Um poema de António Manuel Couto Viana


Matemos a poesia

Viva quem dorme ao luar
Como num fofo colchão;
Quem não ouve sereias, ao molhar
O corpo inteiro e lúcido no mar,
Com arrepios de aflição.

Viva quem tem seu afazer
E preocupações de dinheiro;
Quem na vida não sabe mais do que viver
E só julga verdade o verdadeiro.

Viva quem pode gritar, lutar, barafustar
(Mas não em poemas!) como gente natural, correcta:
Esses, sim, merecem cá ficar...
- Eu não, que sou Poeta.


de O Avestruz Lírico (1948) em 60 anos de poesia, prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, colecção Biblioteca de Autores Portugueses, 2004, p.84.

Lí por aí


É óbvio que a eleição do ex-bastonário da Ordem dos Advogados se deve ao seu mediatismo, granjeando através da exposição pública a simpatia de todos aqueles que estão saturados da trica política e se deixam seduzir pelo mais simplista dos discursos. Esvaziado de ideologia, o advogado chuta contra a corrupção do sistema com uma ênfase justicialista que agrada a muitos que o ouçam. Tem a retórica ao nível da demagogia. Safa-se. Não restem dúvidas, porém, do que ali há para oferecer, porque a regeneração da política não se faz com verve mas sim com ideais. Batava Paulo de Morais candidatar-se, por exemplo, pelo Partido Humanista e a expressão do Movimento Partido da Terra diluía. E se Camilo Lourenço se candidatasse pelo Partido da Nova Democracia? Alguém duvida da eleição? Imaginemos também, por absurdo, que Medina Carreira aceitava convite do Partido Liberal-Democrata. Eleição garantida. Outros exemplos podiam ser dados, fiquemo-nos por estes. Os media fazem políticos, não por lhes vincularem as ideias mas por fazerem chegar a um grande número de pessoas toda a mensagem, mais ou menos fundamentada, que se aproxime da antipartidarite aguda. Metidos os partidos todos no mesmo saco, resta o culto da personalidade. Bem sabemos como o povo português é propenso ao culto da personalidade. E também sabemos bem o quão perigoso é esse culto.

(...)


O melhor amigo dos últimos dias tem sido o Kompensan. É o que dá ter um estômago fraco. O pior de tudo é não poder beber café. Está, sem dúvida, a ser complicado. Uma vez em conversa com um amigo médico — eh pá, tenho uma esofagite, pá. há cura para isto? — ao que ele — paciência, pá. paciência. E logo eu, que não sou muito dotado dessa preciosa virtude.

Uma imagem para o dia


(...)


Desde 2001 que a estrada é para mim uma realidade. Conheço estradas municipais, nacionais, itinerários complementares, itinerários principais, auto-estradas. Fazer o saco e ir. Tem sido assim. Várias vezes me queixei a familiares, amigos. Digo que não é vida para mim, para ninguém. Estive parado desde Julho do ano passado. Voltei há duas semanas. A estrada lá estava, igual a ela própria, sem uma única queixa. E, na verdade, já sentia falta dela. 

Um poema de Raymond Carver


Foi ver

Soube que estava
mal quando
a meio
de um poema
deu consigo
a ir ver
ao thesaurus
e depois ao
dicionário
por esta ordem.


em Heroísmos não, por favor, tradução de Telma Costa, Lisboa: Teorema, 1993, p. 78.

