Um poema de Daniel Faria

O nome parece a infância.
Quando na velhice é termos vindo
Sem pressa

Para dentro
Do nome se esvazia o corpo quando o corpo cai
É um fruto.

O nome é ainda
O modo como chamas.

O nome é a arma contra mim. O maior perigo.
Com os teus lábios podes destruir-me.


em Explicação das Árvores e Outros Animais, Vila Nova de Gaia: Fundação Manuel Leão, 2ª edição, 2002,  p.53.

Edição, reedição e os que ficam de fora


Como não estou inserido no meio editorial, não sei como ele funciona, principalmente quando diz respeito à prioridade de publicação de certos autores. Vem a propósito a recente reedição de À Espera no Centeio de J.D. Salinger. Gosto muito de Salinger. O livro reeditado pela Quetzal é muito lá de casa. Só não entendo a razão de uma reedição quando ainda há tantos e tão bons autores estrangeiros por publicar no nosso país. Mas parece que este é, sem dúvida, um problema português. Só assim se entende que os mesmos livros de Dostoiévski estejam editados em diferentes editoras. Eu sei que as traduções são diferentes, mas para quê ter Crime e Castigo publicado duas vezes? quando ainda estão alguns dos livros de Céline, Vonnegut, Mailer, Bukowski, Fante, por publicar? E nem vou falar nos livros de Corso ou Hamsun (apesar de a Cavalo de Ferro ter feito um óptimo trabalho em relação a este último). No entanto, há excepções no meio editorial português: é o caso da Ahab, da Cavalo de Ferro e da Ulisseia (para mencionar as mais conhecidas), que nos têm apresentado propostas editoriais arrojadas e arriscadas. Não quero estar a afirmar nada, pois não possuo os dados, mas quantos livros (dos recentemente publicados) por estas editoras são reedições de livros publicados noutras editoras?

À Espera no Centeio - J.D. Salinger


J.D. Salinger
À Espera no Centeio
Quetzal
2011
Reedição

Bashô


Foi com ele que espero ter aprendido a economia das palavras em poesia e também na prosa, embora às vezes escreva com demasiadas palavras. É claro que o livro de Eugénio de Andrade Branco no Branco também ajudou muito. Mas voltado a Bashô. Todos deviam ler esse fantástico livro de viagens que é O Caminho Estreito. Nele ele diz que todos os dias são viagem. E tem muita razão. É claro que assim até parece algo à Paulo Coelho, mas Bashô não é nada disso. Leiam os seus poemas. Leiam.

Um poema de Ernesto Sampaio

Tão pouco

Sondar
a linguagem das trevas
dormir
na neve dos limites
atravessar
flores distraídas

Decifrar
numa pedra fria
letras a arder
entrar
em comboios remotos
no olho gigante
das estações do fim do mundo

Ser
um sinal
lançado ao acaso na noite
deixar
noutra boca
o gosto de uma ausência

Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco


em Feriados Nacionais, Lisboa: Fenda, 1ª edição, 1999, p. 20

Versões: Joan Margarit

Discurso do Método

Quando era criança já procurava as janelas
para poder fugir ao espreitar.
Desde então, quando entro em algum lugar,
presto atenção ao sítio onde deixo o casaco
e onde está a porta de saída.
Liberdade, para mim, quer dizer fuga.
Há muitas portas no mundo.
Até o sexo, em caso de emergência,
pode ser, apesar de muitas estarem a fechar
e, para fugir, brevemente só irão ficar
apenas as janelas da infância.
De par em par abertas para poder saltar.


Joan Margarit, «Discurso del Método», em Cálculo de estructuras, tradução do catalão de Joan Margarit, Madrid: Visor Libros, Colecção Visor de Poesia, 2ª edição, 2008, p. 109.

Ruben A.



Quem nunca leu Caranguejo está, provavelmente, a perder um dos melhores romances da segunda metade do século XX português. Ruben A. é, sem dúvida, um desconhecido da maioria dos leitores. A Assírio & Alvim fez um esforço para o manter nas prateleiras das livrarias. E ele, de facto, lá continua. Para além de romances, Ruben A. também escreveu vários volumes de diários (Páginas) e uma autobiografia repartida, também, em vários volumes (O Mundo à Minha Procura, título bastante sugestivo). No que diz respeito ao género diarístico, só outros dois autores lhe fizeram frente: Vergílio Ferreira e Miguel Torga. Ruben A. é “dono” de uma voz bastante singular no panorama literário português. Em primeiro lugar, recusou rótulos. Em segundo lugar, rotulá-lo também não é tarefa fácil. Quem leu Páginas (nos seus vários volumes) verifica aquilo que estou a afirmar. A leitura de Ruben A. não é fácil. É preciso, diga-se, algum pulmão, fôlego: as frases às vezes longas, uma certa e laboriosa adjectivação, podem desencorajar o leitor mais desprevenido. Ler Ruben A. é como correr a maratona. É claro que eu nunca corri nenhuma. Mas já li Ruben A..

