Um poema de Rosa Alice Branco


Dias melhores

A mulher espera as noites e também os dias,
esperta o lume enquanto, esperta a espera.
Há umas quantas coisas que a prendem, coisas
que arrecadou para a vida e já não servem.
Quem serve é ela e serve a Deus desfiando o rosário
pelos que já lá estão.
Por aqui vai-se indo, vai-se levando a vida
para o outro lado enquanto se esperam dias melhores,
dias mecânicos, a labuta dos músculos, a cabeça em paz
e a noite cansada, os pensamentos cansados,
o sofrimento cansado só quer estender o corpo
até de manhã. Quando mal nunca pior,
o café quente, o pão acabado de fazer
como se fosse cedo e as mãos na sua azáfama
pudessem fazer os dias gloriosos as noites luminosas
com que sonhou e já não servem. Agora só a espera
e as coisas que foi arrecadando para a morte.

em Da Alma e dos Espíritos Animais, Porto: Campo das Letras, 1ª edição, 2001, p. 14. 

Pensamento do dia


Sharon Van Etten
Serpents
Tramp
2012

Caderno de Milfontes




São vinte e quatro os poemas que compõem Caderno de Milfontes (Volta D’ Mar, 2011). O ponto de partida é dado pelos versos de João Miguel Fernandes Jorge e de Rui Reininho/GNR: «Costa atlântica é sempre inevitavelmente». Para Rui Almeida (1972) escrever poesia parece ser algo de inevitável, porque, em certa medida, necessário. Talvez na poesia se encontre a resposta: «Como será limpar o rosto depois de Agosto?» (p. 9).
Um segundo livro de poesia é esperado sempre como um segundo livro de poesia. Ora Caderno de Milfontes é o segundo livro de poemas de Rui Almeida, no entanto, podia ser confundido como sendo o primeiro. Explico: no seu verdadeiro primeiro livro, Lábio Cortado (Livrododia, 2009, Prémio Nacional de Poesia Manuel Alegre), Rui Almeida surpreendeu tudo e todos com uma voz forte e avessa a certos tiques que proliferam na actual poesia portuguesa. Em Lábio Cortado podemos encontrar uma poesia tensa, amadurecida. Em Caderno de Milfontes, encontramos uma poesia no limite, frágil, luminosa, assente nos sentidos: «Subisse o mundo até à visão,/Até ao rumor da maravilha,/Até aos braços/Que seguram a forma de ser feliz» (p. 10). São estas as principais características que me levam a pensar que Caderno de Milfontes podia muito bem ser uma primeira obra, uma obra inicial e iniciante (e que não envergonharia, de nenhuma maneira, o autor).
Em Caderno de Milfontes Rui Almeida explora a potencialidade de cada palavra, de cada verso: «Ascende ao presente a vaga/Firmeza aplicada ao que sucede,/Distracção do tempo/Assumida em palavras sobrepostas/Para construir um nome.» (p. 12). Há, nestes poemas, um tom telegráfico onde se procura dizer tudo em poucas palavras: «Entre a espera e o cerco/Há a intenção da demora/Para habituar o movimento/À forma estável.» (p. 16). Mas são os sentidos (tacto, visão) que mais presentes estão nestes poemas. Podemos falar de poemas do corpo e para o corpo: «A firmeza do tacto,/A permanência das mãos/Para além da pele,/Deixadas, sem acaso,/A fazer caminho/De tensões e aberturas/Dos músculos ao ar limpo/Que os sustém.» (p. 25).
Socorro-me das palavras de Italo Calvino – ao referir-se à poesia/escrita de Tonino Guerra – para melhor tentar “concretizar” a experiência que foi a leitura da poesia que podemos encontrar neste Caderno de Milfontes: todos os poemas, neste livro, são experiências precisas, concretas e inesperadas; neles há um sentimento e um tom de voz que nos fala, porque é necessário guardar, salvar os melhores dias: «Salva-se agora/O que um dia será impossível.» (p. 31).


Rui Almeida, Caderno de Milfontes, Nazaré: Volta D’ Mar, 2011, pp. 33.

Tonino Guerra



A Água da Paróquia

Em Santarcangelo ao poço da Paróquia já não vai beber ninguém. Era a água benta que deitavam na cabeça das crianças para as baptizar e lavava as mãos de quem as metia dentro da pia.
E entretanto continuavam a andar para baixo e para cima os baldes da gente que morava ali à volta.
Depois puxava-a para cima um camponês para regar as alcachofras, até que fecharam o poço com uma chapa e na borda puseram uma placa a dizer assim: «Cá de baixo a água da Paróquia olha para o alto».

em O Livro das Igrejas Abandonadas, tradução de José Colaço Barreiros, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 42.

Em repeat



Sharon Van Etten
Tramp
2012


Muito bom.

