(...)


Viemos até Manteigas passar o fim de semana. Para utilizar uma expressão muito cá da terra: está um frio de rachar caibros. Quem não sabe o que são caibros, procure no dicionário. Trouxe Crítica da Razão Cínica (Peter Sloterdijk) para continuar a sua leitura. Comprei o livro há mais de um ano. Interrompi a sua leitura na página 150. Retomei-a e já vou na 220. Não sei se continuarei a lê-lo. Tenho um grave problema com a filosofia: ora me fascina e sinto necessidade de ler algo filosófico; ora me repugna e a deixo de lado. Mas quero ver se leio este livro até ao fim. A questão cínica é algo que me interessa. Aprendi com Sloterdijk que o importante é revitalizar o kinismo. O cinismo, actualmente, pertence à classe dos senhores. Difere, em muito, do kinismo de Diógenes. E nos últimos dias assisti, em directo, a essa diferença. Um bom exemplo disso são as declarações do Senhor Ministro da Defesa Aguiar Branco (falando dos estaleiros navais de Viana do Castelo), principalmente quando disse que «O Estado é uma pessoa de bem».

Peter Sloterdijk


Devemos a Walter Benjamin o aforismo: «Ser feliz é poder tomar consciência de si próprio sem temor.» De onde vem a disposição para temor em nós? Creio que é a sombra do moralismo e do Não que, em conjunto, paralisam a capacidade de felicidade. Onde há moralismo, há necessariamente temor ― como espírito da recusa de si ― e o temor exclui felicidade. Não sabe a moral sempre, através de mil e uma ideias fixas, como o mundo e nós deveríamos ser e não somos? A longo prazo, o moralismo, mesmo de esquerda, produz efeitos convulsivos e não realistas.


em Crítica da Razão Cínica, tradução de Manuel Resende, Lisboa: Relógio D’Água, 2011, pp. 176-177.

(...)


Noite. Deito-me. A mão esquerda sobre o coração. A direita sobre a barriga. Pondero o dia. O que nele fiz e não fiz. O que dele sobra.

Herberto Helder




Não é um poeta muito cá de casa. Interessa-me mais a sua prosa. Os Passos em Volta é um dos melhores livros do século XX português. Digo-o sem qualquer problema. A sua poesia não me interessa muito. Há quem o considere o maior e melhor poeta vivo português. Não nego que assim seja. Prefiro, no entanto, a poesia de António Franco Alexandre. Mas Herberto Helder (sim, eu não digo o Herberto Helder; não andei com o Senhor na escola) é, como se costuma dizer, incontornável. Talvez não seja exagero dizer que a poesia portuguesa (século XX) se divide em duas partes: antes de Fernando Pessoa e depois de Fernando Pessoa, mas só até Herberto Helder.

Discos pedidos (56)




Todos o sabemos: quanto maior a impossibilidade, maior o desejo. O desejo. Essa coisa infame. Essa coisa que nos ensinam ser má. Desejar um corpo. Uma alma. Desejar. Possuir. Houve alturas em que fui refém do desejo. E, sinceramente, não queria ser resgatado. Desenvolvi uma espécie de Síndrome de Estocolmo. Na altura não sabia o que queria dizer hedonismo. Eu era hedonista. Só que havia um problema: o prazer era o meu objectivo, mas não conseguia desfazer-me da dor. Ela persistia. A bem da verdade: mantinha-me vivo. 

(...)


O primeiro café da manhã está tomado. No terraço o sol ainda não. Sinto o frio através dos vidros. Lembro-me de uma anedota, mas adapto-a: se aqui está assim, fará em Manteigas. Ou na Guarda, por exemplo. Foi lá, na Guarda, que mais frio tive. Andava no 10º ano e tivemos 10 graus negativos. As canalizações da residência de estudantes que frequentava gelaram. Não tivemos água durante dois dias. Éramos 95 marmanjos. 

