Pensamento do dia



Eric Moussambani
100 metros livres
Jogos Olímpicos de Sydney
2000

(...)


A Toca do Gato reabriu e lá fui eu. Desta vez acompanho por um amigo. Sandes de orelha fumada, pires de orelha temperada, um rosé que se deixa beber. Depois: junta-se mais um amigo e vem uma jarra de tinto, que não bebo, pois não gosto de misturas, e pires de moelas (que não é a minha praia, mas lá pico) mais um pouco de broa para acompanhar. Depois: juntam-se duas amigas e mais uma jarra de tinto e umas sandes de orelha fumada e uma oferta de iscas. Eu: fecho a loja. Mais dias virão.

René Crevel

    
    Eu gostaria de ter um destino de cores sobrepostas e que realmente merecesse ser tomado pelo rei das surpresas horizontais. As minhas horas seriam pois cortadas em minutos, e fariam no seu conjunto lembrar o das camadas geológicas.
    Trajo de tempo, trajo de espaço, que a minha vida vá portanto desde o azul-rei até ao roxo-bispo, desde o roxo-bispo até ao vermelho-cardeal, desde o vermelho-cardeal até ao amarelo-canário, desde o amarelo-canário até ao verde-esmeralda; e graças às canções paralelas vá até à infusão de erva, de pedra, de gelo, de céu, que oculte a presença da montanha e se afirme à maneira do quente e do frio.
    Criará um mundo? Fecho os olhos para acreditar que fogem grandes nuvens brancas dos corpos mais amados e almas eflorescem, enfim, em peremptórias lentidões. Mas porquê esta vontade súbita de luta? Estas canduras que mal são tangentes e se chocam, se penetram, e são por cada embate dolorosamente deformadas. O pugilato das almas vai misturar ódios e desejos, as verdades que nos envergonham, as que nos inspiram pudor como no outro pugilato os músculos, o suor, o sangue, as coxas, os bícepes e as apaixonadas cóleras das peles onde o mais fino véu de penugem mostra que são estranhas umas às outras.
    Nascerá a felicidade dos golpes desferidos ou dos golpes recebidos, e a infelicidade dos que não foram desferidos, dos que não foram recebidos? Estranha pergunta para fazermos a nós próprios com as pálpebras fechadas, quando viemos pedir a mais íntima e solitária das metamorfoses ao sol de Junho, ao ar dos glaciares. Ai de mim! Um corpo exige sete anos para se renovar. A montanha, essa, muda insensivelmente de cor. Mas de que valem os símbolos de um alpinismo primário e reconfortante se esta noite não vou chegar ao azul, a esse azul muito a propósito chamado azul-celeste?


em O meu corpo e eu, tradução e apresentação de Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 1ª edição 2014, , pp. 31-32. 

Discos pedidos (139)




Pondero a possibilidade de Bach não ter tido gatos, tal é o espanto e a agitação de Malick: o gato ao ouvir os primeiros acordes dessa arte que é a fuga. Mas depois, passado o primeiro Contrapunctus, ajeita o corpo ao tapete, fecha os olhos. As orelhas, por vezes, agitam-se um pouco. Parece que procuram os sons que lhe podem estar a escapar e que poderão tornar a obra de Bach incompreensível. Mas a verdade é que o sol lhe dá em quase todo o corpo e a minha mão sobre o dorso fá-lo ronronar. Lá fora são os risos de uma criança que se ouvem, mais o chilrear dos pássaros (andorinhas? pareceu-me hoje ver andorinhas) que ainda assustam Malick: o gato, habituado que está ao sossego e segurança do interior da casa. Por agora continua de olhos fechados, seja à conta do sol, ou de Bach.

Um poema de Abel Neves


umas coisas atrás de outras
fixou na parede a tabuleta e lê-se
proibida a afixação
quem plantou aquela nespereira sabia o que fazia
agora há mais pássaros atrás das nêsperas
muito para além dos frutos alguém
escreveu numa parede do cais do sodré
a fatinha tem sida
aviso enorme
de enormidade
e ali perto outra inscrição
num prédio do corpo santo
paredes brancas povo mudo


em Deitar a língua de fora (AA.VV.), Lisboa: Língua Morta, 2012, p. 51.

(...)


