(...)


O meu termo de identidade e residência foi confirmado, depois de quinze dias a vadiar por aí. Dirigi-me à Junta de Freguesia da minha área de residência e cumpri com a minha obrigação. Hoje não havia lá ninguém. Era só eu.

Fátima Maldonado



Encontrei a poesia de Fátima Maldonado na Rua da Anchieta. Tenho, dela, Cadeias de Transmissão, que em 1999 reunia toda a sua obra poética. Sei que publicou mais livros de poesia. Mas eu só tenho a sua obra completa até 1999. A sua poesia é desconhecida pela maior parte dos ditos "amantes" de poesia. É uma poesia forte, dura, murro-no-estômago. Pena ter-lhe perdido o rasto. Tenho de compensar o tempo perdido.

Pensamento do dia




The Pop Group
We Are All Prostitutes
1979

(...)


Ontem foi dia de reflexão. E eu reflecti. Cheguei à mesma conclusão de sempre: vou deixar que os outros decidam por mim. Estou habituado a que me façam essa acusação. Não os quero defraudar. Ao menos não me acusam de ser incoerente. Pelo menos neste ponto.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (27)



Qual a razão que me levou até este autor? Um dia li que tinha tinha mau feitio, que não era um pessoa de trato fácil, que dizia o que tinha a dizer sem ceder à hipocrisia, ao cinismo. – e parece que isso, na Áustria, não é lá muito bem visto (cf. Os Meus Prémios, Quetzal, 2009). Para Bernhard a Áustria era o inferno na terra. Ora este foi o primeiro livro que li dele. Na altura impressionou-me por só ter, se não estou encanado, dois parágrafos. Fiquei quase sem fôlego depois de o ler. Os principais temas de Bernhard estão lá: o Suicídio e a Morte, a Doença, o Absurdo. 


Nota: a renda de fundo não é da minha responsabilidade.

(...)


Acordo com o som da chuva. Lembro-me de uma música dos Xmal Deutschland. É claro que na altura não sabia o que queria dizer Regen. Soube mais tarde e associo sempre a chuva a esta música. Mas o curioso, o mais curioso de tudo, é que levantei-me e apeteceu-me ouvir Le sacre du printemps, de Stravinski. E foi o que fiz.

Ensino Recorrente



(...)


De manhã, ao acordar, nunca acordo totalmente. Parte de mim fica lá, entre os lençóis, todo o dia. Espera que a outra metade chegue, à noite. Parte de mim levanta-se, põe a sua melhor cara, o seu melhor sorriso e sai. Mas sabe que não sai inteiro.

Estados Filosóficos (85)


Não tenho a certeza, mas penso que parafraseio (imito?) Almada Negreiros ao afirmar que: a nova poesia portuguesa não existe, porque foi sempre velha.

(...)


Por vezes, ao meio da manhã, o sossego instala-se na sala de estar. A luz entra pelas várias janelas. Os cães param de ladrar. Só a música se ouve. E a respiração dos versos que leio. 

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (26)




Descobri Jaime Gil de Biedma num alfarrabista em Santiago de Compostela por 4.50 euros. Uma pequena antologia. Não esta que aqui apresento, que veio de Madrid. Um dia escreveu que sempre tinha querido ser poeta e que mais tarde se apercebeu que, na realidade, o que queria ser era poema. Disse que tinha conseguido. Que devido a isso estava enclausurado em si mesmo. Que mais nada importava. Que tudo o resto era silêncio. Só conheço dois poetas assim: Höderlin e Rimbaud. A sua poesia reunida não chega aos cem poemas. É um dos poetas espanhóis mais reconhecidos e imitados do século XX. Pertencia à geração de cinquenta. Parece que foi amigo de Cernuda. Nunca ligou muito a ortodoxias: nem na literatura nem na vida. Dizia que tinha sido de esquerdas, mas que não praticava há muito tempo. Segundo os entendidos, a poesia de Biedma veio “revolucionar” a maneira de escrever/fazer poesia em língua espanhola. A vida de Biedma é poesia pura. Depois, o silêncio tomou conta dele e calou-se para sempre. É de 1968 o seu último livro de poemas: Las rosas de papel son, en verdade,/demasiado encendidas para el pecho. Tinha 39 anos.

