Pensamento do dia



The Church
Under The Milky Way
Starfish
1988

Estados Filosóficos (49)


Às vezes penso que a única coisa que me resta é o meu lirismo inconsequente, gasto.

Versões: Charles Bukowski


um poema quase verdadeiro



Eu vejo-te beber numa fonte com minúsculas
mãos azuis, não, as tuas mãos não são minúsculas
são pequenas, e a fonte é em França
donde tu me escreveste aquela última carta a
que eu respondi e nunca mais soube nada de ti.
tu costumavas escrever poemas sem sentido sobre
ANJOS E DEUS, todos em maiúsculas, e tu
conhecias artistas famosos e a grande parte deles
eram teus amantes, e eu escrevi-te de novo, tudo está bem
continua, entra nas suas vidas, eu não sou ciumento
pois nunca nos conhecemos. estivemos perto um do outro em
Nova Orleãns, pouco tempo, mas nunca nos conhecemos, nunca
nos tocámos, e tu continuaste com os famosos e escreveste
sobre os famosos, e, claro, aquilo que descobriste
é que os famosos estão preocupados
com a sua fama – não com a jovem e bela rapariga que está
na cama com eles, que lhes dá aquilo, e depois acorda
de manhã para escrever em maiúsculas poemas sobre
ANJOS E DEUS. nós sabemos que Deus está morto, eles
disseram-nos, mas ao ouvir-te deixei de ter a certeza. Talvez
fossem as maiúsculas. tu eras uma das melhores
poetisas e eu disse aos editores, “ela, publiquem-na,
ela é louca mas é mágica. “nenhuma mentira no seu fogo”.
Eu amo-te como um homem ama uma mulher que nunca tocou,
que só lhe escreve, e guarda dela poucas fotografias. eu podia
ter-te amado mais se tivesse sentado num pequeno quarto
a enrolar um cigarro e a ouvir-te mijar no quarto-de-banho,
mas isso nunca aconteceu. as tuas cartas ficaram cada vez mais tristes.
os teus amantes traíram-te. rapariga, escrevi mais tarde, todos
os amantes traem. mas isso não ajudou. tu disseste
que tinhas um banco onde ias chorar e era junto a uma ponte e
essa ponte era sobre um rio e tu sentavas-te lá todas as noites
e choravas por todos os amantes que te tinham magoado
e esquecido. eu escrevi-te de novo mas nunca
obtive resposta. um amigo escreveu-me e contou-me
do teu suicídio, 3 ou 4 meses depois de acontecer. se eu te tivesse
conhecido provavelmente seria injusto contigo
e tu comigo. foi melhor assim.


Charles Bukowski, «an almost made up poem», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco,  pp. 47-48.

Discos pedidos (17)


para o meu primo Tó-Mané,
que foi trabalhar para a Escócia

Já não sei dizer quando é que os ouvi pela primeira vez, mas lembro-me que as guitarras entraram-me nas veias e nunca mais de lá saíram. Podia contar-te algumas histórias que se passaram ao som de Darklands; é melhor não: ainda há muita gente viva. Mas arrisco uma (que tanto pode ser verdade como mentira, tu depois decides): foi numa cidade perdida em finais da década de 90. Às vezes penso que nunca abandonei esses anos, que ainda lá estou, a vaguear agarrado ao meu sobretudo – fiel companheiro das noites frias – e a olhar para o chão, sempre o chão. Sei que, de repente, alguém se aproximou. Sabia o meu nome. Sabia quem eu era e conhecia umas estórias sobre mim. Perguntou-me se tinha lume. Na altura eu andava com um isqueiro no bolso, caso alguma rapariga fizesse pergunta igual (o que raramente acontecia). Acendi-lhe o cigarro e vi como inspirava profundamente. Perguntou-me se queria beber um copo e fomos para o bar mais próximo. Quando entrámos: April Skies. Não sei se já reparaste: o céu em Abril é uma coisa terrível. Já o poema diz: April is the cruellest month (T.S. Eliot). Bebemos absinto e um par de cervejas. O resto, primo, é rock and roll.