Aqui estou eu, em Braga: a idólatra. Enquanto a hora certa não chega, caminho pelas ruas onde já se sente a noite de São João. Barracas de farturas, bancas de sorvetes e não resisto à tentação de comer um, pecado que me fica em dois euros, mais a recordação do tempo em que eram vinte e cinco escudos e mesmo nessa altura só em dias de festa, embora o meu pai, às vezes, me levasse a comer um numa barraca que ficava junto à Igreja de São Pedro, mas que depois foi desmantelada porque ao Domingo a missa decorria com o barulho da cerveja bebida antes do almoço. E ao andar pelas ruas dou com uma livraria, numa avenida cujo nome desconheço (ouço o som de uma gaivota), numa espécie de solar com um magnífico jardim onde se pode beber um sofrível chá gelado e onde gatos disputam o seu território, valendo-se, para isso, de muitos ffffffffff e miaus-aus (passaram por mim quatro, ignorando-me completamente apesar dos meus esforços de bichinho-bichinho). Os livros amontoam-se e podemos, no meio deles, encontrar exemplares de livros que não encontramos noutras livrarias ― minhas rosas raras, vou embora ― ouço uma rapariga dizer atrás de mim, ao despedir-se do seu grupo de amigos ― mas espero mais um pouco, não quero cheirar a tabaco e ter de inventar uma desculpa qualquer à minha mãe que ainda me pergunta então, tiveste a estudar ou ― como por exemplo livros de Kerouac e de Burroughs que estão completamente extintos noutras livrarias apelidadas de generalistas. Mas o que realmente importa é que estou em Braga: a idólatra e a confusão aqui não é menor do que em Ponte de Lima, onde se preparam para a Vaca das Cordas, e de onde eu saí para evitar a confusão (agora é a vez de ouvir um cão ladrar ali, atrás daquele muro), tarefa que será impossível, pois será todo o fim-de-semana. Mas aquilo que realmente importa é que amanhã será o dia mais longo do ano, o dia em que o Verão começa, só que não há maneira de o Verão começar (um gato preto vigia-me com uns olhos profundamente amarelos e num segundo plano um outro gato, cor de chumbo, lambe-se e, lá mesmo ao fundo do jardim, uma cria aninha-se para passar despercebida, mas não consegue) e, apesar de sofrível, peço mais um chá gelado e dou conta que atrás de mim está um jovem casal de namorados a estudar. Ela cheira bem. De repente, lembro-me que nunca estudei com nenhuma namorada, muito menos numa esplanada. A verdade é que não tive assim tantas namoradas e a única que tive mais a sério (pois durou mais de seis meses) gostava de estudar sozinha em casa. Mas também não andávamos no mesmo curso e o estudo, assim, em conjunto seria um pouco mais complicado. Isso, a mim, não me aborrecia nada, pois enquanto ela estudava eu podia ir ter com a malta e beber umas cervejas, enquanto esperávamos pelo jantar. O casal partilha uma fatia de bolo de chocolate, que tem um aspecto fantástico. Os gatos continuam por aqui a circular como se fossem os donos disto tudo. Talvez o sejam. De quando em quando ouvem-se sinos a ribombar, o que não é nada estranho tendo em conta que estou na cidade dos arcebispos (um gato afia as unhas numa superfície que não consigo identificar e reparo que são todos magros mas incrivelmente elegantes e o mais pequeno aventura-se um pouco mais perto do lugar onde estou acompanhado dum siamês). Entretanto chegam uns turistas e os gatos desaparecem todos.

Braga, 20 de Junho de 2014

Aníbal Fernandes




O discreto, mas exigente, laborar do tradutor é um ofício de muita responsabilidade. Quando o tradutor é responsável por parte do imaginário dum leitor, essa responsabilidade é acrescida. Aníbal Fernandes cumpre o que atrás foi exposto. O meu primeiro contacto com as traduções de Aníbal Fernandes datam de há muito, quando a Hiena editava nomes como Artaud, Genet, Céline, Saint-John Perse, Baitaille, entre outros; e depois na tradução de Viagem ao Fim da Noite, de Céline. Para não falar na tradução de Biribi, de George Darien, um dos livros que para sempre irá andar comigo. E agora na Sistema Solar, onde com reedições e edições já vai em mais de uma dezena de livros (desde 2012): No Sentido da Noite (Jean Genet), Com os Loucos (Albert Londres), Os Manuscritos de Aspern (Henry James), Os Génios seguido de Exemplos (Victor Hugo), O Senhor de Bougrelon (Jean Lorrain), O Romance de Tristão e Isolda (renovado por Josph Bédier), David Golder (Irene Nemirowsky), O Mentiroso (Henry James), As Lojas de Canela (Bruno Schulz), As Mamas de Tirésias (Guillaume Apollinaire), A Mulher que Fugiu a Cavalo (D. H. Lawrence), Porgy e Bess (DuBose Heyward), Bubu de Montparnasse (Charles-Louis Philippe), O Lazarilho de Tormes (Anónimo), Billy Budd, Marinheiro (Herman Melville), Histórias da Areia (Isabelle Eberhardt), só para mencionar alguns. No entanto, Aníbal Fernandes não se fica, apenas, pelas traduções. Não podemos esquecer as notas de apresentação e as introduções aos livros que traduziu, que são reveladoras do cuidado que Aníbal Fernandes tem com os seus autores, e que dão ao leitor pistas importantes para o melhor entendimento da obra que está prestes a ler. Aníbal Fernandes é um nome incontornável da tradução e da literatura em Portugal. Ignorar esse facto é indício de que algo (há muito) vai mal neste pequeno burgo.

