Medula





1. Henrique Manuel Bento Fialho escreve sobre o livro Talvez seja essa certeza, de António Amaral Tavares. O texto pode ser lido aqui.

2. Manuel de Freitas escreve na E - Revista do Expresso sobre o mesmo livro (clicar na imagem).


Um poema de Fernando Luís Sampaio


Lugares de Sombra

Estas às vezes vagarosas ilusões
em breve desistidas abrem
no meio das frases
lugares de sombra, desiguais tempestades.

E arrancam ocultas folhagens,
rastros de cólera, madeiras
corroídas pela torquez
da impaciência.
E ao mover os dedos,
a tua imensa sombra
arde no sublime cenário
destas imagens.
E assomam mais ferozes
águas, desiguais
tempestades...

em Sólon, s/l: Gota de Água/Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Colecção Plural de Poesia, 1987, p. 11.

Lí por aí


Dias repletos de nada e de vazio. Há muito não vemos mar nem deserto, há muito não nos aventuramos no interior da floresta. As rotinas são horas a fio comidas pelo tédio. De longe o vento traz memórias escondidas na penumbra, e quando o sol se levanta a gente encolhe os ombros, baixa a cabeça, e sentencia: mais um dia. Apenas mais um dia repleto de nada e de vazio. Cozemos o nosso próprio pão, que barramos com o doce da espera. Tememos perder da voz o tom que ainda nos consome. O esquecimento é um perigo a que sempre estivemos sujeitos, contra ele escrevemos, inscrevemos na página as cifras do impossível. Que queremos realmente? Que queremos a ponto de nos fazer andar por cima das águas? Paz já temos, uma paz tão parada que parecemos grãos de areia pisados pelo universo. Mas é uma paz inquieta, desassossegada, porque falta talvez aquele desejo cumprido de liberdade e acção que nunca a trágica cobardia conseguiu satisfazer. Elevamos o espírito às alturas com canções sobre barcos que partiram, poemas que viajam no tempo e no espaço enquanto nós, sentados na mesa do café, divagamos sobre lugares imaginários. As cidades, as aldeias, as vilas que vêm nos livros não têm albergue que te acolha. Serias desterrado nessas terras, viverias na rua como um indigente desabrigado. E a meteorologia não ajuda. Pedimos esmola à vontade para nos mantermos de pé, subalimentados de sonho e de alegria, subalimentados de aventura e de risco, quase mortos, quase mortos. Razões não encontramos para tanta espera, ausência que justificamos com escárnio por nós próprios. Não saber dar ao corpo asas e escamas e recessos sanguíneos de loucura, apenas álcool em saldo no supermercado e cafeína esmorecedora. Esta droga de estar vivo não nos reinventa a morte, faz de nós espelhos partidos, espalhados pelo chão, sobre os quais caminham com seus pés gigantescos ilusionistas e prestidigitadores. Um médico traçaria o diagnóstico, receitar-te-ia o medicamento certo segundo o seu padrão de avaliar a dor alheia, mas sabes por experiência própria que jamais uma receita te valeu um segundo que fosse de pura alegria. Anseias por um dia sem espera, por um dia sem distância nem ausência, um dia que possas dizer autêntico, um dia sobre o qual possas dizer é este o dia, o dia luminoso em que o vazio se encheu de ti próprio, rebentado pelas costuras, sem mais subterfúgios nem fingimentos.

Discos pedidos (130)



 Words don't seem to speak
Speech can't seem to reach where you are now

The Ascent of Everest


As tardes todas de uma só vez. Na altura não nos apercebíamos disso, mas era o que estava a acontecer. Algumas razões ditavam essa nossa fome, sede. Não conseguiríamos adiar o inevitável: poderíamos, apenas, demorá-lo um pouco. E foi isso que fizemos. Até ao osso. E o osso, no final, deu de si.

(...)


Enquanto escrevo este texto, a máquina lava a roupa, uma ambulância percorre a avenida com a urgência, talvez, de uma vida, os vizinhos começam a regressar aos seus apartamentos, a noite começa a ganhar espaço ao dia. É claro que nada disto é importante, tendo em conta que ontem a Grécia foi a votos. Só que aqui, neste momento, eu sou tudo isto e mais aquilo que não se pode contar, dizer. E isso, caro leitor, faz toda a diferença.

Discos pedidos (129)




A ja se pitam moja draga
Sta ce biti sa nama?

