Estados Filosóficos (60)

 
A tradição cristã criou a dicotomia desejo/amor. O desejo é mau, porque leva à luxúria; o amor é bom, porque leva a uma relação mais profunda com o outro e com Deus. Só que a tradição cristã esqueceu, nesta sua consideração, todo o leque das emoções humanas.

Um poema de Ricardo Álvaro


O amor é a colher de mel na boca.
Explico-me: erguemos a mão à altura da cabeça enxameada e levamos a colher de mel à boca. Tiramos a colher com o movimento próprio de cada um. E o mel incendiado fica suspenso no escuro céu-da-boca, a brilhar, a amadurecer-nos a carne e a adoçar o miolo da nossa existência no seu extremoso processo de maturação. E ficamos ali boquiabertos, pasmados a vida inteira, com a boca escancarada e a colher esquecida na mão.


em O Espantador, Lisboa: Apenas Livros, 1ª edição, 2009, p.11.

Jorge Fallorca



Peguei na mochila e afastei-me. Tudo o que até então aprendera era inútil; tudo o que restava era desandar o caminho, como quem dobra uma meada de destinos.


em O livro do fim, edição do autor, 2012, p. 11.

Estados Filosóficos (58)

 
Cofirmo a minha desesperança e descrença na humanidade quando recebo: dois "likes" numa música pop quase perfeita e nove "likes" numa baboseira qualquer escrita por mim.

(...)


Prometeram trovoada, vento forte, chuva. Muita. Um temporal. Ainda o espero. Ninguém cumpre neste país.

E.M. Cioran


A Criação foi o primeiro acto de sabotagem.


em Silogismos da Amargura, tradução de Manuel de Freitas, Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 77

Jacinto




Morreu o Jacinto. Para alguém de Manteigas (como eu) o Jacinto faz parte da nossa memória colectiva. Tinha defeitos, de certeza, como todos nós. Nunca os conheci. Apenas o sorriso largo, a preocupação em saber como eu estava e por onde andava. O Jacinto morreu. Que a terra lhe seja leve. Que descanse em paz.

Um poema de Salvador Espriu


À Beira do Mar

À beira do mar. Tinha
uma casa, o meu sono
à beira do mar.

Alta proa. Por livres
caminhos de água, a esbelta
barca que eu governava.

Os olhos sabiam
todo o repouso e a ordem
de uma pequena pátria.

Como necessito
contar-te o espanto
que produz a chuva nos vidros!
Hoje cai fechada a noite
sobre a minha casa.

As rochas negras
atraem-me ao naufrágio.
Cativo do cântico,
o meu esforço, inútil,
quem pode guiar-me à alva?

Ao pé do mar tinha
uma casa, um lento sono.



em Mesa de Amigos, versões de poesia por Pedro da Silveira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 253-254.

Judith Herzberg




Sempre gostei muito da Holanda sem nunca lá ter ido. Como gosto de outros lugares da mesma maneira. Não é preciso uma pessoa conhecer um país para saber que gosta dele. Quanto à poesia: a coisa é diferente. É preciso lê-la. E há por aí muito boa gente que gosta de certos e determinados poetas sem nunca os ter lido. Mas isso é outra conversa. A história que hoje trago diz respeito a Judith Herzberg. Quando dei aulas em São Teotónio (ano lectivo 2008/2009) leccionei Português para Estrangeiros. Numa turma havia um grupo de holandeses, bem como alemães, ingleses e uma senhora irlandesa. Um dia pediram-me para eu trazer poesia portuguesa. Eu, em troca, pedi que cada um deles trouxesse poesia dos seus respectivos países: ouvi Yeats com um verdadeiro sotaque irlandês; compreendi melhor Keats lido num sotaque very british; Heinrich Heine com todos os "r" no sítio. E ouvi a poesia de Judith Herzberg dita em holandês. Se eu já gostava da poesia dela, mais fiquei a gostar. As suas palavras são certeiras em qualquer língua. Principalmente estas: «Fica longe das pessoas de bom senso/fica perto dos apaixonados/nem que estejas só e não seja por ti/fica antes num luto perplexo/porque o bom senso é contagioso/e dá sempre cabo deles.»

