(...)



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Discos pedidos (116)




A esta hora já o sol está para lá do horizonte. Os vizinhos começam a chegar ao prédio e é necessário ocupar o ruído das portas a bater e dos filhos a correr pelos corredores. É necessário ocupar a casa, que começa a ser invadida pela penumbra, a mesma que te levou a escrever uma série de poemas. Essa penumbra que é a tua única companhia a esta hora do dia. Depois, vais preparar o jantar, enquanto pensas num ou dois versos que leste algures de manhã. O dia terminará. E nem terá sido mau de todo. 

Alguns Conselhos a Poetas (2)


É loucura alguém exibir-se inutilmente.


Jean Cocteau, em "Poesia do Século XX", antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 240.

Falta de Ar - E. Ethelbert Miller




E. Ethelbert Miller
Falta de Ar
Tradução de manuel a. domingos
Medula
2014


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João Damasceno




Cheguei à poesia de João Damasceno através da antologia Sião. Depois foi a vez de comprar Corpo Cru e ficar de boca aberta ao ler aqueles poemas tão viscerais. Para uma cidade como Coimbra a poesia de Damasceno não podia ser mais dissonante. Nada de guitarras e capas pretas ou academia. Na nota introdutória a Corpo Cru podemos ler: Também estes escritos não pretendem ser outra coisa que registro (sic) de vivências que transcendem as meras circunstâncias do poema. Assumem-se portanto contra o formalismo académico-anti-académico, barroco e reaccionário que vem dominando a literatura nas duas últimas décadas e que visa transformar o poeta num especialista, num funcionário da escrita. Estas palavras foram escritas em 1983, mas se tivessem sido escritas ontem, ninguém estranhava. A verdade é que a poesia de Damasceno continua actual, pois murros no estômago são sempre precisos.

Um poema de Jean Cocteau


Dorso de Anjo

Em sonhos rua que encanta
e uma trombeta irreal
mentiras são que levanta
um anjo celestial.

Que seja sonhos ou não seja,
logo a mentira se afunda,
se a gente de cima o veja,
que todo o anjo é corcunda.

Pelo menos é-o a sombra
na parede do meu quarto.


em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 240.

Uma imagem para o dia



Alguns Conselhos a Poetas (1)


(...) nada façais por ambição, nem por vaidade; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós próprios (...).

São Paulo, Segunda Carta aos Filipenses, 2, 3.

Um poema de E. Ethelbert Miller



Falta de Ar

Joelhos e memórias
é o que vai primeiro.
A dificuldade em andar
acompanhada pela incapacidade
de recordar. Caímos
e descobrimos a falta
de ar ou como a luz do sol
entra numa divisão só para ser
seduzida pelas sombras.


em Falta de Ar, tradução de manuel a. domingos, Coimbra: Medula, 2014, p. 19.

Miguel-Manso




Quando em Maio de 2008 Miguel-Manso publicou, em edição de autor, Contra a Manhã Burra, poucos críticos literários deram disso conta, apesar da edição ter esgotado num instante. Quando depois, passado quase um ano, sai a 2ª edição, foi um a ver se te avias. De repente é saudado como uma espécie de messias da poesia portuguesa, um D. Sebastião que a todos iria libertar do mofo estabelecido na "nova-poesia portuguesa". Depois, foi a vez de Quando Escreve Descalça-se e as loas continuaram. Mas, Miguel-Manso, apercebendo-se talvez do risco que corria, publica Santo Subito, e a crítica não foi tão consensual. E o hype deixou de o ser tão rapidamente como tinha começado. Isto tudo para dizer que a poesia de Miguel-Manso é muito cá de casa, da melhor que li nos últimos anos. Leiam, também, Ensinar o Caminho ao Diabo e Um Lugar a Menos. Não esquecendo, ainda, Supremo 16/70.