Versões: Luis Alberto de Cuenca

Vamos ser felizes


Vamos ser felizes por um instante, vida,
mesmo que não existam motivos para isso, já que o mundo
é um balão de gás letal, e a nossa história
um filme rasca de bruxas e vampiros.
Vamos ser felizes porque sim, para que depois escrevam
na nossa sepultura o seguinte epitáfio:
«Aqui jazem os ossos de uma mulher e de um homem
que, não se sabe como, conseguiram ser felizes
dez minutos seguidos.»


Luis Alberto de Cuenca, «Vamos a ser felices», De Amor y de Amargura, Edição, selecção e prólogo de Diego Valverde Villena, Sevilha: Renacimiento, 2003, p. 114.

Luís Miguel Nava



Devo muito à Biblioteca Municipal de Manteigas. Foi lá que li pela primeira vez alguns dos poetas que mais contribuíram para a minha formação ou deformação (ainda estou para descobrir). Foi lá, também, que li o meu primeiro Nava: Vulcão (Quetzal, 1994). Fiquei impressionado com a força das imagens. Para mim, na altura, as imagens eram tudo. Depois, passou-me. Mas, mesmo assim, ainda comprei a sua Poesia Completa, publicada na Dom Quixote. Ele, Nava, era para mim um total e completo estranho. Os pormenores da sua morte despertaram em mim um interesse demasiado mórbido para ainda hoje o conseguir explicar. A sua poesia ficou em mim como um marco de passagem, isto é, é datada a uma época da minha vida. No entanto, ainda hoje não consigo ficar indiferentes a versos como: «Atirávamos pedras/à água para o silêncio vir à tona.».

Al Berto



Não tive a sorte de o ver dançar no Incógnito. Tenho a sorte de ter a primeira edição de O Medo (Contexto, 1987). Ainda traz todas as dedicatórias, tanto as de abertura como as dos poemas. Parece que depois as retirou. Lá teria as suas razões. Lembro-me que foi companhia de um Verão. Andava com ele para todo o lado. Devia ter 15 ou 16 anos. Lembro-me que me impressionou muito a fotografia da capa. E os textos, principalmente os dos primeiros livros. Lembro-me que fiquei chocado com algumas passagens, aquelas que falavam em esperma seco nos lençóis – e coisas desse género –, nos engates de miúdos de rua. O meu primeiro livro tem como abertura uma passagem do Apocalipse segundo S. João e versos de Al Berto: «é no silêncio/que melhor ludibrio a morte». Penso que é assim; cito de memória. Al Berto é daqueles poetas que ficaram em mim. Nunca lhe li a prosa (Lunário, O Anjo Mudo…). Fiquei-me pela poesia. Sim, lembro-me que foi assim.

Um poema de Inês Dias


Pequenos crimes entre amigos

Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo - 
com cuidado, por favor - 
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.

em Piolho – Revista de Poesia, Porto: Edições Mortas/Black Son Editores, número 006, Setembro de 2011, p.3.

Poesia Reunida - João Luís Barreto Guimarães


João Luís Barreto Guimarães
Poesia Reunida
Quetzal
2011

Primeiro texto de "Espantalhos", de Oliverio Girondo


1. 

Não me importa uma porra que as mulheres tenham os seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Também é indiferente se amanhecem com um hálito afrodisíaco ou um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que arrecadaria o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas, isso sim – e nisso sou irredutível –, não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem tempo as que pretendam seduzir-me.
Foi esta – e não outra – a razão por que me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.
Que me importavam os seus lábios às prestações e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as extremidades de palmípede e os olhares de prognóstico reservado?
Maria Luísa era uma autêntica pluma!
Mal amanhecia, voava do quarto para a cozinha, da sala para a despensa. A voar preparava-me o banho, a camisa. A voar fazia as compras, terminava os seus afazeres.
Com que impaciência esperava que ela voltasse, voando, de algum passeio pelos arredores. Ali, bem longe, perdido entre as nuvens, um pontinho cor-de-rosa. «Maria Luísa! Maria Luísa!»… e em poucos segundos abraçava-me com as suas pernas de pluma, para me levar, voando, a qualquer parte.
Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras habitávamos uma nuvem, como dois anjos, e de repente, caindo em espiral, como uma folha seca, a aterragem forçada de um espasmo.
Que prazer ter uma mulher tão ligeira…, ainda que, de vez em quando, nos faça ver estrelas! Que volúpia passar os dias entre as nuvens… e as noites num só voo!
Depois de conhecer uma mulher etérea, pode achar-se algum atractivo numa mulher terrestre? Existirá alguma diferença entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do chão?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender o interesse de uma mulher pedestre, e por mais que tente, não consigo sequer imaginar que se possa fazer amor senão a voar.

