas dos bares onde me encostei. Nas pontas dos dedos também o lume aceso do assombro, a distância que vai daqui-ali. As ruas são os candeeiros que as iluminam, os olhos que olham do outro lado da janela, atrás de cortinados envergonhados. Cruzo-me com alguém (ou algo, não sei ao certo) que me crava um cigarro. Não fumo, embora traga comigo todo o catarro do mundo.

Américo Rodrigues



Este é um texto parcial. A amizade que tenho com o Américo vem desde os idos de 98, quando pela primeira vez lhe entreguei poemas meus. O Américo aceitou lê-los, dizendo-me, quinze dias depois, que tinha gostado de uns e não tinha gostado de outros. E desafiou-me a ler a minha poesia em voz alta no ciclo Lugar aos Novos. Aceitei. O resto será, um dia, história da literatura. Mas isso é outra conversa. O Américo Rodrigues foi a segunda pessoa que conheci com espinha (as primeiras foram os meus pais). Ter espinha, na cidade da Guarda, não é para todos. Ou melhor: deveria ser para todos, mas há por lá muito molusco (como por todo o lado). Como disse ao início: este texto é parcial. O Américo Rodrigues é meu amigo e eu sou amigo do Américo Rodrigues. Ponto final.

(...)


§

Ouço — vamos ali para o sol… apanhar aquela energia que falta — e enquanto isso não acontece, enrola um charro, atende o telemóvel — vai pró caralho!... chato de merda!... mas quem é que quer ouvir a tua voz? Deixa-nos em paz caralho! —e desliga — vamos ali para o sol…

§

E, de repente, entre o cheiro a ganza e as litrosas, uma criança corre. Os pais, atentos, observam-na de longe. Deixam-na andar à-vontade. E ela anda. Corre.

§

Espanhóis, americanos, holandeses, suecos, portuguese, outros.

§

Um casal com um filho às costas.

§

Chega um rapaz. Calça curta, camisa imaculada, sapatos de sola: hand-made. Meia desportiva, branca.

§

Ió Mano!

§


Em vez de dizer literalmente, dizer: litrosamente.


Miradouro de Santa Catarina, 20-04-2015

Joaquim Manuel Magalhães


Quando a noite que gastamos lá fora
se torna a noite que vem
para dentro de nós,
chegamos ao terraço sem acender a luz
apenas para ver nuvens e estrelas
e a respiração de candeeiros na avenida.


em Alta Noite em Alta Fraga, Lisboa: Relógio D' Água, 2001, p. 37.

(...)


Tem uma das meias rasgadas e sentou-se à minha frente, do outro lado da plataforma, no metro. Nas colunas passa uma música e parece-me ser da banda-sonora do filme Gladiador. O ideal para esta hora e para este lugar. Antes: não-lugar.

Um conselho




Composição: Siria 45%, Arinto 45% e Viognier 10%

(...)


Ontem, no metro, uma mulher pedia ajuda para alimentar as suas três meninas. A ladainha é a mesma de sempre. Não tinha moedas comigo. Esticou a mão até mim. Não fui capaz de a olhar nos olhos.

50 livros + 35




Lido quase de um fôlego só, Os Subterrâneos é, quanto a mim, um dos melhores livros que li de Kerouac. A história cumpre a sua função, isto é, serve de pano de fundo para as verdadeiras intenções do autor: agarrar a vida pelos cornos, vivê-la a todo o custo e custe o que custar. Temos, nestas páginas, um homem profundamente apaixonado pela vida, mas que não sabe muito bem o que fazer com essa paixão. O estilo é inconfundível: a "escrita espontânea" (coloco entre aspas pois ainda tenho algumas reservas quanto à veracidade da mesma, mas deixo isso para os académicos). A tradução de Paulo Faria é excelente.

(...)




Sobre A Minha Luta 1: A Morte do Pai muito se escreveu. O hype em torno da obra do norueguês Karl Ove Knausgård foi enorme. Polémicas à parte (processos judiciais, a escolha do título e afins), falemos, antes, da escrita: Knausgård domina as técnicas e os artifícios; usa-as muito bem e cumpre o seu objectivo: exorcizar os seus demónios e ajustar contas com o passado; contar uma história. Dizer mais do que isso é correr o risco de entrar na bajulação e expressar algo que não existe: grandeza (pelo menos na amostra deste primeiro volume). Quanto a mim: é um flop. Mas um flop que me obrigará a comprar os restantes volumes.

Uma imagem para o dia





(...)


