(...)


Aquele primeiro momento do dia em que o café chega aos lábios. O seu calor até ao estômago. O corpo que começa a despertar. 

Discos pedidos (77)




Jump jump out of time
Fall fall fall fall
Out of the sky

The Cure


A cidade tinha um jardim, mas nós preferíamos o parque do sanatório e as suas altas árvores. Percorríamos as suas ruas. O frio era uma constante. O nevoeiro também. Havia quem nos confundisse com os espectros desses que procuraram melhores ares para as suas maleitas pulmonares. Às vezes encontrávamos um ou outro louco do hospital psiquiátrico, que era ali mesmo ao lado. Os pavilhões, com nomes de reis e rainhas, eram naquela altura (e parece que ainda hoje) uma pálida imagem de outrora. Mas nós não nos importávamos. Entrámos várias vezes em alguns. Vagueávamos pelas suas divisões decrépitas, sujas. Às vezes líamos um ou outro poema. Outras: imaginávamos filmes que ali poderiam ser realizados. Histórias de um outro tempo. Nunca do nosso.

Nuno Moura




Falemos de poetas. Nuno Moura é poeta. Poeta em todo o sentido. A sua vida é a sua poética e a sua poética é a sua vida. Trata o português por tu. Sintaxe não é com ele. Ou melhor: ele criou a sua sintaxe. E mais não se pode pedir a um poeta. Dos poetas da geração nascida nos anos 70 é o menos imitado. E porquê? Porque não tem imitação possível. Nuno Moura é Nuno Moura é Nuno Moura. E mais não digo.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (44)




Há livros e livros. Este, por exemplo, é um livro do catano. Vonnegut é autor muito cá de casa. Mas isso já não é novidade para ninguém, basta estar atento àquilo que escrevo, leitor, e saberás que é verdade. Há autores que nos dizem alguma coisa, outros que nos dizem muito e, depois, há aqueles que nos dizem tudo. Vonnegut é um autor que me diz tudo. O seu sentido de humor aliado ao seu humanismo é algo que muito admiro. Principalmente vindo de alguém que assistiu ao bombardeamento de Dresden (essa infâmia aliada que muito pouca gente conhece) e que, depois, teve de recolher os corpos que sobraram. Manter os níveis de humor depois disso não deve ter sido fácil. Mas, talvez, tenha sido a única solução.

(...)


A rotina diária é quase sempre a mesma. Levanto-me, duche, tomo o pequeno almoço, lavo os dentes. Depois, procedo com as tarefas ditas domésticas. Hoje, por exemplo, enquanto escrevo este pequeno texto, a máquina de lavar roupa cumpre a sua função. O almoço já está pensado e o jantar, também. Ainda de manhã, e se não me der uma vontade enorme de não fazer nada, terminarei o livro que ando a reler: Fome, de Knut Hamsun (agora em português, que da primeira vez li-o em inglês). Ouvirei música, de certeza. E pouco mais do que isso.

Discos pedidos (76)




So I trick myself
Like everybody else

The Cure


O truque era sempre o mesmo: fazer de conta que não existia. O problema é que nunca fui muito bom a não dar nas vistas. Tenho um natural tendência para falar alto, rir, dizer uma piada. Nem mesmo o negro que vestia ajudava: era razão acrescida para repararem em mim. E a cidade era demasiado pequena. Mas era uma cidade. A primeira que habitei, cujas ruas percorri sozinho, à noite, sem ninguém nas ruas. Só mais tarde, nessa noite lisboeta perdida no ano de 1998, voltei a ter sensação parecida. Mas não foi, definitivamente, a mesma coisa. 

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (43)




Talvez tenha sido um dos livros que mais me influenciou. Foi o meu primeiro Henry Miller. Depois, outros se seguiram. Nos mesmos 15 dias li: Sexus, Plexus e Nexus. Foram quinze dias dentro de uma barraca de praia. Devia ter dezasseis anos. Iria fazer os dezassete, se não me falha a memória. Nunca tinha lido algo semelhante. E não me refiro ao conteúdo (que muito me marcou); refiro-me, essencialmente, ao estilo, à maneira como Henry Miller diz as coisas. Ainda nesse Verão li Trópico de Capricórnio e Trópico de Câncer. Foi um Verão do catano.