Uma imagem para o dia


Estados Filosóficos (48)


As oficinas, os workshops de escrita criativa estão para a literatura como o BPN está para as finanças portuguesas: todos nós sabemos para que servem; todos nós sofremos com as consequências.

Versões: Charles Bukowski


se ensinasse escrita criativa, perguntou-me, o que lhes diria?

diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cama de lugar
várias vezes
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentarem ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazerem exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender
que não há nada nem ninguém a saber tudo –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem
a dar uma aula de escrita criativa
e lerem isto
eu dou-vos um 20
cu
acima.

Charles Bukowski, «now, if you were teaching creative writing, he asked, what would you tell them?», em Love Is a Dog From Hell, New York: Ecco, pp. 233-234.

Estados Filosóficos (47)


O silêncio como gume é chão que já deu uvas. Resta, apenas, o silêncio que é silêncio. O inominável. E mesmo esse – o silêncio que é silêncio e tão-só silêncio; o inominável – é chão que já deu uvas.

(...)


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Amélia Pais (1943-2012)




Quando comecei nesta coisa dos blogues, a Amélia Pais foi uma leitora atenta das coisas que eu ia escrevendo. Nunca cheguei a conhecê-la pessoalmente. Mas conhecia o seu gosto pela poesia. A sua generosidade em divulgar novos autores. Paz à sua alma.

Vergílio Ferreira



De vez em quando releio um dos autores da minha predilecção. E todo eu me rendo de admiração comovida. Como é que se faz assim? Como é que eles são grandes e eu não sei? E todavia, se eu tentasse esse caminho de perfeição, imediatamente seguia um caminho diverso. Porque eu não sei senão o que num ponto incompreensível o destino me traçou. Há uma voz que se me impõe na minha voz e não posso falar outra. E não sei o que realmente diz.


em Conta-Corrente 5, 1ª edição, Lisboa: Bertrand Editora, 1987, p.233.

Um poema de Helder Macedo


6

Não o sol
que no ar se esquece e aquece
não a lua
que no lago se reflui
mas o frio
mas o vento.

Não o corpo
que com mortes se sustenta
não o rosto
que com rugas se remenda
mas a fonte
mas a vida.


em Viagem de Inverno, 1ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 1994, p. 16.

Estados Filosóficos (46)


A realidade é e será sempre a base de toda a criação poética, mesmo para aqueles que negam a realidade como base para a criação poética. Não nos podemos esquecer que, na verdade, estes procuram a transfiguração e a mistificação da realidade.

Uma imagem para o dia

Discos pedidos (16)





Todos nós criamos os nossos impérios minimais e repetitivos. De voz meio rouca enfrentamos os dias. Conto-te um segredo: já não utilizo o comboio, mas as pessoas continuam a olhar para mim como um estranho, apesar de me verem todos os dias. E o que quero mesmo é chegar a casa e no espelho ver ainda alguma decência, uma réstia de dignidade. É claro que há sempre braços abertos, mesmo quando não há ninguém à nossa espera (sei que me entendes neste ponto). E esses braços envolvem-nos, as mãos acariciam os nossos cabelos e ouvimos algo como senti a tua falta ou por que razão não chegaste mais cedo? A resposta poderá ser sempre a mesma: o trânsito ou estou a 200km de ti, ainda não reparaste? A mesma resposta sempre: minimal e repetitiva. Talvez a única que sabemos dar.

(...)


Sou o Paulo Coelho dos pessimistas.

Estados Filosóficos (45)


Em vez de “não há empregos para a vida”, dizer “não há políticos para a vida”.

Estados Filosóficos (44)


Desconfia sempre de alguém que te diz que não há empregos para a vida, quando ele próprio nunca esteve desempregado e quando ele próprio, de uma maneira ou outra, terá sempre um emprego para a vida.

