Pensamento para 2015



Savages
Fuckers
Fuckers/Dream Baby Dream 12"
2014

Discos pedidos (127)




I am a breaker of ocean
Leaden like a bullet to the sun

Savages


O mundo. As suas camelices. A canga. A coluna a ser vergada, mas a espinha a resistir. Até quando? Não sei. Mas ela lá vai resistindo. Enquanto assim for: poderei andar de cabeça erguida. Sempre de cabeça erguida. E quem no meu caminho se atravessar, encontrar-me-á, sempre, olhos nos olhos.

Pensamento do ano




Nils Økland & Sigbjørn Apeland
Belg og slag
Lysøen - Hommage à Ole Bull
2011

(...)




O natural é fazer o balanço do ano que terminou. Costumava fazê-lo a pedido do Américo Rodrigues, que todos os anos publicava no extinto Café Mondego os vários balanços e balancetes que lhe enviavam. Como o blogue dele acabou, não há ninguém a pedir-me um balanço de 2014. Assim sendo, aqui vai, para memória futura, esta coisa de balançar o ano que termina:

1. Dos 365 dias possíveis de trabalho, trabalhei 70 dias. Sou professor contratado desde o ano lectivo 2001/2002. Foi a primeira vez que trabalhei tão pouco: 45 dias em Arcozelo (Ponte de Lima) e 25 dias em Pardilhó. Os salários que auferi quase não cobriram a despesa que tive com as deslocações (no caso de Arcozelo está incluída a renda de casa);
2. Tive saúde suficiente para trabalhar os 70 dias, excepto, talvez, quando abusei do sarrabulho (o melhor do ano) e do vinho verde tinto (o melhor do ano) que comi e bebi em Ponte de Lima;
3. Gastei mais do que devia em livros de poesia. Li tudo o que comprei;
4. Gastei mais do que devia em CDs. Ouvi tudo o que comprei;
5. Quase todos os planos que fiz em 2013 para 2014 não foram cumpridos, o que nem foi mau de todo, pois entre eles estava incluído viver, apenas, do ar que respiro, e o ar, a bem da verdade, há muito que está um tanto ou quanto irrespirável;
6. Fiz novas amizades e desfiz velhas: muito (até agora) se ganhou e nada se perdeu;
7. Sei que defraudei algumas pessoas. Elas que me perdoem, mas com o tempo uma pessoa habitua-se;
8. Procurei ser o mais honesto comigo e com os outros. É claro que, num país como o nosso, isso nem sempre é um ponto a nosso favor. Mas prefiro manter a espinha direita, apesar da canga que tantas vezes me tentam colocar;
9. Adoptei um gato, ou melhor: um gato adoptou-me (está agora ali a miar, pois ainda não lhe dei colo hoje);
10. Bebi menos do que em 2013 (algum dia tinha de começar), mas comi mais sandes de orelheira fumada na Toca do Gato.

E, basicamente, é isto.

50 livros + 30




Na actual literatura portuguesa, poucos são os romancistas, ou contistas, que me interessam. Exceptuando meia dúzia de nomes: José Riço Direitinho, Gonçalo M. Tavares (O Reino), Rui Manuel Amaral, Afonso Cruz, Pedro Rosa Mendes: poucos são aqueles que despertam em mim a vontade de os ler. Baía do Tigres têm a particularidade da difícil "catalogação": romance? crónica? crónica-romance? literatura de viagens? A comparação com Chatwin poderá ser o caminho mais fácil (apesar do paralelismo ser óbvio). Gosto de ver este livro de Pedro Rosa Mendes como uma espécie de non-fiction novel, à maneira desse fantástico Os Exércitos da Noite, de Norman Mailer. O autor consegue, numa simbiose cuidada, relacionar a vertente real com a ficção. Para isso o autor introduz na “ficção” entrevistas gravadas, relatos históricos (em que o autor cita as fontes), receitas para curar diversas maleitas, histórias anónimas de gente anónima, excertos de outros livros e a sua viagem (propriamente dita). No entanto, Pedro Rosa Mendes nunca perde a noção de que está a escrever sobre Homens e Mulheres. O autor procura, em certa medida, demonstrar que o absurdo do mundo (esse que nos chega através ou dos jornais ou da televisão — e hoje cada vez mais através da internet) é apenas um motivo, uma desculpa, para quem está sentado no conforto do seu lar poder dizer que as coisas vão mal lá fora. Ao lermos Baía do Tigres ficamos a saber que o absurdo, como tudo na vida, é relativo. Ficamos a saber que absurdo, para alguns e em alguns lugares do mundo, é ver água a correr das torneiras.

