Versões: Charles Bukowski



depois de ler a imortal literatura do mundo

as crianças nas escolas
fecham ferozmente
os seus pesados
livros

e correm
sempre contentes
para o
pátio

ou

ainda mais
alarmante –

para as
suas
horríveis
casas.

não há nada mais
deprimente
do que
a imortalidade.


Charles Bukowski, «upon first reading the immortal literature of the world», em War All the Time: Poems 1981-1984, New York: Ecco, 1ª edição, 2003, p.129.

Das fotos (16)


Sem título (16)
© manuel a. domingos, 2011
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Discos pedidos (22)



para o Vasco Bento

Podia ter sido um Verão como outro qualquer. Mas não foi. Veio parar às minhas mãos uma K7 (até certa idade foram sempre K7s). Poucos amigos meus conheciam tal coisa. As tardes eram passadas no rio e as noites na esplanada do Vinagre. Aposto que também tiveste uma "esplanada do Vinagre", durante esse mesmo Verão. Ou no seguinte: tanto faz. E, de certeza, houve uma rapariga qualquer (e se calhar não era qualquer; era a tal) que povoou esse Verão. Na altura eu não usava cabelo comprido; a bem da verdade, nunca usei cabelo que pudesse ser considerado comprido. Mas adiante. As noites eram passadas na esplanada do Vinagre. As raparigas, essas, gostavam de nos ver beber. Poucas vezes arriscaram acompanhar-nos. Deviam ter medo de algo. Não sei. O certo é que exagerávamos um pouco na carga. Alguns de nós procuravam perder-se deles próprios. Também o tentei. Era como correr com tesouras abertas. E sabia bem. Nunca mais me livrei dessa sensação. Tudo era "desmasiado". Tudo, às vezes, ainda o é.

Um poema de Isabel Mendes Ferreira


respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta

suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.

então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.

não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.


em Um Corpo (Sub) Exposto, 1ª edição, colecção Plural, Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983, p.51.

Paulo da Costa Domingos



Porque «autoridade e liberdade são uma e a mesa coisa (Cesariny), ergamo-nos acima da sinonímia dos ricos, que é a força diferencial dos pobres, neste mundo em que os ricos se atafulham na stockagem de objectos e ideias empobrecidos, e os pobres cedem à ignomínia tentadora de serem iguais aos ricos.


retirado de «Joker» em Pravda/Revista de Malasartes, nº7, Coimbra, 1989, p. 50.

(...)


Possuído pelo nervo. A miséria humana também é a minha miséria. Eu, que me julgava imune.

refracções em três andamentos - Daniel António Neto Rocha




Daniel António Neto Rocha
refracções em três andamentos
Edição do Autor
2012

Discos pedidos (21)



Talvez tenha sido este o momento decisivo. O trocadilho com o nome da banda é demasiado óbvio, mas é um facto: fé, nunca mais. E os dias foram correndo ao sabor desse Verão e das raparigas espalhadas pelas pedras à beira rio. Os seus corpos ainda eram uma espécie de miragem para mim, empenhado que andava no cultivo de um estilo que ainda hoje me faz rir, quando dele me lembro. Ia lendo um ou outro livro: poesia na sua maioria. Durante as manhãs ocupava os meus tempos livres na Biblioteca de Manteigas. Catalogava. Etiquetava. Nas estantes a ordem era necessária. Nos meus ouvidos explodia o som. O gosto pela anarquia, que era uma palavra bonita. O Verão terminou. Com ele uma certa inocência (ou não?). Foi um Verão decisivo. Bem como a banda sonora que o preencheu.

Elegias de Cronos - Nuno Dempster


Nuno Dempster
Elegias de Cronos
Artefacto
2012

Uma imagem para o dia



(...)


Sentado. Um colega coloca música e vai fazendo o seu trabalho. Tem bom gosto musical. Já este ano e no ano passado contribui para o aumento do meu. Outro verifica papéis. Uma colega está ao computador, como eu. Há um certo silêncio. Luz com fartura. Às vezes a vida, apesar de tudo, é boa. Mas não chega. Queremos sempre mais. Não chegam os momentos como este, em que uma paz nos invade. E depois volta tudo a ser o que era.

Estados Filosóficos (52)


A poesia é, acima de tudo, um estilo de vida; não uma forma de arte.

Uma imagem para o dia


Um poema de Francisco Luís Parreira


Kylemore Abbey, Connemara

Apenas ornamentam estas cruzes pretas
os nomes que escolheram para a vida devota –
Sister Lucy, Sister Mary – e nenhuma data.
É exíguo o cemitério, a humildade
não quer perturbar o que, extraviado,
franqueia a cancela e para um momento
entre as nuvens do lago e convento.

