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| Sem título
© manuel a. domingos, 2013
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50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (9)
Quanto ainda não sabia o
que era a Bertrand (a primeira vez que entrei numa foi no dia 22 de Abril de
2000, antes de um concerto de Nick Cave no Coliseu, na Avenida de Roma), a minha biblioteca pessoal
ia ganhando número com livros comprados no Senhor Zé da Alice e com livros do
Círculo de Leitores. O Círculo de Leitores foi, durante anos, o meu contacto
trimestral com o mundo das novidades literárias e com os clássicos. A Peste foi lá comprada. Na altura ainda
não havia internet ou Google que nos valesse, isto é, pouco ou nada sabia do
autor. Foi uma colega minha que me falou do livro. Li-o numas férias de Verão
(como quase sempre, naquela altura). Não sei, sinceramente, o que mais me
impressionou no livro. Sei, apenas, que nunca mais perdi o rasto a Camus. É um
autor muito cá de casa.
Um poema de Henry Deluy
Não uses mais essa camisa
puída. – Nem
As calças remendadas, as
alpercatas esburacadas,
O boné sujo. – Não vistas
mais o teu fato
Domingueiro, a camisa sem
mangas, o lenço
De seda branca. – Usa antes
uma casaca,
Uma cartola, uma gravata
às pintas.
Ou mesmo uma boina basca.
*
Sorri.
em Primeiras Sequências,
tradução colectiva (Mateus, Setembro-Outubro de 200) revista e apresentada por
Laureano Silveira, Lisboa: Quetzal, 2002, p. 42.
(...)
Dias há em que dou ordens a mim próprio para fazer as coisas. Levanta-te, manuel. Lava a cara, manuel. Liga a aparelhagem, manuel, e põe uma música porreira, manuel. Vai para debaixo do chuveiro, manuel. Toma o pequeno-almoço, manuel. Há dias assim. Em que só vou lá com ordens de comando a mim próprio.
(...)
Com menos 6% no bolso fui passear. Vi a chuva cair. Imaginei que poderia ser neve, mas neve aqui não há. Regresso a casa e valem-me os livros e os discos-compactos comprados numa altura em que ainda tinha mais do que 6% a menos no bolso. A vida, afinal, não é assim tão má. Nem ingrata. Às vezes é apenas um pouco cadela.
Um poema inédito de Jorge Aguiar Oliveira
Dorme
podes dormir
dormir o dia todo
todos os dias
pelos dias
podes ir dormir
dormir
ignorando emoções
as lágrimas
continua a dormir
a dormir
para acordares
somente
quando sentires
a festa da morte
na tua face
até lá
segue a dormir
no desconhecido
respirando
tranquilamente
vá, dorme
(...)
Falar do banal, do vento que tudo arrasta, de guarda-chuvas abandonados nas estradas, de pouca gente nas ruas e sempre a correr. Falar da noite passada. Das coisas a arrastar no terraço dos vizinhos. Da chuva a bater forte. Pensar: somos mesmo pequenos. Pequenos nestes nossos corpos ridículos e perenes. Frágeis. Voltar a adormecer e acordar passados uns minutos ou horas? O mesmo som de antes.
(...)
Tardes há em que nos assaltam certos versos. Hoje foi a vez de Francisco Brines: «Busquei o azul, perdi a juventude». Estes fizeram-me lembrar aqueles outros de Rimbaud: «Par délicatesse/J'ai perdu ma vie.». Desconheço a razão de ter sido hoje, e não ontem, a memória destes versos. Coisas há que não têm explicação possível. Talvez tenha sido a chuva de hoje e não a de ontem; ou o café de hoje e que me soube aos primeiros, embora eu pouca recordação tenha deles. A memória é, sem dúvida, uma senhora traiçoeira.
(...)
Vim ontem até Manteigas. Atravessei a Serra. Alguma neve. Muito frio. Hoje o frio continua. Em casa o aquecimento central dá conta do recado. Lá fora o vento sopra e as ruas desertas. Andei por elas hoje de manhã e agora à tarde. No centro da Vila cruzei-me com um tio e uma tia. Amigos dos meus pais. Rapazes e raparigas que não conheço e que olham para mim como se eu fosse de fora. Dez anos pelo país a cumprir com aquilo que é exigido: trabalhar. Oito anos na Guarda a cumprir com aquilo que foi exigido: estudar. Dezoito anos fora desta Vila. Só aos fins-de-semana, férias. Mas o frio é o mesmo. E a maneira como olham para mim: também.
Pensamento do dia
Nils Petter Molvaer
Khmer
Festival Jazz Baltica 1998
Estados Filosóficos (69)
Chegar ao fim do dia, com um sentido estético do mesmo, é uma tarefa difícil.
O Visitante Paralelo - José Carlos Soares
(...)
Há muito que não vejo notícias. Que não leio notícias. É uma questão de higiene pessoal. É claro que não ando alheado. Com o cheiro a merda que o país emana, é impossível. E sei muito bem que nem só de poesia vive o homem. A poesia, na realidade, nunca encheu a barriga a ninguém. Nem uma leve sensação de enfarto ela provoca. Embora haja quem arrote, por tudo e por nada, à conta da poesia.
Mulher inclinada com cântaro - Jaime Rocha
Um poema de Rui Magalhães
História da habitação
O que escrevo é uma história da habitação
vista de longe à sombra de um oráculo
entre orifícios de pedra.
Invento assim a voz do implacável curso da perdição.
E derrubo as últimas ruínas da eternidade.
A mulher cativa insinua-se na sombra vã da matéria
e entre o rumor das sucessivas translações da noite adormece
no destino das coisas e da imitação
Os olhos da casa produzem fragmentos de substância viva
mármore e sal
vidros silenciosos que circundam a história imensa
em A Lua Fértil, Porto: Exercício de Dizer, 1ª edição, 1986, p. 9.
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