Uma imagem para o dia



Um poema de Herberto Helder


As Musas Cegas

III

Eu teria amado esse destino imóvel, esse frio
poço de canções. Contudo, ela não dormia, estava partida
a meu lado, era uma gruta onde a música
um instante se torna infinita.
Durante um mês viveu em mim, e não dormia. Foi o mês
das musas, a penumbra da sua vida
estava coberta de ervas puras.
Ela não dormia (como dizer que era assim?). Durante
o espantoso mês das musas, eu despertava como um espelho
onde as brasas da cabeça principiaram a girar.

Estava iluminada por dentro, e a noite ia e vinha
sobre os arcos e os tanques da sua testa.
Eu cantava junto a esse sonâmbulo instrumento,
eu era infeliz e fecundo, o sangue
passava pelos arbustos do corpo e os pensamentos
ardiam, em mim, nessa monstruosa
noite da criação.

Sinto que tocaria esse intenso violino, e a vida
mudaria, as grandes estações do ano passariam devagar
na minha confusão. Eu era um homem
e tinha na boca o profundo ofício de sorrir
o fluxo encantado e irónico
das mensagens. E tinha as palavras de piedade que um homem
tem para acender, como fogueiras,
nas margens cantantes e frias das águas
do mundo.

Vejo a minha vida agitada, as pequenas faúlhas
do rosto, a minha piedade e desgraça
de homem,
debruçados sobre esse objecto misterioso e triste,
e poderoso e vazio
como uma guitarra, como uma coluna de obscuridade
que dormia, que não podia jamais dormir
entre uma onda que vem do céu e da terra, e uma noite
que iria e viria sobre a paisagem
de arcos e pontes e torres e poços tenebrosos
e ocos.

Às vezes eu levantava um braço que deixava arder
ou pensava como era forte
a torrente do meu silêncio. Pensava
como poderia desfazer-se a carne sem que eu
gritasse. A minha voz era esplêndida,
os mortos poderiam erguer um pouco os seus ombros
submersos na grande ideia
universal, poderiam ouvir alguma coisa da minha voz
tão límpida de desgraça, de terrível
alegria.

A meu lado, aquele ser levitava e por ele
as aves passavam, os montes atingiam
as corolas celestes, nunca deixavam de correr
as águas que atravessam os povos mais puros do mundo.

Era tenebroso e doce que a loucura me viesse
deste lugar, que fosse uma árvore a sustentar
a minha juventude.

Chegava um dia em que ela devia ser impura,
e o meu coração ressoava. Minha piedade de homem
de novo se inclinava sobre as formas mudas.
Porque a terra trabalhava talvez para acender
aquela tenebrosa cidade, porque ela mesma cantaria então,
humilde e iluminada,
debaixo da noite rolante, da estupenda noite
inspiradora. Mas sòmente para mim
o vento circulava com seus archotes
rápidos, rápidos;
só a minha cabeça estremecia contra a almofada
de fogo, e o sangue despedaçava as portas,
e ao alto os telhados transparentes incendiavam-se
batidos pelos raios.

Sabia-se agora
como havia razão no oculto
movimento da fantasia, como essa força
chegava de nada e era força no próprio e puro enigma
da minha vida. Porque a obra era então ―
mais do que o mundo e as fontes e os leitos
dos poderes ―
eu, o homem mesmo, disposto sobre si
como a luz se dispõe sobre a luz,
como as palavras são em si mesmas dispostas
no renovo das palavras.

Sobre a sombra de um mês confuso e rápido,
eu era um homem ―
e um homem beija a sua própria boca.



em A colher na boca (1961), retirado Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (org. Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro), 2ª edição revista, actualizada e com uma nova introdução, Lisboa: Livraria Morais Editora, Colecção Círculo de Poesia, 1961, pp. 330-332.

Lí por aí


Uns foram para a escadaria do Parlamento, outros concentraram-se na Aula Magna. Há quem tenha ficado em casa a ver televisão, muitos terão continuado os seus monótonos dias de trabalho. Poucos terão escrito poemas, muitos se distraíram a debitar teorias nas redes sociais. Reduzida a meia dúzia de palavras no Twitter, assim se vai cumprindo a nano-vida com seus minutos de microrreflexão.

