Já que a Actual não me pediu nada, aqui fica


50 livros que os meus amigos devem ler para ficarem a conhecer melhor a minha pessoa e confirmarem que me armo ao pingarelho


1984 – George Orwell
A Casa da Morte Certa – Albert Cossery
A Era do Vazio - Gilles Lipovetsky
À Espera no Centeio – J.D. Salinger
A Musa Irregular – Fernando Assis Pacheco
A Noite e o Riso – Nuno de Bragança
A Noiva das Astúrias – Eduardo Guerra Carneiro
A Oeste Nada de Novo – Erich Maria Remarque
A Peste – Albert Camus
Antologia – Henri Michaux
Ariel – Sylvia Plath
As Benevolentes – Jonathan Littell
Biribi – George Darien
Caranguejo – Ruben A.
Cartas de Aniversário – Ted Hughes
Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski
Em Nome da Terra – Vergílio Ferreira
Eurico, o Presbitero – Alexandre Herculano
Finisterra – Carlos de Oliveira
Fome – Knut Hamsun
Ham On Rye – Charles Bukowski
História do AnarquismoJean Préposiet
Húmus – Raul Brandão
Justine – Sade
La Casa de Pascual Duarte – Camilo Jose Cela
Las Personas del Verbo – Jaime Gil de Biedma
Náufrago – Thomas Bernhard
O Búzio de Cós – Sophia de Mello Breyner Andersen
O Deus das Moscas – William Golding
O Eleito – Thomas Mann
O Labirinto da Saudade – Eduardo Lourenço
O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar – Yukio Mishima
O Medo – Al Berto
O Prcesso – Franz Kafka
O Que Diz Molero – Dinis Machado
Olhos Azuis, Cabelo Preto – Marguerite Duras
Os Cantos de Maldoror - Conde de Lautréamont
Poemas e Prosas – Kostandinos Kavafis
Poesia Completa – Alexandre O’Neill
Poesia de Álvaro de Campos – Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Poesia Reunida – Manuel António Pina
Selected Poems – William Carlos Williams
Sexus – Henry Miller
Slautherhouse Five – Kurt Vonnegut
Suicidios Ejemplares – Enrique Vila-Matas
The Colected Poems – Zbigniew Herbert
The Great Gatsby - F. Scott Fitzgerald
The Naked and the Dead – Norman Mailer
Trabalhar Cansa – Cesare Pavese
Viagem ao Fim da Noite – Céline

Um poema de António Barahona


Procuro tornar-me num monstro pra morrer só
De outro modo não teria olhado para ti
O abismo onde as crianças gostam de subir


em Rizoma, Lisboa: Guimarães Editores, Colecção Poesia e Verdade, 1983, p.65.

Os Cães de Tessalónica - Kjell Askildsen


Kjell Askildsen
Os Cães de Tessalónica
tradução de Mário Semião
Ahab
2012

(...)


Vaidoso como sou, tenho por hábito pesquisar o meu nome via Google. Hoje apareceu isto. Não deixa de ser muito curioso. A saber:
Manuel A. Domingos, of Portugese descent, was born in the Azores in 1854 and came to the United States as a boy of ten. In 1898 or 1899 he left his job as a butter maker in California to join the gold rush to Alaska. Following one unsuccessful season on the Kobuk River, he moved on to York, a short distance southeast of Cape Prince of Wales on the Seward Peninsula. He never found much gold, but remained in the region as a tin miner.
 The Manuel A. Domingos Papers consist primarily of Domingos's diaries, both in the original and as transcribed by Tom Christensen. Written in the vicinity of York, Alaska, in 1907-1910 and 1912-1915, the diaries provide commentary on people and events in the region's mining camps. Also found in the collection a small number of placer claim location notices (1903-1912) and miscellaneous itemized receipts for groceries and supplies.
Agora só falta uma foto do Senhor para eu ficar mesmo assustado.

Pensamento do dia


Other Lives
Dust Bowl III
Tamer Animals
2012

Thomas Bernhard


É da natureza da coisa
um homem como eu
perde qualquer processo
a sociedade corrupta
ganha qualquer processo
Eu tinha razão
mas quem ganhou o processo foi a cidade de Lübeck
Perdi o processo
porque recusei o classicismo
minha senhora
O indivíduo isolado
por mais que tenha razão
perde qualquer processo

(Entra um bêbado, pede a chave do quarto na recepção, dirige-se ao elevador e sobe)


em Minetti seguido de No Alvo, tradução de João Barrento (Minetti) e Anabela Mendes (No Alvo), Lisboa: Cotovia, 2ª edição, 1990, p.49.

Jorge Gomes Miranda



Dele li, até hoje, três livros (dos mais de 10): Pontos Luminosos, Postos de Escuta e O Caçador de Tempestades. Penso que, a par com José Miguel Silva, é um dos poetas mais políticos da sua geração. A sua poesia pode ser considerada ligeira, e sem grandes rasgos de originalidade, para quem a lê sem prestar muita atenção. Mas não se deixem enganar pelo seu tom, por vezes, jornalístico (talvez "defeito" da sua profissão). É que Jorge Gomes Miranda sabe passar a mensagem. Sabe dar a notícia do nosso declínio. 

Um poema de Pia Tafdrup

A pele

A pele é o meu único limite
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro

mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra

porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo

dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada.


em Ponto de Focagem do Oceano, tradução colectiva (Mateus, Junho 2002) revista, completada e apresentada por Laureano Silveira, Lisboa: Quetzal, 2004, pp.20-21.