Poesia Incompleta



(Foto: João Gaspar)

A Poesia Incompleta fecha as portas. Esperemos que se cumpra o que é dito na breve mensagem de despedida, publicada no blogue da livraria. Leia-se, ainda, a notícia do Público.

(...)


Um dia de sol. Pouco trânsito na A1. Reuniões de avaliação. 

PT



O este blogue passou a ser PT e eu nem tinha dado conta.

Peter Sloterdijk


Uma das maiores ironias da história moderna é que nenhum proletariado ocidental foi capaz de organizar movimentos de greve geral tão espontâneos e tão disciplinados como a Polónia socialista do ano de 1980, cuja greve não exprime precisamente uma vontade de poder, mas, pelo contrário, a vontade de reduzir o sofrimento causado pelo poder.


em Crítica da Razão Cínica, tradução de Manuel Resende, Lisboa: Relógio D' Água, 2011, p. 106.

Um poema de Ruy Cinatti


Segredo mais íntimo

Invade meu amor a noite antiga,
a memória eficaz, a derradeira
bem-aventurança,
sagaz querela, esperança
de reaver os frutos que ofertei,
tão disponível, como o fim do dia
cerrado aos prazeres habituais.

Fugaz, como a lembrança
de outras idades sepultadas mais,
junto de ti eu quero ter-me nelas,
vivo e literal,
reajustável ao sentir nascido
de uma criança que, sem ter morrido,
reapareceu criança igual a si.

Invade meu amor a noite antiga.
Retoma o teu lugar entre os demais
vultos que te desassossegam.
O que não sabes ter celebra ainda
a festa deslumbrante
que foram teus secretos esponsais.


em Corpo – Alma, Lisboa: Editorial Presença, 1ª edição, 1994, p.48.

Pensamento do dia


excerto do filme
Nostalghia
Andrei Tarkovsky
argumento de Tonino Guerra
1983

Tonino Guerra (1920-2012)


Morrem poetas todos os dias. Mas eu não conheço a poesia de todos os poetas. Conheço a poesia de Tonino Guerra: a dos livros e a dos filmes. O Livro das Igrejas Abandonadas é um conselho que dou.

(...)

A verdade é que a vida se resume às coisas mais básicas: comer, dormir, trabalhar. Nos tempos que correm poucos são aqueles que param para pensar; e quando se pára para pensar é para fazê-lo sobre o trabalho ou sobre aquilo que vamos comer. Daí, muitas vezes, a vida não ter sentido. Resumir a vida às coisas mais básicas é um erro.

(...)


Muitas vezes lembro o rio aos dezasseis anos. Foi, talvez, o melhor dos Verões. Aos dezasseis anos todas as promessas são para sempre: amigos para sempre, amo-te para sempre, felizes para sempre. Depois, com o envelhecer, cada um segue o seu caminho. Quantos amigos – desses para sempre – me restam? Dois. Três, nas melhores das hipóteses. A única coisa que realmente permanece é o rio aos dezasseis anos. O rio. O rio dos corpos sobre as pedras quentes, dos mergulhos da “Carvalha” (só um ou dois é que conseguiam), do chouriço e da febra nas brasas, dos cigarros fumados com tiques de adulto, da sueca, às vezes do silêncio. O rio. Sim, ele permanecerá para sempre. E eu nele, também.


Foto: José Branco

Ocupação do espaço (10)


Da actualidade de alguns escritos

Quando Ernesto Sampaio publicou no Diário de Lisboa, em 19 de Junho de 1987, o texto O Cidadão Liru (posteriormente coligido em Ideias Lebres, Fenda, 1999), talvez não imaginasse a actualidade que o mesmo iria ter passados estes anos.
Ernesto Sampaio considerava, em 1987, que vivíamos num «triste tempo, regido pelo vazio, sem qualquer projecto histórico mobilizador», onde o mundo se encontrava domesticado pela angústia, cepticismo e «narcotizado pela apatia». Estas reflexões demonstram, talvez, que Ernesto Sampaio não ficou indiferente à leitura de Gilles Lipovetsky, nomeadamente do livro A Era do Vazio, publicado em França em 1983. Contudo, o texto de Ernesto Sampaio concentra-se no exemplo português.
Em 1987 estávamos longe de saber o que o futuro nos reservava, nomeadamente o fenómeno dos blogues e das redes sociais. Em 1987 os blogues e as redes sociais eram outros, mas a obsessão «pela «informação», pela histeria de «comunicar», de se exibir gratuitamente perante um público fantasmagórico, insubstancial, que contempla indiferente a gesticulação autista dos novos narcisos pouco sofisticados», era a mesma.
Mas que retrato faz Ernesto Sampaio de Portugal em 1987? Nada abonatório: «o ensino é medíocre e não tem qualquer finalidade humanista, a cretinice é a norma dos programas de rádio e televisão, a imprensa pratica sistematicamente o electrochoque afectivo (…), o obscurantismo, sob todas as suas formas, está na ordem do dia, os conceitos mais vis e reaccionários beneficiam de uma publicidade espaventosa, os poderes montam os dispositivos sofisticados para privar os cidadãos de qualquer hipótese de reflexão e acção.» (o texto é de 1987, lembram-se?).
É claro que, neste cenário, a apatia impera. Por que razão não há reacção? Porque devido a todos estes mecanismos opressores o cidadão «nunca se interroga sobre o que deve fazer (tem, aliás, a sensação de que não pode fazer nada), limitando-se a pensar com inquietação no que lhe virá a acontecer.». Ernesto Sampaio continua: «É uma cultura maluca: prega a iniciativa privada aos desempregados e promete torná-los a todos empresários.» Mas, onde é que eu já vi isto?