E.M. Cioran


Aquelas horas em que me parece inútil levantar-me aguçam a minha curiosidade pelos incuráveis. Presos à sua cama, e ao Absoluto, muito devem eles saber sobre todas as coisas! Mas eu apenas me comparo a eles pelas virtuosidades do torpor, pelas ruminações de uma manhã entre os lençóis.

em Silogismos da Amargura, tradução de Manuel de Freitas, Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 43.

Estados Filosóficos (57)


A verdade é que não há maior tragédia do que a vida humana. A sua finitude (li-o algures) é um insulto à nossa inteligência, à nossa capacidade de fazer. Não há maneira de nos redimirmos pelo mais alto. Não há perdão possível para a nossa existência. Talvez tudo não passe de um sonho: é a secreta esperança alimentada pelo Homem.

Uma imagem para o dia



Estados Filosóficos (56)


Pensar: a vida é um circo. Que função posso desempenhar? Demasiadas vertigens para trapezista. Palhaço? Demasiado óbvio.

Versões: Antonio Gamoneda


Não chores, pois ainda tens
o vento e a distância.

O amor é o vento. Sem solução,
o abismo surge no teu olhar.

É certo que me turvas a garganta
com o teu pranto e a tua mão distante.

Não chores ainda: do ar bebes
o aroma da tristeza nas minha mãos.


Antonio Gamoneda, poema sem título retirado de Primeros Poemas - La tierra y los labios (1947-1953)inserido em Edad (Poesia 1947-1986), edição de Miguel Casado, Madrid: Catedra, 6ª edição revista, 2006, p. 78.

António Quadros Ferro


O primeiro verso não tem desígnio, como o poeta não sabe para onde vai, e enquanto os mortos vão receando a solidão, e os vivos se fazem desaparecer, os corpos vão sendo engolidos à procura de nascerem também.


em Um pouco de morte, s/l: Edição do autor, 2009, p. 10

Pensamento do dia


Manuel António Pina 1943-2012




Ainda tinha a esperança de o conhecer pessoalmente. Cheguei à sua poesia tarde. Conheci primeiro as crónicas, a espinha direita. Quando fui menino nunca lhe li os livros que nos dedicou. Até sempre.

Um poema de Dino Campana



Poesia fácil

Paz não procuro, guerra não suporto,
Tranquilo e só vou pelo mundo, e cheio
De cantos sufocados. Como anseio
Silentes névoas de um imenso porto!

Um porto a transbordar de velas leves
Quase a partir pelo horizonte azul
Em doce ondulação, enquanto exul
Perpassa o vento em seus acordes breves.

Acordes tais que o vento em si transporta
Longínquos sobre o mar desconhecido.
Eu sonho. A vida é triste. Estou sozinho.

Oh quando, quando a ardente madrugada
Em que a minha alma acordará no sol,
No eterno sol, fremente e libertada!



em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 195.

A Sul de Nenhum Norte # 8


pode ser descarregada
à borla

Um poema de Vincenzo Cardarelli


"La speranza è..."

A esperança está na obra.
Sou um cínico a quem resta
por sua fé este além.
Sou um cínico que só tem fé no que faz.



em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 216.

(...)


Na rua as pessoas queixam-se que está mais frio do que ontem. Na Serra nevou hoje, penso, daí estar mais frio aqui. Quem tem frio costuma vestir mais uma camisola. Também o faço, quando me acontece. Só não sei, ainda, o que fazer quando tenho frio nos ossos.

Um poema de Luís Filipe Parrado



Poema com duas imagens tiradas a Dylan Thomas

Gosto das noites frias de inverno
quando não estás. Escuto
canções de homens cansados de cantar
e vejo como a solidão
se dispersa no fogo lento da lareira.
Ou releio poemas que me falam das águas
do coração e das suas marés,
amontoo pratos e talheres no lava-loiça,
abro a última garrafa
de um vinho precioso.