Sonhos de Lobo - Paulo Rodrigues Ferreira



Paulo Rodrigues Ferreira
Sonhos de Lobo
Enfermaria 6
2014

Primeiros três capítulos disponíveis aqui.

Discos pedidos (115)




Não sei como está aí o tempo, leitor. Aqui, neste lugar onde agora me encontro, começou a trovejar. Mas não estou preocupado: tenho a banda-sonora ideal. O curioso é que não fiz de propósito. Comecei a ouvir o cd e logo começou a trovejar. Uma combinação que diria quase perfeita. Digo quase porque não acredito na perfeição. E, existindo, será sempre algo de sobrevalorizado. Nada como pequenas, mas cirúrgicas, imperfeições. Leitor: a trovoada continua.

Discos pedidos (114)




A tarde vai a meio e há luz a entrar pelas frinchas das persianas, invadindo a casa de penumbra. O tempo, lá fora, está quente, mas eu prefiro este meu canto, aqui dentro. A máquina já lavou a roupa e o jantar está pensado. Alguns livros olham para mim. Abro um e leio — Que mares que praias que rochas que ilhas/Que águas lambendo o casco/E cheiro de pinho e o tordo cantando na névoa/Que imagens regressam* — e por muito que queira não me consigo imaginar, agora, nos Mares do Sul, entre essas ilhas que irei procurar um dia visitar. Mas agora, não: prefiro este meu lugar, esta sala de paredes brancas, este sofá onde descanso os ossos.


*T. S. Eliot

Um poema de Hugo Von Hofmannsthal


Linguagem individual

Cresce a fala na tua boca, e crescem nas tuas mãos cadeias.
Arrasta para ti o Universo, arrasta! Ou serás tu arrastado.


Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 147.

Diálogos (10)


DILLON: You're all gonna die, only question is when. This is as good a place to take your first step to heaven as any. It's ours. It ain't much, but it's ours. Only question is how you check out. Now, you want it on your feet, or on your knees beggin'? I ain't much for beggin'.

em Alien 3 (Alien 3 — A Desforra) de David Fincher, com argumento de David Giler, Walter Hill e Larry Ferguson, 1992.

Pensamento do dia




David Sylvian & Holger Czukay
The Spiraling of Winter Ghosts
Plight and Premonition
1988

Um Pouco Acima da Miséria - Amadeu Baptista



Amadeu Baptista
Um Pouco Acima da Miséria
& etc
2014

Discos pedidos (113)




All my senses rebel
Under the scrutiny of their persistent gaze

Dead Can Dance


Noite. A cidade, sempre a cidade, as luzes, as ruas, os corpos. Chove. Decidimos ir ao Bairro. Nessa altura ainda íamos ao Bairro. O assombro percorre cada uma das suas ruas. No cruzamento do costume paramos e bebemos uns shots. Ombro com ombro lá vamos nós, mais uma vez. Alguém se insinua do outro lado da rua, junto àquela porta de madeira — que já viu melhores dias. Não são precisas razões. Sabemos que o desejo tudo pode. Racionalizar o desejo é retirar a sua vitalidade, força. Continua a chover. Tem a roupa colada ao corpo e fuma muito. Aproximas o teu corpo ao dela. Procuras uma palavra. Não há palavras. Não são precisas.


Um poema de Christopher (Kit) Kelen


Trabalho do dia-a-dia

todos os dias da minha vida
construí
bloco sobre bloco
acrescentei sentido
somei coisas
parecia que
do nada outrora
mas nunca foi assim
tudo o que precisava devia estar lá
solucionei-o das ruínas
sim — os materiais estavam lá
onde eu estava
comigo desde o primeiro dia
foi uma questão
de abrir os olhos

agora tenho quatro paredes
e o telhado está quase feito
onde antes eu tinha
o céu


em Idolatria dos Antepassados e Outros Poemas, tradução de Andreia Sarabando, Lisboa: Center for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2013, p. 31.

Uma imagem para o dia



(...)