Um poema de Miguel Cardoso


e nisto mete-se o progresso
o progresso vai isto vai o progresso vai

(esta parte é para cantarolar:
o progresso também sai à noite
e mete música para se distrair)

isto vai

tecendo por vias
de envolvimento as vidas
mete-se pelas casa
vai-se metendo pelos pulmões
vai-se metendo pelas bocas
vai-se metendo pelas coxas distraídas
vai-se metendo pelas vizinhas

fora das horas de expediente

Mete-se comigo estou eu já junto à saída
e já com falta de ar vou 
às arrecuas
admirando o tecto onde gira o ar em jaula
e a fingir citar karl marx
a propósito da indústria têxtil

de como o vapor entrou pelos teares adentro
e os teares foram pela Inglaterra afora

de como navegou pelo rio Lualaba abaixo
mandando notícias de gente nua

para lá das cataratas
pobres almas

de como era uma vez
um dado quantum de fio
e depois era tecido
mais tarde seria tecido
vendido ao metro em hora de ponta

e de como o fio do vapor entrou pela  casa
e passou pela fábrica e por aí fora
até aos nervos

e civilizou-nos

aos que vivíamos turbulentos junto ao rio
de que agitávamos as águas

civilizou-nos até ao osso


em Os Engenhos Necessários, Lisboa: & etc, 2014, s/p.

Discos pedidos (75)



Songs about happiness murmured in dreams
The Cure

A verdade é que os dias eram luminosos. Mas nós recusávamos a sua luminosidade. Preferíamos a penumbra dos cafés à luz das esplanadas. A felicidade era algo que só existia nos outros. Nós recusávamos a felicidade, a perfeição. Talvez só em sonhos. E, mesmo aí, num murmúrio, como dizia a canção. Era o tempo em que arriscava os primeiros versos, as primeiras sombras. Cultiva o ar decadente que lia nos livros. Era o tempo dos primeiros shots de absinto, dos primeiros assombros. A verdade, sim: a verdade, é que os dias eram luminosos. 

(...)


Há alguns dias que ando a reler a poesia de José Alberto Oliveira. E uma pergunta me assalta: por que razão José Alberto Oliveira não é mais vezes citado, lembrado? Acontece o mesmo com outros, é certo. De repente lembro dois: Manuel Fernando Gonçalves e António Franco Alexandre. A verdade é que eles existem, ainda caminham entre nós. Mas o pessoal prefere referências estrangeiras. Dá um ar mais culto e não dá chatices: plagiar escritores periféricos,/traduzidos em terceira mão, tem duas vantagens: parecermos/originais e não termos cuidados de rigor.*



* José Alberto Oliveira, O que vai acontecer?, Lisboa: Assírio & Alvim, 1ª edição, 1997, p. 37.

José Alberto Oliveira


A literatura é o subúrbio da poesia,
concordámos, sem muito esforço, por esses dias;


em O que vai acontecer?, Lisboa: Assírio & Alvim, 1ª edição, 1997, p. 31.

Pensamento do dia



Magazine
Permafrost
Secondhand Daylight
1979

Discos pedidos (74)




O grunge foi o meu punk. Mas quando o grunge deixou, para mim, de ser grito, refúgio das seis da tarde fechado no quarto a ouvir, sem parar, guitarras distorcidas, procurei outros sons que acalmassem a minha fome e sede. Procurei nos tratados ancestrais, nas estrelas e nas linhas das mãos respostas para as minhas dúvidas, anseios. Nada descobri. Queimei os tratados, apaguei as estrelas e cuspi nas mãos. Fiz-me ao caminho.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (42)



Foi William Carlos Williams que me ensinou que tudo é passível de ser poético. A primeira vez que li os seus poemas foi numa pequena antologia editada pela Assírio & Alvim, na sua colecção Gato Maltês. Salvo-erro é a única editada em Portugal. O que é uma pena. William Carlos Williams influenciou os designados beats. Foi através destes que cheguei ao poeta. Deveria ser lido e relido por herméticos e outros.