Esta coisa de estar vivo tem, sem dúvida, as suas vantagens. Elas são tantas que me é difícil enumerar duas apenas. As desvantagens também são, praticamente, em mesmo número, mas é mais fácil enumerar três, ou quatro, ou até meia-dúzia. Como é óbvio, sou mais de me fixar nas desvantagens de uma coisa do que no seu oposto, isto é, nas suas vantagens. Para mal dos nossos pecados o Bem e o Bom são efémeros, enquanto que o Mal e o Horrível são eternos. Parece que assim é desde que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. E nós carregamos esse fardo: acreditemos ou não no livro do Génesis. Carregamos o fardo de uma tradição judaico-cristã, e pouco podemos fazer. Mesmo quando nos afastamos da Fé (seja ela qual for), ela, por vezes, bites us in the ass (para utilizar uma expressão inglesa à falta de melhor em português). Penso que Bosch sabia isso como ninguém.

Discos pedidos (142)




floor sinks and you fall
to the ground
he's got the symptom
mild confusion

Tamaryn


Abro as janelas da marquise e deixo que a cidade entre. Progride como uma espécie de angústia, lamento. Sinto um leve ar fresco que renova o bafio instalado. Foram doze dias tudo fechado e isso nota-se. Cheguei há pouco da escola-correios-supermercado. Descalcei as botas. As meias estão molhadas e penso que as fiáveis botas de pneu não são já assim tão fiáveis. A cidade continua a entrar. Às vezes penso que o seu som é o do mar. Assemelha-se um pouco, se fizermos o esforço. Só que não é o mar.

Estreia dia 16 de Abril no Teatro Municipal da Guarda



(clicar na imagem para aumentar)

(...)


Sirvo-me um Moscatel de Setúbal com bastante gelo, pois é assim que eu gosto e se os puristas da coisa vierem proclamar-me herege direi, apenas, com muito e bom gosto! Benjamin Clementine passou o testemunho a Bach. Ouço-lhe as primeiras suites para violoncelo. O jantar está pronto: sai uma desfeita de bacalhau para a única mesa cá do sítio: e entretanto leio um pouco de Pavese. Volto várias vezes a Trabalhar Cansa. Leio e leio e leio e nunca me farto. Há poetas assim. E há livros assim, também. É certo e sabido: sempre que parto para uma nova latitude e longitude, para trabalhar, levo comigo três livros: Trabalhar Cansa, Biribi e Viagem ao Fim da Noite. É uma coisa minha, eu sei. Posso não ler nenhum dos três. Mas viajam comigo.

Em repeat



Benjamin Clementine
At Least For Now
Behind Records / Barclay
2015

W. S. Merwin

    
    Even in the 77 poems of the first collection of Dream Songs the essential attributes of their idiom were fully formed. The originality of their language is flaunted, saved from affection by the sheer authority and authenticity of the voice it embodies. The verse proceeds with an oddity skating on the edge of comprehensibility and frequently slipping well beyond it.


em «Introduction» a The Dream Songs, Nova Iorque: Farrar, Straus and Giroux, 2007, p. xxiii.

John Berryman




A poesia de John Berryman bateu à minha porta nos idos de 2006. Não sei onde li poemas seus pela primeira vez, mas logo tentei ensaiar algumas traduções, o que correu muito mal. Ler a sua poesia no original não é tarefa fácil. No entanto, vale muito o esforço. Mas, ainda bem!, temos a tradução de Daniel Jonas: 77 Oníricas (Tinta da China, 2014), tradução de 77 Dream Songs, que lhe valeu, ao autor, o Prémio Pulitzer para a poesia em 1965. Tentei algumas versões de poemas. Fiquei-me por apenas dois.

(...)


Em 2002, num dia como o de hoje (isto é: Sexta-Feira Santa: o dia do mês não coincide), acordava com o meu primeiro livro publicado e apresentado na noite anterior. Teve o pomposo nome de Entre o Silêncio e o Fogo. Foi publicado pelo Aquilo Teatro, após o generoso convite de Américo Rodrigues. Às vezes ainda o leio e apenas me identifico com um dos poemas:


                                                        E o vento que vem
                                                        Será teu.


É o último poema de uma secção, sendo que o livro está dividido em três partes: Catorze Poemas de Silêncio, Outros Poemas e 4 Poemas Sobre Sombras e Outros Seres. Ainda tem badana com fotografia e pequena biografia onde se pode ler: Desenvolveu, na sua terra, a “Hora do Conto”, em parceria com as escolas do 1º ciclo do Ensino Básico do concelho de Manteigas. E esqueci-me de referir que tinha sido em regime de voluntariado, pois estava desempregado e tinha de ocupar o espaço da inquietação de alguma maneira. Foi um ano, apesar de tudo, bom.