Uma imagem para o dia



Hannah Arendt


Não sei que memórias e que pensamentos habitam toda a noite nos nossos sonhos. Não me atrevo a perguntar por essa informação, uma vez que, também eu, preferia ser uma optimista. Mas por vezes imagino que pelo menos durante a noite pensamos sobre o nosso pai ou lembramo-nos dos poemas que amámos outrora. Até poderia compreender como é que os nossos amigos da Costa Oeste, durante o toque de recolhimento, podiam ter noções curiosas tais como acreditar que não éramos os únicos “cidadãos prospectivos” mas “inimigos alienígenas” reais. À luz do dia, com certeza, tornávamo-nos tecnicamente apenas inimigos alienígenas – todos os refugiados sabem disso. Mas quando razões técnicas previnem-vos de sair de casa durantes as horas negras, certamente que não é fácil evitar algumas especulações negras sobre a relação entre técnica e realidade.
Não. Há algo de errado com o optimismo. Há aqueles estranhos optimistas entre nós que, tendo feito vários discursos optimistas, vão para casa e ligam o gás ou dão uso a um arranha-céus de um modo um pouco inesperado. Parecem provar que a nossa proclamada animação é baseada numa perigosa disposição para morte. Ao mencionar a convicção de que a vida é o bem maior e a morte a maior consternação, tornamo-nos testemunhas e vítimas de terrores piores que a morte – sem termos sido capazes de descobrir um ideal maior que a vida. Assim, embora a morte perca o seu horror para nós, não nos tornamos nem dispostos nem capazes de arriscar a nossa vida por uma causa. Em vez de combater – ou pensar sobre como ser capaz de resistir – os refugiados habituaram-se a desejar a morte a amigos ou familiares; se alguém morre, imaginamos animadamente todos os problemas de que foram salvos. Finalmente muitos de nós acabam por desejar que, também nós, poderíamos ser salvos de alguns problemas e agimos em conformidade.



em Nós os refugiados, tradução de Ricardo Santos, Covilhã: LusoSofia Press, colecção Textos Clássicos de Filosofia, Universidade da Beira Interior, 2013, pp. 9-10.

Raymond Carver



Houve uma altura inocente em que pensava que iria, um dia, ser escritor. Tal facto levou-me a mostrar alguns dos meus contos a alguns dos meus professores. Todos apontaram os defeitos, mas só um apontou uma possibilidade de caminho. E esse caminho poderia passar pela leitura de Carver. Emprestou-me Catedral. Li-o numa semana para o poder devolver ao professor. Entendi que less is more, apesar de, às vezes, ainda me perder no meio de tanto palavreado. Com Carver aprendi que podemos escrever sobre coisas supostamente banais, mas dar-lhe outra dimensão. Carver tem essa capacidade: dizer muito em pouco; tornar o banal em algo de excepcional.

(...)


Sempre que sou colocado numa nova escola (mesmo que seja por um único mês) sou obrigado à apresentação do meu Registo Criminal. Parece que, enquanto se é contratado, é preciso ter o cadastro limpo. Quando se entra para o "quadro" isso acaba. Mas enquanto se é contratado, temos de apresentá-lo todos os anos.

Jack Kerouac



Criou o movimento beat. Recusou o título. Andou pela a América ao ritmo do bop, benzedrina e álcool. Os seus livros influenciaram gerações. Não aguentou o peso da fama, as constantes requisições para aparecer. Isolou-se do mundo. Acabou por morrer vítima de cirrose. É uma figura romântica por natureza. O mais curioso para mim é que o termo beat vem associado ao ritmo frenético do jazz. Eu associo-o mais à derrota, ao beat(en). Mas isso sou eu.

Discos pedidos (83)



Until nothing was left, nothing at all
Except the body of Sorrow
That rose in time
To float upon the surface of the eaten soil

Nick Cave and The Bad Seeds

As tardes eram quentes. Os dias longos. Dividíamos o nosso tempo entre o rio e a esplanada do Vinagre. Havia sempre risos e gargalhadas. Alguns davam os primeiros toques nas coisas do amor. Outros praticavam uma espécie de misoginia, pensando que marcariam pontos dessa maneira. A misoginia pode criar uma aura de mistério durante algum tempo. Mas pouco mais. Depois há aquele momento em que alguém chega com um cassete na mão ouve isto e diz alguma coisa. E à noite não saímos porque as raparigas perderam o interesse e porque The Carny toca na noite quente. E ainda não sabíamos o que eram noites quentes, até experimentarmos as noites do Sul. Mas isso é outra história completamente diferente.

(...)


