Pensamento do dia



 excerto do filme Nostalghia (1983)
de Andrei Tarkovsky

Um poema de Tonino Guerra


Canto Décimo Sexto

Em outros tempos chegavam à ponte das candeias multidões
em penitência suplicando graças
para os soldados da guerra, histórias de amor,
as doenças, para ganhar dinheiro, juventude,
para desejos secretos, por exemplo muitos homens
desentendiam-se com a sua gaita,
se lhe diziam: preparada? Ela respondia: não!
Bastava cruzar a ponte com uma vela acesa
que não podia apagar-se até à cruz do moinho.
Mas o vento soprava, uma brisa descia
da montanha e as mãos fatigavam-se 
de tanto proteger a chama e então toca a tentar,
tentar de novo, um mês, um ano...
A uma velha quase a chegar ao fim
pegou-se-lhe fogo à roupa e la se foi tudo, roupa, tempo e feitio.
Desde essa desgraça os crentes
abandonaram a devoção e mais ninguém lá vai.

No passado domingo dei uma espreitadela à ponte
e vi o filho tolo de Filomena
com uma vela acesa na mão.
A chama estava firme e nem a brisa do fundo
do rio a movia. Qual será a graça que suplica?
Uma vida normal ou continuar a sua loucura?
Antes de chegar à cruz do moinho
logo ali, a dois passos, parou
e soprou sobre o lume.


em O Mel, apresentação e tradução de Mário Rui de Oliveira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p. 45.

Um poema de Margarida Vale de Gato



A história foi enormemente exagerada (24/04/2013)

Cravos, sim, cravos que pedia,
de Abril sorridente acrescentei,
a 1ª florista, à saída da praça,
de esquina (que também a poesia
ensina a auto-cartografia
e a hetero-história), atrás
de postiça bonomia só parecia
mal compreender, são
caros nesta altura, cravos
não.

Cravos sim, cravos que queria,
de Abril reincidente me movia:
a 2ª florista, recolhida
do largo, no alto da colina,
volvidos oito lustros menos
um ano da revolução (a poesia
efetua também cálculo mental
e paleografia), furtou olhos
 com misto se possível de enfado
e alarme – nunca se sabe que fará
uma democrática defraudada –
cravos desculpe não houve ocasião
dos normais costumo ter, para
os arranjos (há neste ramo
profissionais assim, com específica
convicção de que flores
são um género de robbialac
de revestir interiores),
encarnados, cravos,
não.

Cravos, sim, cravos repetia,
que já estridente Abril me distendia
de pesar o coração.
A 3ª florista, um quarteirão
abaixo do liceu da minha filha
(mas será, como em todos, neste caso
absolutamente circunstancial
a associação entre poesia e real –
e sempre outra a verdade desta),
tinha ar que só vendia
artigos de luto, e de todo o modo
nublosa igualmente se
descomprometia imodesta
o cravo é flor que não presta
quando se demora a vender
e agora ninguém nos quer
o negócio já só serve
quando se precisa,
não por celebração,
antes eram mãos cheias
mas os molhos vêm já
desfeitos, e pouco dá
um pé só, ou dois, cravos, raros,
não

(e eu então com os mesmos
39 anos de efeméride
a pensar se afinal foi tudo tanga
o cravo que enfiou a criança
na garganta da espingarda
como se fora ânfora
a pensar, eu sem especial
sentimento nacional,
neste país
errado, ou então
de mentira no passado
pois a ser verdade “o que se conta”,
traiçoeira wikipedia,
“foi uma florista de Lisboa que iniciou a distribuição
dos cravos vermelhos pelos populares que os ofereceram aos soldados”
como não despertaria o episódio
senão uma corrida aos cravos
com oferta de segunda dúzia pelas grandes superfícies
pelo menos um sentimento de classe
entre mercadores e povo,
empreendedores de flores?
decerto alguém exagerou descaradamente,
poderia lá haver em Portugal
uma revolução, poderia haver
soldo para soldados
ou saída para esta soda ou tão imaginativo molde
para portugal nas lonas, portugal avaro e curvado
a esquecer o mar, onde perversamente
a palavra solidário mais depressa se associa a gíria economicista
e a palavra estado só a isto que nos vai na alma
e até capitalista deixou de ter... envolvência
portugal onde murcham indiscriminadamente
quaisquer insurgências ou espontos de alegria
emigram cérebros, morrem os outros todos,
portugal que inventou a lobotomia, portugal só bom
para jarras de talhão)
esperança, memória, praia, cravos,
não

Cravos, sim, cravos insisti
de Abril reticente perseguia
mesmo se, caída a face,
vestira eu já também o nacional
disfarce da bruma
e seu especioso desenvolvimento
lírico-pastoso, o Queixume;
Lá dentro, entra, e é bem
feita se só agora vieste aqui
o 4º florista, R. Forno do Tijolo, 28,
chama-se Fox Flor, e enche o facebook
com festivas pétalas e vivos estames
(por que não há-de veicular o verso
também a discriminação positiva
no seio dos engenhos coetâneos?)
o que não é especialmente ativista
mas refresca
e embora confessando que a lembrança
fora mais casual que premeditada,
pois afinal só sabe um pouco melhor
a quantas anda, e está lá para vender
e eu para ser cliente
acolhe-me com o consolo
que sinto no seu horto
acabrunhada por voltar pouco
e, magoada e leda, ao fim dos versos
e da revolução, colho  e pago
os oito pés
e me despeço, cravos,
sim,
de finalmente Abril, mesmo se pouca a força
e se é capaz do que se esquece.

