(...)


A visita a Manteigas está a terminar. Daqui a nada lá iremos de volta para a cidade dos doutores e engenheiros. Atravessaremos a Serra, rumaremos a Nelas e depois IP3. Será uma viagem na companhia ou da Antena 2 ou das Suites para Violoncelo de Bach. O frio, esse, estará do lado de fora e ficará para trás. Malick, o gato, não gostou da primeira viagem; mas não se queixou agora. E, verdade seja dita, parece gostar mais desta casa do que da nossa, lá em Coimbra. Provavelmente, ficará aborrecido com o regresso.

50 livros + 27



Não sou herbertiano convicto. Melhor: não sou herbertiano. Mas a angústia da influência está sempre presente, mesmo ao escrever contra. No entanto, sei separar as águas e afirmo, sem qualquer sombra de dúvida (embora a dúvida seja em mim uma constante) que Os Passos em Volta é um dos melhores livros de literatura portuguesa. Li o livro numas férias de Verão (e nessas mesmas férias li, também, Poesia Toda), e, como é óbvio, andei durante muito tempo com os contos na cabeça, especialmente (cumprindo o habitual cliché) com o início do conto que abre o livro. Deve ser o início mais famoso e conhecido da literatura portuguesa, a par, talvez, com o início de Menina e Moça, ou com o início das Memórias de Raul Brandão. Os Passos em Volta é um livro que recomendo sempre.

Um poema de José Duarte Saraiva

Doença


A inocência indolente dos dias falhados.

Certa, a última doença, o soro envenenado que nos torna fáceis.


em A Cratera dos Mitos, Lisboa: Europress, 1ª edição, 1987, p. 22.

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Obras no prédio. Malick, o gato, tem sofrido um pouco com tanta martelada e tanto berbequim. Anda sobressaltado e procura um lugar longe de tanto ruído. Mas logo descobre que há pouco sítio para onde ir. É então que se aninha numa cadeira, por baixo da mesa da sala. E ali fica, com os olhos bem abertos, à espera que as seis da tarde cheguem depressa. E o sossego também.

Sousa Veloso (1926-2014)



Despeço-me de si, com amizade.

50 livros + 26




Poeta pouco dado ao convívio mediático, Carlos Luís Bessa é, por isso, muito pouco conhecido. E, digo eu, ainda bem. Publicado em 2000, Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina é um livro de poemas onde a tão badalada realidade é mote para o dizer: Esta apólice, o vizinho de cima/A puxar o autoclismo/A bater na mulher e nos filhos//A água da torneira com cheiro a lexívia/Sempre a pingar/O televisor com uma avaria//Talvez o canteiro das flores/Sujas e mal tratadas/Estas zangas por tudo e por nada. (p.27). Carlos Luís Bessa tem, como poucos, a capacidade de dizer aquilo que, para muitos — defensores do sublime e das rezas ao altar-mor onde colocam a poesia —, é indizível: Todos os dias as chaves de casa/Do automóvel, do cacifo. Esta sala este/Quarto de banho branco e azul.//Levanta-se a pala do correio/Para que o dia, para que a luz/Mas a casa como uma ilha//O sustenido da sobrevivência/A sobrevivência em sustenido. (p. 35). 

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(clique na imagem para aumentar)



Disse a mim mesmo que nunca mais traria a este lugar questões de ordem política. Não o irei fazer hoje. Quanto a questões de estupidez humana, abro todos os dias uma excepção — começando pela minha. O artigo, assinado pelo Senhor Manuel Catarino, revela o quão mesquinho pode ser o "jornalismo" luso. Digo "jornalismo" luso, porque é o único que realmente conheço. Os dois primeiros parágrafos do "artigo" (e desculpem o excessivo uso de aspas, mas não tenho outra hipótese) são de um mau-gosto imbecil e não é necessário qualquer outro comentário. Os restantes parágrafos, onde o uso excessivo de diminutivos revela o tom "sério" do "artigo", recuso-me a comentar. No entanto, o último parágrafo — onde o Senhor Manuel Catarino tem o desplante de comparar a vida de reclusão com algo parecido a um retiro espiritual — é a cereja em cima do bolo de verborreia do prezado "jornalista". Fui, durante um ano lectivo, professor no Estabelecimento Prisional de Caxias. Tive um contacto directo e privilegiado com a comunidade do referido Estabelecimento. Retiro espiritual foi uma expressão que nunca me passou pela cabeça utilizar para caracterizar a vida das pessoas que todos os dias entravam numa sala para aprender ou Português ou Inglês. Não sei como será no Estabelecimento Prisional de Évora, embora devam existir diferenças substanciais. Todavia, generalizar — como fez o Senhor Manuel Catarino — e recorrer a comparações estapafúrdias é, no mínimo, uma grande irresponsabilidade. Talvez a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais possa oferecer ao Senhor Manuel Catarino uma experiência de vida de reclusão, digo, retiro espiritual.