Discos pedidos (15)





Tinha acabado de ler O Mito de Sisífio, de Camus, quando ouvi pela primeira vez a voz de Nick Drake. Só mais tarde fiquei a saber que aquele era o livro que Drake tinha na mesinha-de-cabeceira quando se suicidou. Nunca pensei muito no suicídio como um acto de coragem ou cobardia. Sempre o vi como uma saída, como aquelas janelas dos autocarros que têm escrito quebrar em caso de emergência. Uma saída não é corajosa ou cobarde. É apenas uma saída. É claro que naquela altura nem eu nem os meus amigos procurávamos saídas. A vida era vivida em modo “choque-frontal”. Alguns ficaram pelo caminho. Outros, como eu, ganharam barriga, professam um anarco-comodismo que satisfaz os nossos caprichos pequeno-burgueses. Grandes causas? Só se forem seguidas pela televisão, no conforto do sofá, ou em directo nas redes sociais. Mas a realidade é que carregamos todos uma pedra como Sisífio. Só que não é para toda a eternidade (embora pareça que sim). E nós não nos importamos muito com isso.

O Novíssimo Testamento e outros poemas - Jorge Sousa Braga



Jorge Sousa Braga
O Novíssimo Testamento e outros poemas
Assírio & Alvim
2012

Lí por aí


Qual é a regra matemática que nos demonstra que "o salário mínimo deve manter níveis adequados às disponibilidades das empresas" enquanto os salários máximos podem manter-se obscenos?

Cristina em MALONE meurt

Um poema de António Ramos Rosa



Horizonte Imediato

Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão


em Estou vivo e escrevo sol (1966) retirado de Antologia Poética, prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p. 90

Em Maio de 2010, aquando dos 30 anos sobre o desaparecimento de Ian Curtis, pedi a várias pessoas que escrevessem sobre Ian Curtis e a Joy Division. Aceitaram o desafio: Henrique Manuel Bento Fialho, Miguel Marques, Jorge Vaz Nande, Paulo da Costa Domingos, Victor Afonso, Sérgio Currais, André Moura e Cunha e Beatriz Hierro Lopes. Podem lê-los aqui.

Estados Filosóficos (43)

Os poetas são como os pescadores de rio. Há aqueles que vão à pesca por desporto e que exibem as últimas tendências em artefactos de pesca. Há aqueles que vão à pesca por desporto, com a cana que o avô lhes deu, pois ainda não comparam outra e nem tencionam. E há aqueles que vão à pesca porque lhes é essencial, vital.

(...)


26 graus num quarto às 8 da manhã. Um dia enevoado. Alergias. Um mundo em combustão. Sou professor contratado há dez anos e tenho onze contratos celebrados com escolas tuteladas pelo Ministério da Educação. Dei aulas em Silves (525km de casa). Dei aulas em S. Teotónio (500km). Foram os locais mais longe. Tenho sempre de alugar um quarto com serventia de cozinha (como é costume dizer). O mais caro que paguei foram 225 euros (em Caxias). Nunca tive ajudas de custo. Ao contrário daquilo que muitos pensam, os professores não recebem ajudas de custo. E custa-me ligar a televisão e ver os Senhores e aquela Senhora dizerem que é impensável os "funcionários públicos" deslocarem-se até 60km da sua residência sem ajudas de custo. Eu sei que os tempos estão difíceis. Mas já toda a gente percebeu que estão mais difíceis para uns do que para outros. Ou não?

Estados Filosóficos (42)



Não perguntes: questiona. E se ao questionares surgirem perguntas: questiona-as. 

Estados Filosóficos (41)


É claro que há escritores que são só nome.

Estados Filosóficos (40)


"Escritor" devia ser verbo e não nome. "Escritor" é aquele que faz, cria. Escritor implica acção.

Estados Filosóficos (39)



Tentar dar um nome a tudo pode ser uma tarefa difícil. Mas mais difícil é ignorar os nomes das coisas.

Estados Filosóficos (38)


Há quem coma o pão que o diabo amassou. Há quem tenha pão, mas nem o diabo se atreve a amassá-lo. Há quem não tenha pão e o diabo desconheça quem eles são.

