Um poema de Kenneth Rexroth


O Leão

É chamado o rei
dos animais. De hoje em dia
há tantos em jaulas
quantos os há lá fora delas.
Se te oferecerem uma coroa, recusa.


em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 335.

(...)


Aquela que eu designo de mim para mim como "geração Sião" (Paulo da Costa Domingos, Rui Baião, Jorge Fallorca, Manuel Fernando Gonçalves, Emanuel Jorge Botelho, José Carlos Soares, Levi Condinho, Fernando Gandra, António Cabrita, entre outros) ficaram arredados dos Poemas Portugueses. Duvido que a maioria dos mencionados se importe que tal tenha acontecido. No entanto, por uma questão de justiça (tanto pela qualidade como, também, pela quantidade de títulos publicados) estes nomes deviam estar incluídos na que é, até hoje, a maior antologia de poesia portuguesa. Podem alegar dificuldades na obtenção de autorizações por parte de alguns autores (pois coloco de lado a questão do esquecimento). Num dos casos essa questão nem se coloca: alguns dos seus poemas encontram-se (por vontade do autor) em domínio público. Falo de Paulo da Costa Domingos, que foi editor de alguns dos mais sonantes nomes da poesia portuguesa da "geração de 80": Al Berto, Adília Lopes e Helder Moura Pereira.

Um poema de Yvette Centeno



Restaurante

Leva-me outra vez para a mesma mesa
onde fico de costas para a janela
onde o tempo me esquece
onde nada me toca
o teu gesto protege
o teu corpo separa
a água que me dás
interrompe a memória

Só à porta da rua
o tempo reaparece.

em A Oriente, 1ª edição, Lisboa: Editorial Presença, colecção Forma – 38, 1998, p.12

A Sul de Nenhum Norte



A Sul de Nenhum Norte
Número 6

Das fotos (15)



Sem título (15)
© manuel a. domingos, 2009
(clique na imagem para aumentar)

Entre a Carne e o Osso - Luís Filipe Parrado



Luís Filipe Parrado
Entre a Carne e o Osso
Língua Morta
2012



Foto: retirada do blogue O Melhor Amigo

(...)


Sou professor contratado há dez anos. Tenho 3295 dias de serviço (3295:365 = 9,02 anos). Tenho 11 contratos celebrados com escolas tuteladas pelo Ministério da Educação. Onze contratos seguidos celebrados com escolas tuteladas pelo Ministério da Educação. Onze.

1984 - George Orwell



George Orwell
1984
tradução de Ana Luísa Faria
Reedição
2012

Pensamento do dia



Lisa Gerrard
Sanvean
The Mirror Pool
1995

Pavese



Podia começar este texto a dizer: antes de conhecer Pavese eu já sabia que trabalhar cansa. Mas vou começar de uma forma menos original. Aqui vai: ainda não fui a Itália. Ainda não andei de bicicleta pelas suas estradas campestres ao som dos Beirut (que penso terem a música mais adequada para passeios de bicicleta por Itália). Mas quando li A Lua e as Fogueiras foi como se tivesse (e ainda os Beirut não existiam). Foi desta maneira que cheguei a Pavese. Só mais tarde encontrei a sua poesia e aquele poema muito conhecido da morte e dos olhos. Ainda não me atrevi a ler-lhe os diários. Os excertos que li por aí foram o suficiente para ficar a saber que aquilo não deve ser fácil de digerir. Um dia irei munir-me de Eno e anti-ácidos. Tentarei, depois, a leitura. Mas duvido que o Eno e os anti-ácidos sirvam para alguma coisa.

(...)


O poema é sempre uma tentativa falhada de algo. No poema procura-se o que nunca se teve. Procura-se o falhanço. O poema é apenas uma forma bonita de dizer falhei: na vida, no amor. Que irei, também, falhar na morte. Um poema é aceitar o falhanço. O poema é uma ausência, um subterfúgio. O poema é uma desordem, problema. O poema é o p(r)o(bl)ema. O poema é a poesia que é mas que tenta deixar de ser. O poema não é uma arma: é a ilusão dessa arma. O poema não liberta, prende. O poema é uma mentira.

