João Camilo


Não era sempre a mesma coisa, podia variar, mas era assim certos dias e nunca se sabia quando, e então parecia que vivíamos no deserto. Nesses dias era por todo o lado a mesma paisagem desolada, o mesmo tédio, a mesma tristeza ou monotonia que pareciam sem solução. Nós fugíamos da esplanada, tentávamos o Starbucks por exemplo, ou a Borders, mas nada mudava, era sempre a mesma desolação, parecia que vivíamos numa cidade desertada. Os mesmos rostos de rapazes, de homens sós, meio fechados, às vezes três ou quatro gatos pingados. E as raparigas tinham desaparecido quase todas, creio que era sempre pior nas sextas-feiras e nos sábados.

em Um Animal de Pele Branca, Imaculada, Entroncamento: OVNI, 1ª edição, 2011, p. 44.

Henry Miller



Eu ia a passear na rua com a minha mãe a caminho da praia. Passávamos por um quiosque/papelaria/livraria e estavam uns livros de Henry Miller à venda: Plexus e Nexus. Edições Livros do Brasil, com aquelas capas insinuantes de corpos nus entrelaçados. Eu olhava para os livros com vontade de os ter (um colega do Liceu tinha-me emprestado Sexus nesse ano lectivo). A minha mãe comprou-me os livros, mais o Trópico de Capricórnio. Foram a minha leitura nesse Verão. Eu debaixo do chapéu-de-sol a ler Henry Miller enquanto via mamas a saltar por todos os lados e eu com vontade de me por nas mamas ou que as mamas se pusessem em mim. O que mais gostei da escrita de Henry Miller foi a sua simplicidade e despretensiosismo. Mais tarde li outros livros dele. É um autor que me acompanha há alguns anos, pois naquele Verão eu devia ter os meus 16 ou 17 anos. Já não sei muito bem. Quando estava a dar aulas no Estabelecimento Prisional de Caxias, requisitei na Biblioteca do Estabelecimento (uma Biblioteca muito boa, digo já) esse livro que só foi publicado depois da morte de Miller: Opus Pistorum. Entendi logo a razão de tão tardia publicação: é um livro demasiado explícito, até para a pena (sempre quis utilizar este termo) de Henry Miller. 

Breve Ensaio Sobre a Potência - Rui Costa


Rui Costa
Breve Ensaio Sobre a Potência
Língua Morta
2012

Knut Hamsun


Passou fome. Foi condutor de eléctricos entre outras profissões. Prémio Nobel da Literatura. Simpatizante nazi. Cheguei a Hamsun através de Bukowski, que era um admirador confesso do escritor norueguês. Li Hunger em inglês e depois em português. Pan e Victoria foram os seguintes. Tenho lá outro romance, em inglês, à espera para ser lido; mas confesso que tenho a secreta esperança que seja publicado em Portugal, pois a minha edição inglesa tem umas letras muito pequenas e um espaço entre linhas quase inexistente: Growth Of Soil. Há quem diga que é um escritor "datado". Relembro as palavras de Thomas Bernhard: «Durante décadas as pessoas não lêem o Hamsun e depois ele volta. Isso passa-se com todas as pessoas. Mas está com certeza, com toda a certeza, escrito conscientemente de uma forma que ainda daqui a cem anos se pode ler.». E está tudo dito.


Fosse eu homem


Fosse eu homem
em todo o meu tamanho
e não haveria
metafísica suficiente
no mundo inteiro.

Mas não se preocupe
mestre Caeiro: aprendi
bem a lição.

Só que vejo
sempre tudo
muito pequeno.

(...)