Há coisas a que nunca me habituarei. Uma delas é a conversa de circunstância, o fazer sala, o desfiar do rosário das lamentações, em que não há ninguém pior do que eu, não há ninguém que sofra tanto como eu, ou trabalhe tanto como eu, ou faça mais do que eu. Cada vez tenho menos paciência para toda a conversa vazia de conteúdo. Cada vez tenho menos paciência para o facto de ter de ter paciência para certas pessoas, quando na realidade me apetece mandá-las dar uma volta ao bilhar grande, que é o mesmo que dizer à merda. Cada vez tenho menos paciência para gente que se queixa do calor e depois se queixa do frio e depois se queixa da chuva e depois se queixa de outra coisa qualquer. E, no entanto, continuo a manter este blogue.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (50)




Não, não o li numa só noite. Mas já o li duas vezes. E penso que estou a caminho de o ler uma terceira vez. Geoges Darien, outro grande e esquecido autor, escreveu um dia (nesse seu colossal romance Biribi): «Ah! Sim, pancada por pancada prefiro as chicotadas impiedosas de um carrasco iracundo, que fere sem contemplações, à flagelação hipócrita do homem que apanha o vigilante de costas para perguntar: «Magoei-te»?». Penso que Céline é esse "carrasco iracundo". Claro que teve a sua dose de hipocrisia. Afinal, quem não tem? Céline é muito cá de casa. Mas isso já não é novidade nenhuma.

(...)




Esta foto tem quatro anos. Foi tirada numa rua de Évora no dia quinze de Maio de dois mil e dez. Os óculos, as calças, a camisa e o cabelo já não existem. Os óculos partiram-se. As calças rasgaram-se. A camisa deixou de servir o seu propósito. O cabelo foi rapado. Restam, apenas, o casaco, as sapatilhas, a barba-de-três dias. O tempo sempre foi assunto que me preocupou. A sua passagem. O facto de nada podermos fazer contra. Muitos dizem para não me preocupar com isso, pois nada há a fazer contra aquilo que é inevitável; que não devo perder mais cabelo a pensar nessas coisas. A verdade é que penso. Não consigo evitar. No outro dia, enquanto relia Pela Estrada Fora (livro que me tem acompanhado nestas últimas semanas), fui reparando nas frases que tinha sublinhado. Não sei se hoje sublinharia as mesmas frases, mas algumas delas ainda me dizem muito. Posso concluir que o tempo não passou por elas. Ou, se passou, não se fez sentir. Ou, como é costume dizer, envelheceram como o bom vinho. E parece que envelhecer como o bom vinho não é assim mau de todo. Pena não sermos bom vinho.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (49)



Três livros acompanham-me sempre, para onde quer que vá. Este é um deles. A poesia de Pavese diz-me muito. A sua prosa também (por exemplo: A Lua e as Fogueiras é um livro fabuloso). Mas este é o meu livro de Pavese. Ainda não li os seus diários. Um dia será.

Discos pedidos (82)



There's still a few drinks between you and closing time
American Music Club



Os dias eram passados no quarto. Tudo fechado. Às vezes alguém batia à janela, apesar de serem poucos aqueles que se atreviam. Eu abria e entrava um pouco de luz. Mas logo voltava a fechar, não fosse o ambiente ficar saturado de ar fresco. Os dias eram longos e rigorosos, mas eu compensava com uma boa dose de misantropia e saídas à noite. O veneno era sempre o mesmo; o bar também. Ficava numa rua estreita, dentro daquilo que restava da cidade muralhada. Restava pouco da cidade muralhada. O bar era pequeno, com dois andares. Demasiado fumo, embora nunca estivesse cheio de gente. Eu costumava sentar-me ao balcão, de costas para a porta. Pedia. E por ali ficava.

