Joseph Conrad


— Não existem orientações que nos guiem?
O seu pai estava com um humor inesperadamente gentil nessa noite, em que a luz nadava num céu sem nuvens sobre as sombras encardidas da cidade.
— Então ainda acreditas em alguma coisa? — respondeu com uma voz clara, que ultimamente se tornara mais fraca. — Talvez acredites na carne e no sangue? Um desprezo completo e ameno em breve também acabará com isso. Mas, como ainda não o conseguiste, aconselho-te a cultivares a forma de desprezo a que se dá o nome de comiseração. É talvez menos difícil — lembra-te sempre que, também tu, se fores alguma coisa, mereces tanta comiseração como os outros; no entanto nunca deves esperar qualquer comiseração para contigo.
— Então o que se deve fazer? — perguntou o jovem, com um suspiro, enquanto olhava o pai, rígido numa cadeira de encosto alto.
— Olha… não faças ruído — foram as últimas palavras do homem que passara a sua vida a fazer soar uma terrível trompa que enchera céu e terra de ruínas, enquanto a humanidade prosseguia o seu curso indiferente.


em Vitória, tradução de Jorge Palinhos, Lisboa: Ulisseia, 2014, pp. 172-173.

(...)


Faltam cinco minutos para o toque de entrada. Segundo tempo da manhã. O café está tomado. A aula preparada. Agora falta fazer cara de mau e ir à carga.

Uma imagem para o dia



(...)


Ou seja: desabituei-me de estradas nacionais. Tornei-me burguês e passei a frequentar auto-estradas. Agora tive de fazer um downgrade e regressar aos meus primeiros anos de ensino, em que as estradas nacionais eram as únicas vias por mim conhecidas, pois eram as únicas que se encontravam dentro das minhas po$$ibilidade$. Lado positivo: a toponímia portuguesa é algo de fascinante.

Alguns Conselhos a Poetas (6)


Ao mesmo tempo que se preocupa com a sua alimentação, o animal dedica-se a outras tarefas.


Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, tradução de Gilda Lopes Encarnação, Lisboa: Relógio D'Água, 2014, p. 25

(...)


© João Merrinha (1987)

Passados 27 anos: dou por mim a abrir a caixa de correio electrónico e fico a saber que irei fazer um a substituição, por doença, para Pardilhó. Serão 15 horas lectivas. O contrato terá duração de um mês, mas nestas coisas nunca sabemos. Quando li o nome Pardilhó, lembrei logo aquele poema de Assis Pacheco:

Lugar da Igreja, Pardilhó

O vento no castanheiro da Índia
a dançaneve das borboletas

as mãos da tarde apertam a aldeia
que desfalece num arrepio

só o cão do vzuelano ladra ladra
contra a golilha de ferro*

O poema tem data de 1982. Um ano depois eu entrava para a então designada Escola Primária. Agora, irei, de novo, apresentar-me. Ver se me cruzo com a sombra do Poeta pelas ruas.


*Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 235.

Discos pedidos (122)




Like a wave along the coast
I've come to love the highs and lows

Mercury Rev


Tinha o carro há pouco tempo e pela primeira vez ouvíamos música nele. Lembro-me que te disse — a música devia ser toda assim — ao que tu respondeste — pois não concordo — e mais não disseste, consciente que estavas da minha irreflectida afirmação. A chuva não dava tréguas e nós andávamos às voltas pela vila e arredores. Esperávamos encontrar um lugar onde estacionar o carro, pois procurávamos — um tempinho de qualidade — como tu costumavas dizer. A noite ia a meio e a música continuava dentro do carro. E, talvez, pouco mais há para dizer.

Rui Caeiro


Tens direito à luz que sobra de cada um dos teus dias. Não te servirá de nada, mas não deixa de ser um direito que tu tens.


em O Toureiro de Deus, Lisboa: Edição do autor, 1998, p. 11.

Hoje



(clicar na imagem para aumentar)

Ontem



Apresentação de Namban de John Mateer
Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho

(Andreia Sarabando | John Mateer | manuel a. domingos)

Apresentações de Namban de John Mateer




(clique nas imagens para aumentar)

John Mateer


Estou a trabalhar há vários anos num livro composto por um único poema longo sobre um veterano sul-africano da guerra contra Angola, e quanto mais tento perceber a natureza psicológica da guerra, mais vejo a sua dinâmica original na história de Abraão e Isaac. Não estou de acordo com Kierkegaard no seu Temor e Tremor, pois para mim o “salto de fé” é apenas uma crença na governação, seja ela real ou metafísica. Quanto mais trabalho sobre esse livro, ainda a repensar as ideias de Southern Barbarians (os meus poemas sobre o império português)e estes poemas relacionados com o facto de sermos “infiéis”, mais sinto que o poder está sempre a tentar derrotar-nos ou a hipnotizar-nos. E os bons poemas interferem com isso.


