(...)


Correm os rumores: o último livro de Herberto Helder está à venda nas superfícies comerciais de uma grande cadeia de hipermercados. Se o rumor for verdade, confirma-se, também, aquilo que há muito é visível: Herberto Helder é uma vedeta. Vedeta, como sabemos (depois de Debord nos ter ensinado), é a «representação espectacular do homem vivo»[1]. Depois da operação de marketing desenvolvida – uma operação ao melhor jeito português: agressiva e parola –, confirma-se, ainda, a banalização daquele que muitos consideram o maior e melhor poeta vivo português. Dito isto, cito novamente Debord: «A raiz do espectáculo está no terreno da economia tornada abundante, e é de lá que vêm os frutos que tendem finalmente a dominar o mercado espectacular, apesar das barreiras proteccionistas ideológico-policiais, qualquer que seja o espectáculo local com pretensão autárquica.»[2].





[1] Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, tradução de Francisco Alves e Afonso Monteiro, Lisboa: Antígona, 2012, p. 35.
[2] Idem, p. 34.

Estação 2012 - Henrique Manuel Bento Fialho



Henrique Manuel Bento Fialho
Estação 2012
Mariposa Azual
2014


Apresentação dia 28 de Junho
Festival Triciclo
Clube Estefânia
19h


Manuel de Freitas


Gostar de poesia é algo de tão espontâneo e improvável como admirar as missas de Zelenka ou conseguir ver em Rothko mais do que uma sucessão aleatória de manchas de cor. Por isso sempre me irritaram tanto os catequistas que acham, seguindo argumentos pretensamente racionais, que devemos gostar seja do que for: Deus, futebol, Chopin, Agamben, ginástica sueca, Chivas regal ou Jean renoir. O gosto é autónomo e soberano, por definição. Suster o contrário é, na melhor das hipóteses, tarefa de propagandistas e merceeiros.

de «As Coordenadas Líricas» em Cão Celeste, nº 5, Maio de 2014, p. 3.

(...)


Termino, hoje, o meu contrato na escola onde estou. Vim fazer uma substituição de um mês (Arcozelo - Ponte de Lima). Prolongou-se um pouco mais. Entrei no dia 8 de Maio. Saio a 20 de Junho. O tempo de serviço rondará os 44 dias. O salário que vou receber cobrirá, minimamente, as despesas que tive em vir para cá (dois meses de renda de casa, por exemplo, gasolina, portagens, refeições, etc). Sabia tudo isto antes de vir. O subsídio de desemprego estava a terminar (e irá terminar brevemente, depois de o retomar, pois foi suspenso para vir trabalhar). Não me arrependo. Mas não deixo de sentir um ligeiro amargo de boca na hora de ir embora.

Pensamento do dia



Mark Lanegan Band
The Gravedigger's Song
Blues Funeral
2012

Uma imagem para o dia



Vasco Gato



Vasco Gato tem um livro ao qual regresso muitas vezes: Rusga. É, para mim, o seu melhor livro, embora A Fábrica seja um livro muito bom. Rusga tem uma passagem que me acompanha sempre e que cito várias vezes: A nossa situação é, no meio das avalanches, tentarmos um paisagismo. Cito-a várias vezes porque penso que ela encerra muita verdade. Mas isso agora pouco importa. A poesia de Vasco Gato é delicada e violenta ao mesmo tempo (eu sei que é um lugar comum dizer isto, mas pronto). Uma curiosidade: ouvi Vasco Gato ler os seus poemas uma vez. Nunca mais os consegui ler com outra voz.

Discos pedidos (89)



You want to go for a ride?
I got sixteen hours to burn
And i'm gonna stay up all night

The Twilight Singers


A estrada é uma constante em mim. Gosto do asfalto. No ano lectivo 2003-2004 trabalhava em Silves. A viagem era de 525 km. Os regressos a casa eram feitos muito cedo, ao Sábado pela manhã, pois dava aulas ao ensino recorrente nocturno. Costumava sair às 5h30m da manhã, ainda era noite. Fazia Silves-Beja na penumbra e tive a planície à minha frente, só minha. Não consigo descrever o nascer do dia, a luz.* Costumava parar em Évora, onde tomava o segundo café da manhã, ainda havia pouca gente nas ruas. Às vezes caminhava por elas, para esticar as pernas, porque depois era tudo seguido até Manteigas. São viagens e paisagens que ficarão sempre.


*a foto é de 2010. O percurso é o mesmo.

Moleskine



Antes escrevia em cadernos de capas pretas. Depois, em 2003, foi-me oferecido o primeiro Moleskine. Foi a Carla. Era um Moleskine 13x21, de capas pretas. Depois, passei a comprar o modelo de bolso. Alguns comprei eu. Outros foram, novamente, oferecidos. É um objecto que me acompanha para onde quer que vá. 