Versões: Efrim Menuck


Blues para uma bandeira morta


O carro arde e não há condutor ao volante
E os esgotos estão entupidos com centenas de suicídios solitários
E um vento negro sopra

O governo é corrupto
E nós estamos demasiado pedrados
Com a rádio ligada e as cortinas corridas

Estamos presos na barriga desta máquina horrível
E a máquina sangra de morte

O sol já se pôs
E os reclamos luminosos estão com cio
E as bandeiras estão todas mortas no alto dos mastros

Foi assim que aconteceu:

Os edifícios ruíram sobre si mesmos
Mães procuravam bebés
Por entre o entulho
E puxavam-nos pelos cabelos

Era magnífico o horizonte a arder
Todo ele metal retorcido que apontava para o céu
Tudo purificado numa fina neblina laranja

Disse, “Beija-me, és linda –
Estes são realmente os dias do fim”

Agarraste a minha mão
E caímos
Num sonho
Ou febre

Acordámos uma manhã e caímos um pouco mais
De certeza que este é o vale da morte

Abri a carteira
E estava cheia de sangue


Efrim Menuck, «Dead Flag Blues» em Godseepd You! Black EmperorF♯A♯∞, Constellation Records, 1997.


(...)


Há um galo ao lado da casa, que agora habito, que decide cantar a alvorada às cinco da manhã. Tal facto perturba o meu sono e o meu repouso, que são necessários para enfrentar as camelices do dia-a-dia. Ou compro tampões para os ouvidos ou faço uma cabidela. Tendo em conta que o galo tem dono (e aqui para cima há um sentido de propriedade muito enraizado), talvez seja mais sensato comprar os referidos tampões para os ouvidos. Embora a cabidela não fosse mal pensada.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (48)



The Naked and the Dead foi considerado um dos 100 mais importantes romances do século XX. Escrito entre 1946-7, publicado em Maio de 1948, foi um dos primeiros romances sobre a 2ª Guerra Mundial. Três anos depois do final da Guerra, os Estados Unidos, e de um modo geral o “mundo aliado”, viviam num estado de euforia (o baby-boom da altura pode servir de exemplo). The Naked and the Dead foi, para esse estado de euforia, uma espécie de balde de água fria: afinal a vitória tinha um sabor amargo. Para além de ser um romance que descreve o campo de batalha e ser uma crítica às proposições causa/efeito e esforço/recompensa, The Naked and the Dead é um livro que procura transmitir e oferecer alguma esperança: nele encontramos um Homem corrompido e confuso, vítima do lodaçal de valores impostos por uma sociedade doente, mas que no fundo procura construir um mundo melhor. Resumindo: é um livro do catano.

Henrique Manuel Bento Fialho



Este texto tem, logo à partida, um problema. Tal problema poderá ser impeditivo. Isto é: imparcial é coisa que este texto não será. Ou, então, será proporcionalmente imparcial em relação aos anos de amizade real que me ligam ao Henrique. O Henrique, digo-o, é meu amigo. E, depois, é um amigo que escreve bem, pensa melhor. Duas características que incomodam muita gente. Mas esse é o lado para o qual o Henrique melhor dorme. Ou melhor: não dorme. Sofre de insónia. Muitos conhecem o Henrique, mas poucos lêem o Henrique. Nomeadamente um livro fantástico chamado O Meu Cinzeiro Azul, onde o Henrique escreve (como poucos escrevem) sobre poesia. Depois, há um outro: Estórias Domésticas. Foi no lançamento desse livro que conheci pessoalmente o Henrique. Minto! Foi no lançamento de um livro de Paulo Kellerman, na Feira do Livro de Lisboa em 2006. Sim, é isso. Este texto poderá ter comentários de Anónimos que não gostam do Henrique. É para o lado que dormimos melhor. Antes: o Henrique não dorme. Sofre de insónia.

Temor Único Imenso - Rui Almeida



Rui Almeida
Temor Único Imenso
Labirinto
2014

(...)


Quando chego a uma nova localidade, faço a pergunta: a água aqui é boa? A resposta é quase sempre a mesma: sim, é desinfectada! Ignoram, porque eu não explico, que refiro-me ao sabor da água; não a qualidade bacteriana da mesma. Por isso, rumo sempre ao super-mercado.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (47)



Leitura obrigatória no meu 12º ano, The Great Gatsby foi um livro que ficou para sempre gravado na minha memória. É um livro enorme, bem escrito. Fitzgerald, só por este livro, pode ser considerado um dos maiores escritores do século XX. E, na realidade, é um dos maiores escritores do século XX. A história já todos conhecem. O filme também. Fiquei-me pelo Gatsby redfordiano. A parte que mais me marcou do livro é a famosa festa para comemorar o solstício. Todos os anos acalento a ideia de fazer festa igual, com um grupo de amigos. Uma festa que comemore a fúria de viver.

