Discos pedidos (67)




Há um carro pelo Verão fora. Um carro e uma viagem. A viagem, aqui, é o que importa. Não irei falar do destino, porque o que importa é mesmo a viagem. A planície. Apetece-me dizer que a planície se estende até ao horizonte. Mas depois reparo que é uma imagem demasiado óbvia. Demasiado. A viagem prossegue. É quente. As janelas abertas do carro fazem barulho e tenho de aumentar o volume. A planície. Entenda-se "planície" como todo o caminho à frente do carro. Toda a viagem. Sim, é isso. Viagem.

(...)


Cada vez mais tenho poucas certezas. No entanto, há uma certeza que nunca me abandona: as pessoas que se queixam da muita chuva serão as primeiras a queixar-se do muito calor. E serão as primeiras a pedir um pouco de chuva.

Das fotos (27)


Tentativa de homenagem a Vivian Maier

© manuel a. domingos, 2014
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Discos pedidos (66)



É Sábado de manhã. A máquina lava a roupa. Lentamente. No terraço ao lado um filho joga à bola com o pai. Riem-se muito. Há sol lá fora. Dá jeito para a roupa secar. A plantas já foram regadas. Começam a dar cor ao terraço ocre. Daqui a nada haverá um duche rápido. Hoje não desfaço a barba. A bem da verdade há mais de três anos que não desfaço a barba. Melhor: há mais de três anos que não desfaço a barba com a gillette. Aparo, apenas. Barba de 3 dias. Como é costume dizer. Com o dia de hoje será barba de 4. E penso que ainda poderá, muito bem, aguentar mais um.

Um poema de Nuno Dempster


Antibucólica

Não se pode fugir
com versos que carregam flores da primavera
quando o tempo enche os olhos
de insectos venenosos
sob a aparência de erva tranquila,
como a colina
onde seria bom viver, imaginamos.

Mas até aí, onde o olhar se liberta,
há aranhas, lacraus,
mandatários que apagam
ingénuas intenções bucólicas.

Porque viver na minha rua
ou no alto da colina tanto dá.
O cerco é feito a partir do céu.


em Na Luz Inclinada, Lages do Pico: Companhia das Ilhas, 1ª edição, 2014, p. 21.

Mas era proibido roer os ossos





Discos pedidos (65)




Não há nada mais desconfortável do que uma casa vazia à noite. Não há nada mais confortável do que uma casa vazia à noite. Uma casa vazia à noite numa noite de Verão dispensa banda sonora. Mas há sempre uma banda sonora para uma casa vazia à noite numa noite de Verão. Todas as janelas devem estar abertas, para a possibilidade de uma brisa. Uma bebida fresca é aconselhável. Ou, na falta desta, uma bebida que refresque. Pouca luz ou nenhuma.

Um poema de António Amaral Tavares


Van Gogh, a orelha e os corvos

Cortar uma orelha é coisa pouca
para quem tanto ouve pancadas de luz.
E talvez à luz tenha entregue afinal
em demasia o lodo que vertia em
cada quadro. Um campo de trigo
devassado por corvos faz-nos perguntar
que morada ocuparão eles findo o verão
esse vocabulário mínimo de morte.

E sábio como era apontou a arma.


em Trabalhos em Vidro, Coimbra: Palimage, 1ª edição, 2012, p. 16.

(...)


Cada vez mais vincada, a misantropia é, em mim, uma característica.