Das fotos (29)


Sem título
© manuel a. domingos, 2014

(clicar na imagem para aumentar)

Discos pedidos (73)




Começavam os anos dos assombros constantes. As noites eram os dias. Não havia muito a fazer. O caminho estava à nossa frente e tinha de ser caminhado. Não sabíamos qual seria o destino, mas caminhávamos. Sempre.

(...)


Começa a ser recorrente a seguinte pergunta/afirmação: agora que estás desempregado tens mais tempo para ler e escrever, não é? Nada poderia estar mais longe da verdade. A verdade é que não leio mais nem escrevo mais. Sim, tenho mais tempo livre para fazê-lo, mas falta a vontade. Quando estou a trabalhar gosto de chegar ao quarto que costumo ter alugado, sentar-me na cama, descalçar-me e calçar os chinelos; depois costumo fazer um chá e ler um pouco. Às vezes lá escrevo uma ou outra coisa. Ao fim de um dia de trabalho não há nada de mais gratificante do que ter um livro à minha espera (isto quando não há os braços da mulher que se ama). Agora, que estou desempregado, passo mais tempo a ver as nuvens, o pó que se acumula, as ervas que crescem; passo mais tempo a comparar preços nas prateleiras dos supermercados, a estar atendo às ofertas de escola e a outras ofertas de emprego. Os livros estão ali, prontos. Esperam o dia em que eu esteja empregado novamente, para depois me receberem ao final de mais um dia de trabalho.

10 livros


A Era do VazioGilles Lipovetsky
A Moral Anarquista – Kropotkin
A Sociedade do Espectáculo – Guy Debord
AforismosSchopenhauer
Crítica da Razão CínicaPeter Sloterdijk
Ecce Homo Nietzsche
Fédon – Platão
Pensamentos – Pascal
Silogismos da Amargura – Cioran
Temor e TremorKierkegaard

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (41)




Quando era mais novo, os livros de Manuel António Pina nunca apareceram lá por casa. Só mais tarde, muito mais tarde, é que cheguei à poesia dele. Comprei, numa feira de alfarrabistas, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, onde encontrei aquele que seria um dos "poemas da minha vida": Café do molhe. É um poema que me diz muito. Quem nunca teve o seu café do molhe que se acuse. Manuel António Pina, para além de ser da Beira Alta como eu (não confundir com "das Beiras"), parecia ser muito boa pessoa. Cronista exemplar. Dos melhores poetas que por aqui passaram.

Discos pedidos (72)




Durante muito tempo usámos o preto. Fizesse frio, ou calor. A cidade era a companheira ideal: nevoeiro q.b., uma catedral a vigiar lá no alto e um bar numa cave. Era lá que muitas vezes passávamos a noite, por entre pipocas salgadas e shots de mescal. Ainda hoje, passados tantos anos, não consigo olhar para uma garrafa de mescal sem sentir um arrepio na espinha. A uma certa hora da noite o fumo era tanto que os olhos choravam. Nessa altura lembravam-se de ligar o extractor. O fumo desaparecia e o ar ficava mais fresco. Às vezes ainda recordo a roupa a dormir no corredor para não empestar o quarto. 

(...)


Na Sexta-Feira Santa de 2002 estava de ressaca. No dia anterior tinha apresentado o meu primeiro livro de poesia: Entre o Silêncio e o Fogo. A noite tinha sido longa, como se pede a uma noite de apresentação de um livro de poesia. Família e amigos presentes. Alguns vieram de Aveiro e Vale de Cambra, de propósito. Depois da apresentação propriamente dita, família e a maioria dos amigos rumou a casa. Ficou um núcleo duro que rumou até ao Noctis, bar com uma carta de shots muito apetecível. E por ali ficámos até fechar. No final, alguns rumaram até à discoteca. Eu: perdi-me pelas ruas. Nunca fui muito de disco-night.

