50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (14)




Um dos mais esquecidos. Dos menos lidos. Um autor que muito nos pode dar, trazer. Este livro é, quanto a mim, um dos mais importantes romances da segunda metade do século XX português. É claro que a sua leitura não é fácil. Ruben A. tinha essa característica: a sua leitura não é fácil. Mas é essencial. 

Clube da Palavra

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e ainda

Clara Caldeira
José Mário Silva
manuel a. domingos
Marta Chaves
Nuno Costa Santos
Nuno Moura

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (13)



Este, sim, é aquele livro que me acompanha sempre. Tenho mais dois. Mas este está sempre comigo, para onde quer que eu vá. É um livro fortíssimo, bem escrito, que põe a nu tudo o que é mesquinho e estúpido no Homem. Não sei se Darien saberia que escrevia um livro para gerações futuras. Se 1984, de Orwell, é um livro que nunca ficará desactualizado, Biribi também o é. Porquê? Porque haverá sempre muito canalha a andar por aí; haverá sempre muita gente disposta a maltratar o outro em benefício próprio. Darien sabia isso. E escreveu-o.

(...)


27 graus neste quarto alugado. Alguém se lembrou de fazer uma marquise na varanda. Não há ar fresco que circule por estes lados. Ainda deixei a persiana (aqui chamam-lhe estore)  durante todo o dia. De pouco serviu. O calor que se acumula na marquise é demasiado. Agora resta-me ter a janela aberta e esperar. É claro que há o ruído lá fora, que interfere com a música aqui dentro. Mas pronto. Nada a fazer.

Arte Negra



16
de António Franco Alexandre
(Poemas, Assírio & Alvim, 1996, pp. 329-330)

Discos pedidos (37)



Não é noite. Escrevo pela noite dentro. Vozes. Sem vozes não há noite. É qualquer coisa de intermédio. Qualquer coisa que não consigo identificar, mas sei que não é a noite. Talvez algo mais escuro, mais profundo. As vozes assemelham a avalanches. Pouco ou nada podemos fazer frente a uma avalanche. Vieram para ficar. Para nos dizerem verdades incompreensíveis, pois toda a verdade é incompreensível. Outras vezes: segredos. São elas que nos dão conta da miséria humana. E, como sabemos, a miséria humana somos todos nós. Talvez um dia dê a volta ao mundo. Há coisas que se devem fazer, pelo menos, uma vez na vida. Excepto matar. Mas dar a volta ao mundo é uma delas, de certeza. Alguns problemas podem surgir pelo caminho, é certo. O maior de todos é não regressar. Permanecer numa perpétua volta ao mundo, passando sempre por lugares diferentes e nunca regressar àqueles onde se foi feliz. Li isso um dia: nunca devemos regressar a um lugar onde fomos felizes. E eu, porra, já regressei a muitos.

Um poema de Rui Miguel Ribeiro


XIII - A Sombra

Trago comigo mais noite
que a minha própria sombra.
Ela que insiste sempre em ficar
mais rente: ao chão, às quatro
paredes, aos objectos dispostos
que tentam com a sua ocupação
fazer uma leitura dos dias,
ocupar um pouco mais de mim,
tentar o seu regresso para mim,
que apenas ensaio o escuro
nestes dias.


em XX Dias, Lisboa: Averno, 2009, p. 19.

António Guerreiro


Mas o pior do que fazer horas extraordinárias que não são pagas é sentir que até o pouco que resta aos professores de tempo autónomo entra na contagem diabólica do tempo controlado. O horário dos professores pode até não ter efectivamente aumentado. Mas, em termos simbólicos, chegou-se à estação terminal que diz: proletarização.


em Ípsilon, Sexta-feira, 21 de Junho 2013, p. 34.

Discos pedidos (36)




Na altura começávamos a beber cerveja preta traçada com absinto. Ao balcão não se servia outra coisa. Nós íamos muitas vezes para o balcão. Um lugar à mesa não nos interessava, pois sabíamos que o banquete prometido nunca nos seria servido. Agora, passados todos estes anos – e já lá vão alguns – penso da mesma maneira: o banquete prometido nunca nos será servido. E, como penso da mesma maneira, um dia ainda me chamam conservador.

