Luz e sombra. Algumas vez: mais sombra. Mas não nos podemos esquecer que a sombra, a penumbra só são possíveis se existir luz. Por mais ténue que seja. Paulo Nozolino é um dos meus fotógrafos preferidos. É o meu fotógrafo português preferido. Descobri-o um dia, quando peguei nesse magnífico livro que é Nuez (Frenesi, 2003), com poemas de Rui Baião. Ainda hoje me pergunto se é um livro de poesia ou de fotografia. A distância, no caso de Nuez, é muito ténue. Um lugar-comum: as fotografias são poemas e os poemas são fotografias. A verdade é que a fotografia de Paulo Nozolino é de uma poesia imensa.
Um poema de Margarida Ferra
5.
Saber sempre onde estão as costas
e o norte.
Deixar de repetir a palavra
ainda
como se pudesse salvar-me da chuva
inesperada.
em Sorte de Principiante, Lisboa: & etc, 2013, p. 19.
Discos pedidos (95)
For
long you live and high you fly
But
only if you ride the tide
And
balanced on the biggest wave
You
race towards an early gravePink Floyd
Havia quem respirasse mais do que ar. Quem preferisse the dark side of the spoon*. Eu sempre preferi tascas. Passei tardes inteiras em tascas. Bebia, falava, ouvia. A tasca que mais frequentei foi a do Chicha (nunca sei se é assim que se escreve). Também havia outras: a Tasca do Benfica, O Cantinho do Céu, o São Pedro, o Ti Tonecas, entre outras. Mas a do Chicha era a minha preferida. Partilhava uma das paredes com uma funerária. O vinho saía duma torneira que estava nessa parede. Nós dizíamos e ríamos — é vinho dos mortos — e mandávamos vir mais uma rodada. Já não lembro as conversas que tínhamos. Mas sei que eram as possíveis. Ou, até mesmo, as essenciais.
* The Dark Side of the Spoon é um álbum de Ministry. Neste caso não me refiro a ele. Penso que o trocadilho é óbvio.
Um poema de Paul Eluard
A vitória de Guernica
5.
Fizeram-vos pagar o pão
O céu a terra a água o sono
E a miséria
Da vossa vida
em Algumas das Palavras, organização e prefácio de António Ramos Rosa, tradução de António Ramos Rosa e Luísa [sic] Neto Jorge, Lisboa: D. Quixote, 2ª edição, 1977, p. 75.
Discos pedidos (94)
The
poetry that comes from the squaring off between,
And
the circling is worth it.
Finding
beauty in the dissonance.
Tool
Durante
muitos anos cultivei o silêncio. Pouco ou nada dizia. Apenas ouvia.
Ou nem isso. As conversas dos outros, aquilo que eles tinham para
dizer, não me interessavam. É claro que havia honrosas excepções.
Havia um grupo restrito de pessoas que eu tolerava. Na realidade,
elas também me toleravam a mim. As coversas eram sempre alimentadas
a cerveja e cigarros. Não que eu fumasse. Mas bebia. Sempre bebi. O
gosto pela bebida existiu em mim desde muito cedo. Continua, ainda
hoje, a existir. Mas, como dizia, havia um grupo restrito de pessoas.
Quase todos os dias nos encontrávamos, ou para falar daquilo que
andávamos a ler ou para falarmos daquilo que andávamos a ouvir. A
música sempre foi o tema principal das nossas conversas. A música
era a nossa fiel companheira. Aquela que nunca desiludia, que
afastava de nós as camelices do mundo. E, como todos sabemos, não
há nada de mais camelo do que o mundo onde chafurdamos.
Manuel de Freitas
Iluminar o mundo — com palavras,
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.
Mas chovia muito e resguardou-se
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.
Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder,
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede
e a poesia era, de novo, a única luz.
em Ubi Sunt, Lisboa: Averno, 2014, p. 33.
(...)
Sou daqueles que ainda acredita
que a poesia serve para alguma coisa. Também acredito que ela cumpre
o objectivo “de aproximar pessoas e de diluir fronteiras”[1].
