Um poema de Antero de Quental

Mea Culpa

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E a homem vá subindo insecto e seixo.

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda...
É minha mãe... Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir; se estou desesperado;

Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza...
É de crer que só eu seja o culpado!


em Poesia Completa, Lisboa: Planeta DeAgostini, 2003, p. 169.

Teorias dos leitores (4)

José Mário Silva já leu.

William Carlos Williams



Até agora só houve uma pessoa que mencionou o nome de William Carlos Williams para dizer que é uma forte influência naquilo que insisto em escrever: foi o Rui Lage, quando apresentou Mapa na Gato Vadio, no Porto. Lá, no Mapa, vêm dois sonetos (#1 e #2) – agora em Teorias surge o #3 – que são uma espécie de homenagem a esse magnífico poema de Carlos Williams: This Is Just to Say. O Pedro Afonso, numa tarde de sol em Faro – mais o Fernando Esteves Pinto – regada com Sagres 33cl, disse-me que um professor dele de Literatura apresentou esse poema de Carlos Williams e questionou os presentes sobre a validade poética do mesmo. Não revelou o nome do autor. Parece que quase todos disseram que aquilo não era poesia e essas coisas que é comum dizer quando um poema é, supostamente, demasiado compreensível. Quando referiu o nome do autor houve silêncio. E começou o debate. Carlos Williams é um dos meus autores. Tenho os seus Selected Poems. Volto a ele sempre que posso.

Um poema de Pedro Vilar

Quatro Poemas


A pedra
e sobre a pedra o mar
e sobre a pedra e sobre o mar a casa
e o sol e o mundo
a espreitar pelo telhado.


em Revista Boca de Incêndio, nº3, Guarda: Aquilo Teatro, 2005, p. 83.


Nota: nenhum dos quatro poemas se encontra numerado. O poema que aqui se reproduz é o terceiro da série.

(...)


Um não-crente como eu a falar do Natal e a desejar um Feliz Natal não deixa de ser um pouco estranho. Já uma vez aqui o disse: acredito que Jesus Cristo nasceu; a parte do ser Filho de Deus é que me suscita a dúvida. E sempre preferi a Dúvida ao Dogma (embora a Dúvida também, em certa medida, o seja: Dogma). Mas a realidade é que a celebração de hoje – e que uns celebram com mais convicção do que outros – não deixa de ser a data que inicia, por assim dizer, aquilo que se designa como “Civilização Ocidental”. Existe um Antes e um Depois de Cristo. Penso que isso faz toda a diferença, seja para quem for.


Nota: não se preocupem que não estive a escrever este texto agora. Ficou agendado para ser publicado.

Vergílio Ferreira


24 - Dezembro (quarta). Hoje faz muitas vezes anos que é véspera de Natal. Dessas muitas, algumas são minhas.


em Conta-Corrente 3,Venda Nova: Bertrand Editora, 2ª edição, 1990, p. 199.

Lido e gostado em 2011


Ana Paula Inácio2010 - 2011
Fernando GuerreiroTeoria do Fantasma
Henrique Manuel Bento FialhoA Dança das Feridas
João CamiloA Ignorância e o Conhecimento
Jorge FallorcaA mulher descalça
Jorge FallorcaNem sempre a lápis
José Miguel SilvaSerém, 24 de Março
Kjell Askildsen - Uma Vasta e Deserta Paisagem
Knut HamsunVictoria
Paulo da Costa DomingosAverbamento
Rui CaeiroO Quarto Azul e outros poemas
Rui LageUm Arraial Português


Nota: todos os livros foram publicados em 2011 e encontra-se por ordem alfabética do nome do autor.

Ouvido e gostado em 2011


Dirty BeachesBad Lands
Metronomy English Riviera
Radiohead - The King of Limbs
S.C.U.MAgain Into Eyes
TV On The Radio Nine Types of Light
Twilight SingersDynamite Steps
Wild Beasts Smother
WireRed Barked Tree



Nota: os álbuns são todos de 2011 e estão por ordem alfabética.