Discos pedidos (55)




I want to reach my hand into the dark and feel what reaches back
Nicole Blackman


São Teotónio. Cinco e meia da manhã. A planície deserta. As luzes do carro iluminam a noite. Chegar a Sines. A primeira bica da manhã. O mar. Uma leve neblina. Frio. Ser o primeiro cliente da manhã, dizem-me. Seguir viagem. Há uma auto-estrada deserta pela frente. Parece que ninguém viaja ao Sábado. Com a primeira luz do dia, os primeiros corvos. Segunda paragem. Algures. A segunda bica da manhã. Uma sandes. Ajeito o corpo ao frio. Olho a planície. Gostaria de fumar um cigarro. Não tenho pulmões para determinados requintes. Continuo.

(...)

foto: Miguel de Carvalho

Isaque Ferreira leu da Sião alguns dos seus poetas. A maior parte deles está um pouco esquecido. Mas a Sião é uma daquelas antologias que irá permanecer. Tal como os poetas nela incluídos.

Uma imagem para o dia



Discos pedidos (54)




Muitas vezes regresso àquele Verão. Ao rio. Não sei o que teria sido desse Verão sem o rio. O que teria sido de mim, nesse Verão, sem o rio. Sem os amigos que o habitavam. Sem o baralho de cartas e as tiras de entremeada assada nas brasas. Sem a cerveja. Teria sido um Verão menos longo, menos interessante, menos tudo. E depois havia todos aqueles corpos ao sol. Sobre as pedras. Lembro-me que uma vez decidimos (nós os rapazes) nadar nus. Elas riam-se. Sussurravam. Alguns deles, mais tarde, acabaram por casar com algumas delas. Não sei se esse banho nu teve influência na decisão. 

CAMPEONATO NACIONAL DE POESIA ou a tecnocracia das palavras conjugadas na conta bancária





Quem quiser receber em sua casa, a custo zero, é só enviar uma mensagem com a morada para: manueldomingos[at]gmail[ponto]com


Discos pedidos (53)



A questão da noite. A verdade é que a noite não é misteriosa. É noite. Basta. É um pleonasmo dizer: o mistério da noite; a noite misteriosa. E o mesmo será dizer: a noite escura; na solidão da noite. Basta noite e tudo o resto é evocado. Dito. Às vezes as palavras não servem o seu propósito. Antes pelo contrário: atropelam, engasgam, são demasiado excessivas para a simplicidade de tudo o que as rodeia. As palavras são adornos. A realidade não precisa de palavras. Só precisa que olhem para ela, que a vejam como ela é. E não com palavras.

Sábado



Um poema de Rui Knopfli


Apontamento nem sequer num caderno de viagem


Gosto do campo inglês, com as suas capelas
vetustas gótico perpendicular e seus cemitérios
de pedra escura ao lado.
Não deveria dizer «o campo inglês».
Perde carácter. The English countryside

é indubitavelmente muito mais adequado.
Depois de Longleat, a caminho de Bath,
hoje pela tardinha, cansado de estrada
parei o carro numa berma, algures
sobre a ondulação do vale umbroso,

no mais secreto de Wiltshire.
Discreta e silenciosa, nem sequer muito
antiga, menos em ruínas
do que o derelict building
da especiosa designação camarária,

a igreja dissimulava-se na fiada
alta e esguia dos abetos. Desço
até ela pelo declive lento do valado.
Vulgar, vaticino, mirando a pedra
cinzenta e indefinida. Transporto o pórtico,

descubro surpreso que, desguarnecida
de tecto, a nave abre para um céu
muito azul e sem nuvens. Estaco no meio
da erva desgrenhada que irrompe do lajedo
fendido e do musgo húmido que o reveste.

Deus está velho e cansado, desgostoso e céptico,
sobretudo míope. Por esta larga janela
melhor nos observa. Isento da hipocrisia
protocolar do culto e dos fiéis,
este é, por certo, o seu templo.


em Colóquio | Letras, número 83, Janeiro de 1985, p. 59.