Acredito nisto porque foi o que sucedeu comigo. Foi a poesia que me
aproximou de certas pessoas; foi ela que diluiu as fronteiras
existentes. Os afastamentos, que inevitavelmente aconteceram, nunca
estiveram relacionados com a poesia, mas sim com o facto de as
pessoas, de quem me afastei, não me interessarem, pela simples razão
de não me identificar com elas. Nunca a poesia se intrometeu na
separação. Tenho amigos dos mais diferentes quadrantes
estéticos/poéticos/religiosos; mas todos estão no mesmo quadrante ético. E
isso, senhoras e senhores, é o que realmente importa. Interessa.
Pelo menos a mim.
______________________________________________
[1] Manuel
de Freitas, Ubi Sunt, Lisboa: Averno, 2014, p. 35.
Graham Greene
Leia-se Os Comediantes. É um livro muito bom. Haiti e o regime de Papa Doc. O medo instalado. Os interesses políticos, económicos. A mesquinhez humana no seu grau mais elevado. Graham Greene escrevia sobre estes temas com uma lucidez incrível. Os seus livros explicam muito bem os jogos de poder, os bastidores da realpolitik. É uma autor que gosto sempre de ler.
(...)
A tarde começa com o sol que,
finalmente, resolve aparecer. Cá fora não se ouve nada. A estas
horas a urbanização é sossegada. Estou sentado no terraço e tenho
os olhos postos no horizonte. Estou a um passo de fazer trinta e sete
anos. Mas, num dia como o de hoje, é como se fosse fazer oitenta. Há
dias assim, em que nos sentimos velhos e parecemos velhos.
Principalmente quando estamos um pouco mais rabugentos do que o
habitual. Na televisão só passam o horror em primetime.
E pergunto-me: como é que alguém ainda pode dizer que vivemos num
mundo bom?
Sexta | 18 Julho | 2014 | 18h26m
Discos pedidos (93)
Don't
rest with the less
I'm
burning to impress
It's
deep in the middle of me
I
can be fantasy
The
XX
Noite.
Lá fora há o silêncio próprio desta hora. O aroma das flores da
laranjeira entra pelo quarto. Calor. Nunca tiveste tanto calor como
agora. Nem quando andaste por terra mais a Sul. Durante o dia ouviste
alguém dizer —
abriram as portas do inferno —
e, sinceramente, falta muito pouco para acreditares. Passou a ser uma
possibilidade. A música ouve-se por toda a casa. Esta noite, só tu
a habitas. Todas as portas e todas as janelas estão abertas na
tentativa de fazer circular o ar, só que nem uma aragem se sente.
Decides tomar um banho de água fria. Depois, cais sobre a cama e
esperas, tentas, adormecer.
Aeminium (5)
Coimbra tem Universidade, Jardim Botânico, Parque Verde, Avenidas, Centros Comerciais, Baixinha, Baixa, Alta (partes delas elevadas a património da humanidade). Mas não tem uma Estação de Comboios digna desse nome. A principal estação, a famosa Coimbra-B, mais parece um apeadeiro da linha de Sintra. A estação do Cacém tem melhor aspecto. Não entendo como é que uma cidade como Coimbra ainda não resolveu esta questão. Não digo uma coisa com a imponência da Gare do Oriente (que, a bem da verdade, não é lá muito confortável), mas uma solução como a que foi encontrada para a estação da Guarda, ou para a estação de Braga (tirando aquele prédio horrível que a cobre), seria bastante viável. Como seria se não estivéssemos na terra dos Doutores e Engenheiros?
Um poema de Sofia Crespo
na cama
quando me chego não percebes
que nada me deixa dormir
senão a proximidade do teu corpo
numa lenta água de barragem
que se encalha como um navio
sobre ondas cada vez maiores
que se fazem da inquietação
de um calor que se orvalha
entre cada pedaço que te toca
ah e pedir-te pedir-te até à exaustão
um noite repetidamente lenta
em Um pássaro na ponta da língua, Lisboa: Mariposa Azual, 1ª edição, 1999, p. 35.