Poderia dar a este texto o título “Da hipocrisia”, mas achei que era demasiado forte, mesmo para uma pessoa que escreve as coisas que eu escrevo sem, muitas vezes, pensar no assunto e nas consequências. Vem isto a propósito do Facebook e das amizades. Um dia o Rui Costa disse-me que aquilo não era o Facebook, antes um “Fakebook”. É claro que não foi ele que inventou o termo, mas adiante. A questão está no seguinte: coloquei no “meu” mural do Facebook ligação ao texto do Henrique, a este e àquele do Pedro Afonso. Começo a ver os “likes” a cair como tordos. E depois reparo que algumas das pessoas que colocaram “likes” nas ligações que fiz, são (no Facebook) “amigas” do Senhor Jorge Reis-Sá. Ora alguma coisa não bate certo aqui. Como já vai sendo hábito, isso não é novidade nenhuma. Não quero controlar as "amizades" ou as conveniências de ninguém. Mas gosto que a bota bata com a perdigota.

Ao cuidado do Senhor Jorge Reis-Sá


A Pomba

Era uma vez uma pomba que largou um poio, bem lá do alto do seu voo. Depois largou mais outro, e depois mais um. Continuou a voar e a largar poios durante semanas e semanas. Já não conseguia parar de largar poios, porque estas coisas habituam (dizem). A pomba começou a ficar mais leve e tornou-se muito rápida. Agora descia em voo picado depois de largar um poio e conseguia vê-lo atingir o alvo, normalmente outro poio, que passeava cá em baixo como quem não quer a coisa. Os poios são - mais do que um conceito ou uma forma de estar na vida -, poios.


Rui Costa, «A Pomba», em Sulscrito, nº2, Faro: ARCA - Associação Recreativa e Cultural do Algarve, 2008, p.98.

Rui Costa (1972-2012)



CANTILENA

às vezes eu penso, ou então não penso.
às vezes cresço por dentro e então digo:
de quem é esta terra mais pequena, aquele
espaço no cabelo mais pequeno tão quando
a tua mão tão na minha? apertá-la é um lugar
muito perto. e digo ainda: quem é a locomotiva
de silêncio? lá fora é dia e a noite é um moinho.
sim, a planta entende as tuas pernas porque canta
nelas. a mão bate na cara, a canção hoje canta!
se alguém me perguntar eu digo que a beleza
é uma garganta toda azul a escorregar no céu.
e falo numa máquina feia de segredar ao ouvido.
quero comer o mar
quero um silêncio assim durante quinhentos poemas




poema retirado daqui.

Russell Edson no Porto



Os textos de Russell Edson (EUA, 1935) não são exactamente poemas. Também não são contos curtos. É algo que fica a meio caminho entre um género e outro. Ou que, de certa forma, parece combinar os dois. Uma espécie de ornitorrinco literário. Ora, é justamente essa ambiguidade, essa condição de coisa escorregadia, desarrumada e difícil de classificar que torna a obra de Russell Edson tão sedutora. Não é poesia, não é prosa, é grande literatura.

Sobre O Espelho Atormentado podem ler aqui a minha ficha de leitura.

Thomas Bernhard


A gente tem também de lidar com pessoas que só podem ser tratadas a tiro, e na maior parte do tempo vê-se afinal em situações a que se pode aplicar o dito «burro que tem fome cardos come». É essa a maior parte das situações: que a pessoa vai afinal almoçar ou jantar com aqueles que verdadeiramente não suporta e considera estúpidos e diante deles tem de fingir alguma coisa. Por outro lado, não se pode estar sozinho, verdadeiramente não se pode. Pode-se fazê-lo durante longos períodos, eu nisso estou muito exercitado, mas a certa altura tem de voltar a acontecer qualquer coisa, e eu penso então que estou naturalmente sozinho períodos mais longos do que inversamente.
Às vezes não nos incomodam absolutamente nada as coisas mais incríveis, depois há ninharias que mexem connosco, é assim, e isto é sabido. A pessoa é fraca, está simplesmente presa por um fio. Uma pessoa que é instável e influenciada pelo tempo e tem dores nas cruzes e não sabe se a bexiga aguenta ou não aguenta, porque é que não há-de estar também dependente de todas essas coisas? Está à mercê de tudo isso. E, quando dorme, dorme mal e é vaidosa e infame e brutal e branda e sensível e tudo, aí você pode enumerar o que quiser, encontra isso em mim.
Tive com mulheres e com homens toda a espécie de relações que se possam imaginar. O que é que lhe hei-de dizer? Que cada pessoa é inteiramente diferente e que você, com o método com que defronta uma, fracassa com a outra? Tem, pois, de encontrar outro. E, se procurar, não o encontra. Ou o tem ou não, não há qualquer possibilidade de fazer simplesmente aparecer um a uma voz de comando. Sentimo-nos puxados para qualquer lado. E nesse caso ou se é atraído ou não, e assim por diante. Quer seja mulher ou homem, em última análise também isso é indiferente. Seria muito mais benéfico se mais homens o fizessem, provavelmente não haveria o superpovoamento que há assim.


