Teorias



Teorias
é uma edição de autor, com uma tiragem única de 100 exemplares (não será feita uma segunda edição). A ilustração, composição e paginação é
de Sérgio Nogueira. A foto da capa é minha.
As encomendas podem ser efectuadas para o seguinte e-mail: manueldomingos(arroba)gmail.com

Teorias
irá estar presente na feira Mercado Negro,
na Escola Artística e Profissional Árvore
(Passeio das Virtudes, 14, Porto),
entre os dias 5 e 10 de Dezembro,
das 16h às 22h.

Nuno Bragança



Se pensarmos na segunda metade do século XX e dividirmos essa metade, em outra metade, vamos encontrar algures A Noite e o Riso. Para a minha geração (sei que isto de gerações é arriscado), o primeiro romance de Nuno Bragança é, talvez, uma curiosidade estilística, apesar de toda a verdade que o livro contem. A Noite e o Riso marca o início de uma nova etapa na literatura feita em Portugal (cuja experiência foi iniciada, quanto a mim – pois li o livro – com Caranguejo de Rúben A.), depois continuada em romances como Finisterra, Memória de Elefante, O que diz Molero, Portuguex, só para mencionar alguns. Vergílio Ferreira dizia que todos eles – os romances citados ou parecidos – não deixavam nada no estômago. A questão aqui – e com A Noite e o Riso – é que pouco importa o que fica ou não fica no estômago. Sinceramente, preocupa-me mais o amargo que fica na boca.

D'Abalada


D' Abalada
estreia a 30 de Novembro
Pequeno Auditório do Teatro Municipal da Guarda
Autoria e dramaturgia de Jorge Palinhos
Encenação e interpretação de Luciano Amarelo


30 de Novembro, 1, 2 e 3 de Dezembro

Versões: Antonio Orihuela


Cada vez mais, vejo gente
com uma venda
a tapar-lhes os olhos.

Até já vi gente que
afastando-lhes um pouco a venda

a voltaram a colocar correctamente.



Antonio Orihuela, «Cada vez, veo más gente…», em Comiendo tierra, Biblioteca Babab,www.babab.com/biblioteca, Setembro de 2000, p. 32.

Serém, 24 de Março - José Miguel Silva


José Miguel Silva
Serém, 24 de Março
Averno
2011

Fotografia: Poesia Incompleta

Um poema de Fernando Esteves Pinto



1972 - Um dia magoado




Este mundo é uma marmita
onde a vida se pega ao fundo.
Ninguém me disse que seria fácil
carregar com os esqueletos purulentos
e sentir na cara o ar doente,
as fungadelas de gozo que me assobiam aos ouvidos.


Se sou pura para tanto esterco,
se mesmo por baixo, em febre e lixada de dores,
o meu corpo é considerado de elevado valor,
porquê depois receber em cuspo e merda
por um serviço que todos sabem de falso pudor?


Assim vou acabar por perceber
que a minha mágoa e toda a amargura
é como um leite que ferve e já vem azedo.


em O tempo que falta, Coimbra: Temas Originais, 1ª edição, 2010, p.21.

Teorias



Relembro todos os interessados que o livro Teorias é uma edição de autor, com uma tiragem única de 100 exemplares. A ilustração, composição e paginação é de Sérgio Nogueira. A foto da capa é minha. As encomendas podem ser efectuadas para o seguinte e-mail: manueldomingos(arroba)gmail.com

Um poema de Cesário Verde

Responso


VI

De dia, entre veludos e entre sedas,
Murmurando palavras aflitivas,
Vagueia nas umbrosas alamedas
E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquelas árvores frondosas,
E prendera-lhe as roupas vaporosas.


em O Livro de Cesário Verde, introdução por Maria Ema Tarracha Ferreira, Lisboa: Ulisseia, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1995, p. 51.

Modo fácil de copiar uma cidade - Vítor Nogueira


Vítor Nogueira
Modo fácil de copiar uma cidade
& etc
2011

Fotografia: Poesia Incompleta

Lagoeiros - João Miguel Fernandes Jorge


João Miguel Fernandes Jorge
Lagoeiros
Relógio D'Água
2011

Tão perto do puro azul do céu


"Tão perto do puro azul do céu [A Guarda na poesia]"

é uma produção do Teatro Municipal da Guarda
para a Câmara Municipal da Guarda.
O espectáculo sobe ao palco do Grande Auditório
nos dias 26 (Sábado) às 21h30 e 27 (Domingo) às 16h00.