Discos pedidos (43)




Num poema de Stephen Crane alguém lamenta o facto de a sua vida estar envolta em escuridão. Nada vê, nada sente. Nada. Depois, uma luz forte ilumina tudo à sua volta. Mas logo esse alguém pede para voltar para a escuridão. Não sei, sinceramente, por que razão escrevo estas palavras. E não sei a razão que me levou a pensar nesses versos de Crane. Talvez a noite lá fora e um cão a ladrar sejam os responsáveis. 

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (25)




Um dia pediram-me qual era, para mim, a melhor frase a abrir um romance. Eu não pensei duas vezes: Yo, señor, no soy malo, aunque no me faltarían motivos para serlo. E arrisco a dizer que também é um dos melhores primeiros parágrafos que alguma vez li. É claro que é uma opinião discutível. Mas na altura em que li este livro, aquela primeira frase ficou-me. Em todo o livro é um homem que está em causa. E, por acréscimo, é todo o Homem que está em causa. Li-o no original, comprado numa pequena livraria de Málaga. Aconselho vivamente.

(...)


A manhã, para muitos, já vai a meio. Para mim começa agora. Vista do terraço, aqui de casa, é uma manhã clara, fresca. Há uma pequena neblina ao longe. A casa está repleta de luz. A música de Orlande de Lassus também ajuda. Às vezes é preciso um pouco de luz.

Discos pedidos (42)




para o Miguel Martins,
amigo de Manteigas e "emprestador" de K7


Não fosse a música, Miguel, e Manteigas tinha sido um lugar ainda mais penoso. Não sei se és da mesma opinião. Mas tenho quase a certeza que pensas de maneira diferente, pois sempre ouvi em ti um apreço por essa vila que nos viu nascer e crescer. Comigo, como sabes, é diferente. Sempre foi diferente. Tu sempre viste essa diferença. Mas nunca te importaste. Ainda me lembro que chegavas ao pé de mim com uma K7 (mais tarde passaram a ser CDs) e dizias acho que vais gostar disto, ou isto é mesmo o teu género. Raramente te enganavas. Muita da música que ainda hoje ouço, ouvi primeiro nas K7 que me emprestaste. Lembro-me que eram centenas, arrumadas com primor numa das paredes do teu quarto. A primeira vez que lá entrei fiquei assombrado. Tu sorriste e deste-me um pequeno ficheiro word, para eu também poder fazer as minhas próprias capas das K7. Acho que ainda tenho esse ficheiro perdido numa disquete. As K7, essas, estão arrumadas num caixote, no sótão lá de casa.


António Ramos Rosa



1924-2013


Diríamos que o timbre da poesia de Ramos Rosa não é o i do cisne mallarmiano: será o a de «branco», de «página», de «claro»... A «brancura» dos seus versos não é a brancura estéril da neve: é a de um muro pobre com ranhuras; não é a do gelo: é a da água límpida.

Vergílio Ferreira, «Aridez fecunda, claridade»*, em Espaço do Invisível 1, Lisboa: Bertrand, 3ª edição, 1990, p. 265.


* posfácio a Sobre o Rosto da Terra (1961). 

(...)


Hoje, caso não tenhas reparado, é Sábado. Está um lindo dia de sol. Apetece andar na rua. Não entendo a razão de ainda continuares a ler este texto, leitor.

