Kylemore Abbey, Connemara
Apenas ornamentam estas
cruzes pretas
os nomes que escolheram
para a vida devota –
Sister Lucy, Sister Mary –
e nenhuma data.
É exíguo o cemitério, a
humildade
não quer perturbar o que,
extraviado,
franqueia a cancela e para
um momento
entre as nuvens do lago e
convento.
Nunca uma cruz foi apenas
o que parece.
Como quando na água o
suspiro estremece
da vida de outras formas,
assim jazente,
assim neste silêncio
imenso a pairar
sobre a terrível
maravilha do lugar,
a cruz desposa a névoa
envolvente,
para que quando de novo
aqui venha
seja o Verbo rasgo ou
claridade
e um prego entre madeiros
o contenha.
Ai de nós, se no que é
belo não buscarmos
da beleza apenas o que é
sem retorno,
como estas freiras que,
descendo ao lago,
pelo Reino, ou Bem, ou
Beijo Secreto,
consubstantiat se dilecto.
Porque aqui é que
morreram, algo veio
e se converteu nas suas
vidas;
mas não remoto, revel à
terra, vago,
antes como o bater de um
remo ardente
a demanda-las da outra
margem do lago,
como se entre a névoa
nesse dia se formasse
do Amado sobre mil ombros
a face:
pois não se morre senão
quando
se cumpriu o tempo da
separação
e no remo se junta uma à
outra Mão,
e o olhar por tanta
beleza preparado
se entrega ao seu
incriado.
em Manual de Jardinagem
Metafísica, s/l: Usus Editora, 1ª edição, 1997, p. 8.