Discos pedidos (62)



Sempre fui amigo da noite. A noite, qual lugar comum, também foi sempre minha amiga. O curioso é que escrevo muito pouco durante a noite. Leio, ouço música. Não escrevo. Curioso: não sou um escritor noctívago. Posso escrever sobre a noite. Mas não à noite. Sempre foi assim. Só escrevo durante o dia. E, por mais estranho que pareça, o melhor momento para mim é durante o chamado lusco-fusco. Essa parte do dia em que a noite começa a estar suspensa sobre nós.

(...)


Tento levantar-me todos os dias às 7h30m. Tenha algo para fazer, ou não. Na realidade, as únicas coisas que tenho para fazer são: levantar-me, duche, vestir-me, pequeno almoço, vir escrever estas insignificâncias, ler as últimas dos jornais, tomar a bica, sair, fazer compras, pensar no almoço, ler, ouvir música, procurar emprego, preparar o almoço, caso seja necessário pôr a máquina a lavar roupa, estender a roupa, limpar o pó e aspirar caso seja necessário, ler, ouvir música (está quase sempre em non-stop), sair, esticar as pernas numa pequena e insignificante caminhada, pensar no jantar, ler, preparar o jantar, procurar emprego, desistir de procurar emprego e pensar que o país não me merece. Rotina diária. Nada de especial.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (36)




Foi o primeiro embate com Marguerite Duras. Seguiram-se outros, mas este foi o primeiro. Quem nunca leu a autora francesa talvez deva começar por outro. A escrita seca, despida de artifícios (soa sempre bem dizer "despida de artifícios"), não deixa ninguém indiferente. O triângulo amoroso (penso que é um triângulo amoroso; não recordo bem) é descrito pelas várias vozes que o constituem. Não sei se podemos falar em polifonia. Mas é algo parecido. Um livro duro, pouco apropriado a dias de Inverno. Lê-lo no Verão, a bem da verdade, também é um risco.

Tempos Vários - Inês Dias



Inês Dias
Tempos Vários
Paralelo W
2014

Robert Mapplethorpe




As fotografias de Robert Mapplethorpe cedo me vincaram. E não falo só das suas fotografias de corpos nus, ou das mais cruas e duras do movimento BDSM. Falo também das suas naturezas mortas. O contraste entre luz e trevas é algo que me fascina na fotografia de Mapplethorpe. A subtileza de certas composições cromáticas são muito do meu agrado. Mapplethorpe tanto é capaz de nos surpreender com o belo como com o grotesco.

Das fotos (26)


Tentativa de homenagem
Robert Mapplethorpe

© manuel a. domingos, 2014
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Roland Barthes


A crítica não é a ciência. Esta trata dos sentidos, aquela produ-los. Ocupa, como já dissemos, um lugar intermédio entre a ciência e a leitura; atribui uma língua à pura fala que lê e atribui uma fala (entre outras) à língua mítica de que é feita a obra e de que trata a ciência.


em Crítica e Verdade, tradução de Madalena da Cruz Ferreira, Lisboa: Edições 70, 1987 p. 62.

(...)


Um dia. Um dia de cada vez.

Versões: Leopoldo María Panero




Ars Magna


para o Clemen, com um arrepio


O que é a magia, perguntas
num quarto escuro.
O que é o nada, perguntas,
ao saíres do quarto.
E o que é um homem a sair do nada
e a regressar sozinho ao quarto.


Leopoldo María Panero, «Ars Magna», em Agujero llamado Nervermore (Selección poética, 1968-1999), edição de Jenaro Talens, 2ª edição aumentada, Madrid: Ediciones Cátedra, 2000, p. 228.

Discos pedidos (61)




Em Novembro de 1992 eu tinha 15 anos. Tinha rebeldia q.b. para um garoto de uma pequena vila do Portugal real, como dizem os Senhores da capital. Esse Portugal real que eles quase nunca visitam. Mas isso é outra conversa. Durante algum tempo, em Manteigas, havia MTV pirateada. Não me perguntem como, mas havia. Foram os anos da minha formação musical. Lembro-me de ver um video dos Rage Against the Machine, que me deixou banzado. Em Dezembro comprei o CD. Escrevi-lhes. Enviaram-me três singles em vinil. Ainda hoje os guardo. Também me enviaram propaganda de apoio ao movimento zapatista de Chiapas, no México. Pediam-me para copiar e distribuir. Foi o que fiz. Passados 20 anos continuo a ser o garoto de 15 anos banzado com a sonoridade dos RATM, cada vez que ouço este álbum. 

