Um poema de Anna Akhmátova


Segredos do ofício


1. Trabalho criador


Assim acontece: uma lânguida inquietude;
o relógio não pára de bater nos ouvidos;
ao longe estrondos de trovoada, esmorecidos.
Ouço das obscuras vozes, prisioneiras,
como que as lamentações e os gemidos,
aperta-se um anele secreto, mas já se alteia
neste abismo de murmúrios e de tinidos
um destacado som que a todos suplanta.
Em torno tudo é silêncio tão irreparável
que se ouve a erva nascer na floresta
e o homem com sua trouxa errando pla terra…
E já se enxerga o dia, se vislumbram palavras,
soam longínquos repiques leves de aviso –
e logo dentro de mim tudo se percebe,
e as linhas simples, a todo o seu comprido,
vêm deitar-se na folha virgem da neve.



em Só o Sangue Cheira a Sangue, selecção, tradução, introdução e notas de Nina Guerra e Filipe Guerra, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p. 57.

Discos pedidos (102)



'cause deep down
We are frightened and we're scared

Smashing Pumpkins



Durante algum tempo fazíamos festas numa cave. O local era designado por Clube, nome que sempre existiu em Manteigas. Era o sítio onde os “grandes” da vila jogavam poker e outros jogos de azar. Nós apenas conhecíamos a cave, onde a música se ouvia em altos berros e as luzes, de várias cores, piscavam freneticamente. No rés-do-chão eram servidos os venenos, em quantias avultadas e a módicos preços. Houve uma noite que acabou com uma rusga da GNR. Conheço gente que saltou da varanda para o quintal das traseiras e nem uma das pernas partiu.

Anónimo disse... (3)


Grande Manel, continua a defecar!

30 de Agosto de 2014 às 03:21

Uma imagem para o dia



(...)


Por mais que procure não encontro uma única razão para tudo isto. Há quem diga que não é necessária razão para nada. Não é preciso explicar, nem encontrar explicação. Aquilo que não se explica, explicado está: dirão alguns. Diariamente penso: o que nos move, afinal? E esqueço a razão; procuro apenas um sentido. É claro que nada do que digo é novo. A verdade é que este texto não tem propósito algum.

Pensamento do dia



The Fall
Repetition
Early Fall '77-'79
1979

(...)


A esta hora o silêncio toma conta do prédio. Sei que já o disse antes, mas, faltando tema, uma pessoa repete-se até à exaustão. A verdade é que gosto de repetições. É pensar em Thomas Bernhard, na escrita, e nos The Fall, na música. Este últimos têm mesmo uma música que se intitula Repetition: This is the three Rs/The three Rs:/Repetition, Repetition, Repetition. E eu, às vezes, sou um pouco assim.

Uma imagem para o dia



Isabel da Nóbrega


— Sim. Não se pode obrigar as pessoas a sentirem-se felizes, não acham? Aliás, essa palavra… Adiante. Dêem a um homem uma boa esposa, uma casa com jardim, trabalho certo, interessante e bem remunerado, férias pagas, máquinas de lavar, de descascar, de limpar; portanto, tempo de lazer, e eu acrescento o amor das plantas e das viagens, e esse homem pode sentir-se profundamente angustiado, profundamente infeliz…
— Que blasfémia!
— Se não se compreende um postulado destes é porque não se compreenderá nunca o homem no mais fundo da sua humanidade. Robot aparentado e identificado com o plástico, o vidro acrílico, a falsa madeira, o material sintético que o rodeia, devendo reagir assim, porque sim, e assado, porque não, e desligado do seu eu profundo, de todas as suas ânsias e interrogações mais remotas, aquela inquietação e sentimento de solitude que carrega em si como um estigma…



em Viver com os outros, Lisboa: Portugália Editora, 2ª edição, 1965, p. 155.

Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont



Os textos de Isidore Ducasse chegaram até mim num início de Verão. A sua leitura foi avassaladora. Não caio no exagero de dizer que há um antes e um depois de Ducasse. Mas, a verdade, é que fui profundamente marcado pelos Cantos e pela figura enigmática do Conde. Ainda hoje recordo algumas passagens do livro (mais um que ainda estava aqui por Manteigas): O leitor não se zangue comigo, se a minha prosa não tem a felicidade de lhe agradar. (p. 178)



Um poema de Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont

(fragmento)

I

Os gemidos poéticos deste século não passam de sofismas.
Os primeiros princípios devem estar fora de discussão.
Aceito Eurípedes e Sófocles; mas não aceito Ésquilo.
Como Criador não falteis às conveniências mais elementares, nada de mau gosto.
Rejeitai a incredulidade, que me dareis prazer.
Não há dois géneros de poesias; há uma só.
Existe uma convenção pouco tácita entre o autor e o leitor, pela qual o primeiro se intitula doente e aceita o segundo como enfermeiro. É o poeta que consola a humanidade. Os papéis estão invertidos arbitrariamente.
Não quero ser machado pela qualificação presumido.
Não vou deixar memórias.
A poesia não é tempestade, nem mesmo ciclone. É um rio majestoso e fértil.
Só admitindo a noite fisicamente conseguimos torná-la aceite moralmente. Ó noites de Young! muitas dores de cabeça me causastes!
Só dormindo sonhamos. Foram palavras como sonho, nada da vida, passagem terrestre, a preposição talvez, o tripé desordenado, que infiltraram nas vossas almas essa poesia húmida dos langores, semelhantes à podridão. Das palavras às ideias vai só um passo.


em Os Cantos de Maldoror, tradução de Pedro Tamen, prefácio de Adolfo Luxúria Canibal, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, pp. 247-248.

Uma imagem para o dia



(...)


Há quatro anos escrevi, parafraseando D. H. Lawrence, isto:

anónimo é sempre grosseiro porque não consegue distinguir entre os seus sentimentos próprios e os sentimentos mentirosamente introduzidos na existência pela mesquinhez. O anónimo é sempre vulgar porque a mesquinhez dirige-o do interior, através da sua cobardia. O anónimo é sempre obsceno porque é sempre em segunda mão.

Hoje relembro.

50 livros + 16



A capa do meu livro tem a silhueta da cabeça de um mineiro. Esta é mais recente. O importante é que o livro é o mesmo, edição de bolso e tudo. Lembro-me que o comprei em 94, na Papelaria Progresso, aqui em Manteigas. A Papelaria Progresso era a única que vendia livros. E podíamos mandar vir os que quiséssemos do catálogo da Europa-América. Ora eu li este livro numas férias de Natal. A letra é muito pequena e o espaço entre linhas quase inexistente. Mas é um grande livro. Antes de ler Orwell, ou Cossery, ou Darien, tinha lido Zola. As descrições da vida nas minas são sufocantes. Pobres desgraçados, pensava eu, sentado no sofá ou deitado na cama com o aquecimento central ligado. Este livro fez-me pensar muito. E cheguei a várias conclusões. Entre elas destaco: Sou um burguês e serei sempre um burguês. Por mais que vocifere contra seja o que for, não deixo de ser um burguês. Falar da fome dos outros, com a barriga cheia, é muito fácil.

(...)


Olho para as estantes cheias de livros. Pensava que tinha levado para Coimbra todos os livros de poesia, mas ainda aqui descubro alguns. Estavam ali no meio dos romances e ensaios que aguardam transferência, mas que por aqui irão ficar durante algum tempo. E surge, inevitavelmente, a pergunta: valeu a pena comprar tanto livro? É uma pergunta recorrente. Afinal, serviram para alguma coisa? Talvez tenham servido para alimentar uma certa vaidade, que foi crescendo, inevitavelmente, com a necessidade de ler. Mas terá sido mesmo uma necessidade?