Arte Negra



5
de António Franco Alexandre
(Poemas, Assírio & Alvim, 1996, pp. 246-247) 

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (12)



Passei parte daquele Inverno a lê-lo. Sou um leitor lento e um livro com quase 900 páginas leva-me muito tempo. Comprei-o porque fui no hype que se gerou à sua volta. Mas não me arrependi. É um livro pesado (em todos os sentidos). Max Aue é, quanto a mim, um personagem que está ao nível ou de Ahab ou de Raskolnikov ou de Meursault. Mas é só a minha opinião. Vale o que vale. 

(...)


Prédios e mais prédios. Um muro de betão.

Uma imagem para o dia



Arte Negra



17
de António Franco Alexandre
(Poemas, Assírio & Alvim, 1996, pp. 267-268) 

Das fotos (23)


Sem título
© manuel a. domingos, 2013
(clique na imagem para aumentar)

(...)


Reservarei um dia um livro de poesia com a antecedência necessária, quando esse livro de poesia for um novo livro de poesia de António Franco Alexandre.

Discos pedidos (35)




para a  Margarida Ferra


O amor, como sabemos, engana-nos muitas vezes. Nós, como sabemos, enganamo-nos muitas vezes com o amor. A maior parte das pessoas passa a vida enganada e a enganar-se com o amor. Naquela altura – pois há sempre uma altura para algo – eu andava enganado com o amor. Pensava que nunca mais iria amar alguém como, naquela altura, amava. Como é óbvio: enganei-me. Passava parte dos dias de Verão a olhar para o céu, ou, então, a olhar para o tecto do meu quarto. O Verão sempre foi para mim aquela altura do ano propícia a amar. Não sei se será da luz, do calor. Os dias também são mais longos, é certo. Tentamos ocupar o tempo da melhor maneira possível. E, por vezes, apaixonamo-nos e começamos a amar. Foi o que aconteceu comigo na altura. Mas isso é outra história.

(...)


Quase dois meses e meio, garantiu a minha mãe. Dois meses e meio sem ir a Manteigas. No Sábado correu tudo bem. Quem eu esperava que aparecesse, apareceu. A família é presente e os amigos ainda são certos. De regresso aos subúrbios não esperava ser recebido por uma luz que quase me comoveu às lágrimas. E eu a pensar que isto era tudo cimento e alumínio. Luz como a de hoje, do final da tarde, não encontro em Manteigas. Tudo tem o seu devido lugar. A luz que hoje me recebeu tem o seu lugar aqui.

(...)


Tom Sharpe foi um escritor que conheci no ano lectivo 2002-2003. Há quem se oriente pelo ano civil, outros pelo ano judicial. Eu oriento-me pelos anos lectivos. No ano lectivo de 2002-2003 dei aulas em Tábua. Na altura tinha rebentado o escândalo com as cartas de condução. Parece que metade de Portugal foi tirar a carta de condução a Tábua. Ora nesse ano conheci aquela que viria a ser minha namorada e hoje é a minha mulher. Foi ela, também, que me trouxe os livros de Tom Sharpe, que na altura era editado na Teorema e a Teorema ainda não era uma coisa da Leya. Eu não conhecia Tom Sharpe e fartei-me de rir ao ler os livros dele.  Wilt é o anti-herói por natureza. Mas quando digo anti-herói não quero dizer que ele seja cínico ou que seja um vilão. Ele é anti-herói porque não tem a capacidade de ser herói e não tem nenhuma característica que o transporte para o lado dos heróis. Ele é um homem comum, a quem tudo corre mal. Ele é alguém que tenta, a todo o custo, ter um dia calmo. Mas não consegue. Penso que todos nós temos um pouco de Wilt. Quem acha que não tem: tente, por favor, ao menos ler os livros.