Miguel Cardoso




Em dois mil e dez Miguel Cardoso publica o seu primeiro livro. Teve o desplante de lhe dar o título Que se diga que vi como a faca corta, dois anos depois de Herberto ter dito que A Faca Não Corta o Fogo. Não sei se houve escândalo, mas houve comentários. A primeira vez que ouvi Miguel Cardoso a ler foi no primeiro andar da Sá da Costa (quando ainda se sonhava que era possível manter viva a Sá da Costa). Começou por dizer que tinha fama de ler durante muito tempo, podendo demorar mais de uma hora. Eu ri-me, pois pensei que fosse exagero: não foi. Esteve perto de uma hora a ler um longo, longuíssimo, poema. Uma das vantagens da sua poesia é não permitir uma catalogação, uma etiqueta. É Poesia (etiqueta suficiente). Leia-se Os Engenhos Necessários e Pleno Emprego. Fruta Feia anda a circular por aí. Em Portugal existe uma tendência: dizer que aquilo que é nosso é o não-sei-quê estrangeiro (exemplo: os Linda Martini são os Sonic Youth portugueses; ou os Peixe:Avião são os Radiohead portuguseses). Não me admirava nada que um dia destes o mesmo acontecesse com Miguel Cardoso. Aviso que não será fácil.

Discos pedidos (81)



para o Jorge Fallorca, em memória


O Sul. Sempre o Sul. E logo agora, Jorge, que vim parar ao Norte. Aqui o vento sopra forte e é bafiento. Mas isso já tu sabes, Jorge. Escreveste-o algures. Dizias que tinhas ido para o Sul para fugir do vento do Norte e dos padrecos. Ou algo parecido, já não sei precisar. Um dia quero viajar pelo Sul como tu. Sempre que te leio, o Sul entra-me pela janela dentro (desculpa-me a semelhança ao Al Berto). Já conheci uma pequena, muito pequena, parte do Sul: Silves, Sevilha, Tarifa, Ceuta, Tetouan, Chefchaouen. Andei pelo Alentejo com o sol a bater-me na cara, enquanto Naseer ressoava na minha cabeça. O Sul, Jorge. Um dia havemos de nos encontrar nele. 

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (46)



Poeta que é poeta não acende um cigarro com isqueiro. Fósforos. Os fósforos dão outra solenidade ao acto. Zbigniew Herbert devia saber isso. Conheci-o através da leitura de Ulisses já não mora aqui de José Miguel Silva. Depois alguns poemas dele. Na altura ainda não existiam as traduções de Jorge Sousa Braga. Tive de o ler em inglês e, quase de seguida, comprei The Collected Poems: 1956-1998 (Ecco, 2007). Foi nesse livro que encontrei um verso de um outro poeta polaco, Juliusz Slowacki: No time to grieve for roses, when the forests are burning. Li este verso durante uma tarde em que deixou de haver luz em Manteigas e na casa de um milhão de clientes da EDP. Fiquei incrédulo a olhar para a força daquele verso, para a sua intensa luminosidade. O mesmo acontece com a poesia de Zbigniew Herbert. Poesia de uma intensa luminosidade, apesar das sombras que povoam muitos dos seus poemas. Mas, como todos sabemos, a luz surge sempre mais intensa quando há sombras por perto.

(...)


Arcozelo. Ponte de Lima. Por agora é um mês. Um mês a dar aulas. Voltar à carga. Ontem, quando cheguei, o senhorio dirigiu-se a mim e por onde tem andado? já não o via desde Quinta-Feira! Sabe, preciso d' "aquilo"; faz-me falta. E eu pensava: também a mim me faz falta. "Aquilo" é a renda de casa.