Tomas Tranströmer (1931-2015)






Reverso (6)




Toda a versão é uma blasfémia, para os fãs mais empedernidos. Pode ser o caso da versão que os Nouvelle Vague fizeram do clássico dos Bauhaus: Bela Lugosi's Dead. Sinceramente, considero uma versão muito mais conseguida do que aquela que envolve (ao vivo) TV On The Radio, Trent Reznor e o próprio Peter Murphy. Os Nouvelle Vague conseguiram reproduzir o ambiente gótico, com um pouco mais de charme, sensualidade e erotismo. O que não é nada mau.

Discos pedidos (138)




Wash my face in fields of green
Take me to the stars for free

Peter Murphy



Ruas e ruas. Transversais, paralelas, oblíquas. A noite e os seus candeeiros. O vento, lá fora. Falta pouco para o silêncio enternecedor dos prédios, quando todas as janelas se fecham e a vida parece, apesar de tudo, simples. E devagar regressamos a uma penumbra que nos é familiar, que construímos ao longo dos anos. Poucas coisas nos servem de consolo. Poucas coisas. Mesmo assim: persistimos na vertigem. Avançamos deserto dentro. Talvez seja esta a única maneira de nos sentirmos verdadeiramente vivos. A verdade (e que importa a verdade?) é que nunca aprendemos a sentir de outra maneira. 

Joaquim Manuel Magalhães


    A poesia é uma queda na linguagem de certas formas emocionais da sabedoria. Os sentidos imersos no mundo, a razão carregada de diálogos interpretativos, a sensibilidade dispersa nos jogos do corpo fomentam um encontro que cresce diante da superfície das coisas e busca atingir o fundo fundamento dos mecanismos que fazem movê-las. A aprendizagem desse crescimento e as conclusões dessa busca transportam o olhar íntimo de alguns para a compreensão da tensa unidade que junta os fragmentos do mundo até ao modelo que configura a sua perfeita distribuição.
   Essa evidência pode ser atingida sem ser partilhada. Mas o homem ocidental procura, sobretudo, a ligação aos outros, a transmissão das suas descobertas ao agregado que o instituiu como seu. Assim, continuamente, aspira à oferta do que descobriu sem palavras, à ultrapassagem do silêncio em que sabe. A sua civilização irrompe como cultura desse silêncio: ela propõe-se como a fixação em palavras e mecanismos do essencial que se descobriu como evidência. Essa mimésis precisa, para existir, de deixar cair para os outros o encontro íntimo da descoberta.
    A poesia é, pois, uma das formas dessa queda. A imitação a que procede daquilo que se pôde saber resulta do transporte para um código partilhável da impartilhável evidência da revelação. Reduz-se ao rumor vocabular o fulgor, que ficaria sem partilha, do silêncio por que se atingiu a peculiar assimilação do segredo do mundo e de si.


em «Uma teoria para João Miguel Fernandes Jorge», posfácio a À Beira do Mar de Junho, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1ª edição, 1982, p. 117.
    

50 livros + 34




Sião trouxe-me nomes: Manuel Fernando Gonçalves, José Amaro Dionísio, R. Lino, Nuno Guimarães, entres outros. Entre esses outros: José Dias de Souza. O excerto reproduzido nessa antologia abriu-me o apetite para procurar o livro. No Verão passado encontrei-o, li-o e ficou-me: Os dias foram mais passando (nunca mais a hora dos milagres, perder o juízo e ser logo santo, longe de castas devoções, oferendas, peregrinações, mezinhas) e as minhas mãos sempre vazias das mais doces alegrias ou deboches que o céu sempre guarda para meninos mais bonitos; e eu era um deles: dizia-mo a catequista em cada hora de devoção ao exibir-me perante um minúsculo rebanho que arrulhava pior do que eu. (p. 17). Isto é apenas o início do primeiro parágrafo do primeiro capítulo. Depois, mais à frente, eis que: Descíamos as calças e logo olhávamos, com mãos ágeis o outro, como os galegos; murmúrios de um gozo senão os mais caseiros rejeitava todos os outros medos. Antecipávamos o povoar dos nossos sexos, querendo-os mais cobertos do que os dos homens que mergulhavam grossas pernas no vinho que os havia de embebedar no ano seguinte; e nesse esconderijo de ignomínia, com a mão já cansada de esfregar, emudecíamos no pressentimento de um ruído humano, querendo, muitas vezes, repartir aquele jogo: um ia-lhe pela frente, o outro por detrás, e ambos ficávamos servidos e contentes e ela duplamente; e havíamos de passar o resto da tarde às voltas com uma martirizada redacção sobre a Páscoa e uma conta de dividir. (p. 66). E por aí em diante. 

Jorge Roque


Poesia do real

Nunca entendi a distinção entre poesia do real e outra que não vislumbro o que seja (poesia das palavras? dos processos poéticos de composição? do equívoco a que chamam música da língua?). Dito isto, não surpreenderá que diga que poesia do real é, no que consigo alcançar, a poesia real. O resto é poesia da poesia, isto é, e redondamente, e até mesmo cultamente, exacerbadamente, arrebicadamente, nada.


de «Uma escada que sobe pelos degraus de ti» em Cão Celeste, nº 6, Novembro de 2014, p. 18.