Discos pedidos (124)



para Rute Castro

O gato dorme o sono dos gatos na cadeira que ele escolheu e que, assim, lhe ficou destinada. Está enroscado sobre si mesmo, como só os gatos fazem. Esconde o focinho. Talvez tenha frio, apesar do aquecedor ligado. A meia luz do candeeiro de pé ilumina os cantos da sala com sombras. Tens um livro de contos aberto sobre a mesinha. Lês: Dentro da casa ouvia-se sempre o mar*: mas aqui o mar é apenas a marulhada de carros na via-rápida, lá ao fundo. O prédio, a esta hora, está em silêncio. Avanças: Pelo fim da tarde levantava-se uma aragem de sul que invertia o trânsito das embarcações e as fazia regressar*: e sabes que os regressos são sempre esperados, que esperam por ti. Por ti — que nunca partiste.



* Alexandre Sarrazola, Neófitos, Lisboa: Averno, 2014,  p. 45 e p. 57.

Um poema de Alexandre Sarrazola


wolkswagen

arrancaram-nos o baloiço do jardim;
se calhar já estamos crescidos
o espelho pende como um rosto do bico da pega
aquela que sujava o chão da cozinha,
picava as pernas das raparigas e roubava anéis de ouro nos dias de chuva

a pega morreu há muitos anos, nunca a conhecemos.
só lá está o terraço e uma videira muito velhinha.
não sei porque nos arrancaram o baloiço do jardim,
agora que passaram os Santos e o Natal se aproxima

o outro lado do espelho fala de dois miúdos a espreitar;
os olhos redondos a conquistar os leões entre a música de circo
tudo vemelho amarelo e azul com serpentinas e o calor do riso dos pais.
do lado de cá já se envergam chapeuzinhos de tédio com véus
de pés-de-galinha

a esperança nos faróis dos carros às cinco da tarde, já noite pelo inverno
e o pai que se atrasava a ir buscar-nos à catequese ou à ginástica.
“ainda não é aquele, que o wolkswagen tem uns faróis redondinhos”
como os nossos olhos sem expressão a fitar os buracos que restam na terra
do jardim.
não sei porque nos arrancaram o baloiço


em Thaumatrope, Lisboa: Averno, 2007, p. 43.

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Tenho um enorme apreço pela escrita de Vergílio Ferreira. Daí a minha perplexidade ao cruzar-me com o livro cuja capa aqui reproduzo. Ver o autor de Aparição reduzido a uma espécie de arauto nova-era é, no mínimo, atroz. A edição é da Âncora Editora. Penso que Vergílio Ferreira não aprovaria tal "compilação", ou resumo. Mas isto é apenas a minha opinião.

Pensamento do dia



Dirty Three
Distant Shore
Ocean Songs
1998

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Acabou hoje a minha experiência de trabalho em Pardilhó. Não me cruzei com a sombra de Assis Pacheco, embora os seus poemas ecoassem na minha cabeça. Foram 4165km (desde o dia 21 de Outubro) e 300€ em combustível. Quinze (15) horas lectivas e 689,93€ de vencimento.

Ruy Belo




Nunca atravessei o rio Eufrates, mas li-o. A poesia de Ruy Belo acompanha-me há muitos anos. Há quem o esqueça porque acreditava em Deus e porque até frequentou aquela organização cujo nome recuso aqui a escrever. Em Portugal parece que os poetas têm de ser ateus e de esquerda, quando o principal, afinal, é terem espinha. E há, por aí, muito verme. Ora Ruy Belo tinha espinha e pagou caro essa sua característica. É só pensar nas várias filhas-da-putice que lhe fizeram. Joaquim Manuel Magalhães resumiu bem toda a situação: Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar. Mas a poesia dele ainda anda por aí. Espera ser lida. Leiam.

(...)


Novembro. E há pessoas admiradas com tanta chuva. As mesmas que, em Agosto, dizem — está muito calor — e depois também dizem — a chuva faz cá falta — andam agora a queixar-se com a chuva, que tanta falta fazia em Agosto, em Novembro.