Quando chega o Outono, o sol não ilumina tão cedo o terraço, devido à sua orientação em relação aos pontos cardeais. Tento, mesmo assim e até quando me for possível, tomar o primeiro café da manhã nele, enquanto olho o horizonte de casas e algumas árvores, lá ao fundo.

Reverso (3)




Com um ritmo ligeiramente mais lento, a versão de Don't Cry — aqui da autoria dos escoceses Mogwai — questiona o ouvinte: poderá uma música, que está associada a uma época menos feliz da adolescência de qualquer um, redimir-se pelo mais alto? Do meu ponto de vista, a resposta só pode ser afirmativa. O mais estranho, no meio de tudo isto, é que o original é remetido para um segundo plano, para uma categoria inferior (à qual sem dúvida pertence), passando a versão a fazer parte do nosso imaginário.

Uivo e Outros Poemas - Allen Ginsberg




Allen Ginsberg
Uivo e Outros Poemas
Tradução e notas de Margarida Vale de Gato
Relógio D'Água
2014

E. M. Cioran


Hoje, reconciliados com o terrível, assistimos a uma contaminação da utopia pelo apocalipse: a "nova terra" que nos é anunciada assume cada vez mais a figura de um novo inferno.


em História e Utopia, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Letra Livre, 2014, p. 117

Reverso (2)




Em 1993, os Slowdive editavam o álbum Souvlaki, que passaria a ser uma referência dentro do género designado por shoegaze. Dagger é a música que fecha esse disco e surge como algo de completamente diferente em relação aos outros temas. A versão de The Hope Blister (banda nascida das cinzas dos This Mortal Coil) é de 1998. A guitarra acústica do original dá lugar aos sintetizadores e cordas, que, minimalistas, constroem uma paisagem sonora que nos envolve numa espécie de espiral da saudade. É claro que a voz de Louise Rutowski faz toda a diferença.

Um poema de Carlos Alberto Machado


Herdo de ti o que nunca tiveste
nunca eu to pediria se o houvesse
assim está tudo bem como as mágoas
essas não preciso que as deixes e
os rancores ficam para outros talvez
a passagem se faça sem sobressaltos
a escuridão dizias veio para ficar.


em A Realidade Inclinada, Lisboa: Averno, 2003, p. 70

Discos pedidos (112)




The paralyzed street
Brogue says "Good afternoon!"
I say "Good afternoon!"
"It's a lovely afternoon"
"Yes, it's a lovely afternoon"I

Scott Walker


A verdade é que os dias não estão para grandes alegrias. E a música de fundo é a banda-sonora perfeita para o apocalipse. Lembro-me de ouvir os 59 segundos de cada uma das músicas num posto de escuta. Tive uma sensação estranha no estômago, como se a digestão deixasse de cumprir a sua função. Passados alguns anos, cada um desses 59 segundos foi crescendo, crescendo e entranhando-se. E aqui estamos, no dia de hoje.

Reverso (1)




Em 1967, Scott Walker lança Scott, o primeiro de quatro álbuns com o mesmo nome. Em Scott, Walker dá a conhecer a sua versão de La Mort, de Jacques Brel, dando-lhe o título de My Death. A grande diferença, entre a sua versão e a gravação de Brel (para além da tradução para inglês do francês original), está na orquestração. Enquanto que a gravação de Brel tem uma espécie de elemento mais lúdico, como que desfazendo nas intenções da morte, a versão de Walker vem carregada de emoção, num quase tom fúnebre. É claro que o próprio título escolhido por Walker diz muito das suas intenções: enquanto que em Brel é La Mort, em Scott Walker é My Death — algo de pessoal e intransmissível. 

