Pensamento do ano


The National
Graceless
Trouble Will Find Me
2013

Graceless
Is there a powder to erase this?
Is it dissolvable and tasteless?
You can't imagine how I hate this
Graceless

I'm trying, but I'm graceless
Don't have the sunny side to face this
I am invisible and weightless
You can't imagine how I hate this
Graceless

I'm trying, but I've gone
Through the glass again
Just come and find me
God loves everybody, don't remind me
I took the medicine when I went missing
Just let me hear your voice, just let me listen

Graceless
I figured out how to be faithless
But it will be a sheme to waste this
You can't imagine how I hate this
Graceless

I'm trying, but I've gone
Through the glass again
Just come and find me
God loves everybody, don't remind me
I took the medicine and I went missing
Just let me hear your voice, just let me listen

All of my thoughts of you
Bullets through rock and through
Come apart at the seams
Now I know what dying means

I am not my rosy self
Left my roses on my shelf
Take the wild ones, they're my favorites
It's the side effects that save us

Grace
Put the flowers you find in a vase
If you're dead in the mind it will brighten the place
Don't let them die on the vine, it's a waste
Grace

There's a science to walking through windows
There's a science to walking through windows
There's a science to walking through windows
There's a science to walking through windows without you

All of my thoughts of you
Bullets through rock and through
Come apart at the seams
Now I know what dying means

I am not my rosy self
Left my roses on my shelf
Take the wild ones, they're my favorites
It's the side effects that save us

Grace
Put the flowers you find in a vase
If you're dead in the mind it will brighten the base
Don't let them die on the vine, it's a waste
Grace

Grace
Put the flowers you find in a vase
If you're dead in the mind it will brighten the base
Don't let them die on the vine, it's a waste
Grace

Um poema de F. S. Hill


A Glória era peixeira.
Nascera assim
O pai andava no mar,
a mãe na lua.
Não havia mal que lhe pegasse
nem medo que a borrasse.
Os rapazes, na escola,
mostravam-lhe respeitinho.
Era isso ou uma barbatana nas beiças.
A Glória era grande;
Hossana nas alturas!
Um verdadeiro barco a motor.
Navegámos na mesma turma,
dois anos seguidos.
Mas a Glória sofria de enjoos
e já sabia tudo o que a vida lhe pedia.
Preferia a areia aos livros.
Um dia, na escola,
no meio da confusão,
apalpei-lhe o cu.
O maior do mundo,
todo ele fibra óptica e táctil.
Bastou um momento breve e deslumbrante,
pra me sentir um Colombo
a pôr a mão no cu
da galinha dos ovos d'ouro.
Assim se desfazem os provérbios
e as aritméticas de merda.
Já levei muitas chapadas,
mas com sabor a linguado,
só mesmo a que a Glória me deu
para levar embrulhada, para casa.



em Flanzine, nº 2, Dezembro 2103, p. 24.


Poesia em 2013


Aqui.

Sobre as águas contra o vento





50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (34)




Mais uma vez a questão financeira. Todos os livros que tenho de Kafka são das Publicações Europa-América. Eram os mais baratos e os únicos que chegavam a Manteigas. Li-o em duas noites de Inverno. Andava no 11º ano e uma colega tinha-me falado no autor de Praga. Foi um livro que me marcou e marca. Muitas vezes dou por mim a sentir o cheiro do tribunal descrito no livro. Outras a pensar no final, naquela morte absurda e sem explicação. Kafka é, sem dúvida, um dos meus autores. 

(...)


A noite é, por vezes, este sossego no prédio. Há um livro que espera. Uma meia luz que conforta. Sono que não vem.

