Balanxo 2012


Como todos os anos, e a pedido do Américo Rodrigues, aqui está o meu "balanxo".

Um poema de Roberto de Mesquita


Sábados

A doce alma dos sábados rurais
Afagando as aldeias pela tarde,
Na hora em que fumegam os casais
E o fulvo ocaso em vivas chamas arde!

Anunciativos, sob o azul docel,
Cantam sinos na tarde que descora.
Lembram a voz do anjo Gabriel
Quando foi visitar Nossa Senhora.

Sábado ao pôr do Sol... Com que doçura
O seu celeste afago tudo embala!
Dir-se-á que o próprio campo se satura
Da bem-aventurança que ele exala...


em Almas Cativas e Poemas Dispersos, prefácio de Jacinto do Prado Coelho, comentário de Marcelino Lima, fixação do texto, recolha de dispersos e notas de Pedro da Silveira, Lisboa: Edições Ática, 1ª edição, 1989, p. 35.

(...)


Equilibrados os níveis de açúcar no sangue, retomo a vida. Portanto, esqueço o país. Há algum tempo que o país deixou de me interessar. Sempre que penso no meu país apetece-me pensá-lo, isto é, pôr-lhe um penso*.


*com a devida vénia a Vergílio Ferreira.

Feliz Natal






Amadeu Baptista Américo Rodrigues Ana Catarina Martins Ana Salomé Ana Sofia André Benjamim André Moura e Cunha Anónimo Bem-educado António Baeta António Cabrita António Godinho Antonio Orihuela António Quadros Ferro Carlos Veríssimo Catarina Barros Changuito Daniel Rocha Eduardo Pitta Fernando Esteves Pinto Fernando Machado Filipe Guerra Helder Moura Pereira Henrique Cardina Henrique Manuel Bento Fialho Hugo Milhanas Machado Inês Dias J. Rentes de Carvalho João Camilo João Luís Barreto Guimarães Jorge Aguiar Oliveira Jorge Fallorca José Bértolo José Mário Silva José Miguel Fernandes José Miguel Silva José Monteiro José Pontes Luís Filipe Cristóvão Luís Filipe Parrado Manuel Fernando Gonçalves Manuel Jorge Marmelo Manuel Poppe Maria João Lopes Fernandes Maria Leonor Castro Nunes Maria Ravasco Maria Sousa Maria Travassos Miguel de Carvalho Miguel Martins Nuno Abrantes Paulo da Costa Domingos Paulo Rodrigues Ferreira Pedro Góis Nogueira Ricardo Álvaro Rita Faria Rui Almeida Rui Bebiano Rui Manuel Amaral Sandra Cruz Seixas Peixoto Sérgio Currais Sérgio Lavos Susana Miguel Tolan Vasco Bento

Um poema de Max Martins


O Estranho

Não entenderás o meu dialeto
nem compreenderás os meus costumes.
Mas ouvirei sempre as tuas canções
e todas as noites procurarás o meu corpo.
Terei as carícias dos teus seios brancos.
Iremos amiúde ver o mar.
Muito te beijarei
e não me amarás como estrangeiro.


em Poesia Brasileira do Século XX - Dos Modernistas à Actualidade, selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 2002,  p. 253.

(...)


Fui almoçar com um primo meu que decidiu ir trabalhar para a Escócia. Regressou, por estes dias, para o óbvio. Entre a conversa, sobre hábitos e costumes das Terras Altas, perguntei-lhe a razão da sua ida para a Escócia: porque estou a fazer aquilo que gosto e, aqui, não podia fazer; porque, aqui, eu e um colega desenvolvemos um projecto desde o zero (trabalha na área da programação e robótica) e para continuarmos cá davam um aumento de 30 euros (ao fim de quase 3 anos de trabalho sem serem aumentados). Parece que na Escócia já foi aumentado. Está lá há 6 meses.

Discos pedidos (30)




Em 98 o fim do mundo estava tão próximo como agora. Nós bebíamos à sua saúde. Que viesse rápido e sem dor. A banda-sonora estava escolhida. Naquela pequena cave do Villa a cerveja e outros venenos coloridos pareciam nunca acabar. Corpos dançavam ao ritmo lento da batida. Transpirava-se. O muito fumo faziam parte do argumento. Cada um escrevia e realizava o seu próprio filme. No meu predominava a roupa preta, o gosto pelos cantos com pouca luz. Em Manteigas também era possível o cultivar o spleen. Nunca precisei de urbanismos.