Eu, Narciso (1)



Podem ler aqui a entrevista ao jornal Expressão (Escola Secundária Afonso de Albuquerque - Guarda) e que saiu no jornal O Interior da Guarda. Fui aluno do Liceu durante três fantásticos anos.


Nota: o respeito pelo Acordo Ortográfico é uma opção editorial. Mas também é verdade que me esqueci de dizer que queria o meu texto pela "antiga" grafia.

Teorias



manuel a. domingos
Teorias
Edição de Autor
2011
tiragem única de 100 exemplares

Sophia



Tenho uma teoria que poucos compreendem e aceitam. Digo que os grandes escritores, aqueles que são verdadeiramente grandes, só são conhecido por um dos nomes: Camus, Bukowski, Mishima, Orwell, Yeats, Bernhard, Camões, Pessoa, Agustina. Sophia. Cheguei a Sophia através de O Búzio de Cós, esse livro onde o Mediterrâneo respira em cada verso. Quando estive em Malta lembrei-me muito dele, do livro: a luminosidade, a serenidade, o azul desse mar que durante muito e muitos anos foi "o mar". Agora, que sou professor, levo Sophia aos meus alunos: O Rapaz de Bronze, A Menina do Mar, A Fada Oriana. E todos os anos um silêncio invade sempre a sala de aula assim que se ouvem as palavras de Sophia. Ela que me perdoe o meu sotaque, a minha (por vezes) falta de ritmo. Mas de certeza que ficaria contente ao saber que as suas palavras são muito apreciadas e que os alunos pedem sempre mais.

a mesma cantiga de sempre - Pedro Afonso



Pedro Afonso
a mesma cantiga de sempre
Lua de Marfim
2012

Kafka no Porto


Luís Graça Nobre e Rui Manuel Amaral lêem contos breves de Kafka.
Próximo sábado, 14 de Abril, pelas 17h00
Gato Vadio
(Rua do Rosário, 281, Porto).

(...)


Páscoa. Ir e vir. A Páscoa já não é o que era. Lembro-me quando era menino e moço ouvir os meus pais dizer que a Páscoa já não é o que era. Agora sou eu que o digo. Antes as portas todas abertas, as ruas cheias de gente. Entrar e comer. Beber. Ouvir. Rir. A Páscoa já não é o que era. Os anos a passar. Em redor das mesas mais lugares vazios. Os anos a passar. Os anos a passarem-me. Os ovos-verdes, bola-de-crista, queijo-fresco, tinto, bacalhau-albardado, queijo-de-ovelha. As ruas vazias. As campaínhas a anunciar a chegada do Senhor Padre que traz sotaque e boa-disposição de terras do Brasil. Os ovos-verdes têm pouca salsa, dizem, o bolo-de-crista já não é como era, dizem, o queijo-fresco já foi mais macio, dizem. O mesmo ritual todos os anos.

Um poema de Rui Lage


Jovem mulher numa capela de aldeia

Num banco junto à parede,
fértil e escura como terra lavrada,
os olhos adormecendo no incenso
que a tomava pela cintura
e lhe dava o cansaço
da madrugada.

Os cabelos negros enredando o frio
que vinha de fora
pela porta que alguém esquecera aberta
mostrando ao fundo o rio
e a laranjeira despida
pela geada.

Morte
em ambos os lados da porta
dando entrada
e súbito o dia
e depois
mais nada.

em Corvo, V.N. de Famalicão: Quasi, 1ª edição, 2008, p. 54.