(...)


Tenho passado os dias a ler Lawrence Durrell. O famoso Quarteto de Alexandria. Li, até agora, Justine. Entrei em Baltasar. Espero ler os quatro volumes sem interrupções. Penso que não será difícil. A escrita de Durrell encaixa muito bem comigo. E a história também.

Festival Triciclo



(clicar na imagem para aumentar)

50 livros + 7




Foi a Inês quem me falou pela primeira vez em Bruce Chatwin. Para muitos este livro de Chatwin é "menor" do que aquele que é considerado a sua "obra-prima": Na Patagónia. Aposto (com risco de perder) que todos aqueles que o leram tiveram vontade de partir. É um livro belíssimo, embora eu prefira, de Chatwin, O Canto Nómada (talvez pelo simples facto de ter sido o primeiro que li dele). Durante muito tempo sonhei com a hipótese de fazer uma viagem pela Austrália, de costa a costa, passando pelo interior de planícies infinitas. Agora tenho a vontade.

Discos pedidos (88)



Your attention, please
Now turn off the light
Your infection, please
I haven't got all night 

The Afghan Whigs


Eram os dias das horas mortas, do olhar para as paredes cheias de posters dos grupos que mais nos diziam (ou então não nos diziam nada mas era fixe). Mas não os Whigs. Não, esses não. Esses eram as ruas por onde passeávamos, por onde arrastávamos os pés até à tasca do Chicha. Havia quem soubesse de cor algumas das músicas. Eu não. Apenas ouvia e aquilo entrava com a força do assombro. Era como fumar um cigarro até ao fim sem deitar o fumo fora. Eram os dias das horas mortas, do vinho branco traçado com sumo de maçã. Eram os dias das raparigas de calças justas rasgadas nos joelhos, das Doc Martens. Eram os dias.

Ensino Recorrente



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Ontem, devido ao Alemanha-Portugal, não fui fazer a minha caminhada habitual. Poderia ter ido no final do jogo. Ainda ia a boa hora. Mas perdi a vontade, que não esteve relacionada com a derrota da nossa equipa. As caminhadas têm servido de muito. Começo a ter mais resistência, emagreci um pouco (embora a barriga que dá um certo estatuto ainda exista) e aprendi muita coisa. Por exemplo: aprendi que, afinal, aguento muito bem uma caminhada de hora e meia ou duas horas; aprendi a dizer bom dia e boa tarde às pessoas que passam por mim; aprendi que elas respondem. Têm sido dias úteis. 

50 livros + 6



Cheguei a Larkin através do seu conhecido poema This be the verse. Na altura surpreendeu-me o uso da palavra fuck, mas ainda mais o seu conteúdo. Era um jovem sensível na altura. Depois isso passou-me. Philip Larkin é, para mim, um dos melhores poetas ingleses do século XX. Podem falar-me no naturalizado T.S. Eliot, mas gosto mais de Larkin. É claro que gostos discutem-se. Estamos cá para isso.

Discos pedidos (87)




and now your silhouette, lies in the smoke
The Underground Youth


Pensemos numa noite quente. Uma daquelas noites em que o corpo se cola à roupa da cama. Pensemos um quarto na escuridão da noite quente. Uma escuridão também ela quente. Pensemos essa escuridão quente numa noite quente em que o corpo se cola à roupa da cama e nem uma brisa se sente. Pensemos numa vila quente na noite quente de escuridão quente e um corpo que se cola à roupa da cama que também ela começa a ficar quente. Pensemos numa noite quente, uma daquelas noites em que o corpo se cola à roupa da cama num quarto quente na escuridão quente e nem uma brisa se sente na vila quente.

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Há algum tempo que não fazia uma viagem nocturna. Como companheira a estrada e a música. Primeiro as sonatas para violino de Bach; depois as vozes de Jimmy Scott e Billie Holiday. Parte da viagem foi completamente sozinho, sem ninguém na estrada. Como gosto.

Sá de Miranda



Gosto mais de Sá de Miranda do que de Camões. Mea Culpa. Camões não me entusiasma tanto. Gosto de ler Sá de Miranda, principalmente ao fim de um dia de trabalho. De preferência no Verão, acompanhado de uma bebida fresca. Sá de Miranda escreveu muito. Só tenho as suas poesias completas, naqueles belos livros da Sá da Costa. Deveria ser mais lido e menos citado. Mas isso acontece com a maioria dos poetas neste país.