Tom Sharpe



1928-2013

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (11)


Mais uma vez a Biblioteca Municipal. Foi lá, nas suas estantes, no seu pó, que se começou a formar o leitor em que me converti. Não sei se sou um bom ou um mau leitor. Sei apenas que sou leitor. Todos os que lêem merecem o meu respeito. Acredito que a leitura se educa. E pode levar anos, como qualquer educação, a tornar-se boa. A poesia de Sylvia Plath apareceu num dia de sol. O Verão sempre foi uma estação que me fez ler. As noites quentes sempre me obrigaram a ler, pois dormir era coisa que pouco fazia. Sylvia Plath chegou sem grandes apresentações. Li-a, apenas. Só mais tarde fiquei a conhecer alguns promenores da sua biografia. Pois são os seus poemas, e não a sua biografia, que me levam a pegar nos seus livros.

Ensino Recorrente




(...)


Dizem que irá haver uma diminuição do pólen na atmosfera. Será para os próximos dias. Agradeço.

Discos pedidos (34)




Diremos: são largas as avenidas, vazias, nem de sombras povoadas. Na noite já não há pregadores. Desistiram. Ninguém quer os olhos dos outros para ver o mundo. O mundo ou a promessa dele. Diremos: os dias são apenas uma promessa não cumprida. Uma espécie de corrida onde temos de ser os primeiros. É o que nos dizem. Sempre os primeiros. Ninguém entende o nosso enorme desejo de não triunfar. Nunca triunfar. Ninguém entende que é possível ser feliz na derrota. Que é possível ser feliz sabendo que a felicidade é algo que está muito, mas mesmo muito, sobrevalorizado. E a perfeição? Outra falácia. Olho para a carrinha à minha frente: Transporte de Animais Vivos. E rio-me. Rio às gargalhadas com tamanha hipocrisia.

Uma imagem para o dia


(...)


Não vou a Manteigas desde Domingo de Páscoa. Não recordo estar tanto tempo sem ir até lá. Não recordo estar tanto tempo sem ver os meus pais. O máximo foi um mês e duas semanas, quando estive a trabalhar em Silves e o horário lectivo incompleto não era o suficiente para no fim do mês sorrir quando via o salário depositado. Naquele ano lectivo (2003-2004) a gasolina atingiu preços recorde. Lembro-me da gasolina 95 sem chumbo ter um preço de 1.07€ por litro e o pessoal bradar aos céus. Lembro de um senhor, num posto de abastecimento, dizer estes gajos só param quando o litro estiver nos 2€. No passado Domingo o litro da gasolina 95 sem chumbo estava a 1.63€. Este ano já a coloquei a 1.67€. Já estivemos mais longe.

Discos pedidos (33)



Caxias. 2005-2006. Do apartamento vê-se o Bugio. Uma enorme janela sobre o rio e a luz toda a entrar. Gostava de passar os fins de tarde a ler. Lia, sobretudo, os livros de Cossery. Mas também Mishima e Bukowski. Dava aulas no Estabelecimento Prisional. Uma experiência que nunca mais esquecerei. Conheci gente de todo o lado: Chile, Argentina, Bolívia, Colômbia, Panamá, Guatemala, Curaçao, Estados Unidos da América, Holanda, Ruanda, Malásia, Espanha, França, Itália, Marrocos, Polónia, Lituânia, Rússia, Moldávia. É claro que também muitos portugueses. E quando chegava a casa tinha aquela luz e o Bugio ao fundo. Os livros à minha espera. E o alaúde.

(...)


Desde os sete anos que sou asmático. Dos sete aos catorze fiz um tratamento contra as alergias, que me despoletavam crises de asma horríveis. Fiz uma vacina que vinha de Inglaterra e que custava os olhos da cara aos meus pais. Melhorei bastante das alergias. A asma continuou. Menos activa, é certo. Quase nula nos últimos anos. No passado Sábado, por volta das quatro horas da manhã, tive uma crise de asma como já não me lembrava. Tinha ali perto o Ventilan. Foram precisas duas bombadas para restabelecer a ordem nos pulmões. No Domingo de manhã, depois do duche, nova crise e nova bombada (desta vez só foi precisa uma). À tarde rumei às Urgências. Fármaco na veia. Fiz vapores e mediram o nível de oxigénio no sangue. Raio-x. Voltei para casa medicado e agora sou todo tremores. Mas  agora respiro muito melhor.

Estados Filosóficos (78)


Tentar ser racional, no nosso mundo, é meio caminho para o manicómio.