50 livros + 33




Aos vinte e um anos tinha poucos interesses. Alguns dos que eu conhecia dedicavam-se à arte chinesa. Outros especializavam-se em casanovices. Eu, fruto de muitos equívocos, especializei-me em submarinos nocturnos na esplanada do Vinagre. É claro que as manhãs e as tardes tinham de ser ocupadas. As manhãs eram ocupadas com idas à Biblioteca Municipal, onde procurei ocupar os tempos livres da melhor maneira possível, ora catalogando e arrumando livros nas respectivas prateleiras, ora lendo. As tardes eram o rio, o sol e algumas mamas espetadas, pois a água do rio (mesmo em Julho) não está para mamilos sensíveis. Livros: foram lidos alguns. Mas foi, essencialmente, um ano herbertiano. Ou melhor: um Verão. E, por vezes, era difícil olhar para a realidade com os mesmo olhos, sem ter algumas palavras a ressoar, a dar palmadas na nuca. Catrapum! E assim sucessivamente, até que a ordem estabelecida por compêndios e gramáticas desaparece, dando lugar a algo que não conseguimos definir. Mas, verdade seja dita, para quê definições?

Discos pedidos (137)




Existem palavras que, na minha cabeça, ganham a força de uma avalanche. Contra elas, contra ela, pouco, ou nada, posso fazer. À porta do café, um ser magro de lábios gretados e pele macerada, pela calçada da rua, pergunta-me se lhe pago o café. Digo que sim e estico a irremediável moeda. Digo: irremediável: pois acredito que não cobrirá o que lhe falta para a dose de café. Ele olha para mim com olhos baços e não vejo neles cansaços, antes derrota. A minha. 

Herberto Helder (1930-2015)




Li a sua poesia nos idos de 98. A sua prosa, idem. Foi um ano herbertiano. Ficou-me a prosa. 

(...)


© manuel a. domingos, 2015
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Pensamento do dia



The Golden Palominos
Drown
Dead Inside
1996

Discos pedidos (136)




you've driven these streets a thousand times and all they offer is their exhaustion
The Golden Palominos


Acordas antes do despertador. Abres os olhos. O quarto. A escuridão. O despertador toca. Levantas-te, habituas os pés ao chão. Caminhas. Passos curtos. Tens cuidado para não bateres em nenhuma esquina dos poucos móveis que ocupam o pequeno quarto a trezentos euros o mês mais serventia de cozinha e uma casa-de-banho para mais três pessoas com quem divides o resto do apartamento. Abres devagar a persiana. Os olhos habituam-se à luz. Pegas na toalha de banho do estendal e rumas até à casa-de-banho, antes que alguém se antecipe e fiques sem o necessário e imperativo duche. Ao menos a água sai sempre quente e com a pressão desejada. Ao menos isso. Sabe bem sentir o corpo a acordar. Desta vez não foi champô para os olhos. Ao menos isso. Vais para o quarto novamente. Escolhes a roupa que vais vestir e que, pensas, irá ajudar contra as camelices do mundo, roupa boa para vestir o “bom dia” que nunca ouviste na rua. Bebes a tua dose de coragem líquida e comes duas fatias de pão com cereais xpto e promessas de fibra suficiente para regular o trânsito intestinal. Lavas os dentes. Não esqueces as lentes de contacto. No elevador marcas o zero, mas também podias marcar ou o menos um ou o menos dois. É como te sentes: abaixo de. Mas lá continuas e sais à rua. Há um ar fresco que vai ao encontro da tua cara e das tuas mãos. Colocas os óculos de sol, pois, aprendeste, o inferno são os outros. No café do costume bebes a segunda dose de coragem líquida. Aqui, pensas, dizem — bom dia! e sai uma bica! — pois já te conhecem. E lá tens que seguir o teu caminho. Caminhas lentamente. Não tens pressa, ou já não te importas com o facto de poderes chegar atrasado. Pelo caminho há pais que entregam os filhos no colégio. Apitam, aceleram em seco. Estão sempre com pressa. Estão sempre atrasados. Pontualidade, pensas, não é para gente “rica”. Chegas à tua escola. Um dos teus alunos, que nunca te cumprimenta, pergunta — vamos ter aula consigo, né, stôr? — quando sabe perfeitamente que sim, pois raramente falta. Reparas, depois, que tem um cigarro na mão e fuma à homem e quer que o vejas fumar à homem. Entras na escola e há uma fight algures, que rapidamente chega ao local onde te encontras. O barulho é ensurdecedor. Tentas respirar fundo. É então que reparas: estás a respirar fundo desde o momento que saíste do quarto. Respiras fundo. Respira fundo. É apenas mais um dia.

50 livros + 32



Foi o primeiro livro de poemas de José Alberto Oliveira que li. Só mais tarde o comprei. A presença de José Alberto Oliveira, na poesia portuguesa dos últimos vinte anos, é discreta (apesar de ser publicado numa editora que foi e continua a ser referência na publicação de poesia em Portugal). Os poemas de Por alguns dias vão buscar ao quotidiano, às pequenas-grandes-coisas do dia-a-dia o mote. Pelo meio, o autor dá a sua visão do mundo: umas vezes desconcertante; outras mais apaziguadora. No entanto, não espere o leitor uma poesia "fácil". 