Discos pedidos (141)



Well, the sun's gone down
And you're uptown
And you're just out runnin' around

The Cramps


para o Rui Costa, em memória


A história é simples: a última vez que ouvi este álbum ia com o Rui ao meu lado. Eu conduzia e ele olhava a paisagem até dizer ― eh pá! não tens aí nada de jeito para se ouvir ― e só me lembrar de Cramps, mesmo sem saber que ele gostava ― eh pá! isto sim, caraças! ― e lá fomos nós de Vila Real de Santo António até Monte Gordo, onde estávamos hospedados num hotel. A tarde tinha sido passada num encontro de poetas onde o Rui tinha lido uns poemas, que na altura dedicou a umas Senhoras que estavam presentes e que não acharam muita piada à coisa. É claro que quando chegámos, a Monte Gordo, nenhum de nós estava ainda pronto para ir até ao quarto de hotel e ficar lá até ao outro dia de manhã. Mais: a hora mudava essa noite. Entrava o horário de Verão e o Rui ― vamos dar por aí uma volta, ver se encontramos um sítio onde beber umas cervejas, alinhas? ― e eu lá respondi afirmativamente. A pé percorremos as ruas de Monte Gordo e havia um pouco de vento e estava frio. Os bares ou estavam fechados ou estavam à pinha e lá encontrámos um de seguranças à porta todos elegantes e tal. Entrámos e vimos que estava vazio, excepto umas mesas a um dos cantos que tinham uma ou duas meninas. Digo meninas e já vão entender porquê. Pedimos a cerveja que tivemos de pagar logo e que nos custou os olhos da cara (toda a noite custou os olhos da cara e algumas partes do nosso fígado, mas adiante). Passados dois segundos vieram ter connosco duas das meninas. O Rui ficou com a mais gira e eu com o camafeu ― boa nioite! mieu niome é Tatiana e siou da Ucrânia ― o que não foi para mim surpresa alguma. Ao Rui saiu-lhe na rifa uma garota de Ipanema, que era mesmo de Ipanema. Dissemos que não pagávamos nada e elas afastaram-se com o queixo em baixo. Mais uma ou duas ou três cervejas ou mais uma ou duas ou três cervejas, não sei ao certo, vieram ter connosco mais duas meninas. A coisa, desta vez, estava mais equilibrada, isto é, não nos calhou nenhum camafeu, embora a resposta de ambos tenha sido a mesma ― não estamos interessados em pagar copos ― e foi anunciado um strip, que ainda conseguimos ver, pois no final veio ter a Senhora connosco e perguntou muito simplesmente ― então os senhores vieram cá fazer o quê? ― ao que nós respondemos ― beber umas cervejas ― e lá do alto da sua posição de Senhora ― então já beberam. Foi nessa altura que considerámos ser uma boa hora para irmos até aos nossos quartos no hotel, mas não sem antes passar pelo bar. E a última vez que estive com o Rui foi ao pequeno-almoço no dia seguinte.

(...)


Enquanto descascava uma laranja ia pensando nesta porra que é a vida. E, verdade seja dita, podia ser uma porra bem pior, apesar de não ser grande coisa toda esta merda em que chafurdamos sem remédio. Mas o ponto alto do meu dia (sim, o meu dia tem sempre um ponto alto) foi aperceber-me que, aos trinta e sete anos (37), só as Testemunhas de Jeová se dirigem a mim com um jovial ― oh jovem! ― enquanto tentam entregar aqueles papéis que trazem sempre com elas e que eu aprendi a recusar, pois já não me importo que as Senhoras (são quase sempre senhoras) fiquem amuadas e pensem ― bolas, menos um que conseguimos distribuir e agora vamos levar raspanete ― apesar de serem as únicas que ainda me acham com cara de jovem. 

José Miguel Silva


Non, ou a Vã Glória de Mandar

Diz o povo e com razão que no perder
é que está o ganho. Para alguma coisa
somos portugueses, «os de cabelo castanho»,
e que seria de nós se as lágrimas, os lenços

nos faltassem? Povos mais felizes alimentam-se
de lucros, de famas, de vitórias. Nós não,
preferimos o lamento, a beleza moral
do quase ter, do quase lá, do quase nunca.

A bola no poste é o nosso emblema, e o nosso
patriotismo exprime-se na derrota. Pois
no coração de cada português lateja a evidência
de que só no fracasso se alcança o verdadeiro

sabor de ser homem. A vitória é uma patranha
em que só caem os parvos, os que não sabem,
como nós sabemos, que não há nada a ganhar,
que todos os triunfos são triunfos de morte.