Um poema de Pedro Afonso


de deus
a sua ausência
onde desagua este rio
um assobio pelas margens
de um voo frio
querer calar-me
e ser tudo o que possa fazer
recomeçar numa ondulação
periférica onde os ossos não caibam
já nada assentar na terra
daqui desvanecer-se a morada
o chão e o silêncio
recordar um grande vazio
ao ser levado pela mão de minha mãe
para casa


em ainda aqui este lugar, Tavira: 4 Águas Editora, 1ª edição, 2008, p. 49.

Uma imagem para o dia



Konstandinos Kavafis



Não foi Durrell que me levou até ao poeta. Cheguei a Kavafis porque encontrei um livro seu com muito bom preço numa feira do livro e comprei-o "às escuras", isto é, sem saber nada do escritor ou da sua obra ou da sua vida. Gosto muito de uns versos seus, que muitas vezes repito e que já aqui citei: Não me manietei. Dei-me totalmente e fui./Aos deleites, que metade reais,/metade volantes dentro da minha cabeça estavam,/fui para dentro da noite iluminada. Kavafis passou, então, a ser muito cá de casa. Quando quero lembrar o Mediterrâneo leio os seus poemas.

(...)


Sábado e Domingo foram dias de convívio em família. No Sábado abusei um pouco. Bebi demasiado e comi outro tanto. Noite mal-dormida. Domingo impiedoso. Conclusão: um gajo bem que quer, mas já não tem vinte anos. 

50 livros + 15



Foi o primeiro livro que li de Ernesto Sampaio. Penso que foi uma boa introdução. Depois li Feriados Nacionais, O Sal Vertido e falta-me Fernanda. O livro em questão é uma recolha de dispersos, publicados em vários jornais. O texto que me ficou foi «Cidadão Liru» (publicado originalmente no Diário de Lisboa, em 19 de Junho de 1987).  A actualidade do mesmo é reveladora que pouco ou nada mudou: «É uma cultura maluca: prega a iniciativa privada aos desempregados e promete torná-los a todos empresários.» (pp.140-141). 

Eduardo White (1963-2014)




(...) So White decided
he needed to isolate himself. He took a bottle of wine
and went up to his friend's balcony over-looking the Indian Ocean,
vowed he wouldn't leave until he had written
the book. That's how he wrote his first book.
He's a genius. Mozambique's Rimbaud!"


John Mateer, Unbelivers, or "The Moor", Giramondo Publishing, 2013, p. 78.


Corpo Santo - Ruy Cinatti



Ruy Cinatti
CORPO SANTO - uma antologia de folhas volantes
selecção e prefácio de Manuel de Freitas
Averno
2014

Pensamento do dia



Raul de Carvalho
Serenidade és minha
dito por Mário Viegas
Humores, Vol. II
1980

Raul de Carvalho



É o único poeta do qual sei um poema. Claro que não é um poema muito longo, mas é um poema certeiro: Se Deus quiser hei-de morrer/Com tudo feito e por fazer. Ora porra! poema mais certeiro do que este não conheço. Ou talvez conheça. Não lembro, agora. Cheguei ao poeta através da voz de Mário Viegas. Depois, fui por mim. Às vezes leio-o pela manhã. Não sei se será uma boa maneira de começar o dia. Mas haverá uma boa maneira de começar o dia?

Um poema de Sara Costa


Se alguém reparar

se alguém reparar na janela fechada
por onde se pode ver o início do mundo,
eu falarei das viagens que me beberam o cheiro
e da memória a escorrer
e a misturar-se com o sangue das palavras.
se alguém reparar que o meu rosto
ilumina o mar
ou que, chama a chama,
a noite é desfragmentada até ao esquecimento,
então, talvez possa revelar
como é que consigo plagiar sorrisos
mesmo com a janela fechada.


em A Melancolia das Mãos e outros rasgos, Coimbra: Pé de Página, 1ª edição, 2004, p. 42.

