Programa pré-festival



[MAL DITO]
festival de poesia em Coimbra


₁ª Edição
21 a 24 de Março de 2013

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PROGRAMA PÉ-FESTIVAL
porque as coisas da poesia acontecem por aí 

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Sábado, 02 de Março

18h3o Apresentação de livro Revisitación/Revisitação de Fernando Aguiar e

Inauguração de Exposição dos Originais de Poesia Visual que o Compõem

Apresentação por Manuel Portela

          @ Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho

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Sábado, 09 de Março

18h00 Apresentação de livro “A Fábrica” de Vasco Gato

           @ Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho

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Domingo, 10 e 17 de Março

15h00-18h00 Sessões de tradução Colectiva de Antologia de Poesia Mexicana

Restrito ao grupo de tradução @ Galeria Santa Clara

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Sábado, 16 de Março

10h00 Inauguração de Exposição de Pintura, Desenho e Escultura de Renato Ribeiro

          @ Museu Municipal de Coimbra, Edifício Chiado

Organização Câmara Municipal de Coimbra

15h00 Inauguração de Exposição de Fotografia

“Entre nós e as palavras, os emparedados” - pelo Colectivo Pescada nº5

          @ Antigo Colégio Camões, Rua de Luís de Camões

18h00 Apresentação de Projecto Editorial - Edições Besouro

Lançamento de Livro “Os Peixes Melancólicos” de Carlos Veríssimo

          @ Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho


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Parece que está prevista a queda de neve. Aqui faz muito frio. Não lembro a última vez que vi neve a cair. Curioso: sinto falta de acordar de manhã e ver tudo branco. Mas isso agora pouco importa. O importante é que hoje até foi fácil estacionar o carro.

Karl Kraus


Cena 10

Casa da família Aguenta

A MÃE: Em casa tirainde as sandálias, uma pessoa nem ouve o que diz!
UM FILHO: Mãe, atão hoje não há outra vez nada pra comer?
A MÃE: Grande atrevido, espera aí que já te ensino... (Faz menção de se atirar a ele. Tocam à porta) É o pai. Ele foi prà bicha dos nabos, oxalá...
(Ouve-se o matraquear de sandálias. O pai, vestido com um fato de papel, aparece à porta)
OS FILHOS: Pai, pão!


em Os Últimos Dias da Humanidade, tradução de António Sousa Ribeiro, Lisboa: Antígona, 1ª edição portuguesa, p. 261.

Um poema de Mariano Peyrou


As carícias inventadas

Éramos tão infelizes e como
temos saudades disso. Já não
suportas a dor que te causam
as canções, a decoração
de certas montras. Pressinto
que irei para o jardim daqui a uns minutos.

O pior é que para ela, embora
se possam referir e reunir lembranças,
é outra coisa: todos assumem as fronteiras
sem dramatismos, o que não indica nada,
uma inércia, um macaco atrás das grades
da zoologia. Depois
começou a escurecer.


em O Discurso Opcional Obrigatório - Antologia Poética, selecção e tradução de Manuel de Freitas, prefácio de José Ángel Cilleruelo, Lisboa: Averno, 2009, p. 57.

Estados Filosóficos (71)


O horror de encontrar um pouco de nós no outro.