Das fotos (25)


Sem título
© manuel a. domingos, 2014
(clique na imagem para aumentar)



Um poema de Miguel Godinho


Carrego dias à cabeça
mas o que mais me custa
é resistir ao infinito,
a poesia maniqueísta
na balbúrdia dos telejornais


em O tempo por entre as fendas, s/l: 4Águas, 2013, p. 67.

(...)


A minha coluna, na realidade, nunca foi minha. Será, talvez, de alguém com mais de oitenta anos. Mas não minha. De vez em quando ela dá sinal. Diz-me eh pá! olha lá que isso é demasiado para ti. E zás. A minha coluna, às vezes, sacrifica-se por mim. Nessa altura pede que a chamem espinha. Não admite cangas. Reclama. Diz tenho direitos porra! Faz beicinho e amua. Continua espinha. Amolgada, é certo. Mas minha.

Discos pedidos (60)




Era o Outono de 2003 e eu tinha ido dar aulas para Silves. Na mala levava a roupa necessária para o trato do dia-a-dia, alguns livros de poesia e a revista Periférica (n.º 7, Outono 2003). Nela, um texto assinado por Manuel de Freitas, com o título Música de Perder, dizia: «Numa altura em que parecem recrudescer os disparates e preconceitos sobre a tão incestuosa relação entre a poesia e o "real", o mais recente livro de José Miguel Silva deveria (não só por isso, claro) ser considerado um bálsamo lúcido e incontornável.» (p. 69). Eu procurava, sem dúvida, um «bálsamo lúcido» de algo. Logo que consegui, dirigi-me à livraria mais próxima e comprei o livro: Vista Para um Pátio seguido de Desordem. Alguma da banda sonora que acompanhava certos poemas não era para mim desconhecida. Mas ouve uma citação que saltou à vista: Another round for my dark companion. O nome do grupo era para mim completamente desconhecido. Procurei-o e nada encontrei nos locais de venda habituais. Assim, o nome foi-se desvanecendo, até que em 2007 comprei Walkmen (Manuel de Freitas e José Miguel Silva). Mais uma vez o nome Tuxedomoon surgiu. Desta vez não desisti tão facilmente. 

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (35)




Nunca vi a peça de teatro baseada neste livro. A verdade é que li tarde este livro. Havia uma espécie de resistência à coisa. Uma espécie de ah! toda a gente diz bem do livro e por isso não o vou ler. Mas um amigo lá me convenceu. Foi mais um desafio do género podias ler o livro e depois fazer isto e aquilo. O projecto ficou na gaveta mas eu li o livro. Ri-me bastante com ele. Há lá uma espécie de oração para o mau-olhado que é um muito boa. Não sei se é boa contra o mau-olhado. Só sei que me fez rir até a barriga doer. Talvez seja esse o seu principal objectivo.

Amanhã | Sábado | 4 de Janeiro | 17h30m



(clicar na imagem para aumentar)

Américo Rodrigues lê os seus próprios poemas
acompanhado pelo guitarrista Rogério Pires

Pensamento do dia




Nasser Shamma
Hilal al-Saba
Maqamat Zíryáb: Desde el Eúfrates al Guadalquivir
2003

Rosa Maria Martelo


As referências ao carácter orwelliano do mundo actual têm vindo a tornar-se frequentes porque, na verdade, há um vocabulário de regime — um «burocratês» — que assume, nos dias que correm, características aproximáveis das da novilíngua do distópico 1984. De matriz economicista, esta novilíngua está por todo o lado, e em Portugal tem-se desenvolvido em várias vertentes. Um exemplo recente passa pelo léxico utilizado pelo governo na formulação e divulgação de projectos como o da redução da despesa do Estado através do despedimento de funcionários públicos. (…) Note-se que, nas referências governamentais a este «corte cego nos serviços públicos», como lhe chama e com razão Pacheco Pereira, nunca ocorre a palavra despedimento: os termos utilizados são mobilidade especial, requalificação, rescisão amigável.



de «Questões de vocabulário» em Cão Celeste, número 4, Novembro 2013, p. 7.

Discos pedidos (59)




O esquecimento. Contra o esquecimento. Contra o esquecimento podemos. Contra o esquecimento podemos fazer. Contra o esquecimento podemos fazer muito. Podemos fazer muito. Podemos fazer muito contra. Podemos fazer muito contra o esquecimento. O esquecimento. Podemos fazer muito. Contra. Podemos fazer muito. O esquecimento. Contra. Podemos fazer muito. Não esquecer. Não esquecer. Não esquecer. Contra o esquecimento não esquecer. Podemos fazer. Muito contra o esquecimento. Não esquecer.