Discos pedidos (29)



Trazias na mão algumas promessas. Não tinhas medo de falhar, pois era esse o teu objectivo. Falhar sempre e melhor. Tal qual o escritor irlandês que escrevia em francês e que eu, apesar dos teus conselhos, não li e ainda hoje também. O frio era uma coisa comum na cidade. Escrevi, mais tarde, que tem um nome diferente em cada rua. Não sei se sabes mas era de nós que falava. A mim, muitas vezes, faltava-me a esperança. Até mesmo a esperança de um dia falhar. Não sabia, ainda, que todos nós estamos fadados ao falhanço. Na realidade é a única coisa em comum que todos nós temos: estamos todos condenados ao falhanço. Só que alguns de nós falham sempre e melhor. Outros nem por isso. É o meu caso. Não sei qual será o teu. Ainda.

Penumbra pelos leitores


Pedro Góis Nogueira numa nota sobre Penumbra.

Um poema de José Ferreira Borges


Quatro indisposições de velhice


1.

Encontro-me, como ninguém, a beber
esta cerveja e a sua cor de Outono. Descem
ao longo da tarde as raparigas sem saia.
Já não me adianta clarificar o gosto.
Na juventude, sim: permitia
que as janelas se abrissem e uma folha
viesse da tília próxima acrescentar-se
ao meu dicionário.


em Periférica, nº 8, Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho, Inverno de 2004,  p. 65

Ontem, lá no adro



"O Adro às Sextas"

Poemas de Charles Bukowski lidos e traduzidos por mim. Podem encontrar um pouco mais aqui e aqui.


Estados Filosóficos (65)


Certo dia, ao sair de uma grande superfície comercial com várias embalagens de comida para gato, fui interpelado por um sem-abrigo que me pediu uma moeda. Disse que não tinha trocado. E ele, prontamente, disse-me que não se importava nada de ser gato.

Estados Filosóficos (64)


Um dia li que o grau civilizacional pode ser medido através da maneira como as pessoas tratam os seus animais. Quando nas ruas vejo um cão "vestido" com uma espécie de manta protectora e, mais à frente, encontro um sem-abrigo, rapidamente sei em que grau civilizacional nos encontramos.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (8)




Não, o exemplar que tenho não está a ser leiloado. Nem me atreveria a fazê-lo. A Oeste Nada de Novo é o livro que, até hoje, mais vezes li. É um livro fantástico; do camandro, direi. Li-o aos 16 anos. Andava lá por casa, esquecido numa prateleira. Aquilo que me levou a lê-lo foi o facto de ser um livro de guerra. Mas afinal não. É um livro sobre homens. Sobre o Homem. As suas questões, dúvidas, ansiedades. Deus e o Diabo. É um livro que aconselho sempre. É um grande livro. 

Álvaro de Campos


Mão amiga apresentou-me ao Senhor. Li os seus poemas (ou poesias?) numa altura em que o mundo parecia estar decidido em me tramar (e não, não andava a ouvir Rui Veloso; eram outras as músicas). Li-o durante umas férias de Verão. Em duas noites, se não me falha a memória. É claro que fiquei de boca aberta. Habituado que andava a românticos e ultra-românticos, aquilo bateu-me com uma força enorme. Regresso muitas vezes a ele, principalmente quando os dias começam a ficar mais curtos e o frio aperta. Dão deixa de ser curioso: li-o no Verão; regresso a ele no Inverno. Talvez procure um pouco de calor nas suas palavras. Não sei. Sei apenas que o meu cansaço nunca mais foi o mesmo.

Um poema de Álvaro de Campos



Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles...
Domingo...
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo. —
Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Subtil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!


em Poesias de Álvaro de Campos, introdução, organização e biobibliografia de António Quadros, Lisboa: Europa-América, colecção Livros de Bolso, 3ª edição, 1990, p. 116.