Uma imagem para o dia



+ 10 filmes


A Barreira Invisível – Terrence Malick (1998)
A Guerra Silenciosa - Jeremy Sims (2010)
Cartas de Iwo JimaClint Eastwood (2006)
Estado de Guerra - Kathryn Bigelow (2008)
Estalinegrado Joseph Vilsmaier (1993)
Nascido para Matar – Stanley Kubrick (1987)
O Dia Mais Longo – Ken Annakin; Andrew Marton; Bernhard Wicki; Darryl F. Zanuck (1962)
Platoon – Oliver Stone (1986)
Tigerland Joel Schumacher (2000)
Uma Ponte Longe de MaisRichard Attenborough (1977)

Diálogos (9)


JAMES: You see, the thing is, son. One day you’ll understand that when you start out like you are now, you love everything. You love your Mommy and your Daddy. You love your bobba. You love your blanket. You even love your little crib, and these dumb toys. But as you get older some of the things you love don’t seem special anymore. That bobba is one day just going to look like an ordinary plastic bottle to you. And the older you get, the more this happens and the fewer things you love. And by the time you get to be my age, sometimes you only love one -- or two -- things. (James pauses) With me, I think’s it’s one.



em The Hurt Locker (Estado de Guerra) de Kathryn Bigelow (2009)

Em Janeiro



F. S. Hill
Livro das Coisas Breves
Medula



10 filmes


A Oeste Nada de Novo – Lewis Milestone (1930)
A Sombra do CaçadorCharles Laughton (1955)
Casablanca – Michael Curtiz (1942)
Forte Apache – John Ford (1948)
Joana D’ArcVictor Fleming (1948)
Ladrões de BicicletasVittorio De Sica (1948)
Metropolis Fritz Lang (1927)
Relíquia Macabra – John Huston (1941)
Sabotage – Alfred Hitchcock (1936)
Tempos Modernos – Charles Chaplin (1936)

(...)


Agora que a média de visitas ao blogue retomou os parâmetros normais e aceitáveis, posso retomar o labor.

Uma imagem para o dia



(...)


O cão do menos 3 uiva. Uiva numa espécie de fado. Não tenho palavras que o consolem. De nada serve chamá-lo pequenino, ou fazer aquele som com os lábios, como se atirasse beijos ao ar.

Poesia 1 - Jorge de Sena



Jorge de Sena
Poesia 1
Guimarães
2013


Poesia 1 (Guimarães, 2013) reúne toda a poesia publicada, em vida, de Jorge de Sena. São 875 páginas No dia vinte e três de Julho de 2012 escrevi: Mas, pensemos nos poemas que alguns nos deixaram. Jorge de Sena deixou mais de muitos. Uma poesia reunida dele seria uma boa prenda de Natal. Ainda não entendi por que razão não existe. Sei que são mais de muitos, os poemas. Mas já é altura. Ou, então, que reeditem os ditos em vários volumes. Não se perdia nada. E era um bem que se fazia a 300 leitores. Fico, por isso, satisfeito.


1918-2013




Fazemos anos no mesmo dia. Lembro-me de assistir em directo à sua libertação. Tenho a sorte de ter pais que me ensinaram o que foi apartheid. De me ensinarem que não estava correcto. Mandela será sempre, para mim, exemplo.

Pensamento do dia



This Mortal Coil
Strength of Strings
Filigree & Shadow
1986

(...)


A esta hora o prédio começa, novamente, a ser habitado. Um bebé chora. Uma porta bate. Durante o dia há um silêncio enternecedor. Só se houve, por vezes, um cão que ladra. Um carro que passa. Pouco mais do que isso. 

Discos pedidos (58)



Lembro-me que era Inverno. Chovia e eu passava os dias no meu quarto. Vivi durante cinco anos numa residência de estudantes. Fechava a janela. Colocava a colcha da cama a tapar qualquer tipo de luz natural que quisesse entrar pelas frinchas do estore. Acendia um pequeno candeeiro. Ligava a aparelhagem e deitava-me a ler. Um dia a Senhora da limpeza entrou no meu quarto e disse o teu quarto parece um sepulcro. Na altura ri-me com a comparação, mas a realidade é que parecia mesmo, embora eu nunca tivesse estado dentro de um, apesar dos rumores que circulavam pela residência feminina, que era mesmo ao lado. Às vezes, à noite, ligava anonimamente para um dos quartos. E passava uma música dos This Mortal Coil. Algumas ouviam até ao fim. Outras desligavam o telefone. 