Discos pedidos (92)
Just like a car crash
Just like a knife
My favourite weapon
Is the look in your eyes
Ministry
Nessa altura o preto começou a ser a cor predominante no meu guarda-fatos. As Doc Martens passaram a ser o calçado oficial: de Verão e Inverno. E nós juntávamo-nos numa garagem nas traseiras de uma urbanização. Passávamos as tardes a ouvir as bandas que mais nos diziam na altura: Nine Inch Nails, Mudhoney, Fugazzi, Fudge Tunnel, Ministry, Fu Manchu, Bad Religion, Sonic Youth. Depois, cada um seguiu o seu caminho. Agora, eu sou professor, tu bancário, ele engenheiro informático, o outro, aquele que ficava sempre a um canto, nunca mais o vi. Nunca mais tive notícias dele.
Adília Lopes
Não conheço poetisa que gere mais polémica. Amada por uns e detestada por outros, Adília Lopes marcou, sem qualquer dúvida, a poesia portuguesa dos últimos 30 anos. Conheço pouca gente que goste realmente da poesia da autora de A Pão e Água de Colónia. Para muitos ela é apenas uma espécie de freak show; não é para ser levada a sério e muito menos a sua poesia. Para outros ela uma influência, quer pela economia das palavras, quer pelo jogos fonéticos que podemos encontrar nos seus poemas. É muito cá de casa.
(...)
Não sou, em definitivo, um ser da noite. Sou mais um ser dos fins-de-tarde, da penumbra. Tenho algumas bandas sonoras para essas horas. De Inverno nada bate um álbum dos Red House Painters. No Verão, só Anouar Brahem consegue preencher as horas. É claro que posso falar de Mogwai, Bach, Godspeed You! Black Emperor, Pink Floyd, entre outros. Mas é Anouar que me faz companhia. É ele que me diz que, afinal, nem tudo é mau neste mundo.
Call Center - Henrique Manuel Bento Fialho
Um poema de Rosa Maria Martelo
Lírios
Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.
Dispo agora toda esta roupa e escrevo
— sem frio nem perda nem desastre —
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:
lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.
em Matéria, Lisboa: Averno, 2014, p. 39.
50 livros + 12
Há pequenos grandes livros. Este é o exemplo que confirma a afirmação anterior. Não foi o primeiro livro que li de Stig Dagerman, mas é aquele que releio às vezes (é o que vale ser um livro com poucas páginas). Não é um livro fácil, pois a sua digestão requer tempo e, talvez, a ajuda de uma água das pedras ou kompensan. Muitos dizem que é o testamento literário do autor sueco. Não o vejo assim.
(...)
Ainda tenho a maior parte da minha "biblioteca" aqui, em Manteigas. São ensaios e romances. A poesia já foi toda para Coimbra, mais alguns romances que me são fundamentais (toda a obra de Vergílio Ferreira, por exemplo; todos de Céline, Bernhard, Mishima, Bukowski, Cossery). A estes juntaram-se, entretanto, outros, que fui comprando ao longo de quase quatro anos. Mas contenção tem sido a palavra de ordem. Até agora tenho feito os possíveis.
Robert Capa
Poucos conhecem Endre Friedmann. Mas quase todos conhecem a personagem por si criada: Robert Capa. Da Guerra Civil Espanhola ao desembarque na Normandia, no dia D, Robert Capa fotografou de tudo um pouco. É claro que é mais conhecido pelas suas fotografias em cenários de guerra. No entanto, ele também fotografou Picasso, Matisse, Gary Cooper, Hemingway, entre outros. Um assistente de fotografia deu cabo dos quatro rolos que Capa usou durante a primeira vaga de ataque à praia de Omaha. Sobraram apenas 11 fotos, que fizeram história.