Fernando Assis Pacheco


Dizem que teve uma morte de escritor, literária. Saía de uma livraria e ficou-se. Acho piada a esses que acham que a morte de um escritor é, quase sempre, literária. A morte é a morte é a morte (Stein que me perdoe). Eu gosto é da poesia dele. Essa, sim, literária e recomendável. Leiam A Musa Irregular e Respiração Assistida. Leiam o poema Poeta no Supermercado e fiquem indiferentes. Se isso acontecer, não há morte, por mais literária que possa ser, que vos valha. 

Um poema de Ana Duarte


A Minha Saia

A minha saia é debruada de
dentes brancos
— saia rodada com pregas
e esconderijos que se abrem
sobre os precipícios da infância

É uma saia alta como janelas
remendada pelas mãos cuidadosas dos amantes

Debaixo da minha saia há
uma caixa com botões e olhos
que encontrei no leito seco dos caminhos
há um girassol que me aquece
o farelo e o sal dos ossos
há uma colmeia e o crescente negro
da sombra a roçar os joelhos

Há o riso dos velhos

Som de cordas, velas de moinho,
fábulas e exércitos balançam
dentro da minha saia
quando danço

Debaixo da minha saia há também casas
onde recolho o vento, e delas se avista
o pescoço curvo de dois bois mansos
alisando o pasto

Rodo o corpo e a minha saia aponta para o sul
baixo-a para desenhar círculos na poeira
ergo-a para atravessar o rio
na hora em que
a maré sobe
sobe
sobe
sobe

em Criatura, nº 6, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, Novembro de 2011, pp. 9-10.

Pensamento do dia


W.B. Yeats
Tumult in the Clouds
retirado do filme Memphis Bell (1990) de Michael Caton-Jones

W.B. Yeats



O seu nome surgiu num filme de guerra sobre um grupo de pilotos que conseguiram realizar todas as missões de bombardeamento sobre a Alemanha Nazi. Não conhecia a poesia deste autor irlandês. Comprei aquele livro que a Relógio D’Água editou: Pássaros Brancos e Outros Poemas. Gostei daquilo que li e recomendo. Mas, a bem da verdade, nunca li mais nada dele. Também não me interessei em saber pormenores da sua vida e essas coisas. Ah! e gosto da sonoridade do nome.

Kierkegaard



O primeiro livro que lhe li foi Diário de um Sedutor e durante muito tempo procurei seguir à risca aquilo que lá vinha. Falhei. Em relação ao falhanço, penso que Kierkegaard não ficaria aborrecido. Talvez ele também nunca tenha vencido em muita coisa. Mas a primeira vez que lhe ouvi o nome foi durante o meu 11º ano. O meu professor de Filosofia de então devia ter lido Temor e Tremor e aquilo ficara-lhe. Por vezes falava em Abraão e no sacrifício do seu filho. Depois ficava em silêncio e vagueava pela sala. No 12º ano tive a oportunidade de estudar alguma da filosofia kierkegaardiana. E como tinha explicações de Filosofia num sótão aquecido pela braseira eléctrica que, aos nossos pés, também aquecia a nossa vontade de filosofar como Kierkegaard, ficou-me o nome na memória e alguma da sua filosofia: «Pela minha parte, não me falta coragem para pensar um pensamento no seu todo. Até agora, nenhum receei; houvesse eu de me defrontar com semelhante pensamento e tenho esperança de ter no mínimo a sinceridade de dizer: temo este pensamento, faz gritar algo em mim, nem sequer quero pensar nele; se eu ajuizar mal, sem dúvida que o castigo não tardará.» (Temor e Tremor, p. 83).

Teorias dos leitores



Daniel Rocha já leu.

Em caso de tempestade este jardim será encerrado - Inês Dias


Inês Dias
Em caso de tempestade este jardim será encerrado
Tea For One
2011

(...)