Bolachas de Manteiga Dinamarquesas



Havia uma sala onde a luz do sol entrava ao meio da tarde. Quando a janela estava aberta podíamos ouvir a água no tanque do vizinho e o ribeiro lá ao fundo. Às vezes ouvia-se a rádio. Outras: ouvia-se alguém ler o jornal em voz alta: Amigo da Verdade. E havia sempre, ou quase sempre, bolachas de manteiga dinamarquesas: ou caixa azul ou caixa vermelha. São, por assim dizer, as minhas madalenas de Proust. 

(...)


Ars Poetica

Um dia disse:

"Quero oferecer-
-te os frutos do dia"

Recusaste a pensar
que eram versos

E nas mãos apenas
tinha: ameixas

outras cores

Discos pedidos (135)



It may be hell down there
'Cause it's heaven up here

Echo and the Bunnymen


Em Lisboa, como em qualquer outro lugar, não é difícil morrer em Las Vegas. Há muito por onde escolher. Durante anos escolhemos o Bairro Alto: aquário de cores e fumos. Depois, com a idade, passámos a ser mais refinados e, a bem da verdade, passou a custar, um pouco mais, correr ao lado do elevador da Glória, com o objectivo de provar (não sei bem a quem) que não valia a pena comprar o bilhete, que chegávamos mais rápido ou, na pior das hipóteses, ao mesmo tempo. Resumindo: ficámos velhos sem darmos bem conta disso. Mas continua a ser fácil, em Lisboa, morrer em Las Vegas.

Byung-Chul Han


A técnica de gestão do tempo e da atenção associada ao multifuncionalismo (multitasking) não representa qualquer progresso civilizacional. (…) O multifuncionalismo é, com efeito, amplamente praticado pelos animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção indispensável à sobrevivência dos animais na selva. (…) O multifuncionalismo, por um lado, e certas atividades como os jogos de computador, por outro, produzem uma atenção ao mesmo tempo ampla e pouco profunda, semelhante ao estado de alerta dos animais selvagens. (…) Os mais recentes progressos da nossa sociedade e a mudança estrutural da atenção aproxima cada vez mais a sociedade humana da vida selvagem. (…) O desejo de uma vida feliz, associada a relações interpessoais também elas felizes, dá lugar a uma mera preocupação pela sobrevivência.


em A Sociedade do Cansaço, tradução de Gilda Lopes Encarnação, Lisboa: Relógio D’Água, 2014, pp. 25-26

(...)


Ontem, durante a viagem no IC, vim ao lado de um jovem mancebo que, durante duas horas de viagem, andou a saltar de filme em filme, de série em série, sem nunca ver nada até ao fim, no seu computador portátil. Tal acontecimento fez-me lembrar o termo hiperatenção, explicado por Byung-Chul Han no seu livro A Sociedade do Cansaço. Por aquilo que entendi da leitura, hiperatenção não é sinónimo de uma atenção rigorosa, isto é, concentrada e aplicada a um só assunto. Não, pelo contrário: hiperatenção é a atenção que se dispersa por vários assuntos, sem aprofundar nenhum deles. E penso que foi a isso que ontem assisti: hiperatenção. O jovem mancebo viu um pouco de Matrix, depois saltou para vários episódios de Family Guy (sem nunca concluir nenhum) e, por último, um episódio da série Roma (sem o concluir também). E, enquanto fazia tudo isto, ainda enviava mensagens através do seu telemóvel (multitasking: algo que Han diz aproximar-nos dos animais selvagens).

Das fotos (31)


Sem título
© manuel a. domingos, 2015
(clicar na imagem para aumentar)

Discos pedidos (134)




where unadmired beings
dread the due changes ahead

Red House Painters

Tardes e tardes a rebobinar a cassete. Tardes e tardes. E tardes. Tardes.

Como se nada fosse - José Alberto Oliveira





José Alberto Oliveira
Como se nada fosse
Assírio & Alvim
2015

Raoul Vaneigem

   
  Quando homens políticos duma confrangedora mediocridade vos convidam a submeterem-lhes as vossas reivindicações, acaso não sentirão a satisfação de vos descobrir tão inteligentes como eles, se não do ponto de vista financeiro pelo menos em inteligência e imaginação? Duma coisa não duvidem: ao baixo preço a que vocês se saldam, esses políticos, sem regatear, concedem-vos o direito deles dizerem mal em grandes manifestações catárticas.
   A pior resignação é aquela que a si mesma atribui o alibi da revolta. Terão vocês acaso tão pouca estima pelas vossas próprias pessoas que nem tempo tenham para identificar os vossos desejos viventes? Que nem saibam que vida desejam levar? Não pressentirão vocês outra opção que não seja a da alternativa, que vos propõem oficialmente, entre a pobreza do rico e a miséria do pobre?
   E será preciso que o desolador futuro duma vida passada a catar dinheiro mês a mês vos pareça luminoso só porque a sombra do desemprego cresce por toda a parte onde reina o sol mediático do pleno-emprego? Nada mata mais seguramente uma pessoa do que isto de contentar-se com sobreviver.


em Aviso aos alunos do básico e secundário, tradução de Júlio Henriques, Lisboa: Antígona, 1996, pp. 43-44.