tradução de Rui Manuel Amaral.
excerto retirado do Dias Felizes

Pensamento do dia


Virgin Prunes
Pagan Lovesong
... If I Die, I Die
1982

Zbigniew Herbert



Poeta que é poeta não acende um cigarro com isqueiro. Fósforos. Os fósforos dão outra solenidade ao acto. Zbigniew Herbert devia saber isso. Conheci-o através da leitura de Ulisses já não mora aqui de José Miguel Silva. Depois alguns poemas dele. Na altura ainda não existiam as traduções de Jorge Sousa Braga. Tive de o ler em inglês e, quase de seguida, comprei The Collected Poems: 1956-1998 (Ecco, 2007). Foi nesse livro que encontrei um verso de um outro poeta polaco, Juliusz Slowacki: No time to grieve for roses, when the forests are burning. Li este verso durante uma tarde em que deixou de haver luz em Manteigas e na casa de um milhão de clientes da EDP. Fiquei incrédulo a olhar para a força daquele verso, para a sua intensa luminosidade. O mesmo acontece com a poesia de Zbigniew Herbert. Poesia de uma intensa luminosidade, apesar das sombras que povoam muitos dos seus poemas. Mas, como todos sabemos, a luz surge sempre mais intensa quando há sombras por perto.

Versões: Luis Alberto de Cuenca

Vozes


Porque todas as caras que amei, todos os rostos
que ocultei entre os meus braços ou admirei entre os lençóis
converteram-se em máscaras que interrompem o meu sono,
dizendo-me com vozes terríveis e góticas:
«Somos nós. Vem. As mesmas que te amaram.
Vem ao nada. Vem ao que resta.»


Luis Alberto de Cuenca, «Voces», De Amor y de Amargura, Edição, selecção e prólogo de Diego Valverde Villena, Sevilha: Renacimiento, 2003, p. 106.

Espantalhos - Oliverio Girondo


Oliverio Girondo
Espantalhos
tradução de Rui Manuel Amaral
Língua Morta
2011

Michaux


Já aqui o disse: a leitura de Michaux depois dos trinta marcou-me mais do que a leitura de Rimbaud aos dezoito. Quem nunca leu este autor belga devia, desde já, procurá-lo por aí. Equador é um daqueles livros que deixam qualquer um banzado. A mim, pelo menos, deixou. E nem quero aqui pensar nesse livro fantástico que é As Minhas Propriedades: «É raro encontrar alguém sem que eu lhes bata. Há quem prefira o monólogo interior. Eu não. Gosto mais de bater.». Michaux é um poeta que nos obriga a viajar. As suas viagens – principalmente as interiores – lutam contra a sombra; procuram o assombro.

Kafka



Podia dizer muita coisa sobre Kafka. A primeira é que tive um gato com o mesmo nome. Comprei todos os seus livros na papelaria do Senhor Zé da Alice, em Manteigas. Todos da Europa-América, com uma letra muito miudinha e espaço entre linha quase inexistente. Foi o primeiro autor por quem me apaixonei realmente. Quando entre numa repartição pública lembro-me sempre da descrição que ele fez de um tribunal no livro O Processo. A escola, às vezes, não é diferente.

George Orwell


Ouvi o seu nome pela primeira vez no meu 11º ano. Uma colega tinha acabado de ler O Triunfo dos Porcos (antes era assim que se chamava, agora – na tradução publicada pela Antígona – é A Quinta dos Animais [quanto a mim uma tradução demasiado literal do título inglês, mas isso é só uma opinião minha]). Eu só mais tarde é que o li. Comecei por 1984, como não podia deixar de ser. Depois foi a vez de Burmese Days, Animal Farm, A Clergyman's Daughter, Homenagem à Catalunha, O Caminho para Wigan Pier, Por que escrevo e outros ensaios. Tenho lá em casa, à espera, mais um livro de ensaios e o resto dos seus romances. Orwell é, para mim, uma referência. É claro que não concordo com tudo aquilo que ele defendeu, pois se tal acontecesse a leitura de Orwell não tinha servido de/para nada.

