Discos pedidos (38)
para a Marta Chaves
Esta coisa do piano é terrível. Um dia um professor de Música disse que eu tinha dedos de pianista. A verdade é que nunca aprendi flauta, violino e, muito menos, piano. O francês ainda o aprendi até ao 11º ano (apesar de me servir apenas daquele que aprendi, de verdade, até ao 6º), mas é o inglês que domina a par com o português. Não sei onde li qualquer coisa sobre dedos de pianista. Não sei se foi num poema ou num romance. Apenas sei que li e que não era algo agradável. Depois, vi o filme: A Pianista. Mas acho que me estou a desviar do assunto. A questão principal é que esta coisa do piano é terrível. Queria explicar melhor o porquê. Não consigo. Também não é a primeira vez que isto me acontece. Tento muitas vezes explicar-me e não consigo. E quando isso acontece lembro-me sempre de Santa Teresa D'Ávila: «Quero-me explicar melhor, pois creio que me meto em muitas coisas. Sempre tive esta falta de não me saber dar a entender – como já tenho dito – senão à custa de muitas palavras.». Só que eu nem à custa de muitas palavras me safo. Penso que me fiz entender.
50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (20)
O primeiro contacto que tive com este grande escritor foi através do livro Ham on Rye de Bukowski. Sempre gostei de chegar a livros através de outros livros. Quando comprei esta edição (que é muito má, pois tem uma letra muito pequenina e o espaço entre linhas é quase inexistente) ainda não existia a tradução na Cavalo de Ferro. Dizem que é, talvez, o melhor livro de Hamsun. Eu, até agora, gostei de todos os que li dele. Há quem diga que é um escritor datado e que não entusiasma. O melhor elogio que li a Hamsun veio de Thomas Bernhard: «Durante décadas as pessoas não lêem o Hamsun e depois ele volta. Isso passa-se com todas as pessoas. Mas está com certeza, com toda a certeza, escrito conscientemente de uma forma que ainda daqui a cem anos se pode ler.». Acho que diz tudo. Mas o melhor é mesmo ler.
Etty Hillesum
(...). Porque se fossem verdadeiras, se sentíssemos realmente aquilo que afirmamos, não precisávamos de enfatizar como o fazemos, (...) e então poderíamos falar sobre o bom estado do tempo e sobre a sopa de legumes, em vez de nos atormentarmos com conversas sobre política que nos servem apenas para dar vazão ao ódio. Porque o pensamento político, o tentar ver algo das linhas gerais e descortinar um pouco do que está por detrás delas, é uma coisa que praticamente desapareceu das nossas discussões; nada é aprofundado e, por esse motivo, hoje em dia não é interessante conversar sobre esses assuntos com outra pessoa.
em Diário: 1941-1943, tradução de Maria Leonor Raven-Gomes, prefácio de José Tolentino Mendonça, Lisboa: Assírio & Alvim, 3ª edição, Colecção Teofanias, 2009, p. 71.
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Em Manteigas há um rio, ao fundo da Vila, à minha espera.
50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (19)
Li-o no hospital. Numa noite. Pedra nos rins. Não sei se é essa a razão pela qual ele consta desta lista. Há quem diga que é um dos romances mais importantes da segunda metade do século XX português. Parece que há uns quantos romances que são os mais importantes da segunda metade do século XX português. Eu já aqui mencionei alguns (na minha opinião). Penso que o subtítulo diz muito sobre Finisterra. Ou diz tudo. A escrita é depurada, lacónica (característica muito vincada em Carlos de Oliveira; quem leu a sua poesia está consciente disso). Sinceramente, não sei se existe uma mudança do materialismo histórico para o materialismo dialéctico. Essas coisas, quando leio um livro, não me preocupam. Não me interessam.
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A noite. A A8 quase deserta.
Medula (Setembro/Novembro 2013)
Os Cavaleiros das Trevas e Outras Linhas, Stephen Crane (poesia)
50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (18)
Fazia parte do programa do 11º ano do Curso de Humanísticas (como na altura se chamava). Talvez, por isso, o tenha lido. Não sei dizer muito sobre o livro (como não sei dizer muito sobre qualquer livro). Apenas sei que gostei muito de o ler. Gostei da história; gostei da maneira como está escrita; gostei, até, das aulas em que o livro foi "explicado". O meu exemplar está todo anotado, sublinhado. Só não gosto quando alguém diz: "Alexandre Herculano é o nosso Walter Scott".
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A reler Húmus de Raul Brandão, agora conforme a 1ª edição de 1917 (Frenesi, 2000). Oferta recente. E, na nova leitura, o mesmo espanto, a mesma vontade de dizer bem alto: porra, é isto! é isto e só isto!
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Acontece que acordei. Levantei-me. Fui até à marquise. Um dia fresco e uma morrinha molha-parvos. Tomei um duche. Escolhi um pólo que combine com a calça-de-ganga e com o calçado. Perfumei-me. Tomei o pequeno-almoço. Rumei à escola onde há um inventário para ser terminado e pó q.b. nos armários. Ligo o computador. Anouar Brahem por companhia. Alguns colegas estranham e abeiram-se. Inventário terminado. Mas eu continuo a ouvir Barzakh, esse grande disco.