Pensamento do dia



God Is An Astronaut
Infinite Horizons
All is Violent, All is Bright
2005

Discos pedidos (80)




Levo comigo Kerouac. A estrada é uma linha, apenas isso. Prolonga-se para lá do longe, da distância. Olho em frente. Sempre. Para trás fica a paisagem reflectida no retrovisor. Tenho o luxo de ter carro. De me poder deslocar para aqui, além e acolá. Perder-me. Já me aconteceu. Perdi-me em estadas nacionais, secundárias e municipais. Nunca fui muito de global positioning system. Perfiro, sem dúvida, perder-me, dar comigo algures a olhar para algures, ou para nenhures. Olhar, sempre. Portugal não é o Midwest. Mas está, de certeza, a meio caminho de algo. 

Aeminium (3)


A verdade é que a questão do Doutor está muito presente na cidade. Vincado, diria mesmo. Sempre tinha ouvido dizer que Coimbra era a terra dos Doutores. Sempre pensei que fosse devido ao facto de os formar na sua Universidade. Mas a realidade é outra, sem dúvida. Em Coimbra tudo é Doutor. É muito comum estar num café, ou em qualquer outro lugar, e ver entrar um Doutor. E como sabemos que estamos na presença de um Doutor? Porque o Doutor é anunciado: Bom dia, Senhor Doutor, Como tem passado, Senhor Doutor?, Sai uma bica para o Senhor Doutor!, Até logo, Senhor Doutor. Doutor parece ser o primeiro nome de metade da população de Coimbra. O que torna tudo um pouco confuso.

(...)


Pampilhosa da Serra (2001-2002) Tábua (2002-2003) Silves (2003-2004) Miranda do Corvo (2004-2005) Caxias (2005-2006) Figueira da Foz (2006-2007) Benedita (2007-2008) Alapraia-S. João do Estoril (Setembro 2008-Novembro 2008) São Teotónio (Novembro 2008-2009) Coruche (2009-2012) Cacém (Fevereiro 2013-Julho 2013) Arcozelo-Ponte de Lima (Maio 2014)

Lí por aí


Sobre o livro Que o Fogo Recorde os Nossos Nomes (Antonio Orihuela, Medula, 2013):

À margem de discursos reinantes e oratórias comuns, essa obra surge de uma propensão inata para o intervencionismo libertário, em diálogo com toda uma tradição que é, paradoxalmente, a de um confronto ininterrupto com a própria tradição. Ou seja, esta poesia alimenta-se de um estado de crise sem descontinuidade, o seu paradigma é o de uma relação crítica com o mundo alicerçada na liberdade de pensamento e, por consequência, na liberdade de expressão desse mesmo pensamento. Não obstante, encontramos neste poema uma contaminação emocional que advém da ameaça imposta pela doença. Sabendo-se para a morte, o poeta constrói um poema onde a despedida de lugares, influências, no sentido de referências, coordenadas políticas, sentimentais, literárias, artísticas, tecem um mapa emocional que é, feitas as contas, a substância caótica do próprio sujeito poético. Mais do que confissão impõe-se o conceito de catarse, utilizado há muito por Aristóteles para definir o objecto da tragédia. Dizia o estagirita que esta purificava, oferecendo-lhe um significado de tratamento que, não salvando da morte o espírito ameaçado, pelo menos alivia a dor cuja origem pode encontrar feridas diversas. Em Orihuela, a catarse reproduz uma narrativa evocatória do espírito beatnik, atirando para o ar, sem lógica aparente, inúmeras referências das quais o poeta se despede com uma raiva que permite antever na sombra dos versos tanto uma certa nostalgia como a desesperança provocada por um presente falhado: «Adeus Diggers que destes de comer ao faminto / pelo simples facto de ser assim que se deve fazer. / Adeus Yippies que quisestes abolir o dinheiro / e a polícia. / Adeus hippies, paz, amor e moca, / o vento levou-os, mas para onde, para onde? / (…) Adeus USA, esfomeado esgoto do mundo» (pp. 14-15).


