Um poema de Sandra Augusto França


Quatro gritos para um longo silêncio

iv.

tenho um longo rosário de
datas com que os amigos
se habituaram a ver-me tricotar os dias,
espreitando-os
por entre malhas indecisas.

ouço o ruído da minha própria maresia
assolando
uma constelação encoberta sob a névoa
deste eterno silêncio.

depois uma ave sobrevoou tudo isto em círculos
insistentemente.

foste.

quando eu seria capaz de
bordar a fios de água
este amor.

em Estações, Lisboa: Difel, 1ª edição, 1998, p.48

Carlos Luís Bessa


De Carlos Luis Bessa li e tenho três livros: Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina, Em Trânsito e Em Partes Iguais. É um dos poetas menos citados pelos novíssimos poetas do império. Quanto a mim, depois de José Miguel Silva e Rui Pires Cabral, é um dos mais interessantes da sua geração (seja lá o que isso for). Os seus poemas são muito bons, humanos. Não me lembro da primeira vez que o li. Sei que o li e gostei. Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina é um livro fantástico. Deixo um conselho: leiam. Depois, se não gostarem, podem culpar-me.

Fiódor Dostoiévski


(A propósito: frente à parede, esse tipo de cavalheiros, ou seja, os homens espontâneos e os homens de acção, o que fazem é desistir com toda a sinceridade do mundo. Para eles, a parede não é o mesmo obstáculo que, por exemplo, para nós, homens que pensamos e, em consequência, não agimos; não é um pretexto para arrepiar caminho, pretexto em que geralmente nós próprios não acreditamos mas a que damos a melhor guarida. Não, eles renunciam, de todo o coração. A parede trabalha neles como um calmante, como uma libertação moral, como algo de definitivo, como algo, pode dizer-se, de místico... Mas deixemos a parede para mais tarde.)

em Cadernos do Subterrâneo, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Lisboa: BIB, 2007, p. 22.

(...)


Já aqui defendi que a crítica literária não tem qualquer influência nas vendas de um livro. Digo, ainda, que o crítico literário tem uma espécie de poder-nulo. Relembro o texto devido ao seguinte: As Cinquenta Sombras de Grey (E.L. James) esgotou a 1ª edição (15.000 exemplares) em apenas cinco dias. José Mário Silva (crítico literário) dá-lhe 0,5 em 10 pontos possíveis. Estaremos cá para ver se os restantes livros da trilogia vendem tanto ou mais. 

Um poema de Nuno Moura


Vinte e um mil metros

Comi pão e queijinho fresco, taça tinta, levo-te uma chamuça
mesmo indiana, limpei a gordura ao secador de mãos, que detestas.
Lembrei-me de pouco melhor, fiz-te uma animação, muito caía,
catorze vidas, balas pretas e bonecos inimigos, legendas.

Seres longe, obriga-me a ser lapiseira, amanhã
carteiro, depois já como queres.

Se não te doesse, não me corria.


em Soluções do Problema Anterior, Lisboa: & etc, 1996, p.52

José Miguel Silva



Essa coisa dos novos é chão que já deu uvas. Agora é mais novíssimos. José Miguel Silva nem é novo nem novíssimo, mas sim um poeta do caraças. Lembro-me que o primeiro livro que lhe li foi Desordem seguido de Vista para um pátio. Ainda hoje lhe tenho muito carinho. Lê-lo em Silves, durante o Verão de 2004, num terraço com vista para um grande laranjal e para o Castelo, foi algo que me marcou. José Miguel Silva disse que é mais um poeta político do que realista. Concordo com ele. No entanto, a realidade é a coisa mais política que pode existir (a meu ver). Mas leiam-se os livros Movimentos no Escuro e Erros Individuais, onde a veia mais política e radical do autor se fazem notar. Caso um dia façam outra revolução, não me admirava nada que começassem a ser lidos os seus poemas em voz alta. Também acredito que o autor não gostaria muito.

Em repeat


The Underground Youth
Delirium
2011

João Damasceno


Também estes escritos não pretendem ser outra coisa que registro (sic) de vivências que transcendem as meras circunstâncias do poema. Assumem-se portanto contra o formalismo académico-anti-académico, barroco e reaccionário que vem dominando a literatura nas duas últimas décadas e que visa transformar o poeta num especialista, num funcionário da escrita.

retirado de «Nota introdutória» em Corpo Cru, Coimbra: Fenda, 1983, s/p.