Diálogos (11)


(Ouve-se o som do micro-ondas)

PROFESSORA1: Os frutos secos fazem bem à saúde.

(Faz uma pausa, enquanto espera que alguém comente o assunto)

PROFESSORA2: Não devemos é abusar.
PROFESSORA1 (contente da vida): Pois, as calorias!


em Cum Catano!, de Vários Realizadores, 2015

Um poema de Augusto Massi


Viagem ao redor do quarto

Quando permaneço
horas trancado no
escuro do quarto

Ícaro contemporâneo
rumo ao sol negro
do crânio

Não abra a porta,
não pergunte nada,
não deixe velar

o sistema de imagens
gravitando na mente:
raio de luz sanguínea,

fauvismo de carpas,
e a mitologia trágica
de uma noite estrelada.

As explosões solares,
as estranhas migrações
da metáfora e do amor

não podem ser vistas
em plena luz do dia:
são energia negativa.


em Poesia Brasileira do Século XX - Dos Modernistas à Actualidade, selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 2002,  p. 359.

(...)


Só a partir das dez da manhã é que começo a receber os primeiros e-mails. Costumam ser propostas aliciantes de trabalho, que eu recuso sem pensar duas vezes, pois, na realidade, sempre desejei um emprego. Há, também, comentários de anónimos, que eu modero (ou como dirão os mais libertários: censuro). Costumam ser comentários corajosos sobre a minha pessoa, ou sobre terceiros e, às vezes, até sobre quartos de pensões baratas. Mas é só mesmo a partir das dez da manhã que tudo isto costuma acontecer. E ainda só vou no segundo café.

Das fotos (30)


Sem título
© manuel a. domingos, 2015
(clicar na imagem para aumentar)

(...)


Acordas cedo e o gato vem tropeçar nos teus pés. Mia que nem um desalmado, apesar de já ter comido. A mesa está posta para o pequeno-almoço. Bebes a tua dose de coragem líquida e observas o dia, lá fora. O sol brilha, mas há uma neblina matinal que avança dos Covões. Barras um pouco de manteiga na fatia de pão sete cereais. O gato olha para ti impaciente. 

Luiz Pacheco




Refém do seu próprio mito, Luiz Pacheco é hoje comentado e comentado, mas sempre do ponto de vista da anedota. Muitos daqueles que falam em Luiz Pacheco raramente o leram. E, se o leram, não o leram. Há quem diga que nos faz falta "um Pacheco". Sempre achei piada a esta expressão: "um Pacheco". Ou, então, "o Pacheco", como se todos nós tivéssemos com ele andado na escola. Se Luiz Pacheco fosse vivo e estivesse em forma, penso que iria ter muita dificuldade em lidar com tanta filha-da-putice, filho-da-puta, e tudo o resto. A verdade é que Luiz Pacheco passou por nós. Escreveu melhor do que muitas da sua época. Os seus livros circulam por aí, alguns deles a preços exorbitantes. Luiz Pacheco acharia piada a isso.

Um poema de Mário Quintana


Inscrição para um lareira

A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...


em Poesia Brasileira do Século XX - Dos Modernistas à Actualidade, selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 2002,  p. 132.

Ao cuidado de Jorge Melícias


Não tenho aqui o livro Lábio Cortado, Jorge, mas encontrei o poema perdido por aí. Aqui vai ele:


Uma herança de Rimbaud

Qualquer poeta
se pode transformar
em traficante de armas


Agora comenta à vontade, com a tua boa vontade de sempre. Até sempre.

(...)


Ontem, no café do costume em Manteigas, falava com uns amigos sobre a vila que, aos poucos, vemos morrer. Parece que no ano passado, segundo dados do INE, nasceram 12 crianças. Mas, entre Setembro de 2014 e Fevereiro de 2015, foram a enterrar 59 pessoas. Tenho alguns amigos que por cá ficaram, que tiveram a coragem de regressar, depois de anos fora. Eu fiz o contrário: saí daqui aos 15 e nunca mais voltei, nem penso voltar. Admiro os amigos que fizeram o percurso inverso ao meu, que apostaram na sua terra e que querem o melhor para ela pois é nela que querem viver. Admiro-lhes a coragem, o empenho e o trabalho. 

Graham Robb


He had begged, been to jail, committed approximately twelve imprisonable offences with impunity, and survived war, revolution, illness, a gunshot wound, his own family and the Cape of Good Hope. He had been on intimate terms with some of the most remarkable writers and political thinkers of the age.
    The Arthur Rimbaud who eventually washed up on the shores of East Africa was not a helpless innocent.


em Rimbaud, London: Picador, 2001, p. 293.