Lí por aí


Leio no Malomil, de enfiada, uma série de transcrições de entrevistas a escritores. Sou traído pela repetição. As primeiras provêm de uma entrevista a António Lobo Antunes, vou lendo da mais recente para a mais antiga. Às tantas, deixo de verificar a autoria do dislate e a sua proveniência. E no final dou com José Luís Peixoto. Lobo Antunes e Peixoto, um mesmo discurso, um mesmo tom, uma mesma frivolidade. Tudo tão tacanho que seria estúpido querer pertencer a um clube destes. Ah, que bem se está na paisagem deste país.

Um poema de Raquel Nobre Guerra



Se sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro por que 
rodaram mãos e jeitos de luz? Sim.

Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como acontece na vida.
E vou da primeira à última batida 
na respiração de um pulmão vivido.

Lê assim.

Podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu 
e as coisas voltariam a mim, meras, 
como o ser transportada pelos dias —
mas cairei por aqui.

Meu amor.

Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.


(inédito)

Pensamento do dia



Lumen Drones
Ira Furore
Lumen Drones
ECM
2014

Em repeat



Lumen Drones
(Nils Økland, Per Stainar Lie, Ørjan Haaland)
Lumen Drones
ECM
2014

(...)


Apenas isto: o carro anda a beber óleo; gasto um depósito de gasolina por semana (um dia apresento aqui a conta mensal); a pedra ainda não saiu do rim direito; o estômago tem andado calmo; hoje foi difícil fazer a viagem: muita chuva; ainda tenho alguma paciência com as crianças; começo a ter pouca paciência com os adultos; tenho pouco tempo para isto; a verdade é que também não preciso de muito tempo para isto; ando a ler pouca poesia; ando a ler pouco; ando a ouvir muita música (as três horas de viagens diárias servem para alguma coisa); quanto ao resto: tudo na mesma.

(...)


Desde o dia 21 de Outubro, até hoje, fiz 2.245km. Conheço quem faça muito mais. Mas é a minha primeira vez. O corpo ainda não deu sinal. Espero o dia. A verdade é que não tenho já 23 anos (idade com a qual comecei a trabalhar e a fazer km como se não houvesse amanhã). Tem sido assim todos os anos. Umas vezes mais. Outras vezes menos. 

Ruben A.


Numa idade em que se copia tudo quanto se vê, em que até os gestos de parvos nós tentamos imitar, num tipo de sociedade que cria uma linguagem própria, reduzida a meia dúzia de chatices, meninos, mais chatices, encantos, maçadas, jóias, onde ninguém tem paciência para ninguém e as falas são em monossílabos quase grunhidos, fácil é vestir a pele do lobo que ao nosso lado intimida pela cor. Assim, num meio reduzido às suas exigências de impenetrabilidade linguística, era fácil eu soçobrar. Para puco ou nada serviam as minhas experiências, menos saber quais as reações frente à panorâmica de tão extraordinária viagem que há pouco fizera. As viagens na sociedade são a Paris, excepto quando há operações — então vai-se a Londres, ou no Inverno, depois das assembleias gerais dos lucros, bate-se o cu nas pistas de Davos, Arosa, S. Anton. Igualmente as viagens dentro do nosso país se resumem ao giro que leva tudo a uma chatice entre Estoril, Cascais e Lisboa. Ir mais além é desafiar uma aventura para que não estão preparados, porque a raros foram aqueles que entraram na vida pela escola da vida.


em O Mundo à Minha Procura II, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição (1ª edição, Parceria A.M. Pereira, Lda, 1966), 1993, pp. 93-94.

Uma imagem para o dia




(...)

De volta a Manteigas. O frio que é uma constante. Lembro aquela música de Pärt: My Heart's in the Highlands. Pela primeira vez trouxemos Malick, o gato que agora povoa os nossos dias. Dorme, neste momento, em cima da cama que antes era minha. Lá fora a montanha cobre-se do nevoeiro habitual. Aqui, o aquecimento central lembra-me que não estou ou na Síria ou no Iraque ou noutro qualquer lugar onde a barbárie não é apenas uma palavra. 

Um poema de Luís de Camões


76.

No mundo quis o Tempo que se achasse
O bem que por acerto ou sorte vinha;
E, por experimentar que dita tinha,
Quis que a Fortuna em mim me experimentasse.
Mas por que meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
Por ver se se mudava a sorte dura;
A vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado,
Já sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho já que não a tenho.

em Lírica, fixação de texto de Hernâni Cidade, ilustrações de Lima Freitas, Lisboa: Círculo de Leitores, 10ª edição, terceiro volume das Obras Completas, 1984, p. 187.