Um poema de António José Fernandes


Não descanses agora


Não descanses agora

Não descanses agora porque existem bombas
Baionetas apontadas ao ventre dos jovens
Cidades ameaçadas de ruínas e silêncios
Torpedos e naufrágios espreitando navios na sombra
Não descanses agora
Grita amaldiçoa chora
Mas não descanses agora

Trata-se de manter o vigor dos atletas
A ternura das noivas a arte dos operários
Trata-se de manter o ritmo das lendas
A linha das estátuas a chave dos romances
Trata-se de manter as árvores de pé
A pureza dos frutos o riso das crianças
Não descanses agora

Cresce no horizonte uma paisagem de morte
Resiste-lhe com teu corpo unido a outros corpos
Unhas dentes braços pernas sangue
Resiste-lhe com palavras altas como montanhas
Com lágrimas de fúria grandes como planetas
E mesmo com silêncios que transformarás em pedras
E relâmpagos de memória que transformarás em esperança

Não descanses agora



em Ainda não é tarde (1955), retirado de Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (org. Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro), 2ª edição revista, actualizada e com uma nova introdução, Lisboa: Livraria Morais Editora, Colecção Círculo de Poesia, 1961, p. 280.

(...)


Dostoiévski podia ter escolhido nomes próprios mais fáceis. Ou, como diz o André Quaresma, "no minimo usar sempre a mesma denominação em vez de 30 diminutivos diferentes para cada um". São, apenas, três irmãos; mas parece que está lá uma família inteira, com primos, tios, tios-avós e mais um regimento de infantaria. 

Pensamento do dia



Equals
Telefoto
Tracts
2014

Uma imagem para o dia



(...)


Começo a pensar que é realmente absurdo acreditar que a poesia pode salvar. Por vezes caio na tentação de existir, apenas, dentro da poesia, ou do poema. Depois, lembro o exemplo de Rimbaud, Celan e Biedma. Mas é nessas alturas que surgem poemas como este de Echevarria e como aquele de Valente da Fonseca. Poetas para mim totalmente desconhecidos (mais Valente da Fonseca — esse sim totalmente desconhecido — do que Echevarria). Eis que, a meio do dia, há uma luz, ou algo semelhante à luz, que transfigura, por completo, tudo aquilo que vejo para lá da janela da sala. E de pouco servem palavras, imagens, sons.

Um poema de Fernando Echevarria


Hoje para morrer

Hoje, para morrer era preciso
que a música viesse. E nos beijasse
as pálpebras por dentro. E um sorriso
desceria da água à nossa face.

Tudo seria finalmente liso
como um rio que nunca mais passasse.
Tudo seria tudo, não sendo preciso
um relógio qualquer que nos guardasse

o grande amor que então percorreria
o corpo. Chamar-lhe-iam gravidade,
ou peso, ou nada, ou, simplesmente, fria

inércia, fim. Mas quem respira sabe-
-lhe a fundo o nome. De raiz diria:
"amor irresistível. Terra. Ou nave."


em Gazeta Literária (1961), retirado Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (org. Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro), 2ª edição revista, actualizada e com uma nova introdução, Lisboa: Livraria Morais Editora, Colecção Círculo de Poesia, 1961, pp. 318-319.

(...)


A tarde a meio. O gato dorme embalado pela música de Anouar Brahem. Lá fora não há ruído algum. Aqui dentro um livro espera-me. Começa a ser, para mim, cada vez mais difícil ler um livro até ao fim. Ou ando a ler os livros errados ou nada do que leio me interessa. Mas, mesmo assim, faço o esforço e leio tudo até à última linha, última palavra. Desta vez, e finalmente, Os Irmãos Karamázov, na tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Tenho pena que seja uma edição que já respeita o Acordo Ortográfico (AO). Não deu para comprar o livro antes. Mas sempre pensei que os tradutores tivessem algo a dizer em relação à aplicação do AO. Sempre pensei que certas editoras se mantivessem afastadas do AO. Aquela que me causou mais perplexidade foi a Relógio D'Água, que iria resistir, principalmente pelo facto de ainda não ter sido "engolida" por um grande grupo editorial. Nada a fazer. Ou com AO ou sem AO, é para levar o livro até ao fim.