Nunca uma cruz foi apenas o que parece.
Como quando na água o suspiro estremece
da vida de outras formas, assim jazente,
assim neste silêncio imenso a pairar
sobre a terrível maravilha do lugar,
a cruz desposa a névoa envolvente,
para que quando de novo aqui venha
seja o Verbo rasgo ou claridade
e um prego entre madeiros o contenha.
Ai de nós, se no que é belo não buscarmos
da beleza apenas o que é sem retorno,
como estas freiras que, descendo ao lago,
pelo Reino, ou Bem, ou Beijo Secreto,
consubstantiat se dilecto.

Porque aqui é que morreram, algo veio
e se converteu nas suas vidas;
mas não remoto, revel à terra, vago,
antes como o bater de um remo ardente
a demanda-las da outra margem do lago,
como se entre a névoa nesse dia se formasse
do Amado sobre mil ombros a face:
pois não se morre senão quando
se cumpriu o tempo da separação
e no remo se junta uma à outra Mão,
e o olhar por tanta beleza preparado
se entrega ao seu incriado.


em Manual de Jardinagem Metafísica, s/l: Usus Editora, 1ª edição, 1997, p. 8.

(...)


Amanhã, por volta das 10h30m da manhã, irei estar à conversa com o Joaquim Martins na Rádio Altitude. Quem quiser ouvir e confirmar a minha falta de ideias, bem como o meu sotaque, é sintonizar em Rádio Altitude.

Versões: Charles Bukowski



cão

um cão
a andar sozinho pelo passeio num verão
quente
parece ter o poder
de dez mil deuses.

porquê?



Charles Bukowski, «dog», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco, p. 123.

Pensamento do dia



Sampaio da Nóvoa
Discurso proferido nas Comemorações do 10 de Junho

Cine-Concerto no Teatro Municipal da Guarda



(clicar para aumentar)

Estados Filosóficos (51)


«És vida, paixão. És tudo João." (03-02-2009)
Encontrado num banco de jardim.

Estados Filosóficos (50)



Perder a oportunidade de não perder.

(...)



O mundo e as suas camelices. Necessidade de ser pequeno. Recolhimento. Ler Céline e pensar que, apesar de tudo, era mais Homem do que muitos homens. O tempo que passa. Irremediavelmente. Envelhecer ser um exagero para quem tem trinta e quatro anos. O trabalho. Os horários. Viagens que não são viagens (cf. Basho, Chatwin, Onfray). Pensar em coisas inúteis. Concluir que, afinal, tudo é inútil. Esboçar um sorriso com tamanha e sábia conclusão. Ouvir música. Ler poesia. Ser. Ou pelo menos tentar.

Jean Dubuffet



Por unânime consenso, a intelligentsia tem a função social de criticar o bom fundamento das instituições sem causar estragos, de assumir (impedindo, assim, que alguém o faça a sério) o papel de defensor do público contra o crime da fraude; ela é compincha do aldrabão. Na peça que lhe diz respeito o aldrabão tem a aparência do insurrecto mas, bem entendido, do insurrecto postiço. Se aparecer alguém que lhe não faça o jogo, um verdadeiro insurrecto, todo o teatro entra em pânico.

em «O Piloto Céline», introdução a Céline, O Cão de Deus, tradução de Alberto Nunes Sampaio, Lisboa: Hiena, 1995, p. 14.

Versões: Charles Bukowski


os humildes já herdaram

se sofro às mãos
desta máquina de escrever
imaginem como me sentiria
entre os apanhadores
de alface em São Teotónio?

penso nos homens
que conheci em
fábricas
sem possibilidade
de fuga –
a sufocar enquanto vivem
a sufocar enquanto riem
com Fernando Mendes e
Goucha enquanto
2 ou 3 crianças atiram
bolas de ténis contra
as paredes.

alguns suicídios ficam por
registar.


Charles Bukowski, «the meek have inherited», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco, pp. 139.

Discos pedidos (20)



Sabes: o pior que me pode acontecer é alguém, um dia, cantar-me ao ouvido Tom the Model. É uma canção terrível. Sabes: o pior é que já a cantei ao ouvido de alguém. Ou pelo menos tentei. Ou será que imaginei? Já não sei. Às vezes a minha imaginação interfere com o resto. Quando isso acontece lembro-me sempre de Vergílio Ferreira. Dizia ele que a imaginação era a sua pátria. A minha pátria não sei qual é. Portugal não é. Não me identifico com este país. E, no fundo, sou um produto perfeito e acabado dele, deste país de brandos costumes, de poetas e patetas à beira-mar plantado. Talvez a minha pátria – para ser poético (?) – seja um álbum como este. Talvez seja este. O que é, no fundo, um exagero. Como pode um álbum ser uma pátria? Uma casa, talvez. Mas o máximo que pode ser é uma cabana no meio da floresta. Ou uma noite escura no silêncio da Serra. Sei lá. Só sei isto: Tom the Model é uma música terrível. Oxalá não a cantem, um dia, ao meu ouvido.

