— Mesmo que esta nobre
arte não tivesse outra excelência que não fosse a antiguidade da sua origem e a
nobreza do seu inventor, bastava para que todo o bom entendimento a confessasse
e tivesse pela mais nobre e principal das que hoje se praticam no mundo. Ela teve
princípio no céu; o seu primeiro inventor foi um dos mais belos anjos que nele
havia, cuja formosura, dignidade e grandeza eram tão altas e elevadas que os
mais curiosos da sua perfeição não acham outro título mais próprio como engrandecê-lo,
senão com o de estrela da manhã, luz da alva, presidente da aurora e embaixador
do sol. Foi este, pois, o primeiro ladrão que houve no mundo, o qual, vencido
por um ambicioso desejo, se arriscou temerariamente a roubar a glória e sólio
de Deus; mas foi desgraçado, porque o prendeu a justiça em flagrante delito e,
confiscando-lhe todos os bens que tinha, o condenou ao cárcere perpétuo, junto
com outros cúmplices seus. E se vossa mercê me perguntar: que motivo pode haver
tido esse anjo, sendo tão rico, próspero e nobre, para desejar não só o que não
podia alcançar, mas que era também totalmente repugnante à sua natureza e
condição, sendo ele criatura e o que queria roubar infinito, imenso e divino? Respondo-lhe
que essa é matéria de teólogos, e que a eles toca saber a razão deste caso. Todavia,
se não me engano, aprendi do padre do meu lugar, que era homem douto, pregando
um dia de domingo aos seus paroquianos, que em Deus se podem considerar duas
cousas, embora ele seja indivisivelmente uno, que são: o ser bom e ser bom
infinitamente. Destas duas considerações, pegava na primeira, que é a bondade,
a qual surgia como objecto natural da vontade, sem descer ao modo da dita
perfeita, que é a infinidade, da qual não somente era incapaz, mas também lhe
repugnava o desejá-la; porque, como disse o mesmo padre, não pode a vontade
desejar ou apetecer o que vê claramente que lhe é impossível. E assim disse que
aquela perfeição ou bondade in abstracto era suficiente motivo para ter alguma
complacência no seu mau desejo. Contudo, seja como for, que não é da minha
jurisdição averiguar agora se o anjo pode haver desejado ou não igualar-se a
Deus, o que sei dizer é que a sua história se passou como eu a contei, e que
hoje em dia ele está na prisão com todos os seus companheiros e sequazes e, o
que é pior, sem esperança de jamais sair dela.
O segundo ladrão que
houve no mundo foi o nosso primeiro pai Adão, tão temerário como o anjo, mas
não tão culpado por ser o seu pecado menos maldoso e com mais ignorância;
embora não possa persuadir-me de que, tendo a ciência infundida, ignorasse a obediência
que devia ao seu Criador, e quão mal tratado havia ficado o anjo por ter
deitado o olho ao mesmo bocado. Finalmente, vencido pelos importunos arrazoados
de sua mulher, e atormentado por uma curiosidade ambiciosa, quis roubar a
ciência e sabedoria de Deus; mas saíram-lhe as contas furadas, como ao anjo,
sem que lhe servisse de alguma cousa o fugir e esconder-se; porque, tendo-o
interrogado o juiz, e não podendo negar o caso por ser em flagrante delito,
confiscaram-lhe o estado da inocência e justiça inicial, ficando ele e os seus
descendentes condenados a passar a vida com trabalhos e desventuras e a mulher
a parir com dor.
em A Desordenada Cobiça dos Bens Alheios, tradução
de José Colaço Barreiros, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 2002, pp. 69-71.