Cosas que tiramos a la basura - Antonio Orihuela



Antonio Orihuela
Cosas que tiramos a la basura
Amargord
2012

Discos pedidos (28)



Uma praia sem lua, ou seria uma lua sem praia? Não recordo. Seja como for: estavas lá. Lá. É sempre bom ter um lugar ao qual chamar . Lá não falta nada. Lá é que se está bem. Lá nunca envelhecemos, somos sempre nós e os nossos 23 anos. Lá, onde a noite era apenas o silêncio das falésias e o vento entre as dunas. Não sei se sabes mas é lá o meu happy place. Quando me sinto acabrunhado é para lá que vou. Fecho os olhos (que a gasolina está cara) e vou até lá. Às vezes também tu lá estás, deitada sobre a areia. Lá, onde ficaste a saber que eu sou uma espécie de lobo solitário que não consegue andar sozinho. Que precisa de companhia. Já viste a carga de trabalhos? Lá, onde o som é outra coisa. Lá.

Um poema de António José Forte


Ainda não

Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração


em A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, selecção e prefácio de Manuel de Freitas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 227.

(...)


O Domingo é uma espécie de não-dia. Há quem diga que é o primeiro dia da semana. Talvez seja por isso que não gosto do Domingo. Ao Domingo sinto a semana que tenho pela frente e dói-me a cabeça. Ao Domingo não me apetece ser. Ao Domingo farto-me.

Estados Filosóficos (63)


Quando ouço que determinada editora é uma descobridora e fazedora de talentos, penso sempre nos talentos que ela evitou descobrir e fazer. E, também, nos talentos que descobriu e desfez.

Manuel de Freitas


Lisboa está a morrer. Disso não tenho dúvidas. As mãos criminosas que agora vedaram uma rua, para que o Condomínio Ramiro Leão possa oferecer segurança à «raça ruiva do porvir», são as mesmas que violentamente exterminaram, em 2008, o Grémio Lisbonense, uma das referências históricas da cidade. Tudo isto se faz, naturalmente, com o apoio tácito dos políticos, que nem sequer se esforçam por esconder a sua dependência de empresários, empreiteiros e especuladores imobiliários. Votar, mais do que nunca, é uma estupidez. Fecha uma taberna, acaba uma livraria, encerra-se uma rua, privatiza-se um jardim. Não tardará que seja o país a fechar, irremediavelmente.


retirado de «As Coordenadas Líricas» em Cão Celeste, nº 2, Lisboa: Outubro de 2012, p. 3

Um poema de Gérard de Cortanze


Suspenso no espaço por pequenos golpes de
infelicidade sonoras, ele esperava a boneca
de argila, a via morta. Inventava-se
grilo na noite e lançava-se no vazio.


em O Movimento das Coisas, tradução de Isabel Aguiar Barcelos, Porto: Campo das Letras, 1ª edição, 2002, p. 122

Philip K. Dick



       Sim, os teus padrões morais são altos, simplesmente não são os mesmos que esta sociedade promove. As reuniões de bloco, por exemplo, tu abomina-las. Os acusadores sem rosto. Os «juvenis», espiões mecânicos. Esta guerra tresloucada pelos arrendamentos. A angústia, a tensão; olha bem para Myron Mavis: nos píncaros da suspeita e da culpa. Tudo se torna pecaminoso. E o medo da contaminação, o medo de também cometer um acto indecente. O sexo é mórbido, as pessoas perseguidas por actos que estão na sua natureza. Toda esta estrutura é como uma câmara de tortura gigantesca, com todos a espiar os outros, a tentar descobrir-lhes um pecado, uma maneira de os destruir. A caça às bruxas, o terror, a censura, a queima de livros. O evitar que as crianças ouçam a palavra mal. A Sociedade Moral foi inventada por doentes e só serve para fazer mais doentes!


em O Profanador, tradução de Manuel Eduardo dos Santos do original The Man Who Japed (1956), Lisboa: Publicações Europa-América, Colecção Livros de Bolso – Ficção Científica, nº 71, s/d, p. 91.

Discos pedidos (27)





Lembro que a primeira vez que fui à cidade sozinho um amigo esperava-me na paragem de autocarro com a promessa de um fim-de-semana. Chovia e continuou a chover nesses três dias seguintes. Falar em dias é uma espécie de eufemismo, pois, naquela altura, vivíamos mais à noite. Lisboa em noites de chuva é das cidades mais tristes que conheço. A banda sonora perfeita costumava ser um qualquer álbum dos Dead Can Dance. Nesse fim-de-semana, porém, foi diferente. Todos nós, sem o sabermos, há muito dançávamos ao som de Cascade. Todos nós, tolhidos pelo assombro, percorríamos as ruas sem que a chuva nos dissesse muito. Procurávamos, apenas, um sítio para beber um pouco de absinto e aquecer. Poucas vezes a fada verde perdoou o atravessarmos os seus domínios. 