em Em conversa com Thomas Bernhard, tradução de José A. Palma Caetano, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, pp. 68-69.

As Raparigas da Minha Terra


para o Rui Costa

As raparigas da minha terra
há muito que deixaram de usar
saia rodada até aos joelhos.
Preferem calças justas
bem apertadas na zona do rabo,
frequentar esplanadas, beber cerveja,
dizer de vez em quando
uma ou outra asneira.

As raparigas da minha terra
deixaram de namorar às janelas de casa,
e já não passam o tempo na cozinha
a arear tachos. Preferem antes
o banco de trás de um carro,
o escuro da serra.

em Mapa, Torres Vedras: Livrododia, 2008.

(...)

 

Menos 800 mil espetadores nos cinemas portugueses.


É o título de uma notícia no semanário Expresso, que respeita o Acordo Ortográfico. Vou frequentemente ao cinema e, sinceramente, nunca vi ninguém espetar nada em ninguém ou em algo. Mas, se calhar, sou eu que preciso de mudar de lentes. Ou ainda me espeto. Ou sou espetado.

Um poema de Autor Anónimo

Se chover, veste o impermeável
e espera em casa que o sol volte.
Não deixes, nunca, que se percebam lágrimas,
desejos, ocasiões para mudar da melhor
roupa, da melhor pele e levantar o pescoço
como se não houvesse informações a dar,
como se não tivesses impostos, saunas
e videoclips escondidos numa das tábuas
do chão encerado. Tu, impermeável
alma de olhos enxutos, imprescindível
algema das condenações com risos, doce
segredo dos versos ilegíveis. E, agora, pergunto:
Que raio de contrato te fizeram
na seguradora que também cobre tremores
de alma? Veste alguma coisa como que se veja
a pele, com que se veja televisão,
com que ensine a grande moda
de estar à chuva, de não se ver o sol,
de se ter um revestimento estratificado. Um impermeável
BD, uma crosta resistente, colorida, com telebip
à cintura e olhos de hiena, emissora
nunca mais por falta de pagamento
e de pilhas.
Vai havendo pulhas.
Dormias, sabe-se, quando a ave te respondeu
que não partia à aventura por ter verdete
na cabeça. Dos beirados, claro! Por falta
de segredo. Tanto peso faria com que caísses
do alto do teu olhar. E morresses.

em Subsídios, Suicídios, Ostras Geladas, Lisboa: Frenesi, 1998, pp.34-35.

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (9)



Apesar do esforço de algumas editoras portuguesas, Thomas Bernhard continua a ser pouco conhecido do comum leitor. Acredito que não seja fácil “cativar” o leitor português – que na sua maioria despreza os seus grandes autores – para a escrita/obra de Bernhard. O reconhecido mérito das traduções de José A. Palma Caetano não é o suficiente para cativar leitores. Não é fácil (e por mim falo) folhear um romance como Correcção ou Extinção e ser confrontado com a solidez das suas páginas. Thomas Bernhard escreveu uma obra baseada na “solidez” do corpo de texto: Extinção tem, se não estou enganado, dois parágrafos e mais de trezentas páginas. Se o comum leitor português – que nunca leu José Saramago – diz que José Saramago não sabe pontuar, o que dirá de Thomas Bernhard?