Este é o meu sangue - AVV


Abel Neves, A. Maria de Jesus, Clara Caldeira, Inês Dias, Jaime Rocha, John Frey, Levi Condinho, Luís Pedroso, Manuel da Silva Ramos, Manuel de Freitas, Marta Chaves, Ricardo Álvaro, Rui Azevedo Ribeiro, Rui Caeiro e Vasco Gato.

AVV
Este é o meu sangue
Tea For One
2012

Ocupação do espaço (9)


Só o cinismo nos pode salvar

A vida, sem dúvida alguma, vale a pena ser vivida. Seja com um olhar pessimista sobre as coisas; seja com um olhar optimista. Mas vivê-la.
Podemos optar por fazê-lo apegados a bens materiais ou imitar os cínicos gregos ou os cínicos modernos. É claro que na Antiga Grécia era muito mais fácil ser cínico, pois a “sociedade do espectáculo” ainda não existia e os mecanismos de opressão a ela associada tão pouco.
O cinismo grego deu lugar ao cinismo moderno, isto é, àquele que hoje conhecemos e que tem uma enorme carga negativa. Acredito que a o cinismo moderno, a indiferença, é a única coisa que separa o Homem da loucura ou do assassínio em massa. O cinismo é aquilo que nos salva; é a única saída.
A questão é que optar por esta posição, por esta via – a do cinismo –, é muitas vezes algo que não é feito em plena liberdade, pois toda a escolha (por mais difícil que possa ser) tem de ser sempre tomada em liberdade. O cinismo é induzido.
Diariamente, somos bombardeados com informação e mais informação (muitas das vezes inconsequente), que se torna ruído devido ao excesso. Esse ruído, essa informação em excesso e inconsequente, torna o homem indiferente; induz no homem essa indiferença. Assim, o homem não se torna cínico em plena liberdade.
Retirada a liberdade de escolha ao homem, os mecanismos de opressão (Estado, Media, Indústria da Moda, entre outros) conseguem “moldá-lo” a seu belo prazer, induzindo no homem a ideia “eu sou indiferente porque foi a escolha que fiz”. Mas isso não é verdade.
O homem é indiferente porque essa indiferença lhe foi induzida. Este género de indiferença é perigoso, porque alienante.
O cinismo – enquanto escolha feita em consciência e liberdade (repito: liberdade) – ajuda a separar o trigo do joio. Ele ajuda a distinguir aquilo a que devemos ser indiferentes ou não. O cinismo, assim, é uma arma contra a alienação. E é isso que o cinismo combate: a alienação.

Ignatius J. Reilly



Ignatius J. Reilly
A Confederacy of Dunces
John Kennedy Toole

Fonte: imagem retirada daqui.

Ao cuidado das editoras portuguesas



A GREEN HUNTING CAP squeezed the top of the fleshy balloon of a head. The green earflaps, full of large ears and uncut hair and the fine bristles that grew in the ears themselves, stuck out on either side like turn signals indicating two directions at once. Full, pursed lips protruded beneath the bushy black moustache and, at their corners, sank into little folds filled with disapproval and potato chip crumbs. In the shadow under the green visor of the cap Ignatius J. Reilly’s supercilious blue and yellow eyes looked down upon the other people waiting under the clock at the D. H. Holmes department store, studying the crowd of people for signs of bad taste in dress. Several of the outfits, Ignatius noticed, were new enough and expensive enough to be properly considered offenses against taste and decency. Possession of anything new or expensive only reflected a person’s lack of theology and geometry; it could even cast doubts upon one’s soul.
Ignatius himself was dressed comfortably and sensibly. The hunting cap prevented head colds. The voluminous tweed trousers were durable and permitted unusually free locomotion. Their pleats and nooks contained pockets of warm, stale air that soothed Ignatius. The plaid flannel shirt made a jacket unnecessary while the muffler guarded exposed Reilly skin between earflap and collar. The outfit was acceptable by any theological and geometrical standards, however abstruse, and suggested a rich inner life.

excerto dos dois primeiros parágrafos do livro de John Kennedy Toole A Confederacy of Dunces.