50 livros + 21



Lido durante um fim de semana na praia dos Alteirinhos, Fruta da Época não é o meu primeiro livro de Jorge Fallorca. O primeiro foi esse belo Longe do Mundo. No entanto, é este o livro que me levou ao início da poesia de Fallorca. E digo poesia, porque assumo que estamos perante uma das suas muitas formas. Jorge Fallorca é, para mim, poeta, apesar da maior parte dos seus livros serem naquilo a que nos habituamos designar de prosa, por oposição à poesia — que tem de ser "obrigatoriamente" em verso (certas cabeças ainda assim pensam). Fruta da Época é uma viagem, no sentido mais abrangente que a palavra trip possa ter. Depois da sua morte, o nome de Jorge Fallorca caiu num silêncio absurdo, no esquecimento próprio deste país que se diz letrado, culto. Mas os seus livros andam por aí. Leiam-nos. É um conselho. Não uma ordem.

Um poema de Ricardo Marques


Poema n.º 30

Nunca poderei perscrutar
os diários que não escrevo
a biografia é uma passagem
a que não tenho acesso —

e se o excesso de vida
me condena, as múltiplas
formas que pode adquirir
libertam-me o espírito

tudo o que possa
fazer com estas mãos —
até adivinhar o meu destino —

nunca será mais do que
uma aproximação, um
concílio de deuses.


em Didascálias, Coimbra: do lado esquerdo, 2014, p. 35.

Pensamento do dia



Perry Blake
Sandriam
Still Life
1999

Discos pedidos (111)





Its a fire
These dreams they pass me by

Portishead


Naquele dia tudo ganhou um outro sentido. Pelo quarto entrava um resto de luz do fim da tarde. O dia tinha sido quente e o rio tinha refrescado a pele. Depois do duche tomado, liguei a aparelhagem, deitei-me na cama — como era costume — e fechei os olhos. Era um dos meus momentos preferidos do dia. Ali eu podia estar sozinho, sem ninguém a dizer-me como deviam ser as coisas, como deveria agir perante isto ou aquilo. Durante o tempo que durava uma cassete (fossem de 60 ou de 90 minutos), nada me incomodava, pois só eu existia. Às vezes adormecia ao som de uma qualquer melodia. Mas não naquele dia.

Um poema de Wu Ki


O cavalo sedento bebe de qualquer água,
o pássaro faminto come de qualquer grão.
Ao homem novo e forte que a miséria acossa,
que outra cousa lhe resta senão tornar-se bandido?


em Mesa de Amigos, versões de poesia por Pedro da Silveira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 35.

Uma imagem para o dia



Estados Filosóficos (86)


Existem muitas vantagens em escrever coisas sem interesse, sem originalidade. A principal, quanto a mim, é não ser chamado de novo, pois sabemos que os novos, rapidamente, dão em velhos.

E. M. Cioran


(...) a utopia é de essência antimaniqueia. Hostil à anomalia, ao disforme, ao irregular, tende para a consolidação do homogéneo, do tipo, da repetição e da ortodoxia. Mas a vida é ruptura, heresia, derrogação das normas da matéria. E o homem, por referência à vida, é heresia no segundo grau, vitória do individual, do capricho, aparição aberrante, animal cismático que a sociedade — concentração de monstros adormecidos — visa reconduzir ao caminho certo.

em História e Utopia, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Letra Livre, 2014, p. 100.

Discos pedidos (110)





We all feel the same
All pleasure nothing to gain

New Order


Acreditávamos que iríamos renascer das cinzas, dos destroços daqueles dias. Exagerávamos. Nem os dias estavam destroçados, nem a cinzas estávamos nós reduzidos. Mas vivíamos demasiado rápido e tudo parecia perdido.