Um poema de Cristovam Pavia


ao Nuno

Não fugir. Suster o peso da hora
Sem palavras minhas e sem sonhos,
Fáceis, e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim todo desposado, ser
Abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.


em 35 Poemas (1959), retirado Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (org. Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro), 2ª edição revista, actualizada e com uma nova introdução, Lisboa: Livraria Morais Editora, Colecção Círculo de Poesia, 1961, p. 96.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (24)




Não sei se Henrique Raposo leu este livro. Mas eu, que o li, devo ser, por isso mesmo, de esquerda. Ler Sade, nos dias de hoje, é tão importante como não ler os textinhos que Henrique Raposo debita. Digo mais: devíamos ler Sade às crianças. Melhor: devíamos deixar que as crianças lessem Sade. Talvez elas aprendessem, mais cedo, que há por aí gente como Henrique Raposo. Gente que, no fundo, é mais perigosa do que um pedófilo. Gente que, na verdade, apregoa uma moral que não tem. Gente que, na realidade, quer um sociedade feita de carneiros, a marrarem todos para o mesmo lado. Ora Sade é um bom preventivo contra essa espécie de gente.

(...)


Vaidade. O meu maior defeito, leitor, é a vaidade. Sou um tipo vaidoso. Gosto de cheirar bem, andar bem calçado, bem vestido, ter estilo. Só que essa coisa do estilo já não é bem como antigamente. E há, até, aquele famoso poema de Bukowski, que define muito bem o que é isso do estilo. Mas a vaidade, leitor. A vaidade é outra coisa.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (23)




É, quanto a mim, um dos melhores livros escritos em Portugal. É, também, um livro de culto. Como todos os livros de culto: é um tanto ou quanto esquecido. A realidade é que Raul Brandão é um autor muito esquecido. A edição que te apresento, leitor, não respeita a 1ª edição original. Para isso tens de comprar a edição publicada pela Frenesi. Mas foi esta, a que aqui apresento, que eu li pela primeira vez, nos idos de 2003. Comecei a lê-la num terraço em Silves e terminei de a ler num terraço em Chefchaouen, enquanto chamavam para a Oração de Sexta-Feira. Aconselho-te, leitor, a não o leres nunca em dias de invernia. Procura antes um dia ou dias de sol. 



(...)


Acordei com estes versos de Berryman na cabeça. Depois, abri a janela do quarto e um ar fresco atingiu o meu rosto. Na realidade muito pouco um homem pode fazer: ou viver a vida ou tentar vivê-la. Porque, apesar de tudo (e como dizia o outro): duas vidas não chegam.

Leis da Separação - Rui Almeida




Rui Almeida
Leis da Separação
Medula
2013

tiragem única de 100 exemplares
25 dos quais numerados e assinados pelo autor
desenho original de Carla Ribeiro

pedidos
medulalivros@gmail.com

Um poema de Jaime Salazar Sampaio


ficou da infância a febre
de correr parado
pelas estradas

podes chamar-lhe versos
são viagens

ficou da infância a fisga
de arremessar ao vento

podes chamar-lhe versos
são pedradas


em Palavras para um livro de versos (1956), retirado Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (org. Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro), 2ª edição revista, actualizada e com uma nova introdução, Lisboa: Livraria Morais Editora, Colecção Círculo de Poesia, 1961, p. 53.

Discos pedidos (41)



para a Raquel Nobre Guerra



e aqueles que dançaram loucos

tão parados como se ouvissem
Raquel Nobre Guerra

  


Ficava na Rua da Fé. Estava acantonada na Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro. Chamava-se Jukebox. As noites de Sábado eram as mais concorridas. As escadas íngremes, estreitas, eram fáceis de subir. O mesmo não posso dizer da descida. Experimentei lá vários venenos, servidos em pequenos copos, compatíveis com o meu porta-moedas. Às vezes rebentavam discussões sobre quem era o mais gótico, ou o que era gótico. Alguns arriscavam mesmo uma espécie de confronto físico, que mais parecia uma dança. Vi uma vez alguém desafiar alguém para uma espécie de duelo. Luva branca na cara e tudo. Para mim era um admirável mundo novo, que fugia bastante à pacatez de uma Manteigas congelada no frio do Inverno durante todo o ano.