José Miguel Silva



Que a mistificação se tornou absolutamente instrumental para os detentores do poder, é algo que se pode aquilatar pelo progresso do eufemismo nos meios de comunicação social. Assim, e a título de exemplo, não é por acaso que hoje se pretende chamar «colaborador» ao trabalhador, que ao corte de salários e à apropriação privada de bens públicos se chama «reforma estrutural», que à resistência anti-colonialista se chama «terrorismo» e ao terrorismo de Estado «libertação», que se chama «democracia» à oligarquia e «lobbying» ao tráfico de influências.

retirado de «Divagações sobre o futuro da literatura numa era da ignorância programada e pré-apocalíptica», em Cão Celeste, Lisboa: Abril de 2012, p. 46.

Cão Celeste





Cláudia Dias - Daniela Gomes - Diniz Conefrey – Isabel Baraona - José Feitor - Luís Henriques - Manuel Diogo - Maria João Worm
 *
Manuel de Freitas - António Barahona - Paulo da Costa Domingos - Rosa Maria Martelo - Luís Miguel Queirós - Vasco Graça Moura - Silvina Rodrigues Lopes - João Barrento - António Guerreiro - Jorge Roque - José Miguel Silva - Mariana Pinto dos Santos - David Teles Pereira - Inês Dias - Diogo Vaz Pinto

Tão pouca...


Tão pouca
coisa
para dizer

Tanto tempo
para
o fazer

Rogil - Henrique Manuel Bento Fialho





Henrique Manuel Bento Fialho
Rogil
Volta D' Mar
2012

Al-Mu'Tamid





com um abraço: António Baeta e  Manuel Ramos 


Quando estive um ano a trabalhar em Silves, duas pessoas – que logo, logo se converteram em bons amigos – deram-me a conhecer a poesia de Al-Mu'Tamid, o rei-poeta. Às vezes lembro-me do terraço da casa onde vivia, de contemplar o Castelo ao longe, o grande laranjal pelo meio e o seu aroma que invadia o ar. Muitas vezes pensei no rei-poeta, que muitas vezes deve ter passeado pelas margens do Arade, bebendo dos seios das suas amadas o mel da prosperidade e da paz. Às vezes, quando ouço a música de Anouar Brahem, sou transportado para esses dias, para esse terraço. Sinto o aroma das laranjeiras e grito bem alto: «Saúda, por mim, Abû Bakr, / os queridos lugares de Silves / e diz-me se deles a saudade / é tão grande quanto a minha.»

Tudo isto para falar da noite - Emanuel Jorge Botelho



Emanuel Jorge Botelho
Tudo isto para falar da noite
Antologia poética
prefácio e selecção de Manuel de Freitas
Língua Morta
2012


Foto: retirada do blogue Língua Morta

António Ramos Rosa





A Biblioteca Municipal de Manteigas foi a principal responsável pela minha iniciação literária. É claro que os meus pais também: sempre me ofereceram livros que, para desgosto deles, eu nunca li. Sem saberem contribuíram para a minha formação literária. O Rui também foi responsável pela minha iniciação literária. O Rui era o bibliotecário. Foi ele que me apresentou a Camilo José Cela, Hemingway, Al Berto, Luiza Neto Jorge, Ruy Belo, entre outros. Mas fui eu que descobri sozinho António Ramos Rosa. Foi com ele que descobri (antes mesmo de eu ser um funcionário) que um dia seria um funcionário cansado. O primeiro livro que lhe li foi Nos Seus Olhos de Silêncio, de capa azul, com a imagem do poeta de óculos e com um cigarro na mão. Depois li O Grito Claro, Ciclo do Cavalo, Volante Verde, Delta e por fim comprei uma Antologia Poética. No início a poesia de Ramos Rosa marcou a minha maneira de ver o mundo: tudo era uma imagem desconcertante. Depois, fui afastando-me aos poucos da sua poesia. Mas, às vezes, ainda a ela regresso.