Lí por aí



Os critérios não são difíceis de entender, sobretudo a quem tenha presente as ferramentas com que se mantém de pé a sociedade do espectáculo. Tome-se de exemplo a capa do Atual da última semana, com a palavra sexo em obesos caracteres caídos entre as pernas de uma dominadora com contornos gráficos irrepreensíveis. A chamada tem por objecto o “fenómeno editorial do momento”, mais um, como se não bastasse já, ao longo das últimas décadas, a caterva de fenómenos editorais que vamos aturando. O fenómeno é um livro, o primeiro de outros, intitulado As Cinquenta Sombras de Grey. No interior do suplemento, uma, duas, três, quatro páginas inteirinhas dedicadas ao livro de E. L. James. Para, a um canto, deparar-mos com uma das recensões mais arrasadoras de que há memória em tempos recentes: «escritora absolutamente medíocre», obra de «valor literário nulo». E assim ganha a nulidade à qualidade, em páginas, caracteres e visibilidade. Já no Ípsilon, em proporções menores, Helena Vasconcelos atribui quatro estrelas ao romance A Valsa Esquecida. As 4 estrelas, em 5 possíveis, geram algum entusiasmo, mas depois vamos ler a recensão e: «Apesar de Enright ter um poderoso domínio da linguagem e uma rara capacidade para arrastar o leitor nos meandros das complexas relações humanas (…), A Valsa Esquecida fica aquém das expectativas em termos de trama e de caracterização de personagens. (…) Será Evie, com o seu olhar enviesado, o seu corpo sem transformação, os seus ataques epilépticos e o seu trauma antiquíssimo, o grande trunfo da autora, salvando este romance da mais tremenda banalidade». Imaginem se fosse bom, rebentava com a escala.

Jorge de Sena



Voltemos aos mortos. Os mortos, ao contrário dos vivos e como cedo aprendemos, permanecem sempre connosco. Nada fazem, mas a sua presença pesa. Ao contrário dos vivos, os mortos não são dados a camelices, a facadas nas costas, a corte-e-costura (é claro que nem todos; honra seja feita a alguns). Dito de outra forma: não há razão nenhuma para não confiar nos mortos. Mortos há que nos deixaram coisas belas: quadros, esculturas, poemas. É claro que também há outros mortos que não nos deixaram nada. Mas, pensemos nos poemas que alguns nos deixaram. Jorge de Sena deixou mais de muitos. Uma poesia reunida dele seria uma boa prenda de Natal. Ainda não entendi por que razão não existe. Sei que são mais de muitos, os poemas. Mas já é altura. Ou, então, que reeditem os ditos em vários volumes. Não se perdia nada. E era um bem que se fazia a 300 leitores.

A Sul de Nenhum Norte
nº 7

Dsicos pedidos (23)



No princípio deveria ter sido a pop. A simplicidade de uma música pop. Só depois o Verbo. A carne. Tudo seria, de certeza, mais fácil. Daí ser difícil vê-la todos os dias pelos corredores do Liceu. Talvez trouxesse no bolso um revólver para espantar as cobras. Ou para me espantar a mim. Nunca a vi ler um livro que fosse. À chuva sei que ficava mais bonita. Às vezes costumava encontrá-la junto às colunas da rádio escolar. Um dia vi que batia o pé ao som de Are You Ready To Be Heartbroken?. Usava um casaco de cabedal preto. Calças de ganga rafadas. Naquela altura era para mim fácil apaixonar-me. Foi o que me aconteceu. E o refúgio foi a música, alguns traçados na tasca do Xicha. Falar-lhe? Nem pensar. Se ao menos fosse tudo simples como uma música pop.

Em repeat


John Fahey
Your Past Comes Back To Haunt You
The Fonotone Years 1958-1965
2011

Um poema de Rui Baião


Provas globais

Nunca ninguém me falara
em coca mariachi, nem do aço
azul do vinho, nem tão-pouco
de linhaça, ou lágrimas.
Tantas vezes caí onde o cálice
em hélice nunca cedera a nortadas.
Luz grande reduz a biqueira
ao desejo de ouvir música
preta, ímanes miseráveis
ávidos de melodiosa ira. O tema
era: cidadania para massagistas.
Nunca ninguém nos ensinou nada de nada.


em Nuez (com fotografias de Paulo Nozolino), Lisboa: Frenesi, 2003, p.9.

Jorge Aguiar Oliveira



É a única fotografia que encontro de Jorge Aguiar Oliveira. Descobri a sua poesia quando começou a colaborar no Insónia, com poemas e fotografias. Mais tarde comprei Sião e a sua poesia vinha lá. Tenho, ainda, Os Lábios do Rio, João Alves e Insónia em Segunda Mão. A sua poesia não é de fácil digestão e fica connosco durante algum tempo. João Alves, por exemplo, é um livro terrível. Não deve ser fácil encontrar os seus livros por aí. Mas se virem algum: que não haja hesitações, comprem.

Em repeat




Other Lives
Tamer Animal
2011

Um poema da tradição oral Kwanyama, Angola

De um lado e do outro

Figueira-brava.
De um lado,
os ramos
carregados de frutos maduros.

Do outro,
jovens folhas despontando.

Assim os homens:
- uns a morrer,
outros a nascer.


em Rios Sem Margem - Poesia de Tradição Oral, organização, notas e versões de Zetho Cunha Gonçalves, Vila Nova de Cerveira: nósSomos, 2011, p. 28.

(...)


Está oficialmente aberta a época do encaixotar e ensacar.