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (8)


Outra questão que se levanta com a leitura de Thomas Bernhard é a sensação de estarmos sempre a ler o mesmo livro, a ler a mesma “história”. Tal facto não deve ser tido como um “defeito”. Há em Bernhard todo um “programa de escrita”. Mas que programa é esse? Bernhard parece pregar sermões. Só que não são sermões morais ou moralizantes. Antes consciencializantes. Na peça de teatro Simplesmente Complicado, Bernhard dá-nos a conhecer as obsessões, traumas, angústias de um velho homem enclausurado na sua própria casa, que cria e recria à sua imagem e semelhança. O personagem debate-se com a doença, a velhice e a proximidade do fim. Bernhard coloca o dedo na ferida: a loucura está mais perto de nós do que aquilo que pensamos; rapidamente se pode apoderar do nosso corpo e mente. Simplesmente Complicado é uma alegoria à nossa frágil e perene condição humana.

Balanxo 2011



Todos os anos o Américo Rodrigues me pede um. Podem ler no café de sempre.

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (7)



A vida é sofrimento. Bernhard sabia isso. Em Perturbação esse sofrimento está presente em todas as personagens. Todos eles sofrem de uma ou outra forma. O sofrimento, em alguns casos, é físico; mas, em todos eles, também o é psicológico. Bernhard descreve homens e mulheres incapazes, débeis, derrotados, conformados com a sua existência. A derrota é uma constante no universo bernhardiano. Thomas Bernhard sabe que nada no Homem o pode redimir da sua condição. Por muito que o Homem faça, ele será sempre um ser sujeito à angústia, doença, estupidez, Morte. O Homem é – no seu âmago – um ser absurdo.

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (6)


O personagem Saurau – em Perturbação – serve todos os propósitos de Thomas Bernhard. Em primeiro lugar, é através do monólogo de Saurau que Bernhard começa a desenvolver a sua técnica narrativa baseada na repetição, nos longos períodos, frases (não podemos esquecer que este é apenas o segundo romance de Bernhard); em segundo, é através de Saurau que Bernhard dá a sua visão do mundo. Saurau não poupa ninguém: Homem, Deus, Estado. A torrente de impropérios é avassaladora. Bernhard serve-se, ainda, de outro artifício: Saurau é um louco. Aos loucos, como sabemos, tudo se perdoa (um pouco à maneira de o Parvo de Gil Vicente em Auto da Barca do Inferno). Saurau vive obcecado com o seu filho e com aquilo que ele poderá fazer, no futuro, com o legado de Saurau. É evidente a clivagem entre gerações, entre o velho e o novo, entre uma Áustria imperial e uma Áustria republicana. No entanto, Bernhard não toma o partido de nenhum dos lados, pois o que resta – na realidade – é o nada. Todavia, não podemos cair na tentação de interpretar “Áustria” como o espaço geográfico e político desse país. “Áustria” é, no fundo, uma metáfora para toda a civilização ocidental. Uma civilização em declínio, queda.

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (5)


Em Perturbação (1967) – segundo romance de Thomas Bernhard –, o narrador acompanha o seu pai – um médico de província – nas suas visitas diárias aos seus pacientes. O narrador é confrontado com personagens grotescas que, de certo modo, traduzem a visão bernhardiana do Homem e do Mundo. Todas as personagens encontram-se, de uma ou outra forma, confinadas a um determinado espaço, não se aventurando no mundo exterior (o mesmo acontece com o personagem da peça de teatro Simplesmente Complicado). Eles encontram-se fechados em si mesmo, presas às suas doenças, obsessões e incapacidades. O Homem, segundo Bernhard, é isso mesmo: doente, obsessivo e incapaz.

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (4)


Thomas Bernhard procurou a não-institucionalização da sua obra, do seu pensamento. Um escritor (ou artista) institucionalizado deixa de ter voz própria: ela passa a ser a voz da instituição. A independência era muito apreciada por Bernhard. Só dessa maneira podia escrever o que bem entendia, sem estar condicionado, limitado, pelo deve-e-haver da troca de galhardetes culturais. Apesar de ser um dos mais importantes escritores austríacos do século XX – ou talvez o mais importante – Bernhard nunca foi muito bem aceite pela chamada intelligentsia do seu país (ainda hoje é um escritor polémico e pouco amado). O livro Os Meus Prémios é disso um bom exemplo. Bernhard denunciou sempre a hipocrisia institucional (bem como a geral, a bem da verdade, também institucionalizada), o seguidismo, o caciquismo.