Primeira viagem - Fernando Machado Silva



Fernando Machado Silva
Primeira viagem
Orfeu
2012

manuel a. domingos





A sua obra poética (patética?) resume-se a três livros publicados no espaço de dez anos. A sua biografia (aquela que verdadeiramente importa) está resumida num texto que pode ser encontrado aqui. Recentemente, em declarações prestadas frente ao espelho, disse que as manhãs são mais bonitas quando vão a meio. Estas palavras causaram algum rebuliço no meio do pó acumulado nas estantes.

(...)


Há dez anos, numa Quinta-Feira Santa, começou a aventura. A apresentação de Entre o Silêncio e o Fogo foi no auditório do Paço da Cultura da Guarda, entre família e muitos amigos. Houve leitura de poemas por Américo Rodrigues e Teresa Oliveira. A apresentação esteve nas mãos de Mário Gomes, que era professor na Escola Superior de Educação da Guarda. A noite terminou no bar Noctis. Foi uma noite bem porreira. 

Manuel Fernando Gonçalves




Aconteceu em Abril de 2010. Descobrir um novo poeta é sempre fantástico. Aconteceu comigo em relação a Manuel Fernando Gonçalves e com o seu livro Caos: «Julgava adivinhar-te, num ângulo/preciso da noite, convidas/sempre, em outro lugar, apenas/ofegante.». A poesia de Manuel Fernando Gonçalves é assim mesmo: uma espécie de murro no estômago, mas um murro que sabe bem. Depois foi o encontro com Coração Independente: «Há quem escreva pelo que experimenta/da vida e, dessa maneira, seja torpe ou ténue,/nunca diga, do registo do corpo, o que falta/de novas feridas, de alegres sobressaltos./Há quem viva pelo que leu, escritos,/colados aos poemas, os dias da dor e da ira/e não saiba que são cortesias/de quem tudo sabe sobre as palavras» (p.62). E um dia tentei cumprir uns certeiros versos dele: «Levei-me a passear / pela trela e ladrei / às próprias sombras / como se não soubesse / serem minhas / as extensões do corpo.». Só que encurtei bastante a trela, não fosse partir por aí e nunca mais voltar. Manuel Fernando Gonçalves é mais um que ficou de fora da Antologia. Tem livros publicados na Frenesi, & etc e Assírio & Alvim. Tudo editoras de referência (é o que dizem, pois para mim qualquer editora que publica poesia é de referência). Partilha um blogue com Helder Moura Pereira. Está ali na coluna do lado. Podem começar a procurar.

Um poema de António Reis


10

Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto


em Poemas Quotidianos (1957), retirado de  Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Réis-Sá e Rui Lage, Porto: Porto Editora, 1ª edição, 2009, p. 1522.

Dispensar o Vazio - Fernando Esteves Pinto


Fernando Esteves Pinto
Dispensar o Vazio - Antologia Poética
prefácio de António Carlos Cortez
Lua de Marfim
2012

José Alberto Oliveira



Quando a primeira vez folheei Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI estranhei a ausência de três poetas que admiro: Paulo da Costa Domingos, Jorge Fallorca e João Camilo. Mas estranhei mais a ausência – pois a considerava mais do que garantida – de José Alberto Oliveira. Os três primeiros poetas (apesar de significativos e representantes de uma “geração” – Paulo da Costa Domingos é apenas o editor da Frenesi) poderiam ter sido “esquecidos” devido ao seu recato nestas coisas da poesia. Mas José Alberto Oliveira? Publicado pela mediática Assírio & Alvim? É claro que, muitas vezes, a importância de uma Antologia (como a referida) reside nos nomes que nela não constam. É o caso. José Alberto Oliveira é um poeta muito cá de casa. Engracei logo com ele no primeiro livro que lhe li: Por Alguns Dias. Seguiram-se O que vai acontecer? e Peças Desirmanadas e Outra Mobília: «Se puder escolher/quero morrer resignatário, desconhecido/e injustiçado,//para tudo/ficar como dantes.» (p. 42). Há outras coisas para ler dele. Dêem-me tempo.