Um poema de Floridor Pérez


Para traduzir não é preciso saber línguas


Escreveu um lendário poeta chinês da dinastia Tang:
Abandona a tempo a tua poesia ou a tua mulher.

Um académico traduziu:
terminou o tempo da poesia amorosa.

E um psicanalista:
chega um tempo em que as pernas da mulher
deixam de ser um livro aberto.

Então vim eu
e abandonei-me o tempo todo
à minha poesia e à minha mulher.

Que era exactamente o que tinha querido dizer
o lendário poeta chinês
da dinastia de Li Po.


Versão de Luís Filipe Parrado a partir do original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez, Diputación de Huelva, 2001, p. 130

Discos pedidos (19)



Figueira da Foz. 1993. Num salão de jogos vejo entrar uma rapariga com um ar despreocupado. Doc cor-de-cereja. Calça de ganga justa. T-shirt preta com a capa que aqui se reproduz. Já conhecia o nome de outro lado, mas com outra sonoridade: ma house: que eu entendia como a minha casa. A noite foi passando e a rapariga andava de um lado para o outro. Nunca reparou em mim. O meu estilo proto-punk não convencia ninguém. Cultivava, naquela altura, o que mais tarde soube que se designava por idiotice. No fundo eu era um idiota que procurava – a muitas penas – parecer o menos idiota possível. Sei que quando começaram as aulas fui à discoteca do Garden (na Guarda) ver se encontrava o grupo misterioso. E lá estava. A capa toda negra e aquela espécie de querubim (para mim é um querubim). Chegado a casa, no fim-de-semana seguinte, as paredes do meu quarto estremeceram com tamanho exorcismo proporcionado aos meus ouvidos. Desse dia em diante tento cumprir umas sábias palavras: I dare you / to be real. É claro que nem sempre consigo.

Versões: Charles Bukowski

um poema cruel

eles continuam a escrever
a despejar poemas –
jovens rapazes e professores universitários
mulheres que bebem vinho toda a tarde
enquanto os maridos trabalham,
eles continuam a escrever
com os mesmos nomes nas mesmas revistas
cada ano a escreverem pior,
publicam colectâneas de poesia
e despejam mais poemas
parece um concurso
é um concurso
mas o prémio é invisível.

eles não escrevem nem contos nem ensaios
nem romances
apenas
despejam poemas
todos parecidos com os dos outros
e cada vez menos originais,
e alguns dos rapazes cansam-se e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho toda a tarde
nunca, mas mesmo nunca, desistem
e chegam outros rapazes com novas revistas
e há troca de cartas entre poetas e poetisas
alguns chegam a foder
e tudo é exagerado e aborrecido.

quando os poemas saem
eles reescrevem-nos
e enviam-nos para a próxima revista na lista,
e fazem leituras
todas as que conseguem fazer
a maior parte de borla
na esperança que alguém repare neles
que alguém os aplauda
lhes reconheça o talento
os felicite
eles estão convencidos da sua genialidade
há muito poucas dúvidas,
e muitos vivem no Grande Porto ou Grande Lisboa,
e as suas caras são como os poemas que escrevem:
semelhantes,
e conhecem-se uns aos outros e
reúnem e odeiam e admiram e escolhem e expulsam
e continuam a despejar mais poemas
mais e mais poemas
mais e mais poemas
o concurso dos pasmados:
tap tap tap, tap tap, tap tap tap, tap tap…


Charles Bukowski, «an unkind poem», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco, pp. 212-213.

Discos pedidos (18)



Começava a vestir-me de preto. Apertava todos os botões da camisa. Todos. E de repente alguém me passa uma K7 para a mão. Shadowplay (The Live Experience). O Marco António nunca soube que foi ele o responsável. Faz-me lembrar uma música: «Eu era normal/até o metal/dar cabo de mim» (Repórter Estrábico). Só que eu nunca fui normal e a Joy Division não deu cabo de mim: apenas vincou traços muito meus. Passei a ouvir a K7 em modo tocar até a fita partir. Nesse ano fui passar as férias de Verão ao mesmo lugar de sempre. A praia, o sol. Tudo a antítese da música que ouvia num walkman vindo de Paris, França. Eu passava os dias na barraca alugada, a ler Henry Miller. Não gostava de apanhar sol. Melhor: não gostava de expor o meu corpo – que começava a ter pêlos por tudo quanto era sítio. As raparigas não me ligavam muito. Eu não ligava muito às raparigas. Tinham o hábito de me deixar. Ou eu a elas, nunca cheguei a perceber. Mas a música da Joy Divison nunca me deixou. Nem eu a ela. Talvez por isso é que me refiro a eles como ela. A Joy Division. A fita da K7 nunca chegou a partir. Está algures no fundo de uma caixa de papelão no sótão da casa dos meus pais. Um dia destes salvo-a. Pago-lhe na mesma moeda.