50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (17)
Um dia, antes do Facebook invadir as nossas vidas e quando na chamada blogosfera circulavam uns questionários muito catitas, perguntaram-me qual o livro que levaria para uma ilha deserta. A minha resposta foi Em Nome da Terra. Tem um dos mais belos primeiros parágrafos que li na literatura portuguesa. Podia aqui contar onde li o livro e por que razão o considero um dos melhores livros da segunda metade do século XX português (Vergílio Ferreira, nessa categoria tem, quanto a mim, três: Aparição, Alegria Breve e Em Nome da Terra). Podia contar que estava muito calor e que o aroma do laranjal em frente a casa, por mim habitada, invadia as noites. Podia contar que havia um castelo ao fundo e um terraço no telhado da casa. Podia dizer isto tudo. Mas, não o vou fazer.
Estados Filosóficos (83)
Portugal, e o seu outrora vasto Império, pode ser encontrado nos subúrbios, esses lugares de betão e alumínio. Talvez Portugal, e o que dele resta, seja isso mesmo: um prédio nos subúrbios.
(...)
A noite e o calor. Eu sei, leitor, que contigo, provavelmente, acontece o mesmo. Mas a mim não me preocupa muito o teu calor. Estou mais preocupado com o meu. O teu calor, leitor, suporto eu bem; agora o meu: é mais difícil. E acordar durante a noite encharcado em suor e pensar no duche ali mesmo ao lado e nem é tarde nem é cedo. E durante o duche pensar que a vida, esta, a minha e a tua, leitor, é uma coisa muito perene, muito frágil. E enquanto a água fria corre pelo corpo, leitor, lembrar que este corpo, leitor, este corpo que já viu melhor dias, apesar de só ter trinta e cinco anos, é um corpo que um dia deixará de ser. E mesmo que acreditasse na alma e na sua imortalidade, de nada me serviria, pois é este corpo que me abriga, ainda, do sol forte, do frio gelado, do vento norte e da pulhice. E, leitor, há tanto sol forte, tanto frio gelado, tanto vento norte e tanta pulhice no mundo.
Estados Filosóficos (82)
Frente à realidade só há uma solução: colocar um espelho.
Estados Filosóficos (81)
Ontem, à noite, senti cheiro a fumo. Soube, com a certeza de quem conhece o cheiro, que havia, algures, mato ou mata a arder. E, no entanto, aqui nos subúrbios, tal ideia foi para mim completamente absurda, tão deslocada que estava da minha realidade.
Pensamento do dia
Jan Garbarek
(com Anouar Brahem e Shaukat Hussain)
Sull Lull
Madar
1992
50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (16)
O meu Crime e Castigo tem esta capa. É claro que não está tão desfocada, mas foi a única que consegui encontrar por aí. A primeira vez que o li tinha dezanove anos. A segunda tinha vinte e nove. Dez anos para o reler. Espero não ter de esperar mais dez anos para o ler novamente. Dez anos, a bem da verdade, é uma década. E, como sabemos, uma década ainda são alguns anos. Quando me pedem para opinar sobre o livro, prefiro dar um conselho: nunca o leiam com febre, pois Raskalnikov pode entrar pela porta do quarto empunhando um machado.
(...)
Estou sentado num degrau de uma porta na Rua da Anchieta. Não é Sábado. Há um leve cheiro a urina. Passam por mim homens engravatados, bem vestidos. Imagino-os altos executivos, com bons e chorudos ordenados. Imagino-os em gabinetes devidamente ar-condicionados. (Um casal à minha frente precisa, urgentemente, de um quarto). Imagino-os a gerir qualquer coisa, a olhar para grelhas e gráficos excel e dizerem compra compra ou vende vende. E talvez não seja nada disto e as suas vidas sejam ainda mais miseráveis, com mulheres ignoradas e alcoólicas e filhos que gastam a semanada na ganza ou naquela linha de coca nas noites de Sábado. E, talvez, nada disto. Talvez tenham, apenas, vidas pacatas, trabalhem das nove às seis e esperem, ansiosamente, pelas férias de Verão.
Estados Filosóficos (80)
A verdade é que a minha geração quer a revolução. Só que a revolução não quer nada com a minha geração.
Arte Negra
17
de António Franco Alexandre
retirado de As Segundas Moradas,
em As Moradas 1 a 3 (1994),
inserido em Poemas, Assírio & Alvim, 1996
Sandro Penna
Ontem adormeci com No Brando Rumor da Vida, de Sandro Penna, sobre o peito. Os seus versos são demasiado leves para o peso que neles existe. Cheguei a ele através das traduções de Eugénio de Andrade. Dois versos (que são um poema) irão para sempre andar comigo: «Talvez a juventude seja só este perene/ardor dos sentidos sem arrependimento». Ele é o poeta da juventude. Tudo nele é jovem. Tudo nele são jovens. Depois de Pavese, Sandro Penna é o "meu" poeta italiano.
50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (15)
Algumas mulheres dizem que Ted Hughes era um canalha. Duas das suas mulheres suicidaram-se. Um dos filhos, também. Não sei se isso diz muito sobre ele. Há quem o considere um dos melhores poetas de língua inglesa. Cartas de Aniversário é um grande livro de poemas. Li-o com gosto durante um ano, pois é um livro que se deve ler ao longo do tempo.
(...)
Noites demasiado quentes. Demasiado. Às voltas na cama. As costas e o mau-jeito que dei no outro dia. Demasiado quentes. As noites.
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