Um poema de Golgona Anghel


Tenho humor e vendo-o barato.

Muita gente gosta disto.

Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".

Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.


em Vim porque me pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2ª edição, 2011, p. 66.

Vala Comum - manuel a. domingos




manuel a. domingos
Vala Comum
Medula
2013

tiragem única de 100 exemplares numerados e assinados

encomendas: medulalivros@gmail.com

(...)


Não sei se estou longe do mundo, mas em Manteigas sinto que estou. É curiosa esta minha relação com a terra que me viu nascer e me fez crescer. Apesar de estar no Interior Centro do país, ela começa a ser o meu Sul em tudo aquilo que o Sul encerra e cria. É claro que não há a planura do Alentejo que amava muito antes de o conhecer. Nem o pôr-do-sol dessa Silves que para sempre ficará na minha memória como uma das terras que melhor me recebeu. A minha relação Amor/Ódio começa a esbater-se lentamente. A idade, talvez. Ou, então, uma necessidade de refúgio que não consigo em outro lugar. Manteigas com a sua Fraga da Cruz que me olha lá do alto. Manteigas do Rio e do Poço-dos-Moinhos. Manteigas da Serra aos Domingos. Manteigas das ruas estreitas do Eirô. Manteigas da minha infância: uma mata interdita.*






* Jorge Fallorca escreveu: «A mata era um dos espaços interditos da infância.» (Longe do Mundo, Frenesi: 2004, p. 35); eu apenas a adaptei à minha circunstância.

Vala Comum por Henrique Manuel Bento Fialho



Em Março de 1981, Paulo da Costa Domingos publicou na Frenesi, com capa de Victor Silva Tavares e uma fotografia de Paulo Nozolino, o título Vala Comum. Trinta e dois anos passaram sobre essa edição, quase tantos quantos são os anos contados por manuel a. domingos (n. 1977). Dá-se agora a coincidência de manuel a. domingos escolher para título do seu último livro a mesma expressão que deu título à obra de Paulo da Costa Domingos: Vala Comum (Medula, Março de 2013). O apelido dos autores, o mês da edição, o título, são demasiadas coincidências para não considerarmos aqui a forte possibilidade de uma qualquer conjugação astral responsável pelas ocorrências. Embora os livros se distanciem no conteúdo, aproximam-se também no carácter de edições quase caseiras, contracorrente, por assim dizer, em número de exemplares reduzido e de circulação comercial restrita. Sucede que se o primeiro era de poesia, revista posteriormente sob a forma aqui partilhada, é o segundo de prosa. Isto quer dizer apenas que são livros muito diferentes quer no conteúdo, quer na forma, não o sendo assim tanto, porventura, na atitude subjacente à sua concepção. Colocadas de lado quaisquer leituras comparadas, podemos, no entanto, vislumbrar um elo informal entre as duas publicações, e esse elo informal é o de uma assimilação natural das fontes, sem uma intenção epigonal ou sequer uma influência consciente de si mesma. Tendo-se confessado admirador da obra de Paulo da Costa Domingos, é até bastante provável que manuel a. domingos nunca tenha visitado a Vala Comum daquele. Resta saber se alguma vez visitou a sua própria Vala Comum. E aqui entramos no livro agora publicado, um exercício exegético autobiográfico onde o autor discorre, em cinquenta páginas, sobre assuntos mais ou menos “íntimos e partilháveis”. Das origens familiares, mantendo a mãe de fora, mas chamando o pai à liça, à formação política, da educação à formação cultural, da descrição de cenas absolutamente pueris à manifestação directa dos ódios de estimação, são vários os momentos onde o autor se expõe de um modo quase confessional, com uma escrita onde a ironia, o humor e a descontração disfarçam algumas debilidades narrativas. O autor assume contradições, coloca-se no centro da sua própria ironia, desimportantiza-se ao mesmo tempo que se transforma em personagem, contracena consigo próprio como quem se vê ao espelho deixando os outros ouvir o monólogo que mantém em silêncio. Curioso que um livro escrito durante três anos, segundo informa o próprio autor, possa ler-se em trinta minutos, correndo o leitor o risco, porém, de se deixar ludibriar pelo ritmo. É que tal como a poesia de manuel a. domingos revela mais no que fica por dizer, também este sermão às nuvens nos circunscreve a perspectiva com a ilusão de tudo mostrar. Esta ilusão torna-nos desconfiados quando no centro do discurso descobrimos uma tendência aforística que oscila entre a coloquialidade de um pensamento vulgar e estereotipado - «não precisamos dos filósofos para nada. São uma boa cambada de inúteis» (p.29),«vivemos numa Democracia frouxa, que trata a escumalha com paninhos quentes» (p. 46) – e o suposto cinismo de um olhar algo desencantado - «Segundo alguns, a História é feita de vencedores e de vencidos, mas apenas escrita pelos vencedores. E nós, como todos sabemos, estamos num país cheio de vencedores. Daí a nossa História ser tão complicada» (p. 10), «É claro que as máquinas digitais vieram democratizar a fotografia. Como é óbvio a democratização de algo nem sempre é uma coisa boa e isso aconteceu com a fotografia: qualquer um pode ter acesso a uma máquina fotográfica digital e armar-se em Robert Capa» (p. 13). Parece-me que estas oscilações de tom, não obstante a futilidade dispensável de algumas alusões, estão de acordo com uma dimensão dramática que o texto pretende assumir. Daí termos falado anteriormente em palco e monólogo, pois facilmente imaginamos este texto levado à cena e representado enquanto um homem faz a barba, bate uma, mija sentado, acções quotidianas comuns que necessitam de ser revistas à luz da sua real importância inspiratória. Quem dizia que as melhores ideias lhe surgiam durante o banho?