Há muito tempo que não escrevo sobre a minha vida aqui; sobre o dia-a-dia; sobre o inevitável fim. Resolvi guardar tudo para mim. A minha vida não interessa a ninguém. Prefiro partilhar os poemas que leio, os livros, as traduções que ainda arrisco fazer, os autores que me dizem algo. A minha vida, apesar de tudo, ainda é só minha. E, sinceramente, não sei por que razão escrevo estas linhas.

Folas - antologias - Hugo Milhanas Machado


Hugo Milhanas Machado
Folas - antologias
Edição do Autor
2011

Serém, 24 de Março


Foto: Poesia Incompleta

José Miguel Silva (1969) há muito que é um dos poetas mais reconhecidos da actual poesia portuguesa. Juntamente com Rui Pires Cabral, Manuel de Freitas, Jorge Gomes Miranda e Carlos Luís Bessa, tem publicado alguns dos mais interessantes livros de poesia dos últimos tempos. Os seus mais recentes poemas – aqueles contidos em Movimentos no Escuro (Relógio D'Água, 2005) e Erros Individuais (Relógio D'Água, 2010) – revelam uma crítica social muito vincada. José Miguel Silva não é complacente com a actual nova ordem mundial, nem com os homens que a promovem ou com o homem em geral. O murro no estômago parece ser a especialidade de José Miguel Silva, pois é isso que se sente quando se lêem alguns dos seus poemas. Contudo, em Serém, 24 de Março (Averno, 2011), nota-se uma pequena inflexão em relação aos livros anteriores, inflexão essa que apenas se limita, a meu ver, ao tom, sendo preservadas questões de forma e estilo. O livro está dividido em duas partes: 24 de Março e Serém.

Os primeiros poemas deste livro são poemas de amor. Que não reste a menor dúvida sobre isso: «Eu não tinha muita coisa e hoje tenho/a soma dos teus passos quando desces/a correr os nossos treze degraus e/me prometes: até logo.» (p. 10). É claro que não é fácil escrever poemas de amor sem alguma tendência para a lamechice, para o lugar-comum. José Miguel Silva sabe isso, mas no poema «Too Big to Fail» não consegue, sendo – quanto a mim – o poema menos conseguido desta primeira parte. O recurso a “imagens económicas” torna o poema demasiado óbvio e pouco interessante: «O meu único receio é que despertemos/a inveja dos deuses, no Olimpo de Bruxelas,/e que Mercado, o monstruoso titã, decida/baixar para lixo o rating da nossa relação» (p. 18). Já o poema “Poupanças” é a antítese, pois consegue, através do recurso à actualidade – e de uma forma subtil –, remeter o leitor para as coisas simples, aquelas que realmente interessam: «O amor é assim, deixa o logro do mundo/a ganir à porta.» (p. 17).

Na segunda parte, o autor volta à carga. A História, a Economia, a Política, os Costumes – temas muito comuns na poesia de José Miguel Silva – são o mote. O sarcasmo, a ironia, um certo cinismo (à Grécia Antiga) são uma constante: «Uma casa junto ao Vouga,/rio de água suficiente,/onde apenas se mergulha/até à cintura, a pequena horta/de Virgílio, o amor robustecido/por nenhuma esperança/e tantos livros para ler/ — que desculpa vou agora dar/para não ser feliz?» (p. 27). Há uma espécie de tom bucólico em todos os poemas. A título de exemplo leia-se “Resistência Passiva”: «Uma vespa/vem do nada, perfeita e acesa,/enfia-se/num buraco de adobe, ninguém a viu;/desliza uma caneta sobre o papel amarelo./Do outro lado do rio ribomba o comboio,/num grito de gente moída, tão arcaico/e de lata como a felicidade; as abelhas/sabem que não foi um trovão, e isso/lhes basta, na tarde de jasmim em festa/e sol a pique.» (p. 32).