Nas outras noites de inverno,
quando estás, nada de semelhante acontece.
A casa mantém-se sóbria, silenciosa,
perplexa. Por isso, desligo as luzes
e ponho-me a seguir os traços
contínuos do teu rosto no escuro,
depois da morte de deus
parece impossível mas a luz irrompe ainda
onde nenhum sol brilha.


em Entre a Carne e o Osso, Lisboa: Língua Morta, 2012, pp. 23-24.

Penumbra



em breve na

Um poema de Marcin Sendecki


Recordação de Celulose

Agora deita-te numa cama limpa.
Agora despe-te e queima a roupa.
A vista da janela que dá para a do
rés-do-chão, e a vista desta, ficam
sobrepostas e divulgadas. E agora é tempo de coisas desagradáveis.
É compreensível. Depois da noite num barco, o sol
parece tão instrutivo que não podemos
fechar os olhos. E vale a pena olhar. Tal como
a prisca atirada para o chão húmido cai no gelo.
Ainda no campo visual, sem pausas para publicidade.

É exuberante. É inevitável.
Afundar-se para alcançar o conhecimento irrefutável.
Enxugar o cabelo e mudar de roupa.
Depois encontrar um lugar à sombra.
O sonho virá silencioso como chuva desfolhante.


em Parcelas, tradução colectiva (Mateus, Setembro de 1999) revista, completada e apresentada por Rosa Alice Branco, Lisboa: Quetzal, 2001, p. 15.

Uma imagem para o dia



Discos pedidos (25)




O som que saía do rádio não era o melhor, mas ninguém se importava com isso e toda a gente pulava ao ritmo da música. O rio era o local ideal. As pedras, as árvores, o sol. Os corpos. Corpos para todos os gostos. Corpos com gosto. No Verão não se é esquisito e com 16 anos muito menos. Parece que todas as músicas foram ouvidas aos 16. Estranho número. O Português Suave Sem Filtro passava de boca em boca. Poucos se atreveram na aventura do outro lado. Alguma cerveja. Fogueiras acesas. Carne nas brasas. Carne em brasa. E ainda havia a noite pela frente.

(...)


A chuva é propícia à reflexão indolente. Na realidade toda a reflexão é indolente. Talvez, até, desnecessária. Os problemas começam quando começamos a pensar. A pensá-los.

Um poema de Nuno Félix da Costa



Da natureza da vida

A imortalidade da alma para muita gente
sopra a harpa do vento tal como o barco flutua
Cada gota do mar que o faz flutuar pertence ao movimento
como a alma pertence ao antecedente da Noite

No movimento da vida flutua e gasta-se a marulhar
Ouve-se o reversível do crepúsculo o denso calor do presságio
tudo a conformar-se no amor — a reencarnar no incompreendido
a sustentar o começo e o termo de um devir infindável

Mas na imortalidade da alma cujo acontecer subtil pode
não acontecer totalmente — a vida arrasta a alma como um poema
falha — ou a vida sobrepõe-se à alma como um poema

triunfa — e para muita gente a alma e a vida coincidem
O triunfo da vida espraia-se na vaga que se requebra
e ao retornar ao amor perde-se e revive


em Catálogo de Soluções, Lisboa: Cortex Frontal, 1ª edição, 2010, p.31.

(...)


Olho o terraço e mais um dia. A chávena de café forte, como gosto. Não se ouvem ambulâncias ou os cães dos vizinhos. Philip Glass não é perturbado na sua arte. O terraço. Nesta altura do ano e a esta hora o sol ainda não o invade. Há pequenas gotas de orvalho no chão, nas paredes. Pequenos universos líquidos.

Um poema de Jorge Guimarães



O Sonho

5

Porque viviam em sonhos repetiam
as frases absurdas que chamavam
slogans. Sempre que um doido lhes mostrava
o assassínio em massa, as hecatombes
enchiam os matadouros.
Mataram-se por vício, por gosto ou por
maldade. Praticavam a religião do sacrifício.


em O Tempo das Estátuas, Lisboa: Guimarães Editores, 1ª edição, colecção Poesia e Verdade, 1992, p. 29.