publicado no blogue Antologia do Esquecimento no dia 25 de Março de 2013.

Pensamento do dia



Harold Budd
As Long as I Can Hold My Breath (By Nigth)
Avalon Sutra
2005

Ensino Recorrente


(...)


Agora que a noite é noite, posso descansar os ossos sobre a cama. A música ocupa o resto do espaço.

(...)


Não me sinto confortável quando reparam naquilo que como ou não como. Explico: onde costumo ir almoçar existe o mini-prato, a meia-dose e a dose. Os preços variam, como é óbvio. Ora eu costumo pedir o mini-prato. Fica em conta e não fico com fome. Ora a senhora lá do sítio já é por duas vezes que se ri quando digo foi um mini-prato. Ora hoje comi meia-dose. Tinha mais fome. Quando cheguei ao balcão para pagar, ela disse ora bem, um mini-prato. E eu disse não, meia-dose e café. E ela ah! hoje estava com fome. Sorriso amarelo da minha parte. Acho que vou começar a pedir factura.

Discos pedidos (31)


Falemos da noite sem esquecer os cavalos que galopam durante o dia. As veias vibram ao som dos primeiros acordes e pouco há a fazer. A noite. Foi isso que aqui nos trouxe. Mas não nos podemos esquecer dos cavalos que galopam durante o dia. Já o tinha dito? Começávamos a ganhar outro jeito ao beijar. Tu seguravas o cigarro como quem segura a vida, embora nunca tenhas aprendido a segurar a vida. Sempre andaste nela sem pensares o que nela poderia acontecer. Acontecer-te. Aqui estamos. A noite e os cavalos, agora, também por aqui andam. Ouço os seus cascos. Sinto-lhes o respirar. Começam a galopar. Pelo corredor fora. Pela noite. Começo a ser repetitivo. É melhor ficar por aqui.

(...)


A humidade aqui é muita. Sempre que meto as mãos nos bolsos sinto os fundos molhados. A roupa parece que pesa ainda mais. O dia acordou cinzento e sem rasgo de originalidade. Parece que houve um acidente no IC19. Alguns colegas chegaram uma hora atrasados. Não entenderam a razão do atraso, pois a estrada já estava desempedida e só a polícia bloqueava o acesso e desviava o trânsito. Coisas da cidade. Os engarrafamentos e os atrasos em Manteigas deviam-se, sobretudo, às ovelhas que por vezes atravessavam a estrada em rebanho e acompanhadas pelo devido pastor. A única preocupação era se os cornos de alguns dos bodes ou caneiros riscavam o carro. Coisas do campo.

Mal Dito - Festival de Poesia em Coimbra



(para melhor visualização clicar aqui)


(...)


Chega a noite. A cidade fecha-se em janelas de alumínio e na luz branca das cozinhas. No prédio em frente há, talvez, uma família que janta ao som das notícias ou da boca cheia dos filhos que contam o dia todos os dias.