Goran Bregovic



Aos meus amigos nunca ofereço poemas. Deixo-os antes com o meu silêncio e o olhar fixo no vazio. Para eles nunca tenho restos de algo nos bolsos: apenas mãos que eles apertam com vontade. Verdade seja dita: eles são uma festa que procuro poucas vezes e eles habituaram-se à minha ausência. Não reclamam. Não apontam o dedo. Os meus amigos dizem aos amigos deles que sou poeta e riem-se ao dizê-lo. E eu fico-lhes grato por isso. É a melhor e maior qualidade dos meus amigos: não me levam a sério.


(...)


Há uma banda sonora para a cidade que se fecha em janelas de alumínio. É uma banda sonora muito minha, onde Dead Can Dance embalam Godspeed You! Black Emperor. Desta vez é o Lumiar e um quarto com marquise. Aqui, todos os quartos com marquise são elevados ao patamar mais alto. São uma mais-valia, segundo os entendidos.

Discos pedidos (128)




Não deixes que o frio te chegue aos ossos. Agasalha-te. E passa ao largo dos dias. Caso não te seja possível, investe em melancolia. Mas agasalha-te. Não deixes que o mundo te dite o silêncio. Cala-o tu.

Um poema de Rute Castro


28.

cheira àquilo que parece povo de boca grande no centro de um
novelo. se tudo estivesse certo seria de diagnosticar o problema que se
deita na rua para ser atropelado. tem de haver dentes e líder e voz, e
cosa que abandeire a vida, senão o corpinho estendido será de efeito
imediato de entrega de prémio, e o não ter nada para dizer desmaia
por falar demais, sempre foi assim, falta-lhe fôlego próprio e é chato
quando se lê e se sabe vazio, é chato quando pelos ares qual balão de
criança, e como se vai ar também falta. havia de se espetar o balão
rapidamente, catraios mais crescidos, mas vão santos e sardinhas
de viagem que é isto que é aquilo que cai e deixa a norte o escuro e
vende a alma no jogo, que é dia frio, caminha bem como esboço que
abre de si o peito e soa a grande abate,

hoje é dia de abraço conjunto da religião e nenhuma fé, santo antónio
da moedinha, o pulinho entre cerveja e corte salarial, a tontura do que
reza a missa, do que se passeia pela trela e se diz que se ama.


em O Sangue da Flores, Lisboa: Artefacto, 2014, p. 40.

No segundo aniversário da Medula*


Boa tarde a todos e obrigado pela Vossa presença

Tentarei ser breve, banal e usar uma série de chavões, ou clichés (como dizem os franceses).

Há muito que me questiono sobre a utilidade da poesia: para que serve, afinal? E hoje faço outra pergunta: para que serve, afinal, uma editora de poesia? E por que razão nos dizemos independentes?

A Medula faz hoje dois anos. Em dois anos publicámos seis livros. Apresentamos hoje o número sete e penso que não há melhor maneira de comemorar o nosso segundo aniversário. No entanto, a pergunta mantém-se: para que serve, afinal, uma editora de poesia?

A resposta poderá ser a seguinte: resistência. Sei que é um argumento banal, um chavão, um cliché. Mas, estando eu desempregado quando “fundámos” (eu e a Carla) a Medula; estando desempregado agora, que perante vós falo; sabendo que nunca iremos viver às custas da Medula e que nem o queremos fazer (embora a outra medula nos seja muito essencial); sabendo que publicamos hoje o número sete, mas não sabemos quando poderemos publicar o número oito; que outro motivo poderá existir senão aquele da resistência? Resistir. Resistir contra as camelices do mundo, contra a canga, contra os invertebrados que dizem ter coluna ― esquecendo que o essencial é ter espinha.

E independentes? Sim, independentes. Porque não dependemos de distribuição comercial; não dependemos de críticas nos jornais (por opção não enviamos livros a críticos, pois, como Joaquim Castro Caldas: “o poeta tem frigorífico: o editor tem frigorífico); e porque não somos uma vanity press, não dependemos da carteira dos nossos autores. Daí sermos independentes. E resistimos.

Resistimos apoiando-nos, suportando-nos nos amigos: Andreia Pires, Carlos Veríssimo, Maria Sousa, Miguel de Carvalho, Nuno Abrantes, Ricardo Álvaro, Sandra Cruz, Seixas Peixoto. Muito obrigado.

Por último, uma palavra de agradecimento ao Jorge Fragoso ― que me deu a conhecer a poesia do António ―; ao António ― por ter aceitado o desafio de ser um autor Medula; à Catarina Costa ― a amabilidade e disponibilidade que demonstrou para apresentar o livro.


Mais uma vez: muito obrigado pela Vossa presença.


*texto lido ontem ao início da apresentação de Talvez seja essa certeza de António Amaral Tavares.

Amanhã



(clicar na imagem para aumentar)

Medula


Maria da Conceição Caleiro escreve sobre Namban de John Mateer no Ípsilon. É só clicar aqui.