Seguem na 2ª feira os primeiros Teorias



Relembro todos os interessados que o livro Teorias é uma edição de autor, com uma tiragem única de 100 exemplares. A ilustração, composição e paginação é de Sérgio Nogueira. A foto da capa é minha. As encomendas podem ser efectuadas para o seguinte e-mail: manueldomingos(arroba)gmail.com

Teorias


manuel a. domingos
Teorias
tiragem única de 100 exemplares
composição, paginação e ilustração de Sérgio Nogueira
Edição de Autor
2011

As encomendas podem ser feitas para o seguinte contacto:
manueldomingos(arroba)gmail.com

Versões: Antonio Orihuela


Escrevo
para não dar um tiro na cabeça.

E até escrever
se transforma às vezes
num tiro na cabeça.


Antonio Orihuela, «Escribo…», Comiendo tierra, Biblioteca Babab,www.babab.com/biblioteca, Setembro de 2000, p. 31.

Amanhã na Livraria Almedina Estádio em Coimbra


Livraria Almedina Estádio
Coimbra
16h00
apresentação de Luís Quintais.

Um poema de Maria Sousa



chegas de novo a casa
e guardas do tempo a fuga
marcas outra vez os dias
para abrir feridas

como se viesse dos pássaros a acusação
de não saberes medir esquecimentos

respiras até à dor para não sentires mais nada


em Exercícios para endurecimento de lágrimas, Lisboa: Língua Morta, 1ª edição, 2010, p.26.

Pensamento do dia


S.C.U.M.
Days Untrue
Again Into Eyes
2011

Em repeat


S.C.U.M
Again Into Eyes
2011

Estou completamente rendido.

Versões: Antonio Orihuela


Democracia Vigiada

Um atentado levou Adolfo Suárez ao poder.
Um atentado levou Felipe González ao poder.
Um atentado levou José María Aznar ao poder.
Um atentado levou José Luis Rodríguez Zapatero ao poder.

Enquanto houver dinamite,
para quê confiar nas urnas?


Antonio Orihuela, «Democracia Vigilada», Todo el mundo está en otro lugar, Tenerife: Ediciones Baile del Sol, 2011.

Todo el mundo está en otro lugar - Antonio Orihuela


Antonio Orihuela
Todo el mundo está en otro lugar
Ediciones Baile del Sol
2011

Um poema de Luís Filipe Rodrigues


O Amor de Véspera

2.

Saber-te no deserto do desejo pela manhã
tão leve a língua em altas ondas preparada
para a grande estrela feminina
quem sabe se nela erguendo-se.
É pelo menos essa a qualidade altiva dos arranha-céus
pôr o céu dentro de casa
e na felicidade doméstica deixar suspensa
a ficção do nosso olhar.

Saber-te no deserto do desejo é como estar detrás
e tão dentro da areia enaltecida
e tão prestes a grande minúcia terrestre
talvez um grão de rosa ou um minúsculo buraco no estilo
uma simples unhada na inteligência.

Saber-te no deserto do desejo é ainda como
estar detrás e já a cabeça dentro do espelho,
sempre imóvel, até sentir o lume a pele
atacando
em pleno alvorecer.

em Dizer de Véspera, Lisboa: Moraes Editores, 1ª edição, colecção Círculo de Poesia, 1983, p. 15.

Antonio Orihuela



Quase todos os autores que aqui tenho apresentado, como “afinidades afectivas”, estão mortos. A morte, nestes casos, dá algum jeito, pois permite-me falar com à-vontade. A morte evita, nestes casos, a crítica a algum pedantismo existente – pois existe sempre um certo grau de pedantismo naquilo que se escreve. Antonio Orihuela ainda não morreu. Espero que viva durante muitos e bons anos. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente (é nesta parte que começa o certo grau de pedantismo). Foi em Punta Humbria, nos idos de 2008. Antonio Oriuhela gostou dos poemas que eu li, com algumas cervejas no bucho, num café cheio de fumo. Quis-me conhecer. O Luís Filipe Cristóvão apresentou-nos. No dia seguinte ouvi-o dizer parte de um longo poema, que só de pensar nele começo a ficar arrepiado: Que o fogo recorde os nossos nomes. É uma espécie de despedida. Ou melhor: é uma despedida. Parece que Orihuela esteve muito doente e as perspectivas de ficar cá para contar a história eram muito poucas. Por isso escreveu esse poema fortíssimo (um pouco ao estilo de Howl). Mas ficou para contar a história. E para lê-lo em público. Tremendo.

Versões: Antonio Orihuela

Permanecerá

aquele caminho, na vila
escura, na noite com cães.

Onde eu gritei a minha raiva,

e tu revolveste
com a tua mão
o meu peito.


Antonio Orihuela, «Quedará...», Comiendo terra, Biblioteca Babab, www.babab.com/biblioteca, Setembro de 2000, p. 19.