Serém, 24 de Março é, até hoje, o livro mais intimista de José Miguel Silva. Intimista no sentido que encerra em si o prazer das coisas simples, sem vergonha que elas sejam simples e, agora, de todos nós.


José Miguel Silva, Serém, 24 de Março, Lisboa: Averno, 2011, 36 pp.



e.e. cummings


cummings é um dos poetas que Wallace Stevens me trouxe. Vou contar um segredo: manuel a. domingos (o nome em minúsculas) é a minha homenagem a e.e. cummings. Sei que não é uma grande homenagem; talvez nem seja homenagem. e.e. cummings tem dos poemas mais difíceis de traduzir para português – a par com Berryman. Mas também tem dos mais belos poemas alguma vez escritos, seja em que língua for. Sinceramente não sei muito bem o que escrever sobre ele. Talvez o silêncio seja a melhor maneira de o homenagear. Calo-me.

A Super-Realidade - Rui Pires Cabral


Rui Pires Cabral
A Super-Realidade
Língua Morta
2011


Uma muito boa notícia. A edição cá de casa é de 1995. Edição de autor. Podem ler aqui um poema retirado de lá. A imagem foi retirada do blogue O Melhor Amigo.

Um poema de Vicente Huidobro


Dia e noite te procurei…

Dia e noite te procurei
sem encontrar o sítio onde cantas.
Procurei-te pelo tempo acima e pelo rio abaixo.
Perdeste-te por entre as lágrimas.
Noite atrás de noite te procurei
sem encontrar o sítio de onde choras
porque sei que estás chorando.
Basta olhar-me num espelho
para saber que estás a chorar e me choraste.

Apenas tu salvas o pranto
e de um mendigo obscuro fazes,
pela tua mão, rei coroado.


em Mágica, selecção e tradução de Ricardo Marques, Lisboa: Língua Morta, 2011, p. 34.

Wallace Stevens



No outro dia, em conversa com um amigo, falou-se no nome de Wallace Stevens. Ambos o tínhamos lido nesse bonito livro publicado na colecção Gato Maltês, da Assírio & Alvim: A Ficção Suprema. Quando o li pela primeira vez – já não sei precisar no tempo, embora o lugar ainda esteja bem vivo na memória (será que posso falar de memória com 34 anos?): foi no Poço dos Moinhos, lugar mítico e místico da minha adolescência – a poesia de Stevens foi uma espécie de revelação (fica sempre bem utilizar a palavra revelação quando se fala de poesia), porque despertou em mim a vontade de conhecer outros poetas, seus contemporâneos. Stevens foi quem me abriu a porta para a poesia norte-americana (Estados Unidos): Ezra Pound, William Carlos Williams, Robert Frost, Elizabeth Bishop entre outros. Ontem, finalmente, comprei os seus Collected Poems. Penso que o meu amigo irá gostar de saber isso.

Negócios em Ítaca - Bernardo Pinto de Almeida


Bernardo Pinto de Almeida
Negócios em Ítaca
Relógio D'Água
2011

Santa Teresa D´ Ávila



Não sei como nem quando vi uma imagem de Santa Teresa D’Ávila. Não lhe fiz muito caso. Depois, uns anos mais tarde, o seu nome veio novamente ter comigo através de Vergílio Ferreira, num dos seus Conta-Corrente. Vergílio Ferreira referia-se a alguma poesia da Santa como erótica na sua relação com Deus. Fiquei intrigado. Uma Santa a escrever poesia erótica na sua relação com Deus? Tive de investigar. Fui até à Biblioteca Municipal e requisitei A Seta de Fogo. O misticismo de Santa Teresa D’Ávila pode, sem dúvida, ser confundido com erotismo. Santa Teresa D’Ávila escreve em fogo e com fogo: «Dai-me, pois, sabedoria,/ou, por amor, ignorância;/dai-me anos de abundância,/ou de fome e carestia;/dai trevas ou claro dia,/revolvei-me aqui ou ali:/Que quereis, senhor, de mim?» (em Obras Completas). A sua poesia é de uma força extraordinária. A sua prosa, para quem a leu, deve ser digerida lentamente. Cioran sabia disso e leu-a com atenção. Santa Teresa D’Ávila, a par com São João da Cruz (ambos Doutores da Igreja), são quase Santos esquecidos. E poetas também.