Tomas Tranströmer



É o novo Nobel da Literatura. Podem encontrar poemas dele na antologia 21 Poetas Suecos, com tradução de Vasco Graça Moura. Para quem, como eu, não tem a dita antologia, pode ler aqui poemas traduzidos por João Luís Barreto Guimarães. Há muito que ouvia falar deste poeta. Nunca li nada dele. A curiosidade, sinceramente, também não era muita. Tenho de colmatar a falha (se é que pode ser chamada assim: falha). O curioso é que não há um único livro dele traduzido em Portugal. Sendo poeta e, como sabemos, a poesia não vende, como irão descalçar a bota as editoras portuguesas? A justificação será tão e somente o prémio hoje atribuído?

Pensamento do dia


The Cure
So What
Three Imaginary Boys
1979

Patrick Kavanagh


Não conhecia este poeta irlandês. Dois poemas seus podem ser lidos aqui e aqui.

Versões: John Berryman

197

(Vi no meu sonho
as grandes e misteriosas cidades, Macchu Picchu, Cambridge Mass., Angkor
Penso se está a chover em Macchu Picchu ou
Cambridge Mass., como aqui,
os terraços vivos com a magia da chuva
os mortos todos nos seus lugares, loucos
& a tentar fazer frente ao medo,

Vi tudo, os terraços povoados
como penso que um dia estiveram, como nós estamos,
os terraços povoados,
sinuosos escravos a entrar & sair, sem pagar renda,
brutais uns com os outros,
vi tudo.

O basebol, & as putas das notícias,
convergiram sobre o pobre Henry, eh?
Foi o que aconteceu, irmão.
Então como é que o Henry se tornou útil?
à parte, por assim dizer, destes dispositivos nucleares H & A.
Henry escondeu-se.


John Berryman, «197», em The Dream Songs, New York: Farrar, Strauss and Giroux, 2007, p.216.

Paul Ricoeur

Poderá surpreender que falemos de justiça no plano ético, no qual nos mantemos ainda, e não estritamente no plano moral, ou até mesmo legal, que abordaremos de imediato. Uma razão legitima esta inscrição do justo no desígnio da vida boa e em relação com a amizade pelo outro. Primeiro, a origem quase imemorial da ideia de justiça, a sua emergência fora da moldura mítica na tragédia grega, a perpetuação das suas conotações religiosas até mesmo nas sociedades secularizadas, atestam que o sentido da justiça não se esgota na construção dos sistemas jurídicos que ele suscita. Depois, o sentido da justiça é solidário do [sentido] de injusto, o qual aliás muitas vezes o precede. ´E sobretudo através do modo do queixume que penetramos no campo do injusto e do justo: “´E injusto!” – eis a primeira exclamação. Não há que espantar, desde logo, que se encontre um tratado sobre a justiça nas Éticas de Aristóteles, que nisto segue o exemplo de Platão. O seu problema é o de formar uma ideia de igualdade proporcional que preserve as inevitáveis desigualdades da sociedade no quadro da ética: “a cada qual na proporção do seu contributo, do seu mérito”, tal constitui a fórmula da justiça distributiva, definida como igualdade proporcional. ´E certamente inevitável que a ideia de justiça enverede pelas sendas do formalismo pelo qual já a seguir caracterizaremos a moral. Mas seria bom demorarmo-nos nesta etapa inicial onde a justiça é ainda uma virtude na trajectória de uma vida boa e onde o sentido do injusto precede, pela sua lucidez, os argumentos dos juristas e dos políticos.

em Ética e Moral, tradução de António Campelo Amaral, Covilhã: LusoSofia, colecção Textos Clássicos LusoSofia, Universidade da Beira Interior, 2008, pp.8-9.

Uma Vasta e Deserta Paisagem - Kjell Askildsen

Kjell Askildsen
Uma Vasta e Deserta Paisagem
tradução de Mário Semião
Ahab
2011

Um poema de José Agostinho Baptista

Águas mil

Regressaram as chuvas.
Outra foi a tua água e mais pura.
A minha água afasta a alegria e os pássaros.
A minha água não apaga os incêndios,
nem a loucura.


em Agora e na hora da nossa morte, Lisboa: Assírio & Alvim, 1ª edição, colecção Peninsulares Literatura, nº. 53, 1998, p. 28.