50 livros + 31



Da primeira e única vez que fui a Londres (em 2003), este foi o único livro que de lá trouxe. Comprei-o numa livraria no centro da cidade. Parte do livro foi lido nas viagens de metro que fiz. Andei pela cidade durante uma semana, mas nunca procurei a casa onde Rimbaud e Verlaine tinham vivido. Não altura Rimbaud era para mim o poeta. Depois a coisa passou-me. No entanto, lembro-me dele várias vezes. E lembro também um poema de Rui Almeida (penso que é o último do livro Lábio Cortado). Não sei se é a melhor e mais completa biografia do poeta francês. É a biografia que tenho e que li. 

Mário Cesariny




Começa a ser uma repetição em mim: cheguei tarde, mas a horas, a vários poetas. Cesariny não é excepção. A sua poesia chegou-me através do projecto Os Poetas, a que tive acesso na Biblioteca Municipal de Manteigas, lá nos idos de 98. E havia um navio de espelhos na Guarda, que era um bar que eu muito frequentava. Depois, só mais tarde, comprei os primeiros livros. Pena Capital é livro quase de cabeceira. E, no outro dia, alguém me lembrou os seguintes versos: e como diz no telhado Jean-Arthur Rimbaud/já não se ouve nada    o tacto desapareceu/ainda somos nós o tesouro violento/com todas as formas de nuvem e de barco secreto/apenas esperamos/ninguém pode dizer que não nos vê/sentados a conversar com o leão de Nemeia/eu procuro do lado dos quarteirões desertos/tu pareces a igreja de S. Domingos a arder*. E pouco há mais a dizer depois disto.


* em Pena Capital, 3ª edição, aumentada, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 96.

Discos pedidos (133)



You keep replaying through the days
That have brought you to this place
You shine your shoes and shave your face
Throw on a suit
You used to be some kind of joke
And all the depths you’ve come to know
You wandered down an open road and you kept going

The Walkmen


A verdade é que deixei, muitas vezes, que a música me levasse para demasiado longe, e, depois, o regresso era mais difícil, o caminho a percorrer mais longo. Depois, tirei a carta de condução. Muitas vezes imaginei seguir caminho, sem parar, até onde a gasolina acabasse. Muitas vezes pensei em pegar no carro e fazer-me à estrada sem destino. Concretizaria, assim, o mais perfeito e batido lugar-comum: desde a Abissínia, de Rimbaud, até à Patagónia, de Chatwin. 

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Várias coisas me irritam profundamente. Mas há uma que se destaca: as pessoas que verbalizam, em voz alta, os seus pensamentos, sem os mesmos serem dirigidos a alguém em particular. Exemplos: esqueci-me das chaves de casa; esqueci a mala na sala de aula... que aborrecimento!; e agora, o que faço?; os alunos estão insuportáveis e eu estou com uma dor de cabeça terrível pois ontem não dormi nada de jeito; hoje não tenho tempo para nada... é aquele dia. E assim sucessivamente. Ninguém está a ouvir, ninguém está preocupado com a merda das suas vidas de merda, mas têm de verbalizar, em voz alta, os seus pensamentos. E, o pior, é que o dizem mesmo em voz ALTA e estridente. Era suposto um gajo habituar-se. Mas não consigo.

Voo Rasante




Voo Rasante
Antologia de Poesia Contemporânea
Coordenação de Helena Vieira
Mariposa Azual
2015

Uma imagem para o dia



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Afinal, dizem-me ao telefone, nem hastear da bandeira houve. Todas as minhas certezas pelo cano. Como sempre. 

Pensamento do dia



Deerhunter
Desire Lines
Halcyon Digest
2010

Max Stirner


O defeito da nossa época perpetua-se no facto de o saber não ter alcançado a sua culminação nem ter sido levado à transparência, continuando a ser algo de material e de formal, de positivo, mas sem se elevar até ao absoluto e é por isto que pesa sobre nós como um fardo. Tal como o homem da antiguidade, devemos desejar o esquecimento bebendo a água do rio Letes que traz felicidade dentro de si, pois de contrário não será possível alcançar-se a si mesmo. Tudo o que é grande deve saber morrer e transfigurar-se, abandonando-se à morte; só o que é miserável amontoa, de modo idêntico ao rígido Tribunal Supremo, arquivos sobre arquivos, pondo em cena os milénios, através de decorativas estatuetas de porcelana, à maneira dos chineses e da sua irradicável puerilidade. O verdadeiro saber alcança a sua culminação precisamente quando cessa de ser saber transformando-se na simplicidade de uma pulsão do homem — Vontade. É assim que, aquele que reflectiu longamente sobre a sua «vocação de homem», acaba por deitar num instante todas as inquietações e todas as peregrinações ao Letes de um sentimento simples, de uma pulsão que, desde então, o guiará cada vez mais, pois foi nela que encontrou a sua vocação. Depois de ter perseguido a sua pista por mil e um caminhos e atalhos de uma busca insana, bastou reconhecê-la, para que ela se desabrochasse numa vontade ética flamejante que ao inflamar o seu coração evita que este se disperse na busca, readquirindo, pelo contrário, frescura e ingenuidade.

em Textos Dispersos, tradução de José Bragança de Miranda, Lisboa: Vega, 2003, pp. 61-62.