50 livros + 29




Em Manteigas existem três igrejas e muitas capelas. Nenhuma delas abandonada, nem mesmo a capela de São Lourenço. Antes dos filmes de Tarkovsky, já eu tinha lido os livros de Tonino Guerra. Este, em particular, li-o numa viagem pelo Alentejo. É claro que o Alentejo não é a Itália campestre de Tonino Guerra, mas não deve andar muito longe. O livro (uma pequena preciosidade) é todo ele constituído por pequenas histórias, ou pequenos poemas. Em Tonino Guerra a diferença entre os cânones estabelecidos é muito ténue. Resumindo: sempre que passo perto de uma igreja abandonada (e não existem assim tão poucas por aí), lembro-me deste livro. 

Um poema de Eduardo Valente da Fonseca


Damos um passo na cidade

Damos um passo na cidade e logo
nos espantamos de ainda estarmos vivos.
Para quê e porquê? perguntamos excitados.
As horas e o dinheiro nos respondem
e é então que descobrimos o mistério
de não podermos andar com os bolsos cheios
de flores de pássaros e pão
a despejá-los sem medo de ofender
pelos homens e mulheres silenciosos
regressando do trabalho pelas ruas.

em A cidade e os homens e outros poemas (1956), retirado Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (org. Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro), 2ª edição revista, actualizada e com uma nova introdução, Lisboa: Livraria Morais Editora, Colecção Círculo de Poesia, 1961, p. 307.

Medula


1. Do lado de lá escreve-se sobre Falta de Ar, de E. Ethelbert Miller. É no Washington Independent Review of Books. É só clicar aqui.

2. Do lado de cá, Henrique Manuel Bento Fialho escreve sobre Falta de Ar e Namban (este último de John Mateer). É só clicar aqui.

Discos pedidos (126)




Give me sodomy or give me death!

Diamanda Galas


Há no centro comercial uma loja. Nessa loja há uma rapariga e essa rapariga tem uma cara que dá vontade de esbofetear. Dá vontade de esbofetear enquanto — tira-me esse sorriso da cara — ou então — não sejas tão convencida. Quando pelos corredores do shopping ela se meneia, todos os olhos para ela se voltam e alguns dizem mesmo — ai aquele rabo de cavalo — e outros — ai aquele rabo — enquanto bebe café no lugar de sempre. E talvez até já tenha sido escrita uma música pop que descreve o seu andar. Mas o mp3 não está para aí virado.

Fiódor Dostoiévski


Não são os milagres que empurram o realista para a fé. Um verdadeiro realista, se for descrente, encontrará sempre em si a força e a capacidade de não acreditar em milagres e, caso um milagre se lhe apresente como um facto irrefutável, antes não acreditará nos seus sentimentos do que admitirá o facto. Mesmo que o admita, admite-o como facto natural, só que até então desconhecido para ele. Num realista, não é a fé que nasce em resultado de um milagre, mas um milagre por causa da fé. Se um realista ganhar fé, terá, precisamente em função do seu realismo, de admitir também o milagre.


em Os Irmãos Karamázov, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Lisboa: Editorial Presença, 4ª edição, 2012, p. 39.

Uma imagem para o dia



(...)


No Sábado houve jantar com amigos antigos e mais recentes. Bebi o suficiente para ter a cabeça feita em papa no Domingo. Mas a verdade é que não bebi o suficiente; não como há 10 anos atrás. Já não tenho 25 ou 27. Envelhecer também é isto.

Talvez seja essa certeza - António Amaral Tavares


(clicar para aumentar)

50 livros + 28




Comprado na rua da Anchieta numa manhã de Sábado, Nuez é um livro em que poesia e fotografia se unem numa simbiose praticamente perfeita. Poucos são os livros que conseguem essa proeza: muitas vezes estão as imagens a mais; outras vezes são os poemas; e outras, ainda, nem poemas nem imagens conseguem o que se pretendem. Em Nuez, as fotografias de Paulo Nozolino são como que uma extensão dos poemas de Rui Baião e vice-versa. "Violento" poderá ser o adjectivo mais adequado para caracterizar aquilo que encontramos em Nuez. No entanto, a violência que podemos encontrar no livro é de uma enorme beleza.

Discos pedidos (125)



para o meu primo Carlos David
que emigrou esta semana para a Polónia


'Cause now I got a reasonable economy

The Sex Pistols


Que se lixem os cabrões, primo, esses que te dizem que és jovem e que tens muito para dar ao país, que te deram uma palmadinha nas costas — és um jovem bem porreiro e gostámos muito de te ter connosco — e agora faz-te à vida que não há lugar para ti neste país que há muito é só de velhos. Que se lixem os cabrões, primo, que valendo-se de estágios e formações e voluntariado e o diabo a quatro vão enchendo os bolsos à custa do nosso suor, primo, e depois dizem — oh rapaz, bifes não é para todos. Que se lixem os cabrões, primo, e merda para quantos, com eles, querem nela chafurdar.