Discos pedidos (101)



Sometimes I fantasize
When the streets are cold and lonely

The Stone Roses



Chego a Manteigas. E de repente a memória de uma cassete. Lembro-me que os ouvi pela primeira vez por intermédio do Tito. Chegou-se junto a mim — ouve isto — e enquanto o cd tocava, nós dançávamos no bar ainda vazio. Ainda nesse mesmo dia trouxe o cd para casa. É claro que antes passei pela papelaria de sempre e comprei uma TDK SA-X. Isto foi no dia 29-12-95. O programa com o qual fazia as capas das cassetes marcava a data. Hoje, enquanto escrevo este texto, ouço essa mesma cassete. E agora entra o lugar-comum: o tempo volta para trás. Mas os ossos já não se mexem da mesma maneira, o cabelo é menos na cabeça. Dizer que estou velho seria um exagero. Dizer que não estou: um eufemismo.

Anónimo disse... (2)


Pois, não sei, terá de perguntar a quem come trampa. Mas o que eu gosto mesmo de ver é a mediocridade que prolifera pela blogosfera e até pela "literatura" portuguesa; qualquer néscio é "editor" e o caralho a sete. Enfim, talvez seja o fiel retrato deste pequeno rectângulo. Pynchon e até o próprio Camus explicam. Leia, e continue a ler, ams não faça lixo, não há guilhotinas que resistam.

21 de Agosto de 2014 às 19:06

(...)


Disse e repito: sou pela Liberdade. Sempre defendi, desde o início deste blogue, os comentários livres, apesar dos Anónimos que por aí andam. Os comentários que apaguei foram sempre insultos gratuitos a terceiros. Todos os insultos à minha pessoa continuam por aí. Não irei alterar a "política" que defendi até hoje. Os comentários continuarão abertos a todos. Incluindo Anónimos.

(...)


Esta é a publicação número 4011. Como se pode ver não sou pessoa de escrever muito. Escrevo dentro das possibilidades possibilitivas, como dizia o outro. A verdade é que nada de novo há para dizer. Resta, apenas, a música, a poesia, a vontade de beber vinho.  

Marc Augé



Se um lugar se pode definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode definir-se nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um não-lugar.


em Não-Lugares - Introdução a uma antropologia da sobremodernidade, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Letra Livre, 1ª edição, 2012, p. 69.

Discos pedidos (100)



And you awake and there you are
Not far off from the line before

And You Will Know Us by the Trail of Dead


A estrada será sempre, para mim, uma espécie de segunda casa. Digo espécie, porque não chega a ser uma casa. Na realidade é um não-lugar. E talvez seja nele, nesse não-lugar, que sou verdadeiramente. Por vezes penso se não seremos todos filhos de não-lugares: estações de comboio, silêncios absolutos, penumbra. A verdade é que a minha geração (aquela que nasceu na década de 70), não chega a ser filha de nada. Na melhor hipótese é enteada de algo. A verdade é que a minha geração foi remetida para não-lugares, e ainda anda à procura de si. 

John Mateer




Cheguei à poesia de John Mateer através da revista Criatura. Depois, comprei Este livro escuro (Averno, 2012: tradução de Inês Dias). Mais tarde li Southern Barbarians e agora irei começar a leitura de Unbelievers, or "The Moor". A poesia de Mateer combina uma série de referências históricas mas também geográficas. A ligação a Portugal é evidente. O interesse de Mateer pela nossa história e cultura está patente em Southern Barbarians e Unbelievers, or "The Moor", onde podemos encontrar poemas dedicados a Lisboa, Coimbra e Monsanto. É um autor que passou a ser cá de casa. Aconselho.

Discos pedidos (99)



Go alone my flower
And keep my whole lovely you
Wild green stones alone my lover
And keep us on my heart

Alt-J


Há aquele momento na noite em que a noite se repete. O cão que ladra, o vizinho que chega tarde, um carro que passa, uma brisa que sacode o corpo, o galo que canta fora de horas. O calor não há maneira de dar tréguas, não há cessar-fogo possível. Enquanto olhamos para o tecto vemos as so(m)bras do dia. Os olhos começam então a pesar e uma melodia embala o nosso sono. Mas não dormimos.