Alguns Conselhos a Poetas (7)


Quem perde a ocasião é como quem deixou fugir o pássaro da mão: não o voltará a apanhar.

São João da Cruz, Obras Completas, tradução de Agostinho dos Reis Leal, Marco de Canaveses: Edições Carmelo, 6ª edição, 2005, p. 89.

Uma imagem para o dia



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Esta porra arrefeceu e eu não estava preparado. Tive frio, ontem, quando saí da escola às oito da noite, pois tive um Conselho de Turma de duas horas para decidirmos o que fazer com uma turma que, aqui onde estou, parece ser um "caso difícil". Enquanto os meus colegas falavam, queixavam e arremessavam mezinhas pedagógicas para cima da mesa, eu lembrava os seis meses que estive no Cacém, onde fui professor de Inglês de sete turmas, com uma média de trinta (30) alunos por turma. Aqui, a turma em questão tem quinze (15) alunos e o pessoal está preocupado porque ou os meninos não passam do quadro a tempo e horas ou não prestam atenção ou não fazem, às vezes, os trabalhos de casa ou não são pontuais ou encolhem os ombros ou não se esforçam ou. E eu a lembrar-me do Cacém, onde cheguei a ter seis e sete nacionalidades diferentes na sala de aula, onde numa aula de noventa minutos passava quarenta minutos (não estou a exagerar) a gerir conflitos, onde tive alunos a chegarem embriagados e mocados à aula, onde não fazer os trabalhos de casa ou não passar do quadro ou não estar com atenção eram os menores dos meus "problemas". Ou. Mas, ontem, foi o frio que lixou tudo.  

Rádio Leitor de Cassetes da Sanyo




Em casa dos meus pais, antes da aparelhagem com gira-discos (que foi prenda de aniversário aos 14) e leitor de CDs (que apenas apareceu em casa quando já eu andava no 11º ano), apenas existia um rádio da Sanyo (igual ao que aqui vêem: obrigado Google!), onde ouvi as primeiras cassetes piratas compradas no mercado (em Manteigas é mercado e não feira), e onde a minha mãe gravou a minha voz em restos de fita que sobrava das cassetes piratas. Anos mais tarde, foi nele que ouvi as primeiras cassetes gravadas num outro leitor de cassetes (mas este tinha dois decks) e que pertencia ao meu vizinho do rés-do-chão. Nessas alturas fechava-me no quarto e ficava a ouvir Van Halen, AC/DC, Iron Maiden, Judas Priest entre outros ruídos. Havia, também, uma raquete de badminton que servia de "guitarra". Mas essa é outra história.

(...)


O trânsito, hoje, na nacional, não estava muito mau. Mas como agora começou a chover com força, irei ter problemas, de certeza, mais logo. À vinda para cá foquei os olhos na estrada e nas construções. Já houve quem escrevesse sobre a arquitectura à beira das estradas nacionais. Para além dos vários edifícios abandonados (muitos deles são estações de serviço), a arquitectura das casas é, no mínimo, horrível e atroz. Nada de novo, aliás. Portugal, a bem da verdade e ao nível da arquitectura (entre anos 80 e 90), é uma estrada nacional.

Discos pedidos (123)



You said go back to your dream
Back to your wilderness

Cranes


O Liceu foi para mim esse admirável mundo novo. Os seus longos corredores, o pátio largo, a sala de convívio. Manteigas ficava a 42km mas já era, para mim, um país estrangeiro, um lugar ao qual tinha deixado de pertencer. Apesar de a ela regressar todos os fins de semana, cada vez me sentia mais distante das suas montanhas, das suas ruas, das suas caras. O Liceu era a minha nova casa, o meu novo país. E um dia apareceste tu, com as tuas calças de ganga rafadas, o teu casaco de cabedal preto, lenço à volta do pescoço.

50 livros + 25



Foi o meu primeiro Graham Greene. Li-o em Miranda do Corvo, em três noite de um Inverno muito frio e chuvoso. A história do Haiti não era para mim desconhecida: durante o secundário tinha feito um trabalho em que mencionei o regime de Papa Doc e dos seus Tonton Macoute, e em casa dos meus pais, às vezes, eram nomes que surgiam, quando se falava de regimes totalitários e opressivos. O livro de Greene é o retrato de um país subjugado pelo medo, pelo delírio de um louco. A escrita é escorreita. Aconselho vivamente.

Uma imagem para o dia