Pascal
Assim, a vida humana não passa de
uma ilusão perpétua: não se faz outra coisa que não seja enganarmo-nos e
lisonjearmo-nos uns aos outros. Ninguém fala de nós na nossa presença como fala
na nossa ausência. A união que existe entre os homens baseia-se apenas neste
logro mútuo; e poucas amizades subsistiriam se cada qual soubesse o que o seu
amigo diz dele na sua ausência, embora fale então sinceramente e sem paixão.
O homem não é,
portanto, senão disfarce, mentira e hipocrisia, para consigo mesmo e para com
os outros. Não quer que lhe digam a verdade. Evita dizê-la aos outros. E todas
estas atitudes, tão afastadas da justiça e da razão, têm uma raiz natural no
seu coração.
em Pensamentos, tradução e notas
de Américo de Carvalho, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1988, pp. 56-57.
50 livros + 11
Na altura eu devia ter 16 anos. Foi
a primeira peça de teatro que li. Foi, também, o meu primeiro Lorca. Depois, li
os poemas. Mas este é o livro que associo a Lorca. O autor espanhol
caracterizou esta sua peça de teatro como uma tragédia severa e simples. Foi o livro que me levou a visitar a Andaluzia, ir beber água às fontes
de Sevilha. É um livro magnífico com uma história magnífica. Tenho dito.
Um poema de Pedro Sena-Lino
o teu corpo sabia tudo dos incêndios
que lavraram cartago e as velas brandas
que cortavam as noites mortas de kavafis
sabia dos verões que tinham crescido
na vizinhança surda do pânico
sabia como dói a água
que nasce dentro
sabia onde eu no princípio
e onde a luz nunca demorava
ouves a terra onde chegámos
ainda antes do corpo
ouves o sopro de pedra das palavras
o voo Deus dos gestos
a substância e carne do silêncio
deita comigo o nunca
e leva a madrugada no teu sangue
em zona de perda, livro de albas, Vila do Conde: Objecto Cardíaco, 2006, p. 15.
(...)
A Fraga da Cruz está coberta por um espesso nevoeiro. Chove. A temperatura baixou.
Ubi Sunt - Manuel de Freitas
50 livros + 10
A minha admiração por Paulo da Costa Domingos é conhecida. Gosto do poeta e do editor. Gosto, também, do escritor. É claro que o poeta também é escritor. Digo escritor pelo simples facto de Paulo da Costa Domingos não ser romancista. Narrativa não é um romance. É um relato autobiogáfico. Começa: «Nem me lembro de ter nascido. Estou aqui desde sempre. Faça-se de conta que nada disto aconteceu.» (p.7). O livro está dividido em três partes e um anexo (que tem o interessante título de Roque - prolegómenos a uma história cultural do segredo no século XX português). É um livro que se lê muito bem: «Isto para dizer que cada livro punha-me momentaneamente no exacto centro do Universo.» (p. 69).
(...)
Olho a montanha em frente. Olho-a
pela mesma janela de sempre. Só que o quarto, agora, não é o meu quarto. Passou
a ser o escritório. A montanha lá está: imponente como sempre e aí permanecerá
imponente para sempre. O dia começou com sol e uma temperatura agradável. O
silêncio habitual, interrompido pela sirene de uma ambulância. Só há novidades
quando morre alguém. Sempre que morre alguém há a pergunta — quem será o
próximo? — ao que se ouve a resposta — fulano está muito mal e sicrano está por
um fio — instalando-se, de seguida, um silêncio terrível. Todos sabem que um
dia será a vez deles, que serão eles os “comentados” e não os “comentadores”.
Manteigas foi, há tempos, considerado o concelho com melhor qualidade de vida.
Não sei se existe um ranking para os
concelhos com a melhor qualidade de morte. Caso existisse, gostaria de saber se
Manteigas também estaria em primeiro lugar. Duvido.
Discos pedidos (91)
Turn my head
Into sound
My Bloody Valentine
Horas e horas a andar pelas ruas. Nevoeiro. Frio. O
sobretudo ajuda, mas o frio entra nos ossos. Não há como evitar. Só atenuar.
Entro num café. Peço algo quente. Uma aguardente velha aquecida resulta sempre.