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Uma ideia recorrente entre algumas pessoas é: gritar em bicos-de-pé faz de mim uma pessoa alta. Quando vejo alguém reproduzir, em directo, esta ideia, concluo logo o seguinte (mesmo sabendo que posso estar a cometer uma injustiça monumental): ou tens um discurso bacoco ou és o suficientemente burguês para não enxergares uma palmo à frente do nariz, mas pensas que és detentor de uma sabedoria que não tens, ou duma verdade que, na realidade, não é tua, ou. É claro que esta observação também poderá ser, sem excepção, aplicada à minha pessoa, pois, como bem sabemos, sou um burguês que, do conforto do seu sofá, debita opiniãos e mais opiniãos. Mas isso são opiniães.

Uma imagem para o dia



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Em Manteigas, hoje, é feriado municipal. Parece que D. Sancho I lhe deu foral há alguns anos atrás e depois D. Manuel I confirmou-o. Houve, quase de certeza, alvorada de foguetes e banda filarmónica pela rua (e logo nós, que temos duas: e centenárias). Haverá, quase de certeza, gravatas e discursos balofos nos Paços de Concelho (leia-se: Salão Nobre dos). Falarão, quase de certeza, sobre isso de ter foral, a interioridade e essas coisas, os desafios do futuro e os desafios do passado. Estará presente, quase de certeza, ou um secretário de estado ou alguém com um cargo equivalente à sua competência adquirida ao longo de vários anos de trabalho nas "jotas". Haverá, quase de certeza, tudo isto. Certo-certo é que aqui, onde estou, há sol. O dia está mais fresco do que ontem. E é suficiente.

Ensino Recorrente





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© manuel a. domingos, 2015

Estão todos os dias no mesmo local. De manhã à noite. Não são sempre as mesmas pessoas, é certo; mas há sempre alguém com panfletos que fazem perguntas. Não se dirigem a quem com eles se cruzam. Ou: a mim nunca se dirigiram. Talvez a minha cara de manhã seja de poucos amigos. Talvez a minha cara seja de poucos amigos a qualquer hora do dia. Hoje, um dos panfletos pergunta: "Como ser feliz?". É uma pergunta que muitos gostariam de responder, ou saber a resposta. Conheço poucas pessoas que não querem ser felizes. E mesmo aquelas que não se preocupam muito com a felicidade e não querem ser felizes (ou não se preocupam se são felizes ou não), querem ser felizes, mesmo que seja na sua infelicidade, o que não é assim tão estranho. Um exemplo metido à papo-seco: uma vez ouvi uma especialista em musicoterapia dizer que um paciente que esteja deprimido não tem necessariamente que ouvir música alegre; pode muito bem ouvir um nocturno de Chopin e isso mudar o seu dia para melhor. Por que razão não poderão os infelizes ser felizes na sua infelicidade? Por que razão temos de ser todos sorrisos e dentes brancos? Por que razão? Porquê? Vem isto tudo, ou talvez não, a propósito deste excerto que encontrei no blogue do Henrique (deste outro texto):

Ser feliz é uma responsabilidade social, como bem o sabem todas as pessoas que mantêm padrões mínimos de generosidade. Noutros tempos também eu me revoltei contra os cânones instituídos e declarei-me livre do espartilho da felicidade como meta obrigatória e padrão mínimo de inferência de uma normalidade pacificadora. Mas depois compreendi que o direito à infelicidade é conquista que não justifica a convocatória de um exército. Apresentei-me nas fileiras do escrutínio das almas com uma bandeira branca e optei por ser feliz apenas para que me deixassem em paz.

Não quero, de nenhuma maneira, contribuir para nenhuma discussão ou debate ou seja o que for. Apenas dizer que hoje de manhã li o texto em questão e que o mesmo me deixou a pensar. E isto de pensar, nos dias que correm, não é para todos. Posso, desde já e à minha maneira, considerar-me um privilegiado. E os blogues ainda servem para isto: para me porem a pensar. Ainda bem.

Discos pedidos (132)




Acho inúteis as palavras
pra te falar de amor

Amina Alaoui


A verdade é que o Sul somos nós que o fazemos. Nada mais do que isso. Podemos ir para o Sul, mas o Sul somos nós que o fazemos. Tento, todos os dias, trazer um pouco do Sul até mim. Procuro, algures na memória, um alaúde e o aroma às laranjeiras em flor e o teu corpo. E o Sul vem até mim num instante. E por lá fico. 

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Há algo estranho no seguinte: sempre que o comboio sai atrasado de Coimbra, chego mais cedo ao quarto que me espera em Lisboa. Não deixa de ser um dado curioso, este. E depois há o metro que chega a horas, excepto, talvez, no Saldanha, onde tenho que esperar, pelo menos, dez minutos por ele. E há, ainda, a música de Amina Alaoui nos meus ouvidos, a sua voz, o árabe que não percebo mas que me comove quase às lágrimas.