(...)


Por volta das nove horas, quase todos os dias, há uma ambulância a caminho do hospital. Ouve-se sempre. Sonora. Penso sempre: quem tem tempo para adoecer às nove da manhã?

Discos pedidos (40)




Com 36 anos penso que já posso dizer (sem qualquer receio): houve um tempo. A verdade é essa. Houve um tempo em que passava horas fechado no quarto a ouvir música, a ler, a escrever os primeiros (e perdidos) versos. Na altura ainda não havia ligação ao mundo lá em casa. Mas eu tentava não andar desligado do mundo. Quando um dia tive a oportunidade de ir pela segunda vez a um Festival de Verão, não perdi a oportunidade de ouvir Natacha Atlas. Éramos poucos mas todos a conhecíamos. Os Transglobal Underground tinham ficado para trás. Parte daquilo que eu era também começava a ficar para trás. E tu: tu dançavas frente à tenda. E eu: eu olhava para o céu. A viagem começava.

Uma imagem para o dia



Eduardo Lourenço




Antes de José Gil ter escrito que Portugal tinha medo de existir, já Eduardo Lourenço o tinha feito, à sua maneira, no magnífico Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço é uma máquina de pensar desassombrada. Quem o lê, vê Portugal, mas também a Europa e o Mundo, pois Eduardo Lourenço sabe, muito bem, que sem Mundo e, principalmente, sem Europa, Portugal seria um país ainda mais analfabeto, rural e "pequenino". Em Labirinto da Saudade, Eduardo Lourenço refere-se à possibilidade do 25 de Abril de 1974 se converter numa «simples mudança de cenários gastos que não alteraria o pacatíssimo e delicioso viver à-beira mar plantado». Passados todos estes anos, a possibilidade parece ser, quase, uma certeza.

(...)


Acordar. Abrir a janela e uma densa neblina sobre a cidade. Ligar a máquina do café. A minha dose de coragem líquida está quase pronta. O dia começa.

(...)


A vida, parece, tem-me tratado bem. Dizem-me que estou a envelhecer melhor do que muitos da minha idade. A questão é que eu não sinto nem vejo isso. Hoje, por exemplo, tive o joelho direito todo o dia a dizer-me um dia destes vais a andar e ficas-te. Uma dor de cabeça acompanhou-me o dia todo, pois já não posso beber aquela dose eficiente de café, devido ao frágil e precário estômago. 

Brevemente



Rui Almeida
Leis da Separação
Medula
2013

encomendas
medulalivros@gmail.com

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (22)




Leio poucos livros de História. Mas este livro li-o de ponta a ponta. De um fôlego. Foi nele que fiquei a saber que existem anarquistas de direita (Céline é citado como exemplo), algo que me deixou de boca aberta, pois sempre tinha pensado que anarquismo era coisa de esquerda. Lembro-me de comprá-lo numa pequena Feira do Livro. O senhor que o vendia ficou a olhar para mim. Não sei o que lhe passou pela cabeça. Não me interessa. Aconselho o livro a todos os meus amigos. Vá: a alguns. 

(...)


Andei nos dias de Conta-Corrente. Dois volumes de diários lidos. Vergílio Ferreira é uma máquina pensante. Tudo nele é pensamento. Pensar. 

Uma imagem para o dia



(...)


Tenho andado em périplo pela toponímia poética da Gândara: Bustos, Mamarrosa, Troviscal, Malhapãozinho, Palhaça. A Gândara surgui-me, pela primeira vez, através da poesia de Carlos de Oliveira, que também me acompanha por estes dias.

(...)


Coimbra é a minha Lisboa. Figueira da Foz a minha Fontanelas. Manteigas a minha Melo. Mas eu não sou Vergílio Ferreira. Em comum temos, apenas, três coisas: a Beira Alta, a Guarda, o sotaque.