Ao cuidado de todos os anónimos



50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (33)




Tenho a sorte de ter a primeira edição de O Medo (Contexto, 1987). Só que não quis ir fotografá-la. Ainda traz todas as dedicatórias, tanto as de abertura como as dos poemas. Parece que depois as retirou. Lá teria as suas razões. Lembro-me que foi companhia de um Verão. Andava com ele para todo o lado. Devia ter 15 ou 16 anos. Lembro-me que me impressionou muito a fotografia da capa. E os textos, principalmente os dos primeiros livros. Lembro-me que fiquei chocado com algumas passagens, aquelas que falavam em esperma seco nos lençóis – e coisas desse género –, nos engates de miúdos de rua. O meu primeiro livro tem como abertura uma passagem do Apocalipse segundo S. João e versos de Al Berto: «é no silêncio/que melhor ludibrio a morte». Penso que é assim; cito de memória. Al Berto é daqueles poetas que ficaram em mim. Nunca lhe li a prosa (Lunário, O Anjo Mudo…). Fiquei-me pela poesia.


Nota: texto escrito anteriormente neste blogue. Tem apenas uma pequena alteração. Um rebuçado do Dr. Bayard para quem descobrir.

Uma imagem para o dia



(...)


Passei o dia a ouvir Cocteau Twins. São muito cá da casa e uma banda que ouço desde os meus doze anos, devido ao ecletismo de um primo mais velho (que faz hoje anos: parabéns, Zé-Tó). Passei, também, parte da tarde em limpezas. Da última vez que limpei o pó à estante dos livros, levei com a poesia de Ruy Belo na cabeça e fiquei a ver estrelas. Tive sorte: podia ter levado com a Antologia organizada pelo Rui Lage e pelo outro Senhor. Mas a questão, a verdadeira, aquela que aqui me traz, é que passei o dia a ouvir Cocteau Twins e a pensar que me apetecia escrever um ensaio sobre a música deles. O problema (que também não deixa de ser uma questão, pois todo o problema é: questão) é que não tenho grande bojo para ensaios. Ficarei só pela audição. 

Peter Sloterdijk


Enquanto Diógenes formula o «voto»: «Tira-te do meu sol!», os adeptos do cinismo moderno aspiram eles próprios a «um lugar ao sol»; a única coisa que têm na cabeça é baterem-se cinicamente  — abertamente, sem tréguas — pelos bens deste mundo, coisa de que Diógenes zombava. E, para o conseguir, todos os meios são bons, mesmo o genocídio, a pilhagem da terra, a devastação dos continentes e dos mares, o massacre da fauna. (...)
O núcleo do kinismo é uma filosofia crítica e irónica das pretensas necessidades, uma radiografia da sua desmesurada e do seu absurdo de princípio. A impulsão kínica não esteve viva apenas de Diógenes até ao estoicismo, antes a vamos encontrar também em Jesus, o perturbador par excellence, e em todos os verdadeiro descendentes do mestre, que, seguindo-lhe o exemplo, tinham conseguido reconhecer que a vida não tem finalidade. (...)
Só a partir do kinismo podemos represar o cinismo, não a partir da moral. Só um jubiloso kinismo dos fins que nunca se deixe tentar a esquecer a vida não tem nada a perder a não ser a si próprio.


em Crítica da Razão Cínica, tradução de Manuel Resende, Lisboa: Relógio D'Água, 2011, pp. 255-256.