Um poema de Nicanor Parra


Os Professores

Os professores deram connosco em loucos
com perguntas que não vinham ao caso
como se somam números complexos
se há ou não há aranhas na lua
como morreu a família do czar
será possível cantar com a boca fechada?
quem pintou bigodes na Gioconda
como se chamam os habitantes de Jerusalém
há ou não há oxigénio no ar
quantos são os apóstolos de Cristo
qual o significado da palavra consueto
quais foram as palavras que Cristo disse na cruz
quem é o autor de Madame Bovary
onde escreveu Cervantes o Quixote
como é que David matou o gigante Golias
etimologia da palavra filosofia
qual é a capital da Venezuela
quando chegaram os espanhóis ao Chile

Ninguém dirá que os nossos mestres
eram umas enciclopédias ambulantes
tudo exactamente ao contrário:
uns modestos professores primários
ou secundários já não me recordo bem
─ agora de bengala e batina
como se estivéssemos no início do século ─
não tinham por que incomodar-se
em incomodar-nos daquela maneira
excepto por razões inconfessáveis:
para quê tanto delírio pedagógico
tanta crueldade no mais negro vazio!

Dentadura do tigre
nome científico da andorinha
quantas partes tem uma missa solene
qual a fórmula do anídrico sulfúrico
como se somam fracções com denominadores diferentes
estômago dos ruminantes
árvore genealógica de Filipe II
Os Mestres Cantores de Nuremberg
Evangelho segundo São Mateus
nomeie cinco poetas finlandeses
etimologia da palavra etimologia

Lei da gravitação universal
a que família pertence a vaca
como se chamam as asas dos insectos
a que família pertence o ornitorrinco
mínimo comum múltiplo entre dois e três
há ou não há trevas na luz
origem do sistema solar
aparelho respiratório dos anfíbios
órgãos exclusivos dos peixes
tabela periódica dos elementos
autor de Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse
em que consiste o fenómeno chamado mi-ra-gens
quanto demoraria um comboio a chegar à lua
como se diz ardósia em francês
sublinhe as palavras terminadas em consoante

A verdade das coisas
é que nós sentávamo-nos indiferentes
quem ia incomodar-se com tais perguntas
no melhor dos casos apenas nos agitavam
um único defeito da cabeça
a verdade verdadeira das coisas
é que nós éramos gente de acção
a nossos olhos o mundo reduzia-se
ao tamanho de uma bola de futebol
e chutá-la era o nosso delírio
nossa razão de sermos adolescentes
houve campeonatos que se prolongaram até à noite
sempre me perseguiu
a bola invisível na obscuridade
havia que ser mocho ou morcego
para não chocar com os muros de barro
esse era o nosso mundo
as perguntas dos nossos professores
atravessavam gloriosamente os nossos ouvidos
como água pelas costas de um pato
sem perturbar a calma do universo:
partes constitutivas da flor
a que família pertence a doninha
método de preparação do ozono
testamento político de Balmaceda
surpresa de Cancha Rayada
por onde entrou o exército libertador
insectos prejudiciais à agricultura
como começa o Poema del Cid
desenhe uma roldana diferencial
e determine a condição de equilíbrio

O amável leitor compreenderá
que nos era pedido mais do que o justo
mais que o estritamente necessário:
determinar a altura de uma nuvem?
calcular o volume da pirâmide?
demonstrar que a raiz de dois é um número irracional?
aprender de memória as Coplas de Jorge Manrique?
deixem-se de baboseiras connosco
hoje temos que terminar um campeonato
mas chegavam as provas escritas
e consequentemente as provas orais
(numa de esfregar caiu Caldeira)*
com uma regularidade digna da melhor causa:

