Das fotos (21)


Sem título
© manuel a. domingos, 2013
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50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (9)




Quanto ainda não sabia o que era a Bertrand (a primeira vez que entrei numa foi no dia 22 de Abril de 2000, antes de um concerto de Nick Cave no Coliseu, na Avenida de Roma), a minha biblioteca pessoal ia ganhando número com livros comprados no Senhor Zé da Alice e com livros do Círculo de Leitores. O Círculo de Leitores foi, durante anos, o meu contacto trimestral com o mundo das novidades literárias e com os clássicos. A Peste foi lá comprada. Na altura ainda não havia internet ou Google que nos valesse, isto é, pouco ou nada sabia do autor. Foi uma colega minha que me falou do livro. Li-o numas férias de Verão (como quase sempre, naquela altura). Não sei, sinceramente, o que mais me impressionou no livro. Sei, apenas, que nunca mais perdi o rasto a Camus. É um autor muito cá de casa.

Das fotos (20)


Sem título
© manuel a. domingos, 2013
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Um poema de Henry Deluy



Não uses mais essa camisa puída. – Nem
As calças remendadas, as alpercatas esburacadas,
O boné sujo. – Não vistas mais o teu fato
Domingueiro, a camisa sem mangas, o lenço
De seda branca. – Usa antes uma casaca,
Uma cartola, uma gravata às pintas.
Ou mesmo uma boina basca.

*

Sorri.


em Primeiras Sequências, tradução colectiva (Mateus, Setembro-Outubro de 200) revista e apresentada por Laureano Silveira, Lisboa: Quetzal, 2002, p. 42.

(...)


Dias há em que dou ordens a mim próprio para fazer as coisas. Levanta-te, manuel. Lava a cara, manuel. Liga a aparelhagem, manuel, e põe uma música porreira, manuel. Vai para debaixo do chuveiro, manuel. Toma o pequeno-almoço, manuel. Há dias assim. Em que só vou lá com ordens de comando a mim próprio.

(...)


Com menos 6% no bolso fui passear. Vi a chuva cair. Imaginei que poderia ser neve, mas neve aqui não há. Regresso a casa e valem-me os livros e os discos-compactos comprados numa altura em que ainda tinha mais do que 6% a menos no bolso. A vida, afinal, não é assim tão má. Nem ingrata. Às vezes é apenas um pouco cadela. 

Um poema inédito de Jorge Aguiar Oliveira



Dorme

podes dormir
dormir o dia todo
todos os dias
pelos dias

podes ir dormir
dormir
ignorando emoções
as lágrimas

continua a dormir
a dormir
para acordares
somente
quando sentires
a festa da morte
na tua face 

até lá
segue a dormir
no desconhecido
respirando
tranquilamente

vá, dorme

(...)


Falar do banal, do vento que tudo arrasta, de guarda-chuvas abandonados nas estradas, de pouca gente nas ruas e sempre a correr. Falar da noite passada. Das coisas a arrastar no terraço dos vizinhos. Da chuva a bater forte. Pensar: somos mesmo pequenos. Pequenos nestes nossos corpos ridículos e perenes. Frágeis. Voltar a adormecer e acordar passados uns minutos ou horas? O mesmo som de antes. 

(...)


Tardes há em que nos assaltam certos versos. Hoje foi a vez de Francisco Brines: «Busquei o azul, perdi a juventude». Estes fizeram-me lembrar aqueles outros de Rimbaud: «Par délicatesse/J'ai perdu ma vie.». Desconheço a razão de ter sido hoje, e não ontem, a memória destes versos. Coisas há que não têm explicação possível. Talvez tenha sido a chuva de hoje e não a de ontem; ou o café de hoje e que me soube aos primeiros, embora eu pouca recordação tenha deles. A memória é, sem dúvida, uma senhora traiçoeira.

(...)


Vim ontem até Manteigas. Atravessei a Serra. Alguma neve. Muito frio. Hoje o frio continua. Em casa o aquecimento central dá conta do recado. Lá fora o vento sopra e as ruas desertas. Andei por elas hoje de manhã e agora à tarde. No centro da Vila cruzei-me com um tio e uma tia. Amigos dos meus pais. Rapazes e raparigas que não conheço e que olham para mim como se eu fosse de fora. Dez anos pelo país a cumprir com aquilo que é exigido: trabalhar. Oito anos na Guarda a cumprir com aquilo que foi exigido: estudar. Dezoito anos fora desta Vila. Só aos fins-de-semana, férias. Mas o frio é o mesmo. E a maneira como olham para mim: também.  

(...)


Há muito que não vejo notícias. Que não leio notícias. É uma questão de higiene pessoal. É claro que não ando alheado. Com o cheiro a merda que o país emana, é impossível. E sei muito bem que nem só de poesia vive o homem. A poesia, na realidade, nunca encheu a barriga a ninguém. Nem uma leve sensação de enfarto ela provoca. Embora haja quem arrote, por tudo e por nada, à conta da poesia. 

Um poema de Rui Magalhães


História da habitação

O que escrevo é uma história da habitação
vista de longe à sombra de um oráculo
entre orifícios de pedra.
Invento assim a voz do implacável curso da perdição.
E derrubo as últimas ruínas da eternidade.

A mulher cativa insinua-se na sombra vã da matéria
e entre o rumor das sucessivas translações da noite adormece
no destino das coisas e da imitação

Os olhos da casa produzem fragmentos de substância viva
mármore e sal
vidros silenciosos que circundam a história imensa


em A Lua Fértil, Porto: Exercício de Dizer, 1ª edição, 1986, p. 9.