Hoje à tarde



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50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (39)



Prendem-me, a este livro, razões muito afectivas. Não vou aqui explicar quais, pois poderia reduzi-las a uma insignificância que não têm. Insignificante também não é para mim a poesia de O'Neill. Poucos poetas me fazem sorrir como O'Neill. Poucos, também, me fazem chorar. O'Neill tem essa capacidade. Lembro-me que comecei a ler o livro num dia de sol, no terraço da casa do meus pais, em Manteigas. Era Verão e eu tinha recebido o livro há poucos dias. Terminei de o ler passado uma semana. O'Neill anda esquecido. Mas, como ele, tantos outros.

João Vário



Foi quase há um ano que ouvi pela primeira vez o nome João Vário. Até aí era para mim um nome completamente desconhecido. Foi pela voz de Isaque Ferreira que fiquei a conhecer o poeta cabo-verdiano. Estávamos no [Mal Dito] 2013. Depois comprei Exemplos (Tinta da China, 2013). E fiquei a conhecer um dos melhores poetas de Língua Portuguesa. Por vezes penso: será que Herberto leu Vário? Sei que será, para alguns, uma heresia pensar semelhante coisa. Mas, a bem da verdade, lembro-me sempre disso quando leio a poesia de Vário.

Discos pedidos (64)



Esta coisa do jazz entrou-me pela porta dentro e nunca mais saiu. É certo que não tenho muitos álbuns de jazz, mas a coisa está a evoluir. Estou numa fase em que só consigo ouvir jazz. Só o jazz me traz algo de novo. Tudo o resto me parece copy/paste. A pop, quanto a mim, estagnou. Coltrane, esse, mantém-se sempre novo. Quando recebi este conjunto (na realidade são quatro cds) passei dias inteiros, seguidos, a ouvi-los. Há qualquer coisa no saxofone de Coltrane que me deixa bem disposto, mesmo quando dele só saem blues. Hoje regressei a eles. E a casa toda bate o pé ao ritmo de All Mornin' Long.

Os Engenhos Necessários - Miguel Cardoso




Miguel Cardoso
Os Engenhos Necessários
& etc
2014

Um poema de João Vário


(excerto)


E todas as coisas jazendo sobre o pavor da boca,
hoje finitas ou nossas, amanhã paralelas ao cordeiro
de deus, magníficas,
como sabemos soprar sobre estas achas enquanto velhas,
todas estas coisas que chegam e não sabem como partir,
como sabemos nós evitar o azedar do leite,
ah todas estas fábulas mesmo com o galo molhado
este pão ou este galho com o seu esperma,
tal como não sabemos como a cabeça tocará o pó,
se de leste, de oeste, se lentamente ou
despedaçando-se, rápida, sobre o passado de Édipo,
e vimos os mesmos dias mas sem os mesmos óbolos,
fugindo de tectos malignos ou de areias vis,
e, porque vamos perdendo este dom da terra,
não há melhor fidelidade em toda esta prova
qua a que vem com a simples veemência, 
a desdita de ficar com a boca de outrem,
impassível entre duas chegadas,
mudando a pele dos joelhos
ou deixando o sexo abrir
essa angústia divina, esse sarcófago bento.
Somos, por certo, o que esperam as coisas todas:
nem isto nem aquilo, apenas as melhores trevas.



de Exemplo Relativo (1968) em Exemplos, selecção e posfácio de Osvaldo Manuel Silvestre, Lisboa: Tinta da China, 2103, p. 49.


Discos pedidos (63)




Corria o ano lectivo 2001-2002. Fiquei colocado na Pampilhosa da Serra. Foi o meu baptismo de fogo. Muitas das viagens entre Manteigas e a Pampilhosa da Serra foram feitas ao som de TNT. Lembro-me que eram viagens muito calmas. Muitas das vezes o meu carro era o único carro a circular naquelas estradas. Principalmente ao Domingo à tarde, quando passava por terras como Paul, Orondo, Silvares, Barroca, Dornelas do Zêzere e depois iniciava a subida até Unhais-o-Velho e Barragem de Santa Luzia, para de seguida descer para a Pampilhosa da Serra. A luz, nestes lugares e principalmente em dias chuvosos de Inverno, é única. 

Uma imagem para o dia



50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (38)



Sempre que regresso a este livro sou transportado para o Mediterrâneo. Este é um mar que me fascina. Mais do que esse distante Oceano Pacífico, mar do Sul. A realidade é que temos um mar do Sul aqui bem perto de nós. O Mediterrâneo é, para mim, o mar da minha infância. Explico: quando era criança, havia uma série britânica que passava na televisão. Era sobre uma família inglesa que se refugiava numa ilha grega por altura da II Grande Guerra. E eu via como um rapaz da minha idade mergulhava num mar cristalino e muito azul. E eu sonhava um dia mergulhar, também, nesse mar cristalino e azul. Quando leio, releio, este livro é para lá que vou, regresso. 

Interrupção



manuel a. domingos
Interrupção
Edição do autor
2014


Fotografia de capa por Miguel de Carvalho e desenho de  Carla Ribeiro. Composição e paginação de Pedro Ribeiro,  numa tiragem única de 100 exemplares, dos quais vinte numerados de 1 a 20 pelo autor e cinco numerados de I a V pelo autor, ilustradora e fotógrafo, no mês de Fevereiro de 2014.

pedidos para:
manueldomingos[arroba]gmail[ponto]com

(...)


E agora vou ali limpar o pó. Para ele não se acumular nas veias.

Vivian Maier




Não foi há muito tempo que descobri Vivian Maier. Devo admitir que me tinha passado completamente ao lado. Mas a partir do momento que a descobri, as sua fotografias ficaram na minha cabeça, a pairar, especialmente os auto-retratos. A fotografias de Maier são de uma simplicidade que nos desarma. Nelas nada há de elaborado (ok, um ou outro auto-retrato não parece que assim seja, mas até esses parecem ser frutos do acaso, da circunstância, do simples e mero quotidiano). É muito cá de casa.

Arte Negra



Sobre a mesa
António Quadros Ferro
Um pouco de morte
Edição do autor
2009

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (37)



Ainda não perdi a esperança de ler Os Cantos na tradução de Manuel de Freitas e na edição da Antígona. A tradução de Pedro Tamen não é má, mas o que dá cabo do livro é a sua paginação: um tipo de letra demasiado pequena e um espaçamento entre linhas idem. Mesmo com estes defeitos li o livro até ao fim. É um livro que devia ser lido na escola primária. Nada como ler Os Cantos para entender melhor a natureza humana, a sua crueldade, o seu Mal. Não é um livro para gente susceptível e coisas desse género. 

(...)


Uma ida a Manteigas no passado fim de semana deu para ver neve novamente. Devido às minhas andanças por aí, não vejo neve cair há algum tempo. Nunca pensei dizer isto: mas tenho saudades de ver neve cair.

Arte Negra



Cão de cego
Joaquim Manuel Magalhães
Sloten
Comissariado para a Europália 91/Livro de Artistas
1991

(...)


Quase todos os dias, quando me levanto, leio um poema, ou versos de um poema. É um hábito meu, já lá vai algum tempo. Levanto-me, olho para a estante, escolho um livro. Pode ser repetido. O poema também. Não sei se me faz bem, ou mal. Mas faço-o. Porque sim.