em “Ecolalia, ou entrevista com um fantasma”, tradução de Inês Dias, em Cão Celeste, Lisboa, n.º 5, p. 36. (o texto, no original inglês, surge como posfácio ao livro, de John Mateer, Unbelivers, or 'The Moor', Giramondo, 2013, pp. 145-161)



* edição portuguesa: Namban, tradução de Andreia Sarabando, Medula, 2014.

50 livros + 24




Livro muito pouco divulgado entre nós, O Senhor das Pocilgas é um daqueles romances que nos ficam. Segundo reza a lenda (ou a história: não sei ao certo) este livro foi recusado por setenta editoras norte-americanas, até que a Gallimard o publicou. O seu autor, Tristan Egolf, logo foi comparado a Faulker e outros. A presença e influência de John Kennedy Toole é evidente, em especial se pensarmos no romance A Conferency Of Dunces. Não digo que a leitura do romance de Egolf seja fácil. Não é. Exige muito do leitor (pelo menos deste leitor exigiu). Mas no final a recompensa é maior do que o esforço.

(...)


A chuva, para além de me alagar os ossos, deixa a minha sinusite demasiado alegre, para sentimento inversamente proporcional da minha parte. E há também a descida repentina de temperatura. Há quem diga que não, que nem se notou; eu digo que si, que se notou, nota e muito. Passo os dias a fungar e a tentar respirar por uma narina apenas. Água-do-mar alivia; não resolve. Resta-me apenas esperar por melhores dias. Mas talvez seja pedir demasiado.

Discos pedidos (121)




O aroma das laranjeiras. A casa na penumbra. Lá fora o desfazer das sombras. Um cão procura a frescura duma fonte. Bebe sofregamente. Há nele a simplicidade de um poema que, dizem, ensina a cair. Depois afasta-se e recolhe-se debaixo de uma árvore. Fico a observá-lo durante algum tempo, até que repara em mim e logo me ignora. Acabo a cerveja. Recolho-me. A tarde ainda não vai a meio.

Um poema de Francisco Belard


Sobre um retrato


Nesta fotografia há mais verdade que no próprio
momento em que a deixaste pensativamente para o
mundo, crente na sua estática fidelidade
de imagem pela qual a paixão te sustinha,
como em certos diálogos frente a dissimulados
ou fictícios espelhos dos cafés mais antigos,
enquanto em volta tudo se dispunha para morrer,
na lenta arte da homenagem ao instante, trágico
e inocente, eterno anonimato de poeira
magnificado pelos inúmeros modos da escrita,
breve magia que o formula, volve em sonho já
póstumo, menos real do que a fotografia
tirada nessa tarde que havia de pôr termo
ao verão de sucessivos anos para sempre,
sob a luz lateral e a imagem no vidro,
rosto reflectido que o sol graduava,
integrando-o na terra numa tarde onde as coisas
a que déramos nome, todas as coisas já
se ordenavam tão pacificamente para a morte.



em Anuário de Poesia - Autores Não Publicados, Lisboa: Assírio & Alvim, 1984, p. 63.

Apresentações de Namban de John Mateer


Discos pedidos (120)




Talvez um dia partamos numa viagem pelo interior da América. Alugaremos um carro na costa Leste e partiremos para Oeste, pela route 66 e assim daremos largas ao nosso gosto por clichés.  

Um poema de Walt Whitman


Por caminhos não percorridos


Por caminhos não percorridos,
Pela vegetação das margens das lagunas,
Fugindo da ostensiva vida,
De todas as normas já promulgadas, dos prazeres, benefícios, convenções,
Tudo isso com que, demasiado tempo, alimentei a minha alma,
Convencido enfim de que as normas ainda não promulgadas, convencido de
          que a minha alma,
De que a alma do homem por quem falo descobre a alegria nos
          companheiros,
Aqui, a sós, longe do tumulto do mundo,
Em harmonia com as aromáticas línguas que me falam,
Sem envergonhar-me mais (pois neste lugar distante, como em nenhum
          outro posso abandonar-me,)
Entregue à vida que não se revela ainda que tudo contenha,
Decido-me hoje a cantar apenas os cantos de viril afecto,
Projectando-os ao longo da plena vida,
Legando, desde já, as formas de másculo amor,
Pela tarde deste delicioso Setembro dos meus quarenta e um anos,
Dirijo-me a todos os homens que são ou foram jovens,
Conto-lhes o segredo das minhas noites e dos meus dias,
Celebro a necessidade de companheiros.



em Cálamo, versão de José Agostinho Baptista, Lisboa: Assírio & Alvim, 3ª edição, colecção Gato Maltês, n.º 8, 1999, pp. 25-27.

