Lí por aí


Dias repletos de nada e de vazio. Há muito não vemos mar nem deserto, há muito não nos aventuramos no interior da floresta. As rotinas são horas a fio comidas pelo tédio. De longe o vento traz memórias escondidas na penumbra, e quando o sol se levanta a gente encolhe os ombros, baixa a cabeça, e sentencia: mais um dia. Apenas mais um dia repleto de nada e de vazio. Cozemos o nosso próprio pão, que barramos com o doce da espera. Tememos perder da voz o tom que ainda nos consome. O esquecimento é um perigo a que sempre estivemos sujeitos, contra ele escrevemos, inscrevemos na página as cifras do impossível. Que queremos realmente? Que queremos a ponto de nos fazer andar por cima das águas? Paz já temos, uma paz tão parada que parecemos grãos de areia pisados pelo universo. Mas é uma paz inquieta, desassossegada, porque falta talvez aquele desejo cumprido de liberdade e acção que nunca a trágica cobardia conseguiu satisfazer. Elevamos o espírito às alturas com canções sobre barcos que partiram, poemas que viajam no tempo e no espaço enquanto nós, sentados na mesa do café, divagamos sobre lugares imaginários. As cidades, as aldeias, as vilas que vêm nos livros não têm albergue que te acolha. Serias desterrado nessas terras, viverias na rua como um indigente desabrigado. E a meteorologia não ajuda. Pedimos esmola à vontade para nos mantermos de pé, subalimentados de sonho e de alegria, subalimentados de aventura e de risco, quase mortos, quase mortos. Razões não encontramos para tanta espera, ausência que justificamos com escárnio por nós próprios. Não saber dar ao corpo asas e escamas e recessos sanguíneos de loucura, apenas álcool em saldo no supermercado e cafeína esmorecedora. Esta droga de estar vivo não nos reinventa a morte, faz de nós espelhos partidos, espalhados pelo chão, sobre os quais caminham com seus pés gigantescos ilusionistas e prestidigitadores. Um médico traçaria o diagnóstico, receitar-te-ia o medicamento certo segundo o seu padrão de avaliar a dor alheia, mas sabes por experiência própria que jamais uma receita te valeu um segundo que fosse de pura alegria. Anseias por um dia sem espera, por um dia sem distância nem ausência, um dia que possas dizer autêntico, um dia sobre o qual possas dizer é este o dia, o dia luminoso em que o vazio se encheu de ti próprio, rebentado pelas costuras, sem mais subterfúgios nem fingimentos.

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