Devemos então assumir como desígnio nacional
a ambição de perder cada vez mais, cada vez melhor,
e fazer o possível por tirar proveito dessa situação,
tão favorável, que o fracasso nos confere.

Porque só quem aprendeu a amar a derrota,
a fazê-la sua, a lutar por ela, poderá desatrelar-se
do tandem de agonias que os antigos figuravam
sob o nome de temor e esperança.

em Movimentos no Escuro, Lisboa: Relógio D'Água, 2005, p. 50.

Manoel de Oliveira (1908-2015)



Não sendo eu grande conhecedor da obra de Manoel de Oliveira, devo-lhe, no entanto, duas coisas: Aniki- Bóbó (1942) e Non, ou a Vã Glória de Mandar (1990). O primeiro é, e continuará a ser, um dos filmes da minha vida: em primeiro lugar, porque gosto muito dele (e mais não digo); em segundo lugar, salvou uma aula do meu estágio no primeiro ciclo: era a última aula do período, deveria fazer uma actividade diferente e optei pela visualização do filme, defendendo que iria ser uma boa maneira dos alunos verem as diferenças entre a escola e as vivências de "outrora" e a escola e as vivências do tempo deles ― foi um sucesso. O segundo, pelas gargalhadas que me proporcionou e passo a explicar: o filme foi parcialmente filmado na zona de Manteigas (as cenas entre Romanos e Lusitanos foram quase todas filmadas naquelas bandas) e muitas pessoas que eu conheço pessoalmente participaram no filme como figurantes; as histórias e estórias que têm para contar dos bastidores e das filmagens (quando contadas como deve ser: à mesa de um café e com uma rodada ou duas ou três de cerveja) são de levar às lágrimas. Por isso tudo: obrigado, Mestre.

Usine de Rêve


(clicar na imagem para aumentar)

José Amaro Dionísio


sequência 15

Uma escrita à velocidade da luz reteria um destes sinais de embalo ou repelência. Estás no centro da lenta observação de um lugar desconhecido. Uma dessas cervejarias das metrópoles: máquinas de jogar o tédio, gente ruidosa ou de olhar vago sobre o balcão. Tu és nesta cidade um andar estrangeiro, ouves em teu redor uma língua que não é a tua. E chove, ou se não chove está húmido. A avenida que corre o vidro desta mesa gigantesca, quer dizer: indiferente. Nas suas paredes nascem e morrem outras ruas, cruzam-se, vomitam luzes amarelas que se ignoram e disputam. Numa dessas escangalhadas ruas as portas cobrem-se de putas encostadas à entrada. Mais ou menos longas pernas obedecem aos cinco graus negativos de Paris. No tronco, fetichistas casacos de peles concluem uma página da «Photo». Aí estão de 24 a 24 horas, tu passas e elas dizem sem qualquer outra palavra, cent cinquant franc, monsieur, demi heure ou comme ça. Flocos de neve caem em massa por entre as difusas lâmpadas do mercado e envolvem as putas num nórdico mar. Olho quase sempre sem emoção os seus rostos neutros, mesmo quando dizem cent cinquant franc, monsieur. Num sítio deste espaço, dois homens de sessenta anos dormem. Com as mãos sob os cabelos, onde dormem? No chão coberto por uma grade de ferro que filtra subterrâneo o ar manso do metropolitano. Foi ontem que numa dessas grades morreram um homem e uma mulher. Por baixo deles, é verdade, estava quente; mas em redor das cabeças e dos pés o quente gerara água; e de cima, nos seus corpos, caía frio. Repara: o que no meio disto em ti sobrevive não é já a revolta, porque toda a revolta mergulha quando existe um eco que a escute, e nada definitivamente se escuta já no cartaz que em frente publicita o senhor George Marchais. O que no meio disto sobrevive, porque a pouco e pouco construída, porque íntima, é a voz da tua impotente solidão.
E sem dúvida, o teu medo.


em Bardo, Lisboa: & etc, 1981, pp. 60-61.

Discos pedidos (140)



Nous pourrons parler
Alors soyons désinvoltes

Noir Desir



A verdade é que nos espantávamos com pouco. Mas espantávamos. Havia necessidade de espanto perante a realidade das coisas. Ou isso ou a loucura certa dos dias, a vertigem do abismo. E, como aprendemos, abyssus abyssum invocat. É claro que nem tudo o que aprendíamos era seguido à letra. O latim era língua morta (também tínhamos aprendido). Os riffs de guitarra eram a salvação possível, uma espécie de claridade que surgia do meio do nevoeiro que enchia a cidade. Isso e o café tomado a desoras. No lugar de sempre.