Teoria electromagnética da luz
em que se distingue o trovador do jogral
é correcto afirmar vendam-se ovos?
sabe o que é um poço artesiano?
classifique os pássaros do Chile
assassinato de Manuel Rodríguez
independência da Guiana Francesa
Simón Bolívar herói ou anti-herói
discurso de renúncia de O’Higgins
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta

Os professores tinham razão:
em boa verdade
o cérebro fugia-nos pelas narinas
─ só vendo como nos estalavam os dentes ─
a que se devem as cores do arco-íris
hemisférios de Magdeburgo
nome científico da andorinha
metamorfose da rã
que entende Kant por imperativo categórico
como se convertem pesos chilenos em libras esterlinas
quem introduziu o colibri no Chile
por que não cai a Torre de Pisa
por que não se afundam os jardins flutuantes de Babilónia
por que não cai a lua sobre a Terra?
municípios da província de Ñuble
como se trisseca um ângulo recto
quantos e quais são os poliedros regulares
este não faz a menor ideia de nada

Teria preferido que a terra me devorasse
a responder a estas perguntas descabeladas
sobretudo depois das prédicas moralizantes
a que nos submetiam inevitavelmente todos os dias
sabem vocês quanto custa ao estado
cada cidadão chileno
desde o momento em que entra na escola primária
até ao momento em que sai da universidade?
um milhão de pesos de seis vinténs!

Um milhão de pesos de seis vinténs
e continuavam apontando-nos o dedo:
como se explica o paradoxo hidrostático
como se reproduzem os fetos
enumere-me os vulcões do Chile
qual é o rio mais comprido do mundo
qual é o couraçado mais poderoso do mundo
como se reproduzem os elefantes
inventor da máquina de costura
inventor dos balões aerostáticos
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta
vão ter que ir para casa
e regressar com os vossos encarregados
para conversar com o Reitor da Escola

E entretanto a Primeira Guerra Mundial
E entretanto a Segunda Guerra Mundial
A adolescência ao fundo do pátio
A juventude debaixo da mesa
A maturidade que não se conheceu
A velhice
                com suas asas de insecto.

in Hojas de Parra (1985)
Versão de Henrique Manuel Bento Fialho


*de um verso de Lope de Vega: En una de fregar cayó Caldera.

Nicanor Parra - Prémio Cervantes 2011

Rimbaud e Biedma


Biedma escreveu um dia que queria ser poeta, só que, afinal, acabou por se transformar em poema e nele ficou preso. Penso que em Rimbaud acontece o mesmo. Não sei se poderá ser estabelecido um paralelismo entre ambos os autores. Talvez algo apenas circunstancial, pouco mais. A poesia de ambos é, sem dúvida, transgressora. Rimbaud veio revolucionar a maneira de escrever/fazer poesia. Acredito que a poesia moderna seria muito diferente sem a influência de Rimbaud. O poema Sonho (Rêve) é um bom exemplo. Em Biedma tudo se passou de maneira diferente. Ou talvez não. Segundo os entendidos, a poesia de Biedma veio “revolucionar” a maneira de escrever/fazer poesia em língua espanhola. A vida de Biedma – tal como a vida de Rimbaud – é poesia pura. No entanto, há algo que é semelhante nos dois poetas: o silêncio que tomou conta deles. Rimbaud “fugiu” para essa África de «rios impassíveis» (cf. Derivas de um Barco Ébrio, tradução de Maria Gabriela Llansol) e calou-se para sempre. Tinha 19 anos. Biedma remeteu-se ao silêncio (de 1968 é o seu último livro de poemas): «Las rosas de papel son, en verdade,/demasiado encendidas para el pecho.» (Canción Final, em Las personas del verbo). Tinha 39, mais dois anos do que Rimbaud, quando morreu.