Um poema de F. S. Hill


A Glória era peixeira.
Nascera assim
O pai andava no mar,
a mãe na lua.
Não havia mal que lhe pegasse
nem medo que a borrasse.
Os rapazes, na escola,
mostravam-lhe respeitinho.
Era isso ou uma barbatana nas beiças.
A Glória era grande;
Hossana nas alturas!
Um verdadeiro barco a motor.
Navegámos na mesma turma,
dois anos seguidos.
Mas a Glória sofria de enjoos
e já sabia tudo o que a vida lhe pedia.
Preferia a areia aos livros.
Um dia, na escola,
no meio da confusão,
apalpei-lhe o cu.
O maior do mundo,
todo ele fibra óptica e táctil.
Bastou um momento breve e deslumbrante,
pra me sentir um Colombo
a pôr a mão no cu
da galinha dos ovos d'ouro.
Assim se desfazem os provérbios
e as aritméticas de merda.
Já levei muitas chapadas,
mas com sabor a linguado,
só mesmo a que a Glória me deu
para levar embrulhada, para casa.



em Flanzine, nº 2, Dezembro 2103, p. 24.