Charles Bukowski



Caso Charles Bukowski fosse vivo ele faria hoje 92 anos. No nosso país ainda está por editar a sua poesia. Em Fevereiro de 2008 lembrei-me de desafiar uma série de pessoas a escrever sofre ele. Fica aqui a ligação para os textos de: João Camilo, Fernando Esteves Pinto, Luís Filipe Cristóvão, Lourenço Bray, Vitor Vicente, Maria João L. Fernandes, Paulo da Costa Domingos, André Moura e Cunha, Henrique Manuel Bento Fialho, Luís, Jorge Vaz Nande, António Godinho e Miguel Marques. Boas leituras.

Lí por aí


Dois textos em que os seus autores dizem tudo quanto aos referidos assuntos. O Sérgio Lavos aqui. E o Pedro Góis Nogueira aqui.

Versões: John Berryman



14

A vida, meus amigos, é aborrecida. Não devemos dizer isso.
No entanto, o céu brilha, o grande mar suspira,
nós próprios brilhamos e suspiramos,
e além disso a minha mãe disse-me quando era pequeno
(repetidas vezes) “Confessar o teu aborrecimento
significa que não tens

Ambição”. Concluo agora que não tenho
ambição, porque estou mesmo muito aborrecido.
As pessoas aborrecem-me,
a literatura aborrece-me, principalmente a grande literatura,
o Henry aborrece-me, com os seus problemas & cólicas
os seus tendões de Aquiles,

pois gosta de pessoas e de arte, que me aborrecem.
E os calmos montes, & o gin, são um engano
e de alguma maneira um cão
arrastou-se a si & à sua cauda para bem longe
para as montanhas ou mar ou céu, deixando
para trás: a mim, trocista.


John Berryman, «14», em The Dream Songs, introdução de W.S. Merwin, New York: Farrar, Straus and Giroux, 2007. p. 16.

Manuel de Freitas



É o mais imitado, odiado, invejado e prolifero poeta da sua geração. Comecei a lê-lo na extinta Periférica (revista que me deixa saudades). Foi nessa revista que ele me deu a conhecer a poesia de José Miguel Silva, através de um texto sobre Desordem seguido de Vista para um pátio. Na altura havia uma polémica entre imagistas e franciscanos. Poetas Sem Qualidades tinha sido publicado há pouco tempo (nunca o li, esgotou num ápice) e tinha criado algum sururu. Sempre que vejo o álbum Spleen and Ideal (Dead Can Dance) lembro-me dele.

João Silva







Rui Pires Cabral



Cheguei à Super-Realidade através da sua primeira edição: a de Vila Real. Até esse dia a poesia que lia resumia-se às imagens e às metáforas demasiado excessivas. Fiquei a saber que, afinal, havia outra maneira de dizer as coisas, que nem tudo se resumia a vísceras e ao "cheiro de facas". Depois lá fui conhecendo outros poetas, ditos sem qualidades. Mas Rui Pires Cabral foi o primeiro. Tenho os seus livros. Lei-o sempre que posso. As suas traduções de John Fante são muito boas (são as que melhor conheço). Como muitos dos poetas da sua "geração", devia ser mais lido e menos falado.

Pensamento do dia


Chavela Vargas
Me Lleva El Diablo
Noche Bohemia
1989



Chavela Vargas 1919-2012

Um poema de D. Francisco Manuel de Melo


Cada um é fado de si mesmo

Mas aonde irei eu que este não seja,
Se a causa deste ser levo comigo?
E se eu próprio me perco e me persigo,
Quem será que me poupe ou que me reja?

Porque me hei-de queixar do Tempo e Inveja,
Se eu a quis mais fiel ou mais amigo?
Fui deixado em mi mesmo por castigo:
Triste serei enquanto em mi me veja.

Esta empresa que me mi tanto em vão tomo,
Esta sorte que em mi seu dano ensaia,
Esta dor que minha alma em mi cativa,

Vós só podeis mudar. Mas isto como?
Como? Fazendo que a minha alma saia
De mi, Senhora, e dentro de vós viva.

em Obras Métricas, Parte II, In D. Francisco Manuel de Melo: Poesias Escolhidas, prefácio, selecção, notas, tábua de concordância e glossário por J.V. de Pina Martins, Lisboa: Verbo Edições, 1969, retirado de História e Antologia da Literatura Portuguesa - Século XVII, nº 31, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p.32.

(...)


De todos os meus defeitos, há um que eu considero o pior de todos: é raro andar com um bloco de notas (embora tenha vários ali à-mão-de-semear) para neles anotar os meus pensamentos sobre a humanidade. É claro que talvez seja melhor assim.

Versões: Antonio Gamoneda


Amor

A minha maneira de te amar é simples:
aperto-te contra mim
como se existisse um pouco de justiça no meu coração
e eu ta pudesse dar com o corpo.

Quando mexo nos teus cabelos
algo de belo se forma entre as minhas mãos.

E quase não sei mais nada. E só quero
estar contigo em paz e em paz
com um dever desconhecido
que às vezes pesa também no meu coração.


Antonio Gamoneda, «Amor» retirado de Blues Castellano (1961-1966), inserido em Edad (Poesia 1947-1986), edição de Miguel Casado, Madrid: Catedra, 6ª edição revista, 2006, p. 192.