Gosto de a beber de pé, junto ao balcão. Um dia mais tarde irei escrever um
poema sobre esse lugar: o balcão. Mas isso é outra estória. Um dia pode ser que
a conte. Saio do café e prossigo com o passeio. Só que andar ao frio, por entre
o nevoeiro, não é bem um passeio. É uma espécie de necessidade.
50 livros + 9
Este foi o livro que me fez chegar a Rimbaud. Li-o numas férias de Verão em Buarcos, quando toda a gente dizia que ia passar férias à Figueira da Foz. Li-o à noite, pois durante o dia andava entretido com outras leituras e com os corpos femininos que se atravessavam no meu campo de visão. De Verlaine só tenho um livro: Hombres: na tradução de Luíza Neto Jorge. Este tinha sido requisitado naquela que é hoje a Biblioteca Municipal de Manteigas, pois na altura era Biblioteca Fixa Gulbenkian.
(...)
Sophia foi para o Panteão e a classe política pode, agora, usá-la à lapela. O Senhor Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva, fez um discurso enfadonho (como todos os discursos por ele proferidos) com lugares comuns e trocadilhos de pacotilha, como por exemplo: "(...) os seus contos eram exemplares (...)". Não parecia muito à-vontade. O que não é de estranhar: tinha Miguel Sousa Tavares na primeira fila.
Um poema de Fabio Weintraub
Desperto
Durante séculos só se podia
ferir o inimigo de perto
- distância de flecha ou lança
Então veio a pólvora
e afastou as pessoas
Um anão que pega fogo
é atropelado e sai ileso
devolve-me à realidade
A mulher que golpeia um urso
com a frigideira
para salvar seu homem
devolve-me à realidade
Arrastar montanha acima
navios de verdade
quando todos tentam dissuadi-lo
também
Por isso os fatos não me importam
não confio em professores
e descobri:
psicóticos não devem ser hipnotizados
em Baque, Lisboa: Língua Morta, 2012, pp. 47-48.
Discos pedidos (90)
It's not because I always look down
It might be I always look out
Sharon Van Etten
A casa repousa no silêncio. Ouvem-se os carros ao longe, ondas de mar urbanas na maré cheia da noite.
Guy Debord
O carácter prestigioso de qualquer produto resulta tão-só de ter sido introduzido por um momento no centro da vida social, como o mistério revelado da finalidade da produção. O objecto que era prestigioso no espectáculo torna-se vulgar no instante em que entra em casa do consumidor, ao mesmo tempo que entra em casa de todos os outros.
em A Sociedade do Espectáculo, tradução de Francisco Alves e Afonso Monteiro, Lisboa: Antígona, 2012, p. 40.
50 livros + 8
Ou Debord estava à frente do seu tempo ou estava muito consciente do seu tempo e para onde caminhava, coisa que muitos dos nossos intelectuais actuais não pode dizer. Basta, para isso, ler A Sociedade do Espectáculo, um livro escrito numa altura em que não havia internet, blogues, redes sociais, etc. É um livro que nunca irá envelhecer, o que faz dele um clássico. Mas o primeiro livro que li do francês foi Panegírico. Livro autobiográfico, muito bem escrito e que se lê em duas horas. Nele, Debord fala da sua infância, juventude, gostos. Mas de uma forma inteligente e nada pedante. Para quem quiser iniciar-se na leitura do situacionista, eis o livro. Depois, aventurem-se no resto. E nunca mais irão ver o mundo e a sociedade da mesma maneira.
(...)
Uma massa uniforme e anónima de gente enche a sala de espera do Centro de Emprego. De senha na mão (com um número que nunca irão memorizar) e atentos ao sinal sonoro que sai do ecrã com números e letras, esperam a sua vez. A cada blimp confirmam o número que seguram na mão, pois só há duas senhas de tolerância. Não se consegue distinguir velhos de jovens, tais são as caras de pasmo e derrota.
Bicho ruim
Os blogues podem ter morrido, mas o Rui Manuel Amaral começou ontem um novo: Bicho ruim. Os blogues estão mortos! Vivam os blogues!
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