Mulher Ilustrada




Quando se caracteriza determinada forma de poesia com o adjectivo de feminina, isto é, poesia feminina, muitos são aqueles que saltam nas suas cadeiras. A poesia não tem género. É como os anjos, dizem. No entanto, a realidade é muito diferente: existem poetas e poetisas; quer se queira ou não, isso reflecte-se na poesia que escrevem. É claro que há poetas que escrevem como poetisas e poetisas que escrevem como poetas. Há, ainda, poetas que escrevem como poetas. E poetisas que escrevem como poetisas. Maria Sousa (1969) pertence a este último grupo.
Depois de Exercícios para o endurecimento das lágrimas (Língua Morta, 2010), Maria Sousa apresenta-nos o seu segundo livro: Mulher Ilustrada (do lado esquerdo, 2013). O título remete o leitor para certos almanaques muito comuns nos anos 50 e 60 do século passado, que se caracterizavam pelos conselhos domésticos que davam às senhoras donas de casa, espécie de exercícios de aperfeiçoamento em prol do equilíbrio familiar e do bem-estar social. Neste ponto, e concentrando-nos apenas no título, há uma certa continuidade entre o primeiro e o segundo livro de Maria Sousa. Se esta continuidade é propositada, ou fruto da imaginação deste vosso escriba, só a autora poderá revelar. Contudo, uma coisa é certa: os poemas de Mulher Ilustrada são tudo menos exercícios de aperfeiçoamento doméstico.
O confessionalismo continua a ser, em Mulher Ilustrada, uma característica bastante presente. Talvez a influência, ou a sombra, de Anne Sexton (da qual Maria Sousa é exímia tradutora) paire sobre este livro. Como sabemos o confessionalismo na poesia portuguesa actual é vinco, depois de ter sido passado a ferro durante alguns anos. É claro que muito se poderá dizer sobre o tema, pois desde Rimbaud que eu e outro deixaram de ser o que eram. Apesar da dificuldade, arriscamos em dizer que a poesia de Maria Sousa é assumidamente confessional: «há várias maneiras de começar o dia/quando acordo fumo um cigarro//coso silêncios à pele/num quarto inteiro de palavras vazias/que se repetem como rituais//durante semanas ensaiei regressos/apesar das paredes vazias/não deixo de fingir que não estou só» (p. 16); «por vezes invento esperas onde/sou a rapariga que desfaz o verde/em memórias» (p. 23). É claro que o eu só se faz no outro. Só existe confessionalismo se existir alguém, outro, que ouça. O leitor pode ser o outro. Mas existe um outro na poesia de Maria Sousa. Quem é ele?
Para tentar responder a esta questão socorro-me das palavras de Carlos Leite na sua introdução a Trabalhar Cansa de Cesare Pavase: «fala na primeira pessoa para alguém que está ausente (…) em versos (…) impregnados de uma musicalidade vibrante mas dolente de nostalgia, de cansaço, de renúncia (…)». O outro, em Mulher Ilustrada, está, sem dúvida, ausente: «apagado o que desta casa eram vozes/desenhei-te com o som dos meus passos no soalho/na parede pintei uma cama//com tudo preparado para o resto dos objectos//ficou a cicatriz duma despedida/um pedaço de noite que me sabe ausente» (p. 19). A autora procura-o, recorda-o, porque ele é vital à sua existência, como pele ou peça de roupa que a autora usa perto da sua pele: «nos dias em que se espera silêncio/soletro-te onde tudo o que não é palavra é pele» (p. 20); «porque não te sinto/regresso todos os dias/ao vestido que guardei para dias de frio» (p. 21); «sei que falar de ausência é chamar-te para o poema» (p. 33); «digo que faço mapas das lágrimas//mais do que água é inventar paisagens onde/te faço memória//qualquer coisa entre o olhar e o vazio/de dizer palavras contadas pelos dedos» (p. 37).
Uma outra característica, muito própria da poesia de Maria Sousa, é a melancolia. Como Pedro Santo Tirso refere no prefácio a Mulher Ilustrada: «A sua poesia é uma forma de estarmos no meio da melancolia sem nos amarguramos.» (p. 6). Apesar de alguma amargura, os poemas de Mulher Ilustrada não são frios. Maria Sousa consegue esse equilíbrio, algo que é muito difícil em poesia.

Maria Sousa, Mulher Ilustrada, prefácio de Pedro Santo Tirso, Coimbra: do lado esquerdo, 2013, 42 pp.

Estados Filosóficos (70)


O Portugal profundo não está no Interior do país. Está no comboio suburbano Rossio-Sintra.

(...)


Um dia de sol é um dia de sol. E hoje é um dia de sol. Pouco mais há a dizer. É um dia de sol. Está um dia de sol. O sol.


Adenda (12h49): ainda não me habituei à nova casa, ao seu silêncio, ao corredor mal-iluminado, à casa-de-banho sem janela para fazer desaparecer o vapor do duche. À minha cara no espelho da "farmácia". Ainda não me habituei ao barulho nocturno dos carros. À luz que entra pela persiana que não corre até ao cimo. Preciso de escuridão para dormir. Ainda não me habituei à ideia de ter que me habituar. Ou talvez não. Mas sim: está um dia de sol.

Adenda (22h31): à vizinha do 2º FRT deu-lhe para falar alto. A persiana, há pouco, correu toda até ao cimo. Há escuridão suficiente no quarto.

(...)


As tardes de Domingo são sempre tardes de Domingo: sem jeito, paradas, de barriga cheia, pensar na viagem que se fará à Segunda (quando há viagem a fazer). Lembro-me de outras tardes de Domingo. Daquelas que demoravam mais tempo, pois o Tempo era algo ignorado, que passava (apenas) sem ter em si o peso de tudo aquilo que o Tempo arrasta. O que vale ainda é a música que se ouve e os livros que se lêem. Neste momento leio Os Últimos Dias da Humanidade, de Karl Kraus. As tardes de Domingo. Todos os Domingos.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (10)



Ando sem vontade de escrever. Não me apetece pegar no lápis. Ando com fobia ao word. Gostava, por momentos, de não saber escrever. E quando digo não saber escrever é o mesmo que dizer não saber ler. Nunca ter ido à escola. Nunca ter lido certos livros. Este, por exemplo. A ignorância, como sabemos, é uma benção. Já aqui o disse: a leitura de Michaux, depois dos trinta, marcou-me mais do que a leitura de Rimbaud aos dezoito. Quem nunca leu este autor belga devia, desde já, procurá-lo por aí: «É raro encontrar alguém sem que eu lhes bata. Há quem prefira o monólogo interior. Eu não. Gosto mais de bater.». Michaux é um poeta que nos obriga a viajar. As suas viagens – principalmente as interiores – lutam contra a sombra; procuram o assombro.