Dylan Thomas




Cheguei até ao nome do poeta através do filme Mentes Perigosas. Havia aquela parte em que era dito o poemas Do Not Go Gentle Into That Good Night. Mais tarde uma professora de Linguística Inglesa, sabendo do meu interesse em Dylan Thomas, emprestou-me uma espécie de gravações completas do autor a ler os seus poemas. Era um conjunto de K7. Não gravei nenhuma e arrependo-me hoje disso. Depois comprei A Mão Ao Assinar Este Papel. Li várias vezes os poemas e ainda hoje a eles regresso quando a chuva se faz sentir nos vidros das janelas e não só. Dylan Thomas também foi o responsável pelo facto de eu pedir à minha mãe um casaco de lã como este que está na fotografia. Não ficou igual, mas serviu para aquecer-me no Inverno de Manteigas e da Guarda. E Dylan Thomas também é responsável pela minha introdução à cerveja Guiness. Mas, neste último caso, eu tinha lá chegado mesmo sem a ajuda dele.

Versões: Dylan Thomas


A luz surge onde nenhum sol brilha…


A luz surge onde nenhum sol brilha;
Onde nenhum mar se agita, as águas do coração
Fazem avançar as suas marés;
E fantasmas destruídos com vermes nas suas cabeças,
Esses objectos de luz,
Percorrem a carne onde nenhuma carne esconde os ossos.

Uma candeia junto às coxas
Aquece a juventude e a sua semente, queimando a semente da idade;
Onde nenhuma semente cresce,
O fruto do homem mostra o seu vigor nas estrelas,
Brilhante como um figo;
Onde nenhuma cera existe, a vela apenas mostra os seus cabelos.

A manhã surge atrás dos olhos;
E o sangue agita-se como um mar
Da cabeça aos pés;
Sem defesa nem protecção, as nascentes do céu
Irrompem dos seus limites
Ao darem-se conta de um sorriso no óleo das lágrimas.

Como uma lua a noite cerca
Com sua órbita os limites do mundo;
O dia nasce nos ossos;
Onde nenhum frio existe, a tempestade destrói
As roupas do inverno;
E a primavera surge nas pálpebras.

A luz surge em lugares secretos,
Nos limites do pensamento, onde à chuva se sente melhor o seu aroma;
Quando a lógica morre,
O segredo da terra cresce através dos olhos,
E o sangue jorra do sol;
Sobre os campos destruídos, a madrugada detém-se.


Dylan Thomas, «Light Breaks Where No Sun Shines», The Collected Poems: 1934-1953, Weidnfeld & Nicolson, 2000, pp. 23-24.

Sábado 13 de Outubro


(clicar na imagem para aumentar)

Andrei Voznessenski



Nasceu em 12 de Maio de 1933 em Moscovo. Faleceu em 2010. Em 1958 publica os seus primeiros poemas. Torna-se muito popular e 14000 pessoas reúnem-se num estádio de Moscovo para o ouvirem recitar a sua poesia. O seu livro Coração de Aquiles atinge uma tiragem de quinhentos mil exemplares. A popularidade trouxe-lhe alguns inimigos. Em 15 de Abril de 1970 sai em Moscovo o seu último livro. Cem mil exemplares são vendidos nas livrarias da capital soviética. No outro dia cruzei-me, pela primeira vez, com a sua poesia. Fiquei surpreendido pela força das palavras. Lembro-me, por exemplo, do início do poema Pranto para dois poemas que não chegaram a nascer: «Ámen.//Assassinei um poema. Não o deixei nascer/e dei-o a Caronte./Agora faço-lhe o enterro./A entrada é livre para toda a gente./Venham ao enterro.» (p.17). Ou então estes versos: «Silêncio.//Isto é um lago perto da fronteira./São três pinheiros.//Aqui se concentrou/o espanto/de vidas, de nuvens e de alturas.» (p.26). Ou ainda o breve poema Noite: «Tantas estrelas!/Tantos micróbios nesta atmosfera...» (p. 58).