Gabriel García Márquez (1928-2014)




Sempre que falece um escritor conhecido, chega mail a dar conta do assunto: exponham devidamente os livros do autor. Faz sentido. Nunca como na hora da morte alguém almeja tanta popularidade. E o público procura, a verdade é essa. O público procura os escritores quando eles morrem, talvez por ser esse o momento em que finalmente ouviram falar desse grande escritor que agora está morto e a quem devemos, mais que não seja, um livro a apodrecer na estante lá de casa… em memória de um nome a apodrecer no tempo.

Discos pedidos (71)




O silêncio das ruas. A luz dos candeeiros. Depois, havia aquele bar onde se aqueciam as mãos em copos de absinto. Conversar até alguém dizer vamos fechar, toca a sair. Trocar os passos de volta a casa. Por entre o nevoeiro. O frio até aos ossos.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (40)



O meu livro não foi comprado na Wook. Comprei uma vez livros através da Wook. Não fiquei guloso de repetir. O meu livro foi comprado na Papelaria Progresso em Manteigas (mais conhecida por Zé da Alice). Durante muito tempo foi lá que comprei os meus livros, pois só tinha dinheiro para livros de bolso. Este é talvez o livro de poesia que tenho mais sublinhado. Tenho poemas inteiros sublinhados, ou com uma "janela" desenhada à volta. Foi um dos livros que mais li e reli e voltei a ler. Um dado curioso: hoje sinto-me mais próximo da poesia de Alberto Caeiro.

Um poema de Amadeu Baptista


George Friederic Handel: La Paix, de Music for the Royal Fireworks


Há uma curta distância entre o céu
e a terra,
eu posso imaginar as aves inquietas,
o que passa é forte
como um remo abrindo as águas
e a imagem do homem.

Deste lado da luz
o horizonte em chamas
nomeia a solidão,
é grande o ar,
a justa participação do que redime
pelo precário poder
dos deuses,
a chama ilesa.

É do fogo que chega
este mistério,
pelo inefável arde,
o eterno sopro em pedra
e o som
- a paz do mar.


em O Bosque Cintilante, Azeitão: Juntas de Freguesia de S. Lourenço e S. Simão, 1ª edição, 2007, p.34.

(...)


Viemos até Manteigas passar uns dias. No Sábado fui à Guarda, essa cidade cada vez mais distante, mas mais firmada na memória. E dei por mim a andar pelas suas ruas, sozinho. Muitas vezes por elas andei, sozinho. Nunca precisei de companhia, embora muitas foram as vezes que a procurei. Não deixou de ser estranho, para mim, deambular pelas ruas passados tantos anos. Vivi na Guarda entre 1992 e 2000. Depois: entreguei-me ao nomadismo. As ruas, desta vez, pareceram-me mais pequenas, mas menos acolhedoras. As memórias povoaram as suas pedras. Entrei no carro e deixei tudo para trás.

Max Stirner


Aqueles que exortam o homem a ser "altruísta" acham que têm muitíssimo a dizer. E o que entendem eles por isso? Qualquer coisa de muito semelhante a "renúncia a si mesmo". Mas quem é este "si mesmo", que tem de ser renegado e não pode ter interesses? Parece que deves ser tu próprio. E que interesse se esconde por detrás da exortação altruísta à renúncia a ti mesmo? É também teu interesse e proveito, para que tu, por altruísmo, alcances o teu "verdadeiro interesse".


em O único e a sua propriedade, tradução de João Barrento, Lisboa: Antígona, 2004, p. 54.

Discos pedidos (70)




Tenho o hábito de associar certos álbuns ao Verão. Como tenho o hábito de associar outros ao Inverno. O curioso é que não tenho álbuns de Primavera ou de Outono. Talvez porque o Inverno vincou muito a minha vida dividida entre Manteigas e a Guarda; e o Verão vincou a minha vida dividida entre o rio e a esplanada e o pub do Vinagre. Manteigas tinha um pub quando eu tinha 14 anos. E teve pub até aos meus 20 anos, se não me falha a memória. Claro que não era comparável aos ingleses. Mas era nosso. A música que lá passava era sempre muito diversificada. Pautava sempre o bom gosto.

(...)