50 livros + 5



Vi o filme antes de ler o livro. O filme foi, para mim, uma revelação. Para além de ser um filme com uma fotografia extraordinária, iniciou em mim um certo imaginário erótico, que ainda hoje está presente. Não foi o meu primeiro livro de Duras. O primeiro foi Olhos Azuis, Cabelo Preto, e o segundo foi O Amor. Mas é este, O Amante, que ainda às vezes releio (não o livro inteiro, apenas algumas passagens). 

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No outro dia li, algures, que os blogues tinham "morrido" em 2010. Deve coincidir como advento do Facebook. Mas, reparo agora, que este blogue nunca esteve tão activo, tão "vivo" como ultimamente. E, verdade seja dita, continuo a ler blogues. Cada vez menos, é certo. Apostei mais na qualidade do que na quantidade.

Lawrence Durrell


Os amantes nunca se combinam bem, não acha? Um deles lança sempre a sua sombra sobre o outro e impede-o de crescer, de modo que aquele que se sente sufocado procura desesperadamente um meio de evadir-se, para poder crescer sem entraves. Não é este o drama essencial do amor?


em Justine, tradução de Daniel Gonçalves, Lisboa: Ulisseia, 2004, pp. 199-200.

Uma imagem para o dia



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Ontem, depois do dia feito, fui até às margens do Lima. Havia corpos em seminudez espalhados pelas suas margens. O sol iluminava-os, conferindo-lhe aquele brilho que todos nós conhecemos. Poucas coisas se comparam a um corpo deitado ao sol. Poucas coisas, repito. Nada bate um corpo nu deitado sobre uma cama, iluminado pela penumbra do fim de uma tarde quente.

Discos pedidos (86)




Sail to the stars on your shining desires.
"Reasons? There are none" cried the whisky laden brain.
"When all is said and done it amounts to just the same".

Dead Can Dance


Um amigo um dia disse-me que era a melhor banda sonora para Lisboa, quando o sol do fim da tarde dá lugar às sombras do início da noite e as luzes dos candeeiros começam a dar a sua luz fria. Experimentei um dia. Era Inverno. Entrei num autocarro e observei os rostos tristes daqueles que do lado de fora esperavam a sua vez. Quando o autocarro iniciou o seu caminho a paisagem transformou-se. Havia algo naquela música. Há algo nesta música.

50 livros + 4



Houve uma altura em que o vício chamava por mim. Foram noites longas. A fada verde acompanhava cada um dos meus passos. Li-o, pela primeira vez, numa tarde de Verão, na varanda da casa em Manteigas. Para mim poesia era, naquela altura, os versos que aprendia no Liceu. Os poemas em prosa de Baudelaire deixaram-me completamente banzado. Durante muito tempo não me saíram da cabeça. Até ao dia em que alguém me emprestou As Flores do Mal. Spleen, para mim, era parte de um título de um álbum dos Dead Can Dance. Soube, mais tarde, que afinal também era outra coisa.

Ensino Recorrente



(...)


Tenho uma viagem que quero fazer. Quero ir visitar a Normandia e os locais de desembarque. Não quero ir para lá fazer praia. Quero apenas prestar homenagem aos milhares de homens que neste dia, há 70 anos, ali desembarcaram e mudaram o rumo da História. Sei que todo este meu pensamento é um cliché. Mas, apesar de o ser, não deixa de ser, também, verdade.

Uma imagem para o dia



Utah - Omaha - Gold - Juno - Sword



Há 70 anos as praias da Normandia não recebiam turistas. Os franceses ansiavam pelo Dia da Libertação. Hoje, os franceses votam na FN. A memória não é curta só em Portugal.

50 livros + 3



Berryman não é um poeta qualquer. Em primeiro lugar, é um poeta difícil de ler. Em segundo, é um poeta difícil de traduzir. A sua poesia é um lugar estranho. E não é um lugar para aventureiros. Melhor: não é para aventureiros, mas é para corajosos. A diferença é que os aventureiros não pensam nas consequências e vão; os corajosos pensam nas consequências, ponderam bem, vêem que elas lhes são desfavoráveis e, mesmo assim, vão. Espero que haja corajosos por aí.

(...)