Um poema de Antonia Pozzi


Canto da minha nudez


Olha para mim: estou nua. Da inquieta
languidez da minha cabeleira
até à tensão fina do meu pé,
sou toda de uma magreza amarga
envolta numa cor de marfim.
Olha: como é pálida a minha carne.
Dir-se-ia que o sangue não a percorre.
O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida
pulsação azul se esbate no meio do peito.
Vê como tenho o ventre côncavo. Incerta
é a curva das ancas, mas os joelhos
e os tornozelos e todas as articulações
são escanzelados e duros como os de um puro-sangue.
Hoje, deito-me nua, na limpidez
da banheira branca e deitar-me-ei nua
amanhã sobre um leito, se alguém
me quiser. E um dia nua, só,
estendida de costas sob demasiada terra,
hei-de estar, quando a morte me tiver chamado.


em Morte de uma estação, selecção e tradução de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares e posfácio de Matteo M. Vecchio, Lisboa: Averno, 2012, p. 39.

Apresentação de Disdascálias de Ricardo Marques



(...)


Durante a noite choveu o suficiente para ainda encontrar o terraço molhado. Tem um fina película de água, que lhe confere — ao terraço — um ar de espelho, mas onde nenhum Narciso se pode ver reflectido. Sentei-me na cozinha. Parti o pão e partilhei-o comigo mesmo. No fim bebi a costumeira bica, que a máquina de café burguesa me permite saborear. Olhei o horizonte, e pensei na roupa que irei vestir para me ajeitar ao dia. 

Pensamento do dia



Tool
Forty Six & 2
Ænima
1996

Discos pedidos (109)




Sometimes I find I get to thinking of the past. 

Leonard Cohen


Há aquela idade em que o passado começa mesmo a ser passado, pretérito perfeito, algo de concluído. Começamos a ter noção da irreversibilidade do tempo, apesar de existir aquela esperança, aquela pequena e ténue esperança, de que um dia tudo possa voltar a ser igual. Que voltaremos aos mesmos lugares e que sentiremos as mesmas emoções, que a pele irá ficar toda arrepiada e os beijos irão ter o mesmo sabor, que a paisagem irá estar imutável e silenciosa, como da primeira vez. Mas a verdade é saber que não será assim.

Em repeat



Sharon Van Etten
Are We There
2014

Um poema de Egito Gonçalves


O botão da camisa!
A tua mão
insinua-se na manga,
pássaro friorento,
o bico arranha um pouco
para excitar o sangue. Eu
olho o rio, a esteira das luzes,
ofereço o rosto
para que o teu olhar viaje,
o barco aproxima-se do molhe,
os teus dedos contornam
o cotovelo; nos lábios
tenho um verso que não se define,
o coração
recebe o sangue que passou
sob os teus dedos, uma esteira
de luz que me atravessa
como se fosse um rio
cruzado pelo barco
que de novo regressa
e é o teu olhar que escorre
irrigando o tecido
desta paisagem que nos olha
e nos integra
como se em nós inaugurasse
um novo olhar.


em A Ferida Amável, Porto: Campo das Letras, 1ª edição, 2000, pp. 75-76.

(...)


Hoje também seria o meu primeiro dia de escola caso não estivesse desempregado. Por isso, irei passar o dia a enviar currículos, responder a anúncios do género "precisam-se colaboradores" — que isto de "precisam-se trabalhadores" foi chão que já deu uvas —, e talvez responder a anónimos que, como eu, devem estar desempregados, caso contrário não vinham até aqui em horário de trabalho. Enfim, será apenas mais um dia.

Pensamento do dia



Elbow
Red
Asleep in the back
2001

Discos pedidos (108)



Press your lips
To my eyes


Elbow


O Verão já ia a meio e tu ainda não tinhas reparado em mim. Não que isso fosse importante, pois bastava ver-te todos os dias no lugar do costume, saber que estavas bem e todas essas coisas que alguém apaixonado pensa. A verdade é que eu tinha uma banda sonora na minha cabeça e tenho a certeza que não era a mesma que tu ouvias, isto porque acredito que todos nós temos uma banda sonora na cabeça, que começa a tocar quando vamos pela rua, ou quando estamos sozinhos em casa, ou quando alguém diz que nos ama, ou quando alguém, simplesmente, nos beija os olhos.