Aeminium (2)


Há muito tempo que digo: sou mais da Baixa do que da Alta das cidades. Em Coimbra isso confirma-se. Só que em Coimbra existe uma particularidade (que poucas cidades terão): a Baixinha. Existe a Alta, a Baixa e a Baixinha. E eu sou, sem dúvida, da Baixinha. Não tenha nada contra a Alta – que em Coimbra é sempre associada à Academia e à burguesia – ou contra a Baixa – mais turística e cheia, ultimamente, de lojas de recordações a promoverem um país de cortiça. Sou da Baixinha porque a considero mais à minha medida: ruas estreitas, tascas, o cheiro a petiscos acabados de fazer, as lojas de comércio tradicional (onde, por tradição, não faltam as “lojas dos chineses”). A Baixinha de Coimbra é um local onde se come bem e se bebe melhor. É um lugar com recantos retirados de filmes, como, por exemplo, o Largo do Romal, ou a tasca Toca do Gato, onde são servidas sandes de orelheira, que deveriam ser elevadas a património gastronómico da cidade.

Pensamento do dia



Savages
Fuckers
2014

Discos pedidos (79)



para o Jorge Aguiar Oliveira


And she's floating oh so peacefully
As I'm watching from below
In the bluest water I ever saw
The palest body to be striped
By the sun

Thomas Feiner & Anywhen


Tudo pode ser uma consequência do lugar. Mas não me vou referir a isso. Há lugares que nunca mais serão habitáveis ou possíveis de habitar. Lugares que abandonámos ou que nos abandonaram. Lugares, simplesmente. Tenho vários lugares na minha vida. Alguns são residenciais com nomes como Canivete. Ou então praias, como a dos Alteirinhos. E depois existem esses lugares que não vêm nos roteiros ou mapas. São lugares de sono e sonho. Lugares que são fins de tarde eternos, com muito calor e transpiração. Sombras. Lugares como corpos que procuram. Lugares que são um terraço sobre Chefchaouen, enquanto se ouve o chamamento para a oração.

Um poema de Jorge Fazenda Lourenço


Deixar querido um traço
um travo que seja na areia
na sede das ondas os dias

E depois que venham do mar
as ondas alisar-me a sede

E só tu saberias



em Pedra de Afiar, Porto: Gota de Água/Imprensa Nacional Casa da Moeda, colecção Plural, 1983, p. 12.

Praia dos Alteirinhos




Também eu fui a festivais de Verão. Aquele que mais frequentei foi o SW. Fui quatro anos seguidos. Era mais ou menos assim: estava quatro a cinco dias no recinto do festival e depois uma semana na Zambujeira do Mar, alojado num pequeno quarto em casa da D. Margarida, que já contava todos os anos comigo. Quando estive a trabalhar em São Teotónio fui visitá-la. Não se lembrou de mim quando me viu. Só me conheceu quando eu me ri e ela disse-me só o conheci pela maneira de rir, menino Manuel. Isto foi em 2009 e já não nos víamos desde 2002. Desses anos, a única coisa que me ficou na pele foi a Praia dos Alteirinhos. É por mim designada como o meu happy place. Para mim é, sem dúvida, um dos mais belos lugares de Portugal.

Aeminium


Coimbra tem, porventura, a avenida mais feia que conheço. Não conheço muitas, mas a Avenida Fernão de Magalhães é a mais feia avenida que alguma vez tive a oportunidade de conhecer. Nada tem a seu favor. Nem mesmo as putas que à noite passeiam, pelos passeios, o cio dos outros. É uma avenida de prédios sujos, frios; de lojas que cheiram mal; de cafés mal-amanhados que servem sandes-de-tudo-e-mais-alguma-coisa. Como avenida que se preze, tem os seus arrumadores. Já muito se escreveu sobre arrumadores e seus trejeitos. Mas não sei se alguém um dia escreveu sobre os arrumadores da Avenida Fernão de Magalhães. Também eles, os arrumadores, são feios: seres presos a um braço que se agita inerte. Ouvi, um dia, que esta era a avenida mais poluída da Europa. Nunca verifiquei, na literatura disponível e especializada, a veracidade de tal afirmação. No entanto, não deve estar muito longe da verdade: os muitos carros, autocarros, escarros, motas e outras questões (como, por exemplo, o ruído constante de constantes obras) dão algum crédito à afirmação supra citada, mas nunca por mim confirmada. Não há nada que possa redimir, pelo mais alto, esta avenida. Nem mesmo as apressadas ninfas e ninfetas (que junto ao Mondego terão outro nome) atrasadas para o último autocarro.