(...)

A verdade é que um gajo sujeita-se. Anda à chuva e sujeita-se. Aqui fica, para memória futura, a melhor crítica à poesia que escrevo. Entenda-se, no entanto, que nunca dei a ler inéditos meus (ou qualquer outra coisa) ao Senhor em questão. Entenda-se, também, que o Senhor em questão enviou um manuscrito (via e-mail Medula) para apreciação e o mesmo foi recusado, pois não se enquadrava na linha editorial nem no meu gosto (e isso foi dito e justificado: para o meu gosto pessoal — e repito: gosto pessoal — é uma poesia demasiado adjectivada e com metáforas mirabolantes que nada acrescentam ao poema). Entenda-se, também, que o Senhor em questão é autor publicado pela Chiado, onde o génio anda de braço dado com a factura final. Aqui vai:

tive a amabilidade, liberdade e curiosidade de ler alguns dos seus inéditos, e com todo o delicado e doce respeito que tenho por todo o tipo de poesia e pelas diversas linguagens poéticas existentes (contudo não tenho que apreciá-las ou gostar delas ou senti-las)... foi-me interessante assistir em emissão directa ao assassinato da poesia portuguesa actual. aquilo que escreve, nem tem força de fogo, nem rescaldo, nem imaginação, nem tampouco sinceridade... é insípido de imagens metafóricas ou dor ou sofrimento ou vida ou morte ou sensibilidade ou solidão ou mesmo sangue a pulso como se bate, e quebra desde a terra até ao cosmos...

Já me disseram que isto de responder aos e-mails, com manuscritos para apreciação, irá passar. E eu acredito que sim. Mas, até esse dia chegar, irei tentar ser o mais honesto possível com as pessoas que me confiam originais e que merecem uma resposta. É claro que poderão não ficar contentes com a minha resposta. E eu poderei ler, depois, coisas deste género:


não querendo ser indelicado, dou-lhe o nobre conselho de reler ou ler toda a obra do arthur rimbaud e todos os restantes poetas malditos franceses, muito herberto helder e muito al berto... regressem "lázaros" os mestres das metáforas e adjectivações: a bela morte

coitados dalguns poetas desta nova geração, desculpai-os oh natureza! porque não sabem o que fazem ou escrevem! não sentem! são árcticos! não desfazendo... é triste. fiquei amplamente desapontado. muito bem continue a sua marcha...

eu continuo e trabalho arduamente para o mito: o meu próprio... e admito que não sou ninguém. nem sequer existo. penso e escrevo a morte da vida e a vida da morte! eis o meu inteiro silêncio.

Agora, caros Anónimos, têm aqui material para os Vossos comentários.

Rui Cóias



O modo discreto como Rui Cóias "entrou" e permanece na actual poesia portuguesa, resume-se à publicação (desde 2000) de apenas dois livros de poesia: A Função do Geógrafo (Quasi, 2000) e A Ordem do Mundo (Quasi, 2005). Rui Cóias é um dos poetas mais interessantes da sua geração, e é, também, um dos poetas menos conhecidos da sua geração. Depois de ler A Função do Geógrafo nunca mais olhei para Penacova da mesma maneira. Prosaica q.b., a sua poesia é viagem e paisagem, onde o homem procura as respostas para as eternas perguntas: quem sou? de onde venho? para onde vou?

77 oníricas - John Berryman



John Berryman
77 oníricas
Tradução de Daniel Jonas
Tinta da China
2014

(...)


Ontem, estava eu a ouvir uma entrevista (de há muitos anos) feita por mim a uma prima direita de Vergílio Ferreira, quando, a certo momento, ela diz o seguinte: tirando tudo, ele até era boa pessoa. E fiquei a pensar: na realidade, é isso mesmo: o nosso país, "tirando tudo", é um bom país; o vizinho do 7º Esquerdo, "tirando tudo", é um bom vizinho; e por aí em diante. Definição mais certeira para alguém, ou para algo, não deve haver.

(...)




Em Marselha houve alguém que se lembrou de obrigar os sem-abrigo a andar com um triângulo amarelo, em fundo azul, ao peito. Desta maneira, todos os outros (entenda-se: não-sem-abrigo) os identificam quando por eles passam. Talvez, um dia destes, alguém se lembre de formular uma reza qualquer que esconjure o sem-abrigo que se atravesse no caminho. Vivemos, sem dúvida, tempos muito estranhos e perigosos.

Em Janeiro



António Amaral Tavares
Talvez seja essa certeza
Medula