(inédito)

(...)


Os rapazes usam roupa com nomes de clubes de basquetebol americanos. Para alguns Nova Iorque é um país. Boston o lugar onde morreram aquelas pessoas na maratona. O boné é de uso obrigatório, bem como a pose à b-boy. Tratam as raparigas por dama. Ter estilo é mais importante do que acabar a escola. Nunca fugir a uma fight. Cabeça sempre erguida. As raparigas são diferentes. Gostam de provocar fights entre os rapazes. A honra tem de ser defendida. Bamboleiam-se pelos corredores. Vão de encontro aos rapazes. Algumas apalpam-lhes os tomates. O curioso é parecer que a cor da pele é só uma: nem branca nem preta.

Uma imagem para o dia


(...)



No outro dia, em conversa com amigo recente, fui chamado à atenção para as semelhanças entre o início de Alegria Breve (Vergílio Ferreira) e o famoso começo de O Estrangeiro (Albert Camus):

Enterrei hoje a minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe.

Vergílio Ferreira, Alegria Breve, Bertrand: 7ª edição, p. 9.

Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua mão falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames». Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.

Albert Camus, O Estrangeiro, Livros do Brasil, p. 47.

É sabida a admiração de Vergílio Ferreira por Camus. Maior era ainda a sua admiração por Malraux. Alegria Breve é publicado 16 anos depois de Mudança, romance que marca, de forma abrupta, o corte de Vergílio Ferreira com o movimento neo-realista. Aparição também já tinha sido publicado. Vergílio Ferreira há muito que se afirmava como uma voz avessa a engajamentos um tanto ou quanto oportunistas. O seu compromisso era com o Homem e não com Movimentos. Com Alegria Breve (romance duro e que requer, da parte do leitor, uma predisposição diferente, em comparação com outros romances do autor), Vergílio Ferreira procura fincar pé no território do Existencialismo. Daí, talvez, a curiosa semelhança.

O ponto cego - Américo Rodrigues



Américo Rodrigues
O ponto cego
Bosq-íman: os livros
2013


22 de Abril, pelas 18 horas na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda. Fernando Carvalho Rodrigues apresenta o livro de poesia O ponto cego de Américo Rodrigues. Leitura de poemas por Vasco Queiroz. Será também lançada a plaqueta composta em tipografia de caracteres móveis Camões, nome de cão com pulgas.

(...)


Não há muito a acontecer neste terceiro andar frente. Os vizinhos em silêncio. Só os carros na rua onde «continuam perguntando/que nome melhor rima com a boca» (António Franco Alexandre). Um quarto nos subúrbios é uma incubadora do tédio. 