Manicómio - Jorge Aguiar Oliveira



Jorge Aguiar Oliveira
Manicómio
Debout Sur L'Oeuf
(DSO)
2014

Pensamento do dia




Paus
Descruzada
Paus
2011

(...)


É sempre nova para mim a sensação de descobrir algo de novo. Estou a sentir isso ao ler Viver com os outros, de Isabel da Nóbrega. O livro que tenho é a segunda edição (1965). Foi-me oferecida por mão amiga. Sei que há uma reedição pela Dom Quixote. Gostaria de ver o livro à venda novamente. É um livro tremendo. Tenho pena não o ter lido mais cedo. Mas talvez seja este o tempo certo.

Isabel da Nóbrega


No fundo o mandamento deveria ter sido: Conhecei-vos uns aos outros. Conhecei o próximo como a vós mesmos... O amor viria depois, na razão inversa ao conhecimento...
— Viria?
— O homem nem o conceito de Sócrates do “conhece-te a ti mesmo” seguiu, quanto mais o mandamento divino! Nem ama o próximo, nem conhece o próximo, nem se conhece a si!
(…)
— E deixem-me que lhes diga que isto de amar por “mandamento”, ser necessário um mandamento para amar... o próximo, o nosso vizinho, os nossos irmãos... sempre me pareceu suspeito....


em Viver com os outros, Lisboa: Portugália, 2ª edição, 1965, p. 73.

Pensamento do dia



Charles Bukowski
Style
1972

Discos pedidos (98)




and Ive got no right to take my place
with the Human race

The Smiths

Agora, que penso naquele tempo, sei que pouco podia ter feito. A noite chamava. Era um apelo silencioso, mas eu ouvia-o com estrondo. A noite acabava, quase sempre, na F7. Nunca fui muito de ir para a Malukisse ou para a Black & White. Não faziam o meu género, que passava, essencialmente, pela música que passavam. É claro que a música que passavam condicionava as pessoas que, como eu, invadiam a pista de dança. Só mais tarde soube que àquele tipo de dança se chamava shoegaze. Arrastávamos os pés para trás e para a frente, olhos no chão. Algumas raparigas mais impressionáveis achavam que dava "estilo". Nunca fui muito dessa coisa do estilo. Verdade seja dita: só com Bukowski soube o que era ter estilo.

50 livros + 14




Vergílio Ferreira é o meu autor português. Se fizessem a pergunta: Saramago ou Lobo Antunes? Responderia: Vergílio Ferreira. Não sei se são as afinidades beirãs (a sua aldeia natal é ali mesmo, atrás da Serra), ou uma afinidade mais existencial. À excepção dos seus três primeiros romances, li todos os outros. Como li também parte dos seus diários e ensaios. Alegria Breve foi lido durante o primeiro mês do Inverno de 2007. Estava em S. Teotónio. Os dias lá pareciam ser ainda mais curtos e as noites ainda mais longas. Ler foi uma maneira de ocupar o tempo. É um livro violento, onde Vergílio Ferreira assume, de uma vez por todas, o existencialismo como o terreno onde passará a movimentar-se. Do livro retive a sua história e uma frase que me acompanha desde então: «O que é preciso é reinventar o começo, ocupar o espaço da inquietação.» (p. 124).

Um poema de João Moita


V

As sombras no meu ventre são relíquias do tempo.
Não ardas onde não se derrame o ímpeto
e não se apurem as veias que calibram o gosto
do flagelo e dos declives.
É onde a língua sangra.
Esta é a força que conduz o canto.


em Miasmas, Maia: Cosmorama Edições, 1ª edição, 2010, p. 13.

Anónimo disse...


O amigo tem a profundidade de uma folha de papel vegetal e neurónios a acompanhar esse estado vegetativo. Não é por ser domingo ou deixar de ser que se lhe aliviará a pança de loci communes, que é tudo o que a enche.