John Fante



Uma pessoa lê livros e esses livros trazem com eles outros livros e assim sucessivamente até o leitor ficar cansado de fazer este exercício. John Fante chegou até mim através da leitura de Charles Bukowski – que considerava Fante uma espécie de deus vivo. Mas não foi um livro de Bukowski que me trouxe os livros de Fante. Foi uma outra pessoa, que vendo a minha paixão por Bukowski me aconselhou a leitura de Fante. Penso que cá, em Portugal, só estava traduzido A Confraria do Vinho, que não é um dos melhores livros de Fante. Não vou falar muito deste autor norte-americano que acabou a vida numa cadeira-de-rodas, sem as duas pernas devido à diabetes e cego. Sei que um dia (ou terá sido uma semana?) jantei laranjas como Bandini fez, salvo-erro, no Ask the Dust. Ao outro dia a vesícula chamou-me a atenção. Fiquei a saber, a partir daí, que a Literatura não é coisa para meninos.

Sophia de Mello Breyner Andresen


      Então começaram os três a discutir e foi uma conversa muito demorada e muito filosófica mas não chegaram a conclusão nenhuma.

em O Rapaz de Bronze, Lisboa: Edições Salamandra, 14ª edição, 1996, p. 14.

Versões: Leopoldo María Panero


O Lamento de José de Arimatéia

Não suporto a voz humana,
mulher, acaba com os gritos do
mercado e que não regresse
a nós a memória do
filho que nasceu do teu ventre.

Não há maior coroa de
espinhos do que as recordações
que se cravam na carne
e que fazem uivar como
uivavam
no Gólgota os dois ladrões.
Mulher,
não te ajoelhes mais junto
do teu filho morto.
Beija-me os lábios
como nunca o fizeste
e esquece o maldito
nome
de Jesus Cristo.


Leopoldo María Panero, «El Lamento de José de Arimatea», em Poemas del manicomio de Mondragón, Madrid: Ediciones Hiperíon, 4ª edição, 1999, 55.

O Mar da Fertilidade




Now, now I'm ready.

Yukio Mishima


Quando era jovem, existia apenas uma realidade e parecia-lhe que o futuro se estendia à sua frente, prenhe de imensas possibilidades. Mas à medida que envelhecia, a realidade adquiria muitas formas e era o passado que se refractava em inúmeras probabilidades. Como cada uma delas se achava ligada à sua própria realidade, a linha que distinguia o sonho da realidade tornava-se cada vez mais obscura. As suas recordações, em permanente fluxo, haviam tomado aspecto de sonhos.


em Cavalos em Fuga, Lisboa: Editorial Presença, 1ª edição, 1987, p. 11.

Folha - Pedro Botelho


Pedro Botelho
Folha
posfácio de António Quadros Ferro
Edição de Autor
2011 

Versões: Leopoldo María Panero


Hino a Satã

Tu que és apenas
uma ferida na parede
um golpe na fronte
que leva lentamente
à morte.
Tu que ajudas mais os fracos
do que os cristãos
tu que vens das estrelas
e odeias esta terra
onde moribundos descalços
dão as mãos dia após dia
procurando entre a merda
a razão de viver
já que nasci do excremento
amo-te
e adoro depositar sobre as tuas
mãos delicadas as minhas fezes
O teu símbolo era o veado
e o meu a lua
que a chuva caia sobre
os nossos rostos
unindo-nos num abraço
silencioso e cruel tal como
o suicídio, sonho
sem anjos nem mulheres
completamente nu
menos do teu nome
e dos teus beijos no meu cu
e das tuas carícias na minha careca
rociaremos com vinho, urina e
sangue as igrejas
presente dos reis magos
e debaixo do crucifixo
uivaremos.

Leopoldo María Panero, «Himno a Satán», em Poemas del manicomio de Mondragón, Madrid: Ediciones Hiperión, 4ª edição, 1999, pp. 53-54.

Pensamento do dia


Leopoldo María Panero
no programa Negro Sobre Blanco

Leopoldo María Panero



Em Manteigas, durante muito tempo, era mais fácil sintonizar a TVE do que a RTP. Devido a isso ganhei o hábito de ver televisão espanhola. Foi num programa da TVE2 (o equivalente à nossa RTP2, só que muito melhor), num Sábado à noite, que vi e ouvi pela primeira vez Leopoldo María Panero. Durante uma hora de programa bebeu muita Coca-Cola e foi, se a memória não me falha, uma ou duas vezes à casa-de-banho. Já não sei quantos cigarros fumou. Só mais tarde (como muitas coisas na minha vida) é que fiquei a conhecer a sua poesia. Sempre tive um fascínio por este género de autores, autênticos suicidados da sociedade (Artaud). Na altura, não sei se Leopoldo María Panero estava internado no hospício de Mondragón. Sei apenas que estava internado em algum lado. Evitou falar da mãe. Vá-se lá saber porquê.