Um poema de R. Lino



Tríptico encontrado nas grutas de Kabir-Dá ou o verdadeiro espaço da ficção


I

não mais será quem do dizer se afastou.
uma breve camisa aberta
por ser perto o verão
um som antigo de cor macia
a língua calada e a boca à espera.
esse que dos olhos já refeito se aproximou
saberá quantos os dentes e a boca para dizê-los
e ainda quanto de exemplo têm valor
as histórias ao ritmo do sangue
outra a vida e os sentidos,
únicos e rigorosos os bafejantes elos.


II

horas e horas serão a fio como os dias;
as páginas sem cor dos jornais
por consultar sobre a mesa ao fim da tarde
ficam entre as linhas e os círculos
impossíveis à sombra de cada esquina.
com o sono a pé sobre os tempos
que os fusos já não marcam
limita-se a vida entre a morte
e o que para ela já ocorre.


III

a luz é pouca e os gestos sombrios.
sob os pés caem húmidos os passos
e o corpo esquece,
como se cair e não estar de pé
fosse modo de travessia.
de um sentido em desequilíbrio
a destruição sublinha o sangue
que se oferece mais fundo
sob o vulcão em que se adensa a visita.
os postais não dizem
para os que ficaram lá em cima
à porta das luzes
onde é possível anunciar que se não dorme;
vendidos porventura por dois moços
com a fome e provavelmente encardidos,
ninguém dirá como estão marcados
de tudo quanto ficou
por ser lá em baixo.


em Atlas Paralelo, Porto: Gota de Água/Imprensa Nacional Casa da Moeda, colecção Plural, 1984, pp. 13-15.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (45)




Não foi o meu primeiro Vila-Matas. O primeiro foi Filhos Sem Filhos. No entanto, este foi o primeiro que li em espanhol. Outros se seguiram no entretanto. Sinceramente, não sei o que possa dizer sobre este livro. Talvez, apenas, a minha pequena história com eles. Comprei-o numa visita a Salamanca e li-o numas férias nas Canárias (no tempo em que ainda fazia férias lá fora e sem recorrer a créditos mal-paridos). O hotel tinha uma piscina e o mar era salgado. Li o livro em dois dias e seguiram-se outros do mesmo autor. Para o jantar não podia ir de calções. Comi sempre muito bem.

Discos pedidos (78)



Try as I might, I'll never understand
What's inside, the hearts of strangers

Mogwai


Percorremos as ruas. Ora olhamos para o chão, ora olhamos para as copas das árvores e ficamos encantados com a luz que passa por entre os seus ramos. Na cidade essa luz é diferente. É, na realidade, menos luz e mais outra coisa qualquer, à qual ainda não dei um nome. Apesar de saber que não é necessário nomear tudo. Na cidade há uma maior probabilidade de sermos todos desconhecidos. Mas por vezes cruzamo-nos na vida. E não há nada mais belo do que dois desconhecidos, com os seus desconhecidos corpos, laborarem um entendimento do mundo. E, mesmo assim, no final, permanecerem desconhecidos.

Rui Caeiro




São poucos os poetas que me fazem (tentar) comprar todos os seus livros. Mas, verdade seja dita, são poucos os poetas, nesta província de Paris (para relembrar Eça) que escrevem como escreve Rui Caeiro. E, a bem da verdade (desculpem a repetição), ainda bem. Rui Caeiro é um poeta discreto. Ou melhor: tenta ser discreto, mas leitores como eu não o deixam. Nos seus livros existe um enorme gosto pela vida, mas sem deixar que esse gosto se intrometa numa verdade absoluta: a vida é absurda, e, muitas das vezes, uma boa filha da mãe. A ideia de Deus, em Caeiro, atrai-me particularmente. Mas não vou estar para aqui a dissertar sobre isso. Leiam os seus livros. E pronto.