O circo montado à volta do próximo livro de Herberto Helder é pior do que aqueles circos que andam de terra em terra, com tubarões adormecidos e leões dopados até às raízes das jubas. Eu sei que existem coisas piores para serem discutidas, como, por exemplo, as recentes – e vergonhosas – declarações daquele Senhor que dizem ser o Primeiro-Ministro. Mas voltemos ao livro e a Herberto Helder. Herberto Helder há muito tempo que deixou de ser poeta para ser instituição (e quase intocável). Apesar dos esforços para o não ser – recusar dar entrevistas, não permitir que a sua poesia seja reeditada individualmente –, Herberto Helder falhou. Talvez muita da culpa seja sua: todo o mistério que criou à sua volta só multiplicou o número de “adoradores”, levando a que alguns dos seus livros passem a valer o triplo ou o quádruplo do valor real. E desta vez a coisa atingiu um patamar inqualificável e inenarrável – e ainda nem o livro está à venda. Duvido que o autor não tenha conhecimento de tudo aquilo que se está a passar. Se não está consciente do que se passa, deveria estar, ou alguém o deveria avisar. Tudo isto é de lamentar, mas, na realidade, nada disto é novidade, principalmente quando o autor em questão é Herberto Helder. Não vou negar que me deixei deslumbrar pela sua poesia quando tinha 16-17 anos e li, durante esse verão, Poesia Toda. Contudo, sempre me agradou mais a sua prosa: considero Passos em Volta um livro genial. No entanto, não posso ficar indiferente a todo o aparato criado em redor de mais um livro seu. Mas a verdade, aquela que verdadeiramente importa, é que não irei comprar o referido livro. Tal como não comprei os anteriores. Só tenho um livro de Herberto Helder. Penso que sabem qual é.

50 livros + 2




Walt Whitman é um poeta muito cá de casa. Para quem gosta da poesia beat de Ginsberg, já sabe onde ele foi beber (para além do peiote). Whitman foi um poeta que nasceu muito antes do seu tempo. Mas, verdade seja dita, nasceu no tempo certo. Penso que a poesia de Whitman nunca poderia ter nascido num local como a Europa. Só podia ter sido nos Estados Unidos da América. A Europa é demasiado sombria para a sua poesia. A poesia europeia, da época, era uma poesia de sol poente, enquanto que a poesia de Whitman é do sol que nasce. Leiam e depois digam-me alguma coisa.

Aeminium (4)


Mas nem tudo é mau. O Bairro dos Olivais, por exemplo, ainda hoje é um local bastante aprazível. A primeira vez que ouvi falar do Bairro dos Olivais foi num poema de Assis Pacheco. Depois, mais tarde, conheci-o. Não há melhor maneira de conhecer um bairro – ou qualquer outra parte de uma cidade – do que a pé. É um bairro calmo, com boa luz. As casas são grandes moradias, com enormes janelas. É claro que também há prédios. O silêncio, nas manhãs de Domingo, é acolhedor. Tem árvores que projectam uma sombra que é diferente de todas as outras sombras dos outros lugares que conheço e que têm árvores que projectam sombra. Sim: as sombras não são todas iguais; depende muito da luz. E a luz no Bairro dos Olivais, para além de boa, é diferente. Será, talvez, a única parte da Alta da cidade que me agrada.

Discos pedidos (85)



And if I only could,
I'd make a deal with God,
And I'd get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
With no problems.

Kate Bush


Na altura a minha relação com Deus ainda era uma relação. Até que desisti. Comecei a pensar que, afinal, Deus não existia. Depois, deixei de pensar. Tronou-se incompreensível. Sei bem que nem tudo em Deus tem de ser compreensível ou cognoscível. Daí o ser do âmbito da metafísica, do mistério, da fé. E eu comecei a questionar a minha fé, deixei de acreditar. Questionar a nossa fé é o primeiro passo para deixar de acreditar. Foi o que me aconteceu. Perdida a fé – esse pilar –, vem o resto. Chega-se a um ponto de não-retorno. 

50 livros + 1



Li-o duas vezes. Não sei se o irei ler uma terceira. É bem possível. Pouco mais posso acrescentar a tudo aquilo que já foi dito e escrito sobre ele. Apenas isto: andei à boleia durante oito anos. É claro que não andei à boleia por esse país fora, nem tão pouco pelo estrangeiro. Era uma distância curta: Manteigas - Guarda - Manteigas. São apenas 42 quilómetros. Fi-los, muitas vezes, de carro, mas também a pé. Apanhei boleia em carros, camionetas, carrinhas de caixa aberta, ambulâncias e, até, pronto-socorros. E durante esses oito anos eu andei pela estrada fora. Mesmo que só fossem 42 quilómetros.


Uma imagem para o dia



Discos pedidos (84)



Here we go again
I need another one
Her name is
She looks through me
Says I'm the only one

Tricky


Noite. Naquela altura era sempre noite. A cidade – pois há sempre uma cidade – estava envolta em frio. As luzes amarelas dos candeeiros começavam a dar-lhe um ar doente. Caminhava pelas ruas estreitas, húmidas. Algures um quarto. Meia-luz. Um corpo. É da natureza humana respirar fundo antes do salto.