50 livros + 23




É o segundo livro de Whitman que aqui destaco. A leitura que tenho feito do blogue do Henrique trouxe-me à memória, novamente, o poeta americano. E, como não podia deixar de ser, este livro foi requisitado na Biblioteca Municipal de Manteigas. Só mais tarde o comprei. Whitman foi minha companhia durante um Verão quente, daqueles à moda antiga. O rio, esse, era ponto de encontro de corpos que procuravam corpos, mas poucas eram as raparigas interessadas em ouvir o som do meu barbaric yawp over the roofs of the world. Claro que isso não me fez deixar de ler Whitman. A verdade é que ainda o li com mais intensidade. 

(...)


Basta uma ida a Manteigas para verificar que já não estou habituado ao frio que por lá se faz sentir. A bem da verdade: são menos 10 graus do que aqui. Quando daqui saímos a temperatura eram uns aprazíveis 22ºC. Chegados ao Mondeguinho o termómetro marcava os 9ºC. Em Manteigas, lá no fundo, estavam 12ºC. Eram 19h30m. Mas o mais estranho é ter vivido durante 8 anos na Guarda, tendo, um dia, levado com -10ºC. Resumindo: o frio que sinto nos ossos, esse que me verga a cada dia que passa, é coisa de meninos, comparado com o frio de Manteigas. O verdadeiro. 

Namban - John Mateer



John Mateer
Namban
Tradução de Andreia Sarabando
Medula
2014


pedidos: medulalivros@gmail.com

mais informações aqui

Reverso (5)




Em 1995 os The The editavam Hanky Panky, álbum que recolhia versões de originais de Hank Williams, figura cimeira da música country. A música que abre o álbum (Honky Tonky) remete o ouvinte para o universo sombrio dos The The, mas também para o lado mais negro da vida de Hank Williams. Os The The conseguem, com Honky Tonky, transformar uma vulgar canção country numa pujante música pop, onde há luxúria suficiente para provocar a excomunhão. A voz arrastada de Matt Johnson transporta o ouvinte para um outro patamar. É claro que os riffs das guitarras também ajudam.  

Brevemente




John Mateer
Namban
Tradução de Andreia Sarabando
Medula
2014

Discos pedidos (119)




A febre começava. Começaste a senti-la nas pernas: uma ligeira dor. Depois no rosto, nos olhos. A música envolvia-te e tu deixavas-te envolver. O mundo lá fora pouco ou nada importava. As suas camelices e outras putices estavam longe de ti. A verdade é que procuravas, apenas, um pouco de sossego. Um pouco de paz. Aqui e agora conseguias um pouco de ambas. E a febre e a dor (que agora começava) não tinham poder sobre ti. 

(...)


Sei que o Verão terminou quando arrumo o guarda-sol do terraço e os meus vizinhos as suas tendas.

Um poema de Pedro Homem de Mello


Canção Sinistra

Correm lágrimas... E canto!
Canto a carne que alumia
A minha casa vazia
E as cinzas do meu espanto.

Flor por flor, astro por astro,
Terra, mar e firmamento.
Ó carne, que deixas rastro
Até nas dobras do vendo!
Canto a carne que revela
O vinho que me embriaga.
Canto a carne que revela
(Quanto mais funda mais bela!)
A nódoa da minha chaga...

Canto a carne — inútil prece
Dos meus pés de caminheiro.
Carne. Carne — inútil prece.
Carne que és o mundo inteiro!
Carne. Carne que apodrece.



em E ninguém me conhecia, sessenta poemas escolhidos e apresentados por Manuel Alegre e Paulo Sucena, ilustrações de José Rodrigues, Lisboa: Campo da Comunicação, 1ª edição, 2004, p. 57.

Terreno - Rui Miguel Ribeiro



Rui Miguel Ribeiro
Terreno
Tea For One
2014

Philip K. Dick


— Este mundo é terrível — prosseguiu o aleijado. — Em tempos, vocês, os negros, tiveram de sofrer; se tu vivesses no Sul estarias a sofrer agora. Esqueceste tudo isso porque eles te deixaram esquecê-lo, mas eu... não me deixam esquecer. De qualquer modo não quero esquecer, não quero esquecer-me de mim.


em Depois da Bomba, tradução de Eurico Fonseca do original Dr. Bloodmoney, or How We Got Along After the Bomb (1965), Lisboa: Livros do Brasil, colecção Argonauta, nº 309, s/d, p. 40.