os peixes melancólicos



Nos últimos três anos tem havido o ressurgir do gosto pela tipografia com caracteres móveis. Exemplos disso são os projectos editoriais Oficina do Cego, Pianola e 50kg. Todos nós gostamos de sentir, no papel, a pressão das letras. Os objectos que nos chegam são preciosos: é o tempo de alguém que temos nas mãos, o seu amor à arte. No entanto, é preciso algum cuidado. Muitas vezes são mais apreciados os objectos do que o seu conteúdo, isto é, o texto. E na maioria dos casos, tirando algumas excepções (como é o caso), ainda é o texto que faz o livro.
Como sabemos, nisto da poesia e dos poetas, há sempre a tentação de situar o poeta. O poeta, como sabemos, não é alguém indiferente ao mundo e às suas coisas. O poeta, como sabemos, cumpre horários, trabalha, «tem frigorífico», dorme, come e tem necessidades fisiológicas. O poeta é alguém como nós. Carlos Veríssimo (1974) – para além de ser uma pessoa como nós – pode ser situado como um poeta amante da arte de tipografar. Prova disso é a sua estreia literária: os peixes melancólicos (Besouro, 2013). No cólofon podemos ler que os peixes melancólicos: «foram compostos manualmente, em caracteres de chumbo por rui damasceno, cosidos manualmente por maria do céu ferreira». O livro é composto por oito poemas e cinco fotografias originais, que têm como título o corpo ausenta-se do espaço – que podem ser “lidas” como um outro texto ou como um complemento aos poemas que as antecedem. Sete dos oitos poemas têm nove versos (o último poema tem onze), o que lhes dá consistência e um certo tom elegíaco – que não advém só da quantidade de versos, como é óbvio, mas também do ritmo impresso nos versos.
No entanto, arriscamos, ainda, situar Carlos Veríssimo como um poeta da noite. Contudo, não devemos confundir “da noite” como sinónimo de marginalidade, mas antes “da noite” inicial e onírica; “da noite” antes de tudo: «e o mar ressoa na minha cabeça como uma imensidão/de noites: Ah, as noites pétreas e pesadas/que impossíveis nuvens não sustentam» (poema II). A sombra de Herberto Helder paira em alguns dos versos: «homens que se decompõem verticais/perante o choro esperançoso das mães enganadas/a quem prometeram uma cura por trás de outras/palavras – sempre as palavras – de areia/e de vento e de água e de fogo sobre a terra fértil» (poema III). Em alguns poemas, Carlos Veríssimo assemelha-se a um arauto de um outro tempo. Um bom exemplo disso é o poema número V: «o fogo/esse deflagra com o rebolar dos corpos amantes/e com o sorriso das crianças – como uma grande luz/capaz de se fazer ver e ouvir onde é mais profundo/indolor e com uma inesperada facilidade.» (poema V). O fogo é uma ideia presente e constante. Mas não se trata de um fogo purificador; antes esse que é destrutivo e que apenas deixa cinza como sinal da sua passagem.
Mas Carlos Veríssimo procura sempre questionar, questionar-se: «E como pode existir algo para além de mim? não sei/se alguma vez o chego a saber e acredito/que só o saberei demasiado tarde.» (poema VI). É claro que, na maior parte das vezes, o questionar não origina respostas; apenas o adensar da certeza ou da dúvida: «Sou agora produto da mais recente invenção/do dia-a-dia que patina na engrenagem da consciência/e declino metamorfosear o negro pela luz,/uma empreitada tão cómica, quanto insuportável» (poema VII).
Se Carlos Veríssimo tivesse nascido dez anos antes, talvez pudesse ter figurado na antologia Sião: «Não tenho mais/como ir sem ser comida para os peixes melancólicos/que parecem sorrir, com aquele sorriso meliante/de quem pensa que tem o controlo das coisas./Felizmente estão enganados como todos//os outros//e não somos assim tão poucos.» (poema VIII).


 
Carlos Veríssimo, os peixes melancólicos, Coimbra: Besouro, 2013.



(...)



No prédio em frente uma criança olha-me com o espanto de quem fica a saber que, do outro lado da rua, há gente viva e a viver.

António Franco Alexandre



Ando a reler a poesia de António Franco Alexandre. A primeira vez que a li foi nos idos de 98 ou 99. Já não tenho muita certeza, pois a memória já não é como era e costuma pregar-me partidas. Na altura impressionou-me a força de algumas imagens. Agora que o releio, com a devida distância, continuo impressionado com a sua escrita. Alguns dos seus poemas são desconcertantes, no sentido em que nos isolam e nos projectam para um outro lugar. Outros são autênticos tratados sobre a língua e a linguagem. Irei continuar a reler.

(...)


Pouco ou nada a acrescentar. São quatro paredes de um azul bebé deslavado e antigo. Um casaco pendurado atrás da porta, o guarda-chuva repousa na maçaneta. Tem servido bem. Hoje não tenho ouvido os vizinhos. Ou não estão em casa ou aprenderam a falar mais baixo. Às vezes parece que ouço o bater de portas, mas pode ser imaginação minha. A chuva, às vezes, sim. E não é imaginação. 

João Miguel Fernandes Jorge



Silves. 2004. À Beira do Mar de Junho. Foi assim que cheguei à poesia de João Miguel Fernandes Jorge. Como podem ver não foi há muito tempo. Cheguei tarde a certos poetas. Mas são esses que ainda hoje me acompanham. Sempre que vejo um livro dele, tento comprar. É claro que nem sempre consigo: às vezes a carteira recusa-se a dar-me os necessários euros. Gosto da sua maneira de escrever: «O temor é o mês diurno,o/meio-dia num pátio de Silves.». Quem como eu já passou por essa bela cidade, saberá que estes versos têm muito de verdade. E penso que é isso que encontramos na poesia de João Miguel Fernandes Jorge: verdade, ou parte dela.

(...)


Ainda não me habituei às viagens de comboio suburbano. São demasiados os estímulos. Ora a variação de luz à medida que o comboio avança ora a conversa em crioulo à minha frente ora a senhora que fala sozinha e gesticula. 

Um poema de Carlos Veríssimo


VIII

Vendo banha da cobra ao outro do espelho
que me olha incrédulo com tanta estupidez
e ao longe os barcos navegam na crista da onda
e só aí, com facas no lugar de velas, a cortar o vento
norte para onde quero ir. Sopro. Não tenho mais
como ir sem ser comida para os peixes melancólicos
que parecem sorrir, com aquele sorriso meliante
de quem pensa que tem o controlo das coisas.
Felizmente estão tão enganados como todos

os outros

e não somos assim tão poucos.


em os peixes melancólicos, Coimbra: Besouro, 2013, s/p.

Dias do Leitor


GAF ou Filipe Guerra pode ser encontrado agora no seu novo blogue: Dias do Leitor. E promete não deixar a política de fora, mas ser mais sério.