Um poema de António Franco Alexandre



nada os meus olhos deixarão na cinza
das vastas folhas envidraçadas: nem
o astrológico número das horas
autorizadas pela autoridade e a sua penumbra.
a «penumbra da autoridade» vem vestida
de muitos horizontes com, aqui ou além, um barco
de velas estilhaçadas, ou a capa de um livro
de viagens na vitrina.
então o amor mistura-se com as coisas breves,
os pássaros, o rumor dos alicates na gaveta branca.
foi esta a sua história? esta canção pertence-lhe?
a «greve» alourou-lhe as sobrancelhas? este olhos
têm o plástico ao contrário. e o ruído
das torneiras no balde, mesmo
à beira do precipício,
é um inconveniente que convém manter
sob vigilância.


em Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 83.

(...)


Cai uma chuva miudinha. A mim roubaram-me o guarda-chuva na sala dos professores. Devem achar que tenho cara de Gene Kelly. O dia está cinzento e há um vento que sopra com alguma força. Vai-e-vem. O vento é uma força extraordinária. Mas isso já todos nós sabemos. Até poderia destruir o meu gaurda-chuva e eu ficava molhado na mesma. Lembro-me que me roubaram vários guarda-chuvas quando andei na escola primária e, depois, no ciclo. No entanto, nunca pensei que me voltariam a roubar um.

Das fotos (21)


Sem título
© manuel a. domingos, 2013
(clique na imagem para aumentar)

(...)


Habito um quarto algures nesta cidade. Ainda não sei se estou perto do centro. Ou longe. Não é uma cidade acolhedora. Com chuva e vento torna-se ainda menos. O quarto tem uma decoração simples: uma cadeira, três quadros, um pequeno crucifixo, uma mesa-de-cabeceira e um pequeno candeeiro. E, é claro, a cama. Resumindo: o suficiente. Tem, ainda, uma pequena varanda fechada. É um terceiro andar. Lá fora os carros passam durante todo o dia e durante grande parte da noite. Dizem que é um dos dormitórios da grande cidade. Da capital. Não sei se o é. Dormir é coisa que aqui não faço lá muito bem.

Um poema de Vergílio Ferreira



Só eu o sei, e porque mo disseste?
A minha responsabilidade agora é horrível.
Recebi o teu aviso, tínhamos o céu já preparado
com a noite que lhe competia e o seu absoluto de limpidez,
com o absoluto de um destino.
E havia estrelas novas, fabricadas de propósito,
como a alegria de uma criança a quem vestiram de preto.
Há Inverno à nossa volta com o frio da nossa humildade
e acendemos o lume para estarmos mais perto de nós.
E encomendou-se um pouco de neve para a celebração do início.
E bebeu-se um vinho intenso até à ternura por nós mesmos,
para a vida caber toda dentro da nossa comoção.
Tudo isto tinha que ver com o tencionado encantamento
e o que se combinou ser a esperança, a propósito de tu vires
e confirmares a esperança de que a trouxesses contigo.
No fundo da noite, há o silêncio dos homens,
que é de quem já disse tudo e é altura de tu dizeres.
Tudo isto é muito triste, não sei se fazes ideia.
Como é que eu vou poder agora explicar-lhes?
Vê-los erguer para mim os olhos necessitados,
todos junto da porta à espera que batas à porta?
Tudo fora já experimentado nas combinações possíveis,
não talvez de se ser feliz, mas de ser plausível pensá-lo.
Não, não vou agora dizer-lhes que nunca mais irás voltar,
que a fábula se esgotou e é altura de serem homens,
na desgraça miserável de serem maiores do que eles,
na pequena glória portátil de não serem menores do que eles.
Mas não, não vou dizer-lhes, estava eu bem arranjado.
Corriam-me à pedrada ou pregavam-me no madeiro,
que é o que te estão já preparando,
com pregos e martelo nos bolsos,
quando for a altura de esgotares, como os políticos, a esperança
que tinhas prometido,
e aguardarem até ao ano que a trouxesses outra vez.
Porque, enfim, sem esperança,
como diabo se há-de viver?
Estou só e muito enrascado
com o segredo horrível que me anunciaste.
Não o digo a ninguém. Perder a esperança, sim, mas devagar.
Aliás, mesmo a mim, que sou razoavelmente um homem forte,
é um bocado difícil de engolir
essa coisa trágica, nefanda e absolutamente despropositada
de nunca mais voltares, definitivamente,
nunca mais
nunca mais…



em Conta-Corrente 2, Lisboa: Bertrand Editora, 3ª edição, 1990, pp. 340-341.