Penumbra pelos leitores



Bem diferente é a Penumbra de manuel a. domingos, poeta simplista a fazer-se de parvo onde há uma melancolia doméstica resolvida da única maneira possível. E essa maneira possível única reside em obviar o óbvio, simplesmente simplificar a mais complexa das dimensões humanas. Digo: doméstico; mas sei que ao dizê-lo digo também o contrário. Isto é, a dúvida que assombra tudo é esse tédio do absurdo a que certos existencialistas chamaram náusea. Creio que manuel a. domingos é um poeta do absurdo (talvez involuntariamente, talvez não). Mesmo quando escreve poemas tão pueris como esse último, com almofadas debaixo do cu, ou aqueloutro com cabelos brancos na idade de Cristo, ele revela a estupidificação das vidas comuns, as nossas, as dos poetas, esses seres fantásticos e únicos, excluídos pelo filósofo da cidade ideal, incluídos por si próprios na República da parvalheira. Aqui abraçam a mulher no silêncio da casa, remexem o café nos lugares-comuns de Outubro, olham para tudo sem novidade e para o resto sem surpresa…

Versões: Stephen Crane


XIX

Um deus irado
Batia num homem;
Esmurrava-o aos berros
Com retumbantes socos
Que se ouviam por toda a terra.
Todas as pessoas apareceram a correr.
O homem gritava e lutava,
E mordia com força os pés do deus.
As pessoas gritavam,
“Ah, que homem terrível!”
E –
“Ah, que deus formidável!”


Stephen Crane, «XIX», em The Black Riders & Other Lines (1895), retirado da Electronic Text Center, University of Virginia Library.


Em repeat



Scott Walker
Bish Bosch
4AD
2012

Um poema de Manuel Afonso Costa


Talvez que chegue a hora
de sermos a sombra que desce
ao fundo da noite
E se uma palavra cair
na eternidade dessa sombra
que ela seja como tristeza
que se afunda na fundura
de um olhar
O homem lança seus olhos
sobre a seara
Alguma vezes acontece anoitecer
tão depressa


em Os Limites da Obscuridade, Lisboa: Caminho, 1ª edição, 1991, p. 24.

Amanhã



Américo Rodrigues
A Casa Incendiada
Luzlinar/Bosq-íman:os
2012


O livro vai ser apresentado no dia 8 de Dezembro, pelas 17.30 horas, na Biblioteca Eduardo Lourenço (Guarda), por José Manuel Mota da Romana.

Fort Apache (8/10)



Lí por aí


O western coloca em conflito tudo o que é verdadeiramente importante, as culturas, os géneros, o homem e a natureza, o campo e a cidade. É o mais filosófico dos “tipos” de cinema, sem deixar de ser histórico, pragmático, romântico, humorístico, pois no bom western todas estas dimensões confluem sob o signo da Vida. Os gregos só inventaram a tragédia porque ainda não havia cowboys, mas a criação do universo segundo os textos bíblicos pode ser considerado o primeiro dos westerns alguma vez escrito.

(...)


Passou um ano desde a publicação de Teorias. Três leituras atentas (Henrique Fialho, António Cabrita e José Monteiro). Três apontamentos interessantes (Daniel Rocha, André Benjamim, Pedro Góis Nogueira). Não houve apresentações, nem lançamentos, nem leituras. Apenas uma conversa a três vozes: eu, Américo Rodrigues e Daniel Rocha: uma noite no Café-Concerto do Teatro Municipal da Guarda. E é tudo.

Um poema de Sebastião da Gama


Os Deuses

Houve-os na Grécia antiga,
houve-os em Roma.

Onde estarão agora,
abscônditos mas vivos?

Seu exemplo nos falta.

—: Somos pálidos, tristes, receosos.

Onde estarão, que apenas
sabem deles as árvores?


em Campo Aberto, prefácio de Maria de Lourdes Belchior Pontes, Lisboa: Edições Ática, 2ª edição, 1962,   p. 25.

Helga Moreira


Não tenho muitas poetisas nas minhas prateleiras. Mas tenho alguns livros de Helga Moreira. Esta nossa poetisa anda muito esquecida. Sinceramente, não entendo a razão ou as razões. Cheguei até à sua poesia quando, na cidade da Guarda, ela surgiu numa antologia dedicada a escritores do distrito. Eu desconhecia, por completo, a sua obra. Gostei daquilo que li e procurei os seus livros. Fui à Livraria Municipal da Guarda e lá encontrei alguns. Na altura aquilo (a Livraria) ainda funcionava decentemente. No outro dia, Américo Rodrigues relembrou-a (e bem!) no seu blogue. Helga Moreira é muito cá de casa. E não é devido ao facto de ser da Beira Alta, mas sim porque a sua poesia fala muito cá dentro.

Estados Filosóficos (68)


Aquando da expulsão do Paraíso, Deus reduziu o Homem ao grau zero da existência. Passados os portões, o Homem logo procurou o menos zero.

Estados Filosóficos (67)


Não é tanto a pergunta que interessa, mas sim a questão.