Pensamento do dia


Égoïste Platinum Pour Homme




Verdade seja dita: nunca tive uma queixa. Apenas uma rapariga, uma vez, disse que deixava um sabor amargo na boca. Uma outra uma vez perguntou-me a razão da escolha. Disse-lhe: porque sou egoísta, mas não sou um egoísta qualquer. É o meu perfume há mais de 15 anos. E o encontro foi muito simples: uma amigo meu um dia apareceu com uma mão cheia de amostras e disse-me ó manteigas, acho que este aqui é mesmo a tua cara. Já tenho, algumas vezes, caído na tentação de experimentar outras fragrâncias. Mas volto sempre aquele que em mim é original.

Um poema de Ronsard


Quando durmo, nada sinto

Quando durmo, nada sinto,
e em mal e bem indistinto
nada posso conhecer:
não sei aquilo que sou,
nem o que fui, nem se vou
saber o que devo ser.

Vi a lembrança fugir
do passado e do provir;
não sou mais do que vã massa
de bronze em homem moldada,
ou qualquer forma elevada
a guarnecer uma praça.

Mas se vivo tenho alento
que enche meus flancos de vento,
sim, memória em mim não dura;
vede pois o que serei
quando morto jazerei
no fundo da sepultura!

Voando a alma em pleno salto
vai ter com Deus lá no alto
resolver-se nele só;
mas meus corpo, se o enterro,
cerrado em sono de ferro,
nada mais será que pó.


em Alguns Amores de Ronsard, tradução e introdução de Vasco Graça Moura, Lisboa: Bertrand, 2003, p. 139.

Discos pedidos (26)



Não posso precisar quando foi. Apenas que sei que algures li o seu nome num poema. Sim, foi isso. Li esse poema num dia como o de hoje. Para mim os dias em que recordo outros dias são sempre um dia igual a hoje. Alguém poderá dizer assim os dias são sempre iguais para ti. Sim, são. Acordo, levanto-me, sinto que estou vivo. Depois tomo o café. Penso nos dias até ao dia de hoje e sei que ainda estou aqui. No fundo – apesar do meu pessimismo congénito – e em segredo, agradeço todos os dias em que os meus olhos vêem a luz do dia e dos dias. Sei (como não podia deixar de saber?) que um dia irei partir. Às vezes isso deixa-me lixado e penso naquelas sábias palavras proferidas por alguém que desconheço: “vimos ao mundo sem pedir e partimos sem querer”. E no fundo essa é a única verdade. O resto, tudo aquilo que fazemos pelo meio, não interessa lá muito. Mas é tão bom fazê-lo.

Café





Tenho uma esofagite. Tal facto torna a minha relação com o café complicada. Mas, adiante. Parafraseando Guy Debord, posso dizer que aquilo que sem dúvida me marcou a vida inteira foi o hábito de beber café, cedo contraído. Deve ser uma das lembranças mais sensitivas que ainda hoje tenho: o cheiro do café em casa dos meus avós maternos. O ritual que era beber café e comer pão com marmelada. É claro que no início pouco ou nenhum café eu bebia. O grande salto deu-se por volta dos 13 anos quando bebi a minha primeira bica. Depois disso foi um crescendo. Quando comecei a trabalhar o hábito de beber café aumentou exponencialmente. Há quem diga que não consegue, durante a manhã, funcionar sem a primeira bica do dia. Eu vou mais longe: não funciono, durante a manhã, com ou sem café. Continuo, apenas, a bebê-lo.

Eduardo Lourenço



Midas e Semele são a imagem da existência no idealismo absoluto. Absoluta posse, absoluta privação. O que pode ser justificável como tendência ou ideal anula-se ao converter-se em existente. O que está próximo demais deixa de ver-se.


em Heterodoxia I, Lisboa: Gradiva, 1ª edição, 2005, p. 74.

Pensamento do dia



Tom Waits
November
The Black Rider
1993