(...)


São raros os meus dias de fúria. Às vezes. Às vezes assalta-me a iniquidade do mundo e resvalo para o lado mais escuro. Para esse lado tremendo da mente. Mas há o sol lá fora.

Uma imagem para o dia



(...)


Gosto do Inverno, mas nunca me habituarei à sua hora. A este anoitecer mais cedo. É claro que o Verão é o Verão. Os dias longos, os pés descalços, o sol na cara. As esplanadas. Mas o Inverno...

Discos pedidos (52)


para a Ana Margarida Alexandre


Sabes: não lembro. Não lembro a primeira vez que andei, sozinho, pela a rua à noite. Sozinho, sem ninguém a meu lado. Sem ninguém a cruzar-se comigo. Às vezes era possível isso acontecer. A sensação de a cidade ser toda minha. E eu não ser da cidade. Como sabes, nasci na Serra. Na província, como dizem alguns. No Portugal profundo, dizem outros, do alto das janelas dos seus apartamentos de Massamá. Mas havia a música. Essa minha segunda casa. Era para lá que eu ia. Habitava-a sempre que podia. Sempre que me deixavam. Quando não me deixavam, fugia. Abria as suas portas, janelas e deixava que a música enchesse as casas dos outros. As casas dos outros sempre me pareceram muito cinzentas. Não havia música nelas. Não sou capaz de viver numa casa sem música. 

A Guarda. O TMG. O Povo.


A Guarda, ao longo da sua história, foi baluarte deste país. Daí o seu nome: Guarda. A Guarda foi durante algum tempo referência nacional pelos piores motivos: autarcas de carácter duvidoso; presidentes de Institutos Politécnicos com tiques de déspotas (mas pouco esclarecidos); gestores hospitalares um tanto ou quanto caciquistas; presidentes de junta lunáticos. Mas a Guarda é hoje referência pelo melhor motivo: Teatro Municipal da Guarda (TMG).

A recente e indecente demissão do Director Artístico do TMG, Américo Rodrigues, só tem uma motivação: política. Afirmo-o sem qualquer dúvida, pois do ponto de vista profissional nada a apontar: o TMG sempre pautou o seu cartaz cultural pela exigência, trazendo novos mundos a uma cidade bafienta, envolta numa permanente névoa, parada no tempo, ultramontana.

A questão é que a Cultura, felizmente, ainda assusta muita gente. A Cultura abre as mentes, questiona, procura. Américo Rodrigues procurou sempre, enquanto Director Artístico do TMG, estas três vertentes. Mais: procurou unir uma cidade que começava a desmoronar-se. Exemplo disso: os vários espectáculos comemorativos do Dia da Cidade. Nestes espectáculos várias colectividades do concelho foram convidadas a participar. A união sempre foi um dos objectivos do TMG: unir a cidade em torno de um projecto, de uma ideia para a Guarda. No entanto, e como sabemos, quando se quer governar à maneira portuguesa, é mais fácil dividir para poder reinar. De outra maneira não se consegue promover o caciquismo, o despotismo, a imbecilidade. Daí o autarca/governante Álvaro Amaro ter demitido Américo Rodrigues.

O principal argumento (durante estes anos) que eu mais ouvi, contra a direcção artística do TMG, foi que o povo não era contemplado na programação cultural do TMG. O povo. Nunca encontrei palavra mais ambígua para definir algo, quanto estamos contra alguma coisa. Mas, afinal, o que é o povo? É um substantivo masculino; 1. Conjunto dos habitantes de uma nação ou de uma localidade; 2. Pequena povoação; 3. Lugarejo; 4. Aglomeração de pessoas. = GENTE; 5. [Antigo] O terceiro estado da Nação Portuguesa; 6. [Figurado] Grande número, quantidade. (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/povo [consultado em 16-11-2013]).