3 de Agosto de 2014 às 21:26

Pensamento do dia




Stephan Micus
Darkness and Light - Part 1
Darkness and Light
2000

Discos pedidos (97)




Todos sabemos: demasiada luz, ofusca. E sabemos também: demasiada escuridão, não deixa ver. Daí a necessidade da penumbra, esse lugar intermédio.

Professor Dr. Pirata


Pode ser lida aqui a entrevista completa.

(...)



Às vezes, em tom de desabafo, digo — é Domingo no mundo e eu não me sinto profundo — e o pessoal ri. Sempre achei curiosa a reacção. É claro que não a estranho. Apenas a acho curiosa.  

Discos pedidos (96)




I crawl into your mouth
I grow like a flower
I grow a suicide
 
Swans


A minha adolescência foi bastante indolente. A adolescência, aliás, é dispensável. É claro que só sabemos isso quando a deixamos para trás. Enquanto a vivemos não temos tempo para pensar noutras coisas. Tudo é demasiado rápido. Intenso. Exagerado. A adolescência é, sem dúvida, um exagero. A minha teve os seus exageros. Exagerei nos livros que li. Na música que ouvi. Nas raparigas que não conheci, ou que ignorei. Nos venenos que bebi. Só não exagerei nos cigarros que fumei. Nunca tive pulmões à altura.

António Franco Alexandre


estas ligeiras coisas me acontecem: o copo azul, o azul, as
tartarugas luminosas; e ainda assim a ausência
dos navios se agita nas gavetas.
os imensos telefones, que dizem em ruínas; os fios
descoloridos, que amanhã virão romper os tesoureiros;
tudo são razões que nos iluminam, debruçados
na amurada grosseiramente pintada, com um copo
azul na mão ainda hesitante.
às vezes grandes buracos de celofane verde
os rodeiam desde a mais breve madrugada; e então
seguramos com violência os lenços incendiados
com que nos acenam ilusões, grandes chapéus
redondos, e o apto das horas.
vivo na prega desta ligeiras mágoas, como a fita
plástica ao canto dos olhos, ao anoitecer.
estou-me esquecendo do que digo. este copo,
poderei largá-lo na superfície branca do ar,
para que as nuvens o sustentem. duvido
sejam estas as razões que me pediu.
não que nos seja indiferente o seu destino,
o horário dos seus sinos, o decibel exacto
da sua impertinência. não posso agora
explicar-lhe o que sentimos, a aspereza
húmida da pele, quando o amarrotamos no punho das aves.
em breve desistiremos destes canais desertos, desta
leve gaveta, e as coisas irão sendo reais,
devagar vacilando por detrás dos lençóis.
assim me aconteceu, mas este copo azul,
que o quebrou na amurada? e os
sinais de néon, alguma vez
os saberemos iludir?
esses suas palavras invadem a minha
lenta respiração. um dia acordarei
com a cabeça no meio das pedras, e as mãos
inteiramente inúteis. de que nos vale
saber que o fiz feliz?


de "Os Obejctos Principais" (1979), em Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, pp. 107-108.

50 livros + 13




A Biblioteca Municipal de Manteigas foi, durante muito tempo, uma espécie de segunda casa. Foram dois verões seguidos ao abrigo da ocupação dos tempos livres, orientados pelo Instituto Português da Juventude. Foi  lá que entrei em contacto com muitos dos livros que ainda hoje me acompanham. Devo dizer, também, que o Rui (o bibliotecário) muito contribuiu para a minha formação literária, apontado nomes, dando dicas preciosas. Sempre gostei mais de fazer as manhãs. Pouca gente. Mais tempo para ler o que me apetecia. Foi então que encontrei a poesia de António Franco Alexandre: "estas ligeiras coisas me acontecem: o copo azul, o azul, as/tartarugas luminosas; e ainda assim a ausência/dos navios se agita nas gavetas." (p. 107). Um admirável mundo novo. Depois, à tarde, ia para o rio e levava comigo os versos, as palavras a ressoarem na cabeça: "um sofrimento a cada/instante mais veloz, mais ágil,/uma secreta ausência perdoada."(p. 204).