Um poema de Andrei Voznessenski


Paragem

Assenta as tuas mãos sobre os meus ombros
e conduz-me.
Só os lábios respiram dentro de mim.
Só o mar murmura sobre as nossas costas.

As nossas costas parecem meias-luas
fechadas sobre nós neste momento.
Ouvimo-nos, apoiados um no outro.
Os dois somos aqui vida dupla.

No ar aberto, protegemos com as costas
o que roubámos ao mundo,
como se protege o fogo com as mãos,
ausentes, indiferentes,
à comédia.

Se é verdade que há uma alma em cada célula,
então abre-te a mim
porque sinto enleadas nos meus poros
as almas que ainda agora te roubei.

E tudo é a evidência do mistério.
Será mesmo possível que algum silvo
nos solte como estátuas mudas
como conchas que não sabem gritar?

Por ora, pesa sobre os nossos ombros,
o fardo da desordem.
Assim estamos unidos.

Assim dormimos.


em Antimundos, versão de Armando da Silva Carvalho feita sobre tradução directa do russo de Clara Schwarz da Silva, Lisboa: Publicações Dom Quixote, Cadernos de Poesia, nº12, 1970, pp. 27-28.

Em repeat



Scott Matthews
What The Night Delivers
2011


Soberbo.

Charles Bukowski


 Charles Bukowski
Pulp
tradução de Vasco Gato
Alfaguara
2012


Charles Bukowski
Hollywood
Alfaguara
2012


Eis que Portugal caminha a passos largos para ser considerado um país quase civilizado. A partir de 2012 Bukowski tem 5 dos seus 6 romances (falta Factotum) traduzidos no nosso país. O leitor português já pode ler Ham on Rye, Correios, MulheresPulp e Hollywood, bem como o livro de contos A Sul de Nenhum Norte. Só falta mesmo a poesia.

50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho (7)




Foi o primeiro livro que comprei de Eduardo Guerra Carneiro. Parece que foi o último que ele escreveu antes de partir para o desconhecido. Na altura o nome de Eduardo Guerra Carneiro era, por mim, desconhecido. Depois, comprei outros livros do autor e o Rui Almeida ofereceu-me um. O Rui Almeida já me ofereceu alguns livros, mas isso agora não interessa. O que interessa é que este livro de Eduardo Guerra Carneiro é um grande livro. Pode não ser o seu melhor livro, mas é uma boa iniciação à poesia do autor. Pelo menos para mim foi.

Penumbra


PENUMBRA
de manuel a. domingos
Tem fotografia de capa de manuel a. domingos
e desenho de Carla Ribeiro.
Foi composto e paginado por Pedro Ribeiro.
100 exemplares numerados e assinados pelo autor.


Piolho nº 10




PIOLHO
Revista de Poesia
«É possível que a luz não seja, de facto, o sempre máximo da consciência.»
Maria Gabriela Llansol

Meireles de Pinho (ilustrações), Vitor Silva Tavares, Paulo da Costa Domingos, Maria Estela Guedes, Zarelleci, m. parrissy, João Albuquerque, Álvaro de Sousa Holstein, José Guardado Moreira, João Vasco Coelho, Marcel Fernandes, Nuno Brito, Teixeira Moita, Marcelina Gama Leandro, Clara Pinto Caldeira, Maria Madalena Nobre, João Maria Castelo, Sérgio Pereira, Rui Azevedo Ribeiro, Raul Simões Pinto, Rui Costa, Ricardo Gil Soeiro, Ricardo Marques, Rui Esteves, manuel a. domingos, A. Dasilva O., Fernando Guerreiro, António S. Oliveira, Stephen Crane e Ambrose Bierce

fazem mais ou menos por esta desordem este número, o décimo, Setembro 2012

Coordenado por Sílvia C. Silva, Ricardo Álvaro,
Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico), Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.
Tiragem: 300 ex.

Um poema de Urbano Bettencourt


Regressos, reencontros

Ouves a voz dessa mulher
nos dias que sobram de Setembro:
um rumor solar de asas
vindo de longe
como quem atravessou a harmonia inteira
do mundo.
Ouves essa voz vibrando na manhã
e tudo em ti é regresso e onda:
os araçás da infância, os figos,
as sementes onde a vida espera a Primavera,
uma mulher cantando no balcão sobre o mar,
uma ilha defronte.