Discos pedidos (118)




A esta hora não há praticamente ninguém no prédio. As ruas também estão desertas e há, apenas, o ocasional carro que passa. A louça do almoço foi lavada. Roupa há que acaba de secar ao sol tardio de Outubro. Tento ler um ou dois versos de um livro: Mas quem diria/que em frente era infinito, o mar/uma roda furada, que raio de vida/e o cão, agitado, sempre a ladrar*: mas paro a meio, porque dou conta que o cão, do prédio ao lado, ladra. Vou até ao terraço. Pergunto — o que se passa, rapaz? — e ele olha para mim. De seguida larga um uivo. E sei que, para ele, não há consolo possível.


* Manuel Fernando Gonçalves

Alguns Conselhos a Poetas (5)



A literatura é o subúrbio da poesia, (...)


José Alberto Oliveira, O que vai acontecer?, Lisboa: Assírio & Alvim, 1ª edição, 1997, p. 31.

50 livros + 22




Carrego as palavras de excrementos://vomito no interior de poemas//Comunico o que o meu corpo rejeita:/os líquidos quentes que segrego,/os sólidos que as tripas na suportam//Às vezes também canto o poente (p.7). É este o poema de abertura deste livro demolidor. É toda uma poética que nele se encerra, com a rejeição de lirismos vários. O leitor é avisado das intenções do poeta. E o livro continua, com murros, bofetadas, pontapés: Em terra de cegos quem tem um olho é rei:/quem tem dois é frequentemente abatido (p. 31). Ainda por aí se encontram exemplares. É procurar, senhoras e senhores. É procurar.

(...)




Esta foto fará, este mês, 31 anos*. Tinha deixado a idade do bibe no Verão anterior. Estava a começar a primeira classe. Um tio meu (o Ti João) disse um dia que era a fotografia que melhor me caracterizava, que este era o Manel que ele lembrava. A verdade é que nunca fui muito de sorrir nas fotografias. O Senhor João Merrinha, fotógrafo de serviço, achava sempre que eu deveria sorrir. A última fotografia que lá tirei (para o último B.I. antes do C.C.) ele disse — ó Manel, vê lá se sorris um pouco, pá — e eu desatei às gargalhadas e tivemos 10 minutos à espera que eu parasse de rir. Depois lá tiramos a fotografia, onde, como é óbvio, não fiquei a sorrir.




* começo a dizer coisas deste género: eh pá! isso já foi há 20 anos; isso foi há 30! Ter consciência que envelheço não me é agradável.

Em repeat



Marissa Nadler
July
2014

Alguns Conselhos a Poetas (4)


Fomos postos na Terra para andarmos por aí aos peidos. Não deixem que ninguém vos diga o contrário.

Kurt Vonnegut, Um Homem Sem Pátria, Lisboa: Tinta da China, 1ª edição 2006, p. 68.

Discos pedidos (117)




Hoje está um dia de sol, com calor fora de época, mas não acordaste com disposição para grandes comemorações, festividades. É apenas mais um dia. Mas é, segundo dizem, o Dia da Música. Para ti, a bem da verdade, todos os dias são Dias da Música. Sem ela tudo seria mais penoso, apesar da amada, do vinho (cada vez menos) e dos livros. Almoçaste relativamente bem e anunciaste, a ti mesmo, que irás retomar as caminhadas. Parece que fazem bem ao coração. E, segundo dizem, precisamos de estimá-lo.

Alguns Conselhos a Poetas (3)


O ovo de Colombo, como é evidente!... A única ideia realmente prática!...


Céline, O Cão de Deus, tradução e organização de Alberto Nunes Sampaio, Lisboa: Hiena Editora, 1995, p. 93.

Reverso (4)




A letra original desaparece. Apenas é mantida a melodia. Esta pequena diferença em nada diminui a versão, que é um marco do chamado slowcore. Para muitos esta minha afirmação poderá ser um exagero, tendo em conta as músicas de grupos como os Low ou os Codeine. Mas estes têm mais agressividade e escuridão, enquanto que os Cowboys Junkies é mais melancolia e penumbra.

Uma imagem para o dia



Um poema de Helmut Heissenbüttel


Simples Afirmações

Enquanto aqui estou a sombra cai ao comprido
o sol da manhã esboça os primeiros traços
florir é uma questão mortal
já me declarei de acordo
estou vivo


em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 385.