Suicidas - Henrique Manuel Bento Fialho




Camus, no seu muito celebrado O Mito de Sísifio, afirma: «Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.» A verdade é que o suicídio permanece uma questão e está longe de ser um problema resolvido. Em algumas culturas, o suicida é um pária; noutras, o suicídio é a única forma honrada de saída (por exemplo: os samurais). O suicídio está longe de ser um tema consensual. Ou melhor: é consensual na medida em que não há consenso possível.
Henrique Manuel Bento Fialho (1974) decidiu compilar, num livro, um grupo de suicidas, desde Alejandra Pizarnik até Yukio Mishima. Suicidas (Deriva, 2013) é composto por cinquenta e um textos, onde predominam temas recorrentes na escrita de Henrique Manuel Bento Fialho (que podem ser vistos como pequenos suicídios): o tédio, o cansaço, o esquecimento, o absurdo, o amor, o desespero, a domesticidade.
Sobre a questão da domesticidade, em Henrique Manuel Bento Fialho, muito se poderia dizer. O tema já tinha sido explorado em Estórias Domésticas (OVNI, 2006). Quando pensamos na ideia de doméstico, pensamos, também, no seu oposto mais natural: selvagem. A palavra doméstico remete-nos para tudo aquilo que é passível de ser controlado, que pertence ao foro privado, que nos transmite alguma segurança, ou conforto. Ora em Henrique Manuel Bento Fialho o doméstico é algo que oprime, que sufoca. O doméstico é, em Suicidas, a forma mais recorrente de suicídio. Insidioso, silencioso, o doméstico é tudo menos acolhedor; tudo menos seguro: «O animal doméstico não se consola migrando do quarto para a sala, da sala para a sozinha, da cozinha para a garagem (…) de um lado para o outro, arrastando o seu desânimo, a sua desesperança, a sua melancolia, a modorra dos dias (…) poder rastejar sobre o soalho afagado e ladrilhado é para ele uma inominável aventura.» (p.16). A ironia é evidente. Ou ainda: «Basicamente, há que concertar os amanhãs, o futuro, vivendo as carteiras vazias do presente. O nosso problema é andarmos como formigas amestradas, domesticadas, para cá e para lá com os olhos postos num mês de férias em Vera Cruz.» (p. 43).
Apesar da domesticidade, Henrique Manuel Bento Fialho não está alheio ao mundo que o rodeia. Muitas das vezes, a domesticidade dá lugar a um sentimento de revolta. Exemplo disso é o texto “Manuel Laranjeira”. Retrato do tempo que corre (e que tende a regular as organizações, os costumes, o consumo, a informação, a educação; não podemos esquecer os mecanismos de sedução [cf. Lipovetsky]), é um texto acutilante e que termina com uma espécie de “aviso à navegação”: «Por isso continua a caminhar com a trela ao pescoço, oferece uma ponta da trela aos admiráveis directores da congregação, adequa-lhes o discurso, abana a caudinha e ladra béu béu enquanto eles te acenarem com um osso, tudo o que resta para ti: uma ínfima e desprezível vaidade. Que a carne há muito foi distribuída.» (p. 72).
Livro denso, Suicidas tem a capacidade de comover, quer pela poesia de algumas passagens, quer pela verdade que em si encerra: «A revolta, como sabes, é um edifício sólido que por vezes cede aos mais eloquentes fenómenos da natureza.» (p. 122).

Henrique Manuel Bento Fialho, Suicidas, Porto: Deriva, 2013, 123 pp.


(publicado na Revista Literária Sítio)



Discos pedidos (57)



There's great danger
For the loneliest ranger of all
No silver bullets
Tonto's split the scene

Wire


Seria um Inverno como outro qualquer, não estivesse eu a Sudoeste de tudo e com o mar à minha frente. Conhecia aquele lugar de quatro férias de Verão passadas. Com o sol todo o dia é um lugar muito diferente. Um Sábado de manhã, em Dezembro, é um revólver carregado. Por isso telefonei a uns amigos. Disse-lhes: estou aqui; ou saio ou dou um tiro num pé. Disseram-me logo: vem. E eu fui. Um fim-de-semana sossegado, entre amigos. Ainda hoje lhes devo isso. Mas como é óbvio sei que não lhes devo nada. 

Uma imagem para o dia



50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (32)



Penso que tenho todos os livros de Mishima traduzidos em português. Tenho pena que sejam apenas uma mão cheia. Todos eles deveriam estar. Este foi aquele que mais me marcou. É deste livro o único final que sei de memória (embora ela às vezes já me traia). Apesar de ter uma escrita visceral e atormentada, não consigo deixar de considerar Mishima um escritor solar. É claro que a escrita solar de Mishima é mais semelhante a um clarão, que ofusca e queima, do que à luz tépida do fim da tarde. Quando falo de Mishima também poderia falar de Ícaro. Penso que os dois são em muitos aspectos semelhantes. Mishima é um personagem de Mishima. Biedma quis ser poeta, mas na realidade o que queria ser era poema; Mishima quis ser romancista, mas na realidade queria ser romance. Penso que conseguiu.



Nota: escrito aproveitando excertos de outros textos escritos por mim, sobre o autor. Os dias não estão para grandes reflexões.