Onde for o lugar de tudo isto e a memória
desse lugar,
aí encontrarás a raiz exacta
das palavras,
a seiva
de que a vida se sustenta.


(Janeiro, 2003)


Para a Mariana, minha filha,
aos treze anos


em Lugares Sombras e Afectos, com desenhos de Seixas Peixoto, Edição dos Autores, s/l,  2005, p. 22.

II Feira dos Alfarrabistas


(...)


Sei que estou a ficar mais velho porque trago coisas da casa dos meus pais. Da última vez foram batatas. Desta: fruta. Antes ouvia dizer às pessoas fomos à terra e trouxemos o carro cheio. Eram sempre pessoas mais velhas do que eu. Eu, naquele tempo, ia à terra mas não trazia o carro cheio. Um ou outro pão-de-centeio ou um pouco de marmelada. Agora não. Começo a trazer o carro cheio. Não me estou a queixar. Estou apenas a registar um facto. E, de facto, estou a ficar mais velho.

Penumbra



Penumbra
de manuel a. domingos
com desenho original de Carla Ribeiro
paginação e composição de Pedro Ribeiro
(sobre o grafismo de Sérgio Nogueira)
tiragem única de 100 exemplares
numerados e assinados
edição do autor
2012

encomendas através de:
Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho
ou
manueldomingos(at)gmail(ponto)com

Um poema de Paulo Tunhas



Poema

Nem mesmo o pó
ou o silêncio
recuperam de uma tarde
o que os hábitos perdidos
nela encontram.
É uma
atmosfera
ou um estado de alma
que, vindo do nada,
de súbito
surge
e ilumina o corpo e os sentidos,
para logo em seguida
desaparecer: como o sol
que por vezes
rompe a opaca barreira das nuvens
e pela janela
nos chega
até que uma nuvem
de novo o obscureça.
São momentos assim
que permitem o poema. Mas, ao terminarem, tudo
regressa à quotidiana banalidade,
e o espírito
que por breves momentos se julgou lúcido
já se move na confusa aparência
solitária
dos dias
e dos dias.

em Fenda - Magazine Frenética, Coimbra: Fenda Edições, 1982, s/p.

Discos pedidos (24)




Estavas tu e a cidade. Um rio ao fundo, talvez. Começava a noite, o teu corpo longe do meu e tu ali ao meu lado. Uma Índia distante alimentava os teus sonhos. Nunca entendi esse teu fascínio. E tu nunca entendeste o meu fascínio por cidades escuras e envoltas em nevoeiro. Nunca entendeste a razão da roupa preta que começava a usar. Andávamos os dois à procura de algo, quando tínhamos tudo o que precisávamos ali. Mas recusámos a facilidade. Para nós ou era difícil ou não interessava. E depois ficávamos envoltos num espécie de torpor que alimentávamos com absinto e cerveja preta. Talvez não te lembres de nada disto. Ou talvez sim. Tenho de perguntar.

Dizem que é uma nova editora de poesia



Versões: Tomas Tranströmer



Madrigal

Herdei uma floresta negra aonde raramente vou. Mas irá chegar o dia em que os mortos trocarão de lugar com os vivos. A floresta irá servir o seu propósito. Não exsitimos sem esperança. Os crimes mais hediondos irão permanecer por resolver apesar do esforço de muitos polícias. Da mesma maneira há algures na nossa vida um amor por resolver. Herdei uma floresta negra, mas hoje caminho na outra, na luminosa. Todas as criaturas cantam, sacodem-se, mexem-se e rastejam! É Primavera e o ar está pesado. Terminei o curso na universidade do esquecimento e tenho nas mãos o vazio de uma camisa na corda a secar.


Tomas Tranströmer, «Madrigal», retirado de For Living and Dead (1989), inserido em New Collected Poems, tradução do sueco para o inglês de Robin Fulton, Bloodaxe Books, 2011, p. 160.