O dia é de chumbo. Algumas crianças brincam na rua. Neste bairro ainda se vêem crianças a brincar na rua. Preferem os patins-em-linha à consola de jogos. As bicicletas ao sofá. Às vezes exaltam-se e ouve-se alguém chorar. Depois uma voz adulta (quando há adultos por perto) proclama a calma ou vai tudo para casa. Coisas há que continuam na mesma.

Mas era proibido roer os ossos



Mas era proibido roer os ossos
A partir de: “Carta ao Pai”, “Relatório a uma Academia” e “Pequena fábula”
de Franz Kafka

Encenação- Américo Rodrigues
Interpretação- José Neves, Valdemar Santos e Américo Rodrigues
Música- Lynx Tungur
Luz- José Neves
Máquina de leitura- António Silva (a partir de uma ideia de Américo Rodrigues)

Estagiário- João Paulo Neves
Cartaz- Joana Oliveira Paiva
Fotografia- Xano Costa
Logótipo- Jorge dos Reis
Produção- Sílvia Fernandes

Agradecimento
Teatro Municipal da Guarda, Teatro Nacional D. Maria II, Hospital Sousa Martins, Casa de Santa Isabel, Armando Neves e António Bento.

Um poema de Àlex Susanna


Mãos

Estas carícias que trocamos
de vez em quando
mesmo antes de adormecer,
enquanto lá fora resmoneia o vento
e cá dentro tudo repousa do que é,
talvez digam mais do nosso amor
que todo o querer com que nos abraçamos
levados pelas rajadas do desejo:
um mesmo vento poderia erguer-se
em planícies mais suaves,
enquanto estas mãos,
já cautas e endurecidas,
apenas sabem passear
onde existe amor.


em Bosques e Cidades, tradução colectiva revista e apresentada por Rosa Alice Branco (Mateus, Outubro de 1995), Lisboa: Quetzal Editores, 1996, p. 20.

Discos pedidos (69)




O Cacém não é uma cidade. É uma coisa em forma de cidade. À noite corpos vagueiam pelas ruas. Vaguear não é o mesmo que andar. E aqueles corpos vagueiam. Corpos que parecem procurar outros corpos, ou uma alma que lhes valha. A noite parece ser mais longa naquele lugar. Respira-se mal e há demasiado ruído. No andar de baixo há alguém acamado. Por vezes tenta comunicar. Mas só consegue emitir um som gutural, que em nada se assemelha a palavras. Mas alguém aparece e lhe dá algum conforto com palavras meigas. A noite só ainda vai a meio. Nem a poesia salva.

Das fotos (28)



Tentativa de homenagem a Irvin Penn


© manuel a. domingos, 2014
(clicar na imagem para aumentar)

Discos pedidos (68)




O sofá e as suas almofadas. Um livro. Uma chávena de chá. É claro que preferia um copo de vinho tinto e um cigarro, mas nasci com estômago fraco e pulmões que seguram mal o ar. A chuva lá fora é uma convite a estar aqui. Não aqui, leitor, mas ali, no sofá. A esta hora do dia (como a outras) há pouca gente cá no prédio. Não há portas a bater ou crianças a chorar. É um prédio calmo, mesmo a horas cheias de gente.

(...)


Passo os dias a ouvir jazz. Leio poesia. Venho, por vezes, aqui. Preparo as refeições. Lavo a loiça. Não me esqueço da roupa na máquina de lavar. Vejo os dias passar. Do terraço dá para ver isso muito bem. Às vezes vou até à cidade. Ao centro. Passeio pelas ruas. Entro em livrarias. Demoro-me só numa. A maior parte das vezes não trago livros. Tenho em casa uma boa quantia que deveria ler antes de comprar mais algum. Cada vez compro mais poesia e menos romance ou ensaio (embora, de momento, ande a ler Hannah Arendt). Mails: recebo poucos. Cartas: menos ainda (essencialmente contas para pagar). Às vezes digo a brincar: ninguém escreve ao Manel: numa fácil alusão ao livro de Garcia Marquez. Leio, cada vez menos, blogues. É a vida.