Penso que o principal valor da programação cultural do TMG (desenvolvida pela sua direcção artística e pelo seu Director Artístico, Américo Rodrigues) foi tentar que a Guarda não se convertesse nos pontos 2, 3 e 4 da definição de povo. Por outro lado, a decisão de demitir Américo Rodrigues do cargo de Director Artístico do TMG é, sem dúvida, um contributo para a Guarda caminhar, a passos largos, para uma simples aglomeração de pessoas, uma pequena povoação. Um lugarejo.

Uma imagem para o dia



(...)


Hoje, e sempre de quinze em quinze dias, fui à apresentação periódica. Ainda não me habituei a esta espécie de termo de identidade e residência. Não basta estar desempregado, ainda tenho de ir dar prova disso. Foi a primeira vez que me dirigi à Junta de Freguesia da minha área de residência tão cedo. Eram nove horas da manhã. Uma fila de rostos estava à minha espera. Cabisbaixos. Tristes. Não havia dia de sol neles. Avançámos um a um. Em silêncio.

(...)


Raramente compro jornais. Leio o Actual (agora escrevem "Atual", mas eu escrevo à antiga) quando vou a Manteigas, pois o meu pai compra o Expresso todas as semanas. Não vou aqui explicar a razão pela qual não compro jornais, mas basta folheá-los para termos uma ideia do porquê. Mas no passado Sábado lá comprei o Expresso. Vi que o Actual trazia na capa Albert Camus, que é um autor muito cá da casa. Vamos ao que importa: nunca gostei de Clara Ferreira Alves (CFA). Nem da cronista nem da comentadora televisiva. E não sei em que país CFA vive, quando afirma: «Não se vê, nas livrarias portuguesas (...) um único livrinho de Albert Camus». Ora se há autor que eu quase nunca vi desaparecer das prateleiras das livrarias portuguesas, esse autor é Albert Camus (e, já agora, George Orwell, autor que CFA também considera fora de moda). O Estrangeiro é um livro que se encontra facilmente. A Peste, O Mito de Sísifo e A Queda, também. O Homem Revoltado é muito difícil, ou impossível; o meu exemplar comprei num alfarrabista. Mas a questão é que Camus está, encontra-se, nas livrarias portuguesas. Pode é não estar, encontrar-se, nas livrarias que CFA frequenta.

Discos pedidos (51)




Trazia debaixo do braço um livro que tinha acabado de comprar. Não me lembro qual, mas não era um livro de poesia. Chovia um pouco. Sempre gostei de dias chuvosos. Entrei num café. Estava praticamente vazio. Mal entrei os óculos ficaram logo embaciados, como é habitual. Sentei-me e pedi uma bica. Abri o livro e comecei a ler. O tempo passou. Quando levantei os olhos do livro o café estava cheio. Todos falavam com alguém. Levantei-me. Paguei. Saí. A chuva continuava a cair. 

Um poema de Roberto Piva


Poema porrada

Eu estou farto de muita coisa
não me transformarei em subúrbio
não serei uma válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruição de tudo que é frágil:
cristãos fábricas palácios
juízes patrões e operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o tímpano de
duas centopéias
o universo é cuspido pelo cu sangrento
de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
esqueleto
eu preciso esquecer que existo
mariposas perfuram o céu de cimento
eu me entrincheiro no Arco-Íris
Ah voltar de novo à janela
perder o olhar nos telhados como
se fossem o Universo
o girassol de Oscar Wilde
entardece sobre os tetos
eu preciso partir um dia para muito longe
o mundo exterior tem pressa demais para mim
São Paulo e a Rússia não podem parar
quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?
a morte olha-me da parede pelos olhos apodrecidos
de Modigliani
eu gostaria de incendiar os pentelhos de Modigliani
minha alma louca aponta para a Lua
vi os professores e seus cálculos discretos ocupando
o mundo do espírito
vi criancinhas voitando nos radiadores
vi canetas dementes hortas tampas de privada
abro os olhos as nuvens tornam-se mais duras
trago o mundo na orelha como um brinco imenso
a loucura é um espelho na manhã de pássaros sem Fôlego.


de Paranoia em Um Estrangeiro na Legião, São Paulo: Globo, 2005, vol.I, p. 66-67.