Brevemente



manuel a. domingos
Vala Comum
Medula
2013


Alto.




Falar de novas vozes e de nova-poesia e de novíssimos é chão que já deu uvas. Em primeiro lugar, e recorrendo a uma frase feita, já nada é novo, pois tudo foi inventado. Em segundo lugar, tivemos, nos últimos anos, estreias literárias em que o autor já não era novo (em idade), nem a sua poesia nova (em relação ao cânone): lembro, por exemplo, os nomes de Nuno Dempster e Soledade Santos. Mais dúbio é falar actualmente, e situando-nos apenas no meio literário, em geração. O que caracteriza afinal uma geração? O ano de nascimento? A década? O ano da estreia literária? As afinidades com este ou aquele grupo (que os movimentos há muito se perderam no tempo)? A questão é que, na realidade, não existe uma geração; existe, antes, a malta. É costume ouvir dizer “a malta da Averno” (e por acréscimo “a malta da Telhados de Vidro”), a “malta da Língua Morta” (e por acréscimo “a malta da Criatura”), a “malta da Deriva”, a “malta da Artefacto”, a “malta da Golpe D’Asa”, a “malta da 4águas”, a “malta da Sítio”, a malta para aqui e a malta para ali. Depois, há os outros.
Assim, e tento em conta o que foi dito anteriormente, torna-se difícil situar António Quadros Ferro (1983). E, daí, talvez não. Uma coisa é certa: António Quadros Ferro tem sido uma presença discreta no actual panorama da poesia escrita em Portugal. Talvez o facto de o autor ter optado por tiragens reduzidas dos seus livros (em edição de autor, bem como no interessante colectivo Páreas Párias), seja justificação. A sua estreia literária deu-se com Um pouco de morte (Edição de autor, 2009). Recentemente, foi publicado Alto. (Páreas Párias, 2012), que diverge – em todos os sentidos – do primeiro volume de poemas. Se em Um pouco de morte António Quadros Ferro opta por um discurso mais prosaico (mas sem cair nas armadilhas que esse mesmo prosaísmo muitas vezes oferece), com poemas perto do quotidiano, em Alto. a economia das palavras é evidente, o quotidiano surge transfigurado, menos literal, as metáforas e as imagens ocupam um lugar privilegiado e preponderante no poema. Não deixa de ser curioso que, no volume de estreia, o título é pedido emprestado a Joaquim Manuel Magalhães; em Alto. a epígrafe é de Gastão Cruz.
Alto. é composto por um conjunto de dezanove poemas, alguns deles não excedendo os dois versos. É aqui, na economia das palavras, que está o ponto forte deste livro de António Quadros Ferro. Poucos são, actualmente, os poetas que conseguem gerar toda uma cosmogonia em apenas dois versos: «À noite há um texto que se inclina até ao tecto/E que se alastra pela boca em todos os objectos engolidos.» (p. 2). No entanto, é o poema inicial que dá o mote às intenções do autor: «Há no alto do poema a determinação/de uma ideia. Uma ascensão/que ama em queda.//E até a morte tem de ser estimada/quando o silêncio sobe na obra.» (p. 1). A Morte – que vigia os versos do livro anterior – continua a ser uma presença constante: «Havia lágrimas, juras e rosas./Visto de cima, o luto, caía do céu.» (p. 3). Ela aparece como afirmação de uma crença: «nenhum mar convulso ganha a transparência do horizonte/e nos espera a todos no cume do céu» (p. 4); mas também como dúvida: «Se subirmos como fumo/Noutra altura seremos a prece da chuva?» (p. 5). Não deixa de ser um dado curioso que estes dois poemas surjam um a seguir ao outro. Podemos afirmar que o poeta se movimenta entre estes dois polos: crença e dúvida.
António Quadros Ferro pratica em Alto. aquilo que ele próprio designa de «abstração sem lirismo» (p. 15), procurando ir ao osso, ao nervo, deixando no poema aquilo que só ao poema pertence: «Era tudo um verso/teoricamente no alto/em baixo havia pétalas prateadas/que o texto arrancou às raízes.» (p. 19).

António Quadros Ferro, Alto., Lisboa: Páreas Párias, Novembro 2012, 19 pp.