Pensamento do dia



Tamaryn
Return To Surrender
Led astray washed ashore (E.P.)
2011

Uma imagem para o dia



Jorge Fallorca



A viagem é uma constante. Viajar é uma necessidade. Viajar é. Muito mais se poderá dizer da escrita de Jorge Fallorca, mas a principal característica é a viagem. Beirão de gema. Nómada às claras, Jorge Fallorca cultiva o "bem com a puta da vida". Li Fruta da Época na praia dos Alteirinhos. Não podia ter escolhido melhor paisagem para o fazer. Longe do Mundo tem destaque nas prateleiras lá de casa. As suas traduções de Vila-Matas andam por aí. Leiam-no, em todas as suas formas. E se depois vos apetecer partir, não estranhem.

Paulo da Costa Domingos



Falemos dos vivos. Cheguei à poesia de Paulo da Costa Domingos através de umas leituras na diagonal em alguns blogues. Confesso: cheguei à poesia de Paulo da Costa Domingos tarde. Depois, cruzei-me com alguns dos seus livros numa feira do livro na Figueira da Foz. Um dia decidi escrever-lhe. Enviou-me uns quantos livros da sua autoria. Sempre que encontro um livro dele em algum lado, compro. Tenho alguns: Pó de Anjo, Mailot, Gogh Uma Orelha Sem Mestre, Asfalto, Nas Alturas, Regresso ao Campo de Honra, Campo de Tílias, A Escrita, Averbamento, Narrativa, O Homem Quase Novo. Li-os a todos e a nenhum fiquei indiferente. Sempre que vou a Lisboa procuro-o na Rua da Anchieta. Nem sempre lhe compro livros, é verdade. Mas ele nunca deixa de aconselhar alguns.

Versões: Charles Bukowski


olá e adeus

não há pior inferno do que o teu inferno
nenhum se compara,
às voltas na cama à noite,
o teu cu regelado
a cabeça a arder,
tudo sem sentido, sem sentido,
enquanto estás preso ao teu pobre corpo e à
tua pobre vida
e tudo está a dissolver-se, a dissolver-se devagar
em nada.
como todos os outros corpos, como todas as outras
vidas,
estamos a ser excluídos,
postos de lado
pela doença
pelo facto de suportar
dias difíceis, anos difíceis.
não há saída para
isto, temos apenas que suportar,
aceitar –
ou melhor –
não pensar muito
nisso.

calçar e descalçar.
as férias vão e vêm.
olá,
adeus.
vestir, despir.
comer, dormir.
conduzir o automóvel.
pagar os impostos.
lavar os sovacos e
o pescoço
e esfregar tudo o
resto, para ter a certeza.

escolher atempadamente o
caixão.
sentir a boa madeira.
escolher o suave, acolchoado, caro
interior.
o vendedor irá dizer que
tens muito bom
gosto.

depois horrorizá-lo.
dizer-lhe que queres experimentar,
ver se é do teu tamanho.

não há pior inferno do que o teu
inferno e não há ninguém que
o comparta
contigo.

podes muito bem ser a única
pessoa no mundo.
às vezes sentes que
és
e talvez sejas.

entretanto, tira o cotão do
umbigo.
aceita o que tens,
fode de vez em quando,
saúda o vazio.
foi sempre assim, foi sempre
assim.
não grites.
não há ninguém que te possa
ouvir.

coisas estranhas.
coisas estranhas as cidades, as árvores,
os nossos pés a caminhar pelo passeio,
o sangue dentro de nós
a lubrificar os nossos
corações,
os séculos a passarem
enquanto calças as meias e as puxas
até aos
tornozelos.

Charles Bukowski, «hello and goodbye», em Come On In!: new poems, edited by John Martin, New York: Ecco, 1ª edição, 2006, pp. 222-224.

Walt Whitman



Alguns dos poetas que li, e que ainda hoje são para mim uma referência, chegaram até mim através do cinema. Whitman é um desses casos. O filme: Clube dos Poetas Mortos. Passados alguns anos o nome ainda ressoava na minha cabeça. Encontrei-o, mais tarde, na poesia de Fernando Pessoas (Álvaro de Campos). Depois, naquele livro publicado na Assírio & Alvim. Whitman representou, para mim, uma espécie de Liberdade que ansiava. Manteigas era uma espécie de prisão (talvez seja um exagero, mas é a única palavra que me ocorre). Os poemas de Whitman faziam todo o sentido. No outro dia, finalmente, comprei os seus Complete Poems. E apetece-me lê-los em voz alta, pelos telhados do mundo.

Estado Filosóficos (55)


Uma definição da natureza humana: cai alguma chuva e ouvir logo, pela ruas, que este ano não temos Verão.

Açougue - Amadeu Baptista

Amadeu Baptista
Açougue
& etc
2012

Estados Filosóficos (54)


Praticamente todas as relações de poder se desenvolvem na base da mesquinhez. Quanto mais insignificante é o poder, mais mesquinha é a sua aplicação.

Estado Filosóficos (53)


Comentar a actualidade é um acto falhado, pois a actualidade é, ela própria, um acto falhado.