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (3)


A doença foi outra obsessão. Não o podemos censurar. Muito cedo sofreu de uma doença pulmonar que o acompanhou toda a vida e que, por fim, o conduziu à morte. Desde cedo conheceu hospitais, o branco das paredes, o cheiro a Morte pairando pelos corredores, o corpo e a sua degeneração. O espectro da Morte condicionou-lhe a Vida, obrigou-o a “refugiar-se” no campo, quando era a cidade que o chamava. O eu via-se, dessa maneira, dividido, condicionado. Anulado.

Charles Bukowski



A escrita de Charles Bukowski é mais do que cigarros, bebida e quecas. Pensar que a escrita de Bukowski é só isso, é seguir o caminho mais fácil. Se a escrita de Charles Bukowski fosse apenas bebida, cigarros e quecas, ela teria muito menos leitores. Charles Bukowski escreve a vida, com todas as suas coisas boas, menos boas, más e mesmo más. Não vou dizer que é a vida que os leitores de Charles Bukowski procuram nos seus livros. Talvez muitos procurem mesmo os cigarros, a bebida e as quecas, tentando escapar às suas vidas rotineiras, chatas e aborrecidas. Talvez Bukowski seja a válvula de escape. Mas não sei se ela existe. É que por entre os cigarros, a bebida e as quecas, encontra-se a vida pura e crua, sem paninhos quentes. Ela está lá: pronta a esbofetear-nos, a dizer que não passamos de meros homenzinhos. A vida. Sem rodeios.

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (2)


Bernhard nunca se perdoou ser autríaco. Nunca perdoou à Austría a incompreensão pela sua obra, mas também o nacional-socialismo que a Alemanha Nazi lhe "impôs". Educado entre colégios católicos e um nacional-socialista, Bernhard cedo percebeu que o mundo era absurdo e incompreensível. Se de um lado sentia a opressão imposta ao "eu" pelo catolicismo, do outro sentia essa mesma opressão vinda do nacional-socialismo. Thomas Bernhard passou a combater esses dois tipos de anulação. Começou a escrever poesia.

Naufrágios: apontamentos sobre Thomas Bernhard (1)



Várias questões se levantam quando se lê Thomas Bernhard. Em primeiro lugar, o ritmo que o autor confere à sua escrita. Bernhard era um grande apreciador de música. Nos seus vários romances isso está bem presente, nomeadamente através das várias repetições – palavras, ideias, frases – lembrando partituras. Em segundo lugar, as obsessões. Morte, suicídio, absurdo, o papel da História no destino de uma nação (Áustria). Em terceiro lugar, a estrutura sólida dos seus textos. Páginas e páginas sem um único parágrafo. Um corpo único, orgânico, que se estende e desenvolve ao longo das páginas.

Pensamento para o Ano


Monty Python
Always Look on the Bright Side of Life
do filme A Vida de Brian (1979) de Terry Jones

(...)


Parece que vem aí mais um ano. 2012 é aquele ano que os Maias dizem ser o último. Não deixa de ser irónico: uma civilização extinta previu o fim do mundo para 2012. Parece que vai ser o ano de todos os anos: o ano das reais mudanças num país cada vez menos real. Talvez a realidade seja isso mesmo: a falta dela. Se assim não fosse, tudo seria, ainda, mais insuportável.

Carlos de Oliveira


Li Finisterra deitado numa cama de hospital. Pedra nos rins. Li-o de rajada. Penso que foi, até hoje, o único livro que li de rajada. A poesia de Carlos de Oliveira tinha sido lida antes. Aprendi com ela o valor de cada palavra, o peso que tem no verso. Aprendi com ela o rigor de cada gesto. Um sentido exacto para quase tudo. Desci com ela ao Inferno. Essa mesma descida é, quanto a mim, do melhor que se escreveu em português no século XX (segunda metade). Falta-me ler os outros romances. Os ensaios. Mas, na realidade, ainda me falta ler muita coisa. Tanto.