Marguerite Duras


Nunca estamos sós. Nunca estamos fisicamente sós. Em parte nenhuma. Ouvimos os ruídos da cozinha, da televisão, da rádio, dos apartamentos vizinhos e de todo o prédio. Sobretudo quando nunca se pediu o silêncio, como eu sempre fiz.

em Escrever, tradução Vanda Anastácio, Lisboa: Difel, 2ª edição, 2001, p. 39.

50 livros + 20




Quando estive em Silves fiz dois bons amigos: António Baeta e Manuel Ramos. Foram eles que me falaram, pela primeira vez, da poesia do Al-Andalus. Passadas duas semana já tinha comprado o livro. O Meu Coração é Árabe é um livro ao qual muitas vezes regresso, e logo começo a sentir o aroma das laranjeiras em flor. Há ainda aquele belo castelo (para mim um dos mais belos do país) e o sol nas suas muralhas. Para quem quiser descobrir uma outra poesia portuguesa, aqui está um bom livro para começar.

Lí por aí


Leio em Alberoni que o enamoramento é o estado nascente de um movimento colectivo a dois. Se, como suspeito, não somos dois entes distintos, mas antes duas instâncias do mesmo, não há base de sustentação para o movimento colectivo, nem mesmo no estado nascente. Fico mais tranquilo. Não pode ser enamoramento, afinal.

(...)


Ontem decidi ir aos movies. Lucy, de Luc Besson. Se não é o pior filme que alguma vez vi, não anda muito longe. E eu vi, até ao fim, Terra: Conflito Final.

Um poema de Rosalina Marshall


Altas madrugadas frias

os dois amantes não sabem o que é ter família
param num café qualquer
capuletos escondem-se atrás das árvores
um dia as árvores morrerão também
e a noite furiosa
em passos largos
tomará a avenida da república
e na passadeira
esperaremos que tudo passe


em Manucure, Lages do Pico: Companhia das Ilhas, 1ª edição, 2013, p. 14.

Discos pedidos (107)





World shut your mouth, shut your mouth
Put your head back in the clouds and shut your mouth

Julian Cope


A juventude é uma indolência. Nesses anos não sabemos ainda que o frio irá invadir os ossos, que as noites serão demasiado longas, que afinal as promessas não serão cumpridas. Deitados, na relva do jardim, observávamos as nuvens, depois de alguns traçados na tasca do Chicha. E o mundo parecia todo nosso, ou nós todos do mundo. As raparigas, sentadas no muro, falavam alto sobre outras raparigas e como eram umas boas cabras (as outras e não elas, pois elas eram as nossas raparigas). Depois de uma ou duas horas nisto, íamos até um bar qualquer, daqueles que ofereciam uma matiné pela módica quantia do consumo mínimo obrigatório. Ou então íamos para casa de alguém. E ligávamos a aparelhagem.

(...)


Saber quase de memória o dia, antes de começar.

Uma imagem para o dia



Lí por aí



Não me canso de o lembrar, Portugal tem os melhores especialistas do mundo, tem os melhores analistas do mundo, tem os melhores fazedores de opinião do mundo, tem os melhores painéis de debate nos melhores programas de televisão e rádio, tem os melhores cronistas do mundo, e escrevem livros e são um sucesso. Portugal tem para dar e para vender gente com todas as soluções para os problemas do mundo, gente que sabe como devia ter sido feito, como não foi feito, gente que percebe onde se errou e sabe como não se erraria, gente que compreende, experts, gente com soluções ágeis para intricados problemas. Portugal é magnífico porque tem muitos génios por metro quadrado. O problema é que não se adaptam aos gabinetes, quando chegam aos ministérios, às administrações, aos institutos, esquecem-se, derrapam, falham, esmorecem, demitem-se. O problema, como é óbvio, está nos gabinetes. Remodelem os gabinetes, metam lá câmaras de televisão e jornalistas a fazer perguntas, metam microfones de rádio e editores de livros de economia. Remodelem os gabinetes, transformem os gabinetes em estúdios de imprensa.