A Ilha de Caribou - David Vann



David Vann
A Ilha de Caribou
Tradução de José Lima
Ahab
2012

(...)



Sensação de intolerância à voz humana. Pouca paciência para conversa de circunstância. Tentar colocar uma cara apresentável para as funções do dia-a-dia. Estou como o tempo: chuvoso e cinzento. Continuo a trabalhar como meio de sustentar os meus caprichos pequeno-burgueses. O país afunda-se em conversas inócuas. Levantam-se punhos cerrados sem a coragem de os fazer cair sobre as cabeças de uns quantos. Gritam-se palavras de ordem que se convertem em lugares-comuns, chalaça, anedota. A geração que fez Abril diz que Abril não se cumpriu e depositam as esperanças nas gerações mais novas. Esquecem que as gerações mais novas só poderiam fazer cumprir Abril se Abril tivesse sido cumprido nelas. Mas a utopia ainda é possível, pensam. Só que a utopia é, ela própria, utopia. Nada mais. A maior parte dos “pensadores”, dos “fazedores-de-opinião” é quadro superior num lugar qualquer. Gente que fala da fome de barriga cheia. E depois há aqueles que, como eu, reclamam por tudo e por nada, mas que não dispensam a internet sem fios, o conforto do sofá. No Verão vamos até um destino balnear qualquer, conhecemos bons restaurantes. Sabemos comentar bons vinhos que compramos na grande superfície comercial que explora os seus trabalhadores e paga os impostos no estrangeiro. Nós, a geração “casa-dos-pais” que enche salas de espetáculos à custa da precariedade e dos recibos-verdes. Nós, a geração que se arrisca a deixar de ser.

Discos pedidos (14)



Aos vinte e um anos
toda a rapariga é

um acidente

Pensamos
bebemos demasiado
para os nossos vinte e
um anos

Tudo de uma vez

As noites
eram o dia que

procurávamos

Não queríamos
memórias

Apenas: a pele
como pele

a sede
como sede

Um poema de Dora Ribeiro


amor à paisana

suba e desça uma paisagem inteira
componha versos à beira d'água
mergulhe cinzas num balde de
almas

enlouqueça as idéias mais estáveis

e
antes de descansar
meça a intensidade
do rosto que ficou
e da força que te puxa
para o centro do mundo


em o poeta não existe, 1ª edição, Lisboa: Angelus Novus - Cotovia, Colecção Inimigo Rumor, 2005, p. 57.

Em repeat



Tamaryn
The Waves
2010

Indignar-me é o meu signo diário (18)



(clicar na imagem)

Diário da República, 2.ª série — N.º 20 — 27 de janeiro de 2012



Afastado que ando do lixo que por aí prolifera, só hoje chegou até mim esta pérola. Deu polémica logo quando foi publicado. Não deixa de ser, no entanto, um bom exemplo daquilo que se passa no nosso país (e escrevo o nome "país" com letra minúscula de propósito). Enquanto isso, há 3 dias que andamos a ouvir notícias sobre a promoção "Pingo Doce". Parece, também, que o IKEA prepara-se para fazer o mesmo. Dizer que estamos entregues a uma corja é um eufemismo.

Fernando Lopes 1936-2012



(...)


E esta chuva que me anima, que proclama a minha finitude. Este céu cor de chumbo, que não há outra cor para ele, pesado como está. Os dias sem nome. Que nome para eles? Como um dia escreveu o Rui Costa: «cabemos inteiros/no mundo, às vezes/acordamos com os pés/fora da cama:/somos pequenos,/somos tão grandes.». Mas que fazer quando nem pequenos nem grandes nos sentimos? 1º de Maio passado no sofá. Ficar triste com as notícias da televisão. Cada vez mais me convenço que somos governados à romana: pão e circo. Triste. Uma colega diz: 100 euros no orçamento familiar fazem toda a diferença! E eu, ingénuo, pergunto: e a dignidade, não conta? Parece que não.