QUE O FOGO RECORDE OS NOSSOS NOMES (3/8)
Adeus Iron Butterflay, Deep Purple, Nick Cave,
Nico, Topo, Leño, Asfalto, Kortatu, Ñu,
adeus Mortos de Cristo, La Furia, Chumbawamba,
fogueiras blindadas engolidas pelo lobo púrpura
enquanto cantáveis nas barricadas.
Adeus Marcel Duchamp,
adeus ao homem mais lúcido do século XX.
Adeus Le Corbusier, amigo dos nazis,
que desenhaste andares onde as pessoas ficavam loucas.
Adeus Andy, astuto mercador de cabelo branco.
Adeus aos Beatles, baratas disformes,
agora é que é a sério a Magical Mystery Tour.
Adeus Rolling,
que rolastes desde Street Fighting Man
até vos curvareis sobre o capital como uma palmeira.
Adeus Lou Reed, taciturna flor de plástico,
Sweet Jane que me fazias dançar
abraçado a uma mentira.
Adeus Godot, Wenders do céu,
Fassbinder do inferno, filmes da minha vida
dai lembranças à Fender que Jimi Hendrix queimou em Haight Ashbury,
à alma negra de Janis Joplin
a ensaiar o voo da borboleta
sobre o Trip Festival de Monterrey,
a Morrison que caiu como uma peça de dominó
e a Salvador Allende a defender La Moneda
com uma absurda metralhadora
enquanto os B-56 bombardeavam Santiago,
adeus alamedas,
carvão quente dos poemas árcticos de Huidobro
e Coney Islands of the Mind.
Adeus paisagem, adeus pélvis de Elvis, criança
drogada arrasada pelos mesmos que te colocaram
nas brumosas e incertas montanhas do êxito e aí te deixaram abandonado.
Adeus Man Ray, adeus febre de sábado à noite.
Adeus Bee Gees,
vestidos como meninas na primeira comunhão.
Adeus suicidas, românticos,
cemitério de Père Lachaise.
Adeus ao Rei Lagarto
inchado na banheira antes de morrer de overdose.
Adeus tontos que confundistes o sagrado
pois tinha sido suficiente dançar no deserto.
Adeus computadores, Chaplin, quimeras, comunistas,
aviões, sereno e pequeno fiador Gandhi,
adeus à Não Violência,
ao ruído dos jornais e da CNN,
ao grito dos chefes,
e aos átomos ao serviço das cabeças ocas dos militares.
Adeus àqueles que pintam as estátuas públicas de cor-de-rosa
e votais em ninguém porque ninguém oferece nada.
Antonio Orihuela, Que el fuego recuerde nuestros nombres, Punta Umbria: Aullido Libros, 2007.
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