(...)


No prédio ao lado andam homens a montar andaimes. O Inverno aproxima-se e é necessário impermeabilizar fachadas, protegê-las do rigor dos dias. Puxam a braços o metal que irá fazer o todo. Às vezes olham para mim que olho para eles. Imagino o que podem estar a pensar.

Uma imagem para o dia



Joaquim Manuel Magalhães


Depois de os deuses terem ocupado a casa
sou um homem novo.
Só eu e quem escolho sabemos a mentira.
Enquanto os rios vão no escuro, corrompo.


em Consequência do Lugar, Lisboa: Relógio D'Água, 2001 p. 39.

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Os mesmos continuarão livres, isto é, todos poderão comentar (Anónimos incluídos). No entanto, só serão publicados os comentários que não contenham ofensas a terceiros. Já sabem: ofender-me a mim, tudo bem; terceiros: não.


Peço desculpa a todos aqueles que sabem estar. Mas penso que compreendem.

Joaquim Manuel Magalhães




O ano de 2003 foi um ano de mudança na forma como passei a encarar as mais diversas e variadas formas de poesia. Foi esse o ano do meu primeiro contacto com a poesia de Joaquim Manuel Magalhães: Os dias, pequenos charcos; Segredos, sebes, aluviões e Uma luz com um toldo vermelho. Tudo requisitado na Biblioteca Municipal de Silves. Só mais tarde é que soube das "polémicas" que geraram livros como, por exemplo, Rima Pobre (Presença, 1999); polémicas que, aliás, nunca me interessaram muito, e, verdade seja dita, nunca lhe li um ensaio. Mas adiante. A verdade é que gosto da poesia de Joaquim Manuel Magalhães. E gosto da poesia que a poesia dele me trouxe.

(...)


11 de Setembro de 2001: Estação de Caminhos de Ferro de Pampilhosa do Botão.

E. M. Cioran


A inveja, que faz de um poltrão um ferrabrás, de um aborto um tigre, fustiga os nervos, incendeia o sangue, comunica ao corpo um calafrio que o impede de se degradar, empresta ao rosto mais anónimo uma expressão de ardor concentrado; sem ela, não haveria acontecimentos, nem sequer haveria mundo; foi ela de resto que tornou possível o homem, que lhe permitiu fazer nome, aceder à grandeza através da queda, por meio dessa revolta contra a glória anónima do paraíso, à qual, na esteira do anjo caído, seu inspirador e seu modelo, ele não era capaz de se adaptar.


em História e Utopia, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Letra Livre, 2014, p. 82.

Discos pedidos (106)



Nothing changes here and nothing improves

Calexico


Há quem diga que o cheiro a terra molhada é reconfortante. Mas neste lugar, onde agora estou, serve-me de pouco esse conforto. Afinal, estou longe de tudo aquilo que, na realidade, me conforta: os teus braços, a tua pele, o aroma dos teus cabelos – esse sim, o único aroma reconfortante para mim. E aqui estou eu, no meio desta pequena vila alentejana, com um cheiro intenso a terra molhada, com pássaros a cantar por todo o lado. Irrita-me tanta alegria, tanta beleza junta. E tu aí, nessa cidade, a 525km de distância. 

Anónimo disse... (6)


Desculpe, mas esse comentário não foi meu. Já é a segunda vez que alguém se intromete nesta troca de mensagens e se faz passar por mim.



Até ao momento é o melhor comentário que aqui leio. Um Anónimo a dizer que há um Anónimo — que não é ele, mas sim outro — a fazer-se passar por ele. Mário de Sá-Carneiro nunca terá imaginado que os seus versos ganhariam esta proporção. Mas, como todos sabemos, há sempre uma primeira vez para tudo.

Uma imagem para o dia



(...)


No dia 1 de Julho de 2008 publiquei o seguinte texto aqui no blogue. Na altura andava a ser visitado por um ou vários anónimos (nunca saberei ao certo). Continuo a ter a mesma opinião.

O sal dos blogues

Gosto de anónimos. Sem anónimos a vida nos blogues seria uma coisa sem sabor. Gostava de conhecer melhor alguns anónimos, saber o que os move. Convidava-os para um café e falaríamos sobre tudo aquilo que nos viesse à cabeça. Certificar-me-ia se têm mesmo coluna vertebral e vida própria. Se vivem mesmo numa casa com janelas e se vão ao cinema. Se têm namorada ou esposa ou amante ou se vão às meninas. Se têm/tiveram mãe. Depois, dava-lhes um abraço e elogiava-lhes a coragem.

Anónimo disse... (5)


Imensas patologias:


Sou a doença e o malogro, o espaço de quem não está e permanece como uma sombra nas costas do desengano ou na imensurável noite onde a mediocridade acena. E urge arremessar palavras a este tropel de ovelhas em consonantes orgias. Porque o ego e as mais que evidentes frustrações são exigentes, miram no espelho de uma e tantas manhãs onde o desencanto é ensaiado de perfil.

10 de Setembro de 2014 às 09:43



Nota: desta vez o Anónimo esqueceu a "navegação anónima" e deixou rasto como os vermes.  

Uma imagem para o dia



Um poema de Maria da Encarnação Baptista



Despedida


Ergueu-se e disse.

"E não te esqueças!

Abre primeiro as portas e janelas
que dão sobre os caminhos
e arranca as tuas ervas...

Depois então irás
a casa do vizinho.

Adeus..."

Voltou atrás:

"Todos te esperam..."

E há desde aí
uma cegueira a mais em equilíbrios
nas enredadas cordas estendidas.



em Hora Entendida (1951), retirado de Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (org. Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro), 2ª edição revista, actualizada e com uma nova introdução, Lisboa: Livraria Morais Editora, Colecção Círculo de Poesia, 1961, p. 23.

Obra Escrita 1 - João César Monteiro



João César Monteiro
Obra Escrita 1
Coordenação de Vitor Silva Tavares
Letra Livre
2014

Anónimo disse... (4)


Ainda bem que cita, porque quando não cita vomita. E vomitar por vomitar, mais vale defecar. Comer sem se alimentar, é o que acontece com o meu amigo: lê, lê e lê (ou diz que Lê) e não assimila nada, absolutamente. É como que uma bulimia literária, digamos. Não sei se dá pra rir ou não; chorar também não, certamente - não quero ser hipérbolico com a mediocridade, mas que é deprimente, é.

9 de Setembro de 2014 às 18:09

E. M. Cioran


A soberania do acto vem, digamo-lo sem rodeios, dos nossos vícios, que detêm um contingente de existência maior do que o possuído pelas nossas virtudes. (...) Querer boicotá-los é conspirar contra nós próprios, depormos as armas em pleno combate, desacreditarmo-nos aos olhos do próximo ou ficarmos reduzidos a uma desocupação perpétua.


em História e Utopia, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Letra Livre, 2014, p. 76.

Um poema de Frederico Pedreira


Último Mergulho

Pela noite é quando tudo sossega, e
é isto o que tenho: mão ágil no pescoço,
a gravata e algum choro arrancados.

Como retomar um verão mais ou menos distante,
agora, com os joelhos perto um do outro
sobre a cama e no rosto a frescura das
algas que ficaram do último mergulho,
como entrar nessa curva fora do tempo?

Olho em volta, faço
alguns embelezamentos pela casa:
uma morna avança na aparelhagem
com a pressa disfarçada da morte,
coisa que a ti certamente levaria ao sono
pelo atalho mais florido.


em Quinteto (Catarina Barros, Tatiana Faia, Maria João Lopes Fernandes, Frederico